Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 3

Capítulo 14: Sua Antiga Majestade

A simples verdade era que raramente se ouvia algo bom a respeito do Imperador anterior. Um governante tolo, diziam; um príncipe patético, fantoche da Imperatriz Reinante. Sim, chamavam-no de muitas coisas, mas havia um nome acima de todos pelo qual ele era conhecido no palácio interno: pedófilo. 

Era o único termo apropriado, considerando que a Imperatriz Viúva e o Imperador atual tinham uma diferença de idade de apenas uns escassos dez anos. Era verdade que, nesse mundo, mulheres muito jovens às vezes eram dadas em casamento. Às vezes por razões políticas, outras para quitar dívidas. Mas esse é o palácio interno, onde não faltam mulheres em idade apropriada para casar, mas ainda assim o antigo Imperador parecia ter concentrado sua atenção quase exclusivamente no pequeno grupo de meninas mais novas. 

Isso provava que ele era um pedófilo; esse fato era inegável, independentemente do que mais se pensasse a seu respeito. A Imperatriz Viúva falava de uma maldição, mas Maomao se perguntava se realmente lhe fazia bem pensar daquela forma. No ventre de Sua Majestade havia uma cicatriz deixada pelo parto do Imperador atual. O canal de parto de seu corpo ainda em desenvolvimento fora pequeno demais, não restando alternativa senão cortar para retirar a criança. E aquele que tinha sido feito eunuco especificamente para auxiliar nesse procedimento havia sido o infeliz velho de Maomao.

Talvez o sacrifício tivesse valido a pena, pois o menino que viria a se tornar o monarca reinante cresceu cheio de vigor e saúde, e, apesar da cirurgia, a Imperatriz Viúva ainda deu à luz outro filho, o irmão mais novo de Sua Majestade.

Ainda assim, naquele momento, Maomao teve um pensamento. Um pensamento terrivelmente rude, que provavelmente lhe renderia um tapa no rosto se fosse dito em voz alta. A saber: será que o irmão imperial mais novo era mesmo filho do Imperador anterior? 

O garoto mais novo, pelo que Maomao entendia, era um ano mais velho do que ela. Isso significava que a Imperatriz Viúva teria quase trinta anos quando deu à luz a ele, definitivamente não era mais uma menina. Maomao preferiu não ir mais fundo nessa questão; sentia que saber qualquer coisa a respeito só tornaria sua vida ali mais difícil.

— Gostaria de conversar em outro lugar, se possível — disse a Imperatriz Viúva, e assim Maomao agora se encontrava fora do palácio interno. Mas ainda estavam dentro da corte interna, que era basicamente a residência do Imperador, de seus filhos e da rainha. No momento, havia concubinas de alto escalão no palácio interno, mas Sua Majestade não possuía uma esposa oficial.

Naturalmente, Maomao não poderia estar ali sozinha. Talvez Sua Majestade tivesse planejado tudo desde o início, pois havia organizado uma festa do chá que reuniria as quatro concubinas de alto escalão. Era um espetáculo e tanto. Maomao chegou a avistar a concubina Lishu por ali, mas o nervosismo parecia estar ganhando dela, e ela andava de um lado para o outro como uma boneca de corda. Maomao juntou as mãos mentalmente e rezou pela boa sorte da concubina.

— O que exatamente você acha que está acontecendo aqui? — perguntou Yinghua com um suspiro. Ela usava um traje um pouco mais elegante que o habitual, mas sem exageros. Maomao fez o mesmo. Ambas estavam ali como damas de companhia da concubina Gyokuyou, assim como Hongniang, Guiyuan e Ailan. Gyokuyou deixou seus eunucos guarda-costas mais confiáveis cuidando do Pavilhão Jade.

— Boa pergunta...

Cada concubina de alto escalão recebeu um aposento. Embora não tivessem ido muito longe, uma reunião para chá era sempre um palco de disputas por prestígio, e Gyokuyou vinha acompanhada de três eunucos, todos ocupados carregando bagagens. Aquilo parecia suficiente para ela, mas Lihua trouxe cinco eunucos, e Loulan, nada menos que oito, um número impressionante. Por sua vez, Lishu estava acompanhada por apenas quatro carregadores, situação que suas damas de companhia pareciam considerar profundamente desagradável.

O quarto destinado a Gyokuyou era agradável, aberto à brisa fresca, e abastecido com sucos e frutas suculentas para a sobremesa. Assim que Maomao deu uma mordida e confirmou que a comida estava segura, todos começaram a comer. Ela mal acreditava que a Imperatriz Viúva faria algo tão absurdo quanto envenenar os lanches, mas era sua função verificar. Além disso, seria indelicado não comer o que lhes fora preparado, então Maomao comeu um pouco mais por dever. A comida estava deliciosa, como era de se esperar da anfitriã. Uvas suculentas estalavam agradavelmente na boca; talvez tivessem sido resfriadas com água de poço.

Como ainda havia tempo antes do início da festa do chá, a concubina Gyokuyou instruiu suas damas a relaxarem. Quanto a ela mesma, aproveitou para cochilar um pouco. O cansaço era comum no início da gravidez, mas no caso de Gyokuyou parecia durar mais do que o normal. Ela dormia sentada para não bagunçar o penteado, com uma almofada arredondada no assento para maior conforto e um travesseiro de algodão apoiando o pescoço. Hongniang mantinha água à mão para despertá-la e utensílios para retocar sua maquiagem. Para alívio de todas, a princesa dormia profundamente junto à mãe.

A pergunta de Yinghua parecia se referir ao quão estranho era a Imperatriz Viúva ter convidado Gyokuyou para uma reunião sabendo perfeitamente que ela estava grávida.

— Eu sei que ela provavelmente vai tentar ser cuidadosa, mas mesmo assim...

A gravidez de Gyokuyou já era um segredo aberto, mas ter de se sentar ali e tomar chá com as outras poderia gerar perguntas desconfortáveis.

A concubina Lihua provavelmente não será um problema, e acho que também não precisamos nos preocupar com a Concubina Lishu, pensou Maomao.

Lihua e Gyokuyou haviam evitado antagonizar uma à outra basicamente evitando qualquer contato. Lihua era orgulhosa e digna demais para se rebaixar a humilhar alguém, e Gyokuyou era sábia o suficiente para saber que provocar Lihua, cujo sangue era mais nobre que o seu, não era uma boa ideia. Além disso, Maomao suspeitava fortemente que a própria Lihua também estivesse grávida. A concubina não iria querer falar demais sobre a gravidez de Gyokuyou para não chamar atenção para a sua própria.

Quanto a Lishu, ela mal conseguia emitir um som mesmo diante de Gyokuyou; dificilmente causaria problemas agora. Se alguém de seu grupo fosse criar confusão, seriam suas damas de companhia, mas apenas a chefe das damas de companhia de cada concubina poderia acompanhá-las, e a de Lishu, sua antiga provadora de alimentos, promovida recentemente, provavelmente manteria a boca fechada.

Isso deixava apenas Loulan, ainda uma incógnita, e a própria Imperatriz Viúva, cujas motivações para convocar aquele encontro permaneciam misteriosas. Não circulavam rumores particularmente interessantes sobre Loulan, além dos comentários sobre o quão chamativas eram suas roupas. Até Lishu tinha ao menos uma história famosa a seu respeito: dizia-se que certa vez ela desmaiou após uma hemorragia nasal espontânea enquanto lia um livro. Ao ouvir isso, Maomao apenas esperava que ninguém fizesse perguntas demais sobre que tipo de livro era.

— Maomao — chamou Hongniang.

— Sim, senhora?

— Não se preocupe em provar os lanches da reunião de hoje. Eu cuidarei disso. Você entende o que estou dizendo, não é?

— Sim, senhora.

Em outras palavras, era imperativo não dar a entender que sequer cogitam a possibilidade de haver veneno na comida servida pela antiga Imperatriz. Levar uma provadora oficial seria passar a mensagem errada. Contudo, isso deixava a questão muito real sobre quem recairia a responsabilidade caso realmente houvesse algo na comida; como compromisso, as chefes das damas recebem exatamente os mesmos alimentos que as concubinas. Não poderia ser mais irritante ou indireto, mesmo que tivessem tentado.

— Enquanto isso, a própria Imperatriz Viúva quer “emprestado” você para outra coisa. — Hongniang olhava diretamente para Maomao, com uma leve expressão de desaprovação no rosto. — Elas querem sua ajuda com algum problema de novo?

Maomao não disse nada por um momento, sem saber se podia ou devia responder, mas seu silêncio pareceu ser resposta suficiente para Hongniang.

— Não importa. Imagino que você não poderia me contar de qualquer forma. No entanto… — Hongniang avançou até Maomao, que recuou involuntariamente até ficar encurralada contra a parede.

— Por gentileza, não faça nada que traia a Lady Gyokuyou.

— Eu jamais sonharia em fazer de você uma inimiga, Lady Hongniang...

— Isso basta — disse ela, afastando-se novamente, com um sorriso incomumente gentil no rosto. — Quero muito manter boas relações com você, Maomao.

— Sim, claro.

Hongniang era, de fato, mais do que adequada para servir à concubina Gyokuyou, pensou Maomao. As outras três garotas podiam ser um pouco volúveis, mas enquanto a chefe das damas estivesse ali, tudo ficaria bem. Ela acabou de ver isso com os próprios olhos.

— Se puder me acompanhar, por favor. 

A mulher que apareceu para chamar Maomao era a mesma dama de companhia de meia-idade que estava com a Imperatriz Viúva durante a visita ao Pavilhão Jade. Maomao a seguiu por uma passagem coberta, até que seis pavilhões surgiram à vista. Alas distintas se espalhavam a partir deles, e a posição das janelas e pilares mostrava que haviam sido cuidadosamente delimitadas.

— Este era o palácio interno antes do que chamamos hoje de palácio interno ser construído — disse a mulher de meia-idade, como se soubesse o que Maomao estava pensando.

— Entendo, senhora. — Então os seis pavilhões deviam ter sido os aposentos das concubinas, enquanto as alas eram onde viviam as demais mulheres do palácio.

Depois disso, caminharam em silêncio, passando entre os pavilhões até uma ala central. A área parecia desocupada, mas estava limpa. Maomao passou distraidamente um dedo por um parapeito de janela e não encontrou um único grão de poeira.

O prédio dava para o pátio central. O cascalho do jardim seco mostrava sinais de ter sido rastelado recentemente. Maomao achou ter visto a dama de companhia lançar-lhe um olhar venenoso.

— É aqui.

Elas chegaram a um cômodo um pouco maior que os demais, no centro da construção. A dama de companhia abriu a porta lentamente. 

No instante em que o fez, um odor peculiar alcançou o nariz de Maomao. Ela franziu o cenho por instinto e espiou o interior do aposento. Havia algo estranho no ar daquele espaço organizado. A colcha da cama ainda estava puxada para trás, quase escorregando. Sobre a mesa havia um conjunto de pincéis, embora alguns tivessem caído no chão. E no chão, havia uma mancha estranha. Em seguida, Maomao olhou para a parede. Ela parecia ligeiramente estufada, como se tivesse sido remendada e coberta com papel de parede.

A dama de companhia não chegou sequer a atravessar a porta. Dar um único passo dentro do quarto provavelmente levantaria poeira por toda parte. O exterior estava tão limpo, e ainda assim o interior era daquele jeito. Talvez ninguém tivesse entrado para não perturbar os vestígios de quem esteve ali antes.

— O que é isso? — perguntou Maomao.

— No tempo do penúltimo Imperador, uma mulher que ascendeu de simples serva do palácio a concubina de baixo escalão viveu aqui — respondeu a outra mulher, mantendo o olhar frio e o tom neutro. — Este foi o aposento da mulher conhecida como a Imperatriz regente, o quarto onde Sua Antiga Majestade foi criada… e onde morreu.

De repente, Maomao entendeu o desprezo da mulher por aquele lugar.

Depois disso, a dama de companhia levou Maomao a outro quarto, diferente, mas igualmente vazio, cuja janela era possível observar a Imperatriz Viúva em sua festa do chá com as outras damas. Se algo acontecesse, poderiam correr até ela imediatamente.

A mulher começou a explicar a Maomao que, no crepúsculo da vida do antigo Imperador, ele e a Imperatriz Regente passaram muito tempo reclusos naquele quarto. Talvez, especulava ela, fosse a fraqueza de caráter do Imperador que o fazia se apegar àquele lugar como às próprias lembranças.

Após a morte da Imperatriz Regente, o antigo Imperador logo também faleceu, quase como se estivesse a seguindo. E tudo naquele quarto…

A Imperatriz Regente parecia cheia de vida até o fim, mas podia-se dizer que morreu velha e após uma longa existência. O antigo Imperador não atingiu exatamente a mesma idade, mas viveu bastante em comparação com muitas pessoas. Entre seus súditos, especialmente os camponeses, qualquer um que chegasse aos sessenta anos já era considerado um ancião venerável.

O que, em tudo isso, perguntou-se Maomao, poderia ser considerado uma maldição?

— Eu disse a ela que não havia maldição — afirmou seriamente a dama de companhia de meia-idade. A Imperatriz Viúva, no entanto, apenas balançou a cabeça e repetiu que devia estar amaldiçoada. Todas as noites, desejava simplesmente desaparecer.

— Ela tem alguma prova concreta de que está amaldiçoada? — perguntou Maomao.

A expressão da outra mulher escureceu por um instante. Aparentemente, havia algo que se encaixava nessa descrição. — Depois que sua alma partiu, Sua Antiga Majestade permaneceu em seu mausoléu por um ano inteiro.

Não era algo incomum que se cometesse um erro ao declarar uma morte, e que alguém “voltasse à vida”. Maomao pensou na mulher que escapou de todos eles com o estramônio. Aquilo poderia ser um dos motivos da longa espera, mas, mais fundamentalmente, não houve tempo suficiente para concluir o local de sepultamento do antigo Imperador enquanto ele ainda vivia. Manter o corpo por um ano lhes daria tempo de sobra para finalizar a obra.

— No ano seguinte, Sua Majestade Atual e Lady Anshi foram buscar o corpo para o enterro, mas…

Descobriram que o cadáver permanecia intacto, sem sinais de insetos, não estava ressecado e, de fato, parecia quase exatamente como no dia da morte do Imperador.

Maomao arqueou uma sobrancelha. — Então ele não se decompôs.

— Exatamente. O mausoléu se mantém fresco no verão, mas mesmo levando isso em conta…

Teria sido uma coisa se tivessem colocado o monarca morto no gelo, mas, em temperatura ambiente, insetos inevitavelmente se reuniriam, e a carne iria apodrecer e ressecar. Ainda assim, nada disso aconteceu com o corpo do antigo Imperador.

— Sua Majestade pareceu bastante perplexo. Ele chegou até a se perguntar se talvez o corpo tivesse sido substituído por uma boneca muito bem-feita, mas, na verdade, era sem dúvida Sua Antiga Majestade. Quando foram buscar a ex Imperatriz Viúva, encontraram-na em um estado indescritível, mas isso é normal.

Entendo... No fim das contas, tudo o que havia acontecido era que o corpo não se decompôs, mas isso certamente poderia parecer muito estranho. Todas as pessoas retornam à terra, sejam plebeus ou nobres. Maomao acreditava firmemente que nascer em um status social diferente não significava ser feito de outra matéria.

— Aquele prédio está programado para ser demolido em breve — disse a mulher de meia-idade. — Gostaríamos que você investigasse o caso antes que isso aconteça.

Já fazia cerca de seis anos desde a morte do antigo Imperador. Seu corpo estava enterrado em algum lugar distante, e aquele edifício podia ser considerado o último local com alguma ligação significativa a ele. Se a questão não fosse resolvida antes da demolição, a Imperatriz Viúva ficaria se perguntando sobre isso pelo resto da vida.

Para dizer a verdade, Maomao já tinha uma suspeita do que poderia estar acontecendo. 

— Senhora, seria possível que eu entrasse naquele quarto?

— Bem, eu... — Não parecia ser uma decisão que a mulher tivesse autoridade para tomar sozinha, mas ela disse: — Entendo. Vou perguntar sobre isso.

Ela não desviou os olhos da festa do chá enquanto falava.

Naquela noite, Maomao não retornou ao Pavilhão Jade e, pela primeira vez em bastante tempo, ficou na residência de Jinshi. Aquilo a colocaria na melhor posição para voltar ao quarto empoeirado no dia seguinte. Seria necessária a permissão do Imperador, mas, se a Imperatriz Viúva pedisse, havia grandes chances dele concordar. Jinshi facilitou a conversa, e logo tudo começou a se encaminhar bem. Maomao se perguntou se Suiren havia participado das discussões.

Sendo bem honesta, Maomao tinha medo de como a chefe das damas de companhia reagiria quando ela finalmente retornasse. Acho que ela tem sido tolerante comigo até agora. Como chefe das damas de companhia da Concubina Gyokuyou, o dever primordial de Hongniang era proteger a concubina. Ela não era como Maomao, que, em certo nível, servia tanto Gyokuyou quanto Jinshi. E, sem dúvida, não ficava satisfeita em ver Maomao correndo constantemente para o Pavilhão Cristal.

Nem mesmo Maomao tinha certeza absoluta de qual era sua posição. Pelo menos, não pretendia de forma alguma prejudicar a Concubina Gyokuyou. Mas isso não significava que estivesse disposta a ajudar a derrubar outra concubina.

Outra pessoa ocupava o quarto que Maomao costumava usar, então, naquele dia, ela acabou ficando nos aposentos de Suiren. Ela tinha um pouco de medo da velha senhora, mas repetia para si mesma que ela não lhe faria mal algum.

— Aqui, troque de roupa.

Suiren lhe entregou um robe cru, e Maomao obedeceu, vestindo-o. Os aposentos de Suiren consistiam em dois cômodos adjacentes em um canto da residência de Jinshi. Um leito havia sido trazido para o local, e havia móveis elegantes por toda parte. No geral, era um nível acima dos quartos das damas de companhia no Pavilhão Jade.

— Eu ficaria perfeitamente satisfeita dormindo em um sofá ou algo assim.

— Mas aí eu passaria a noite inteira preocupada com você!

Maomao não teve o que responder. Suiren lia um livro à luz de uma vela intensamente acesa (que luxo!). Ler sob uma luz trêmula faria mal aos olhos, mas ela parecia se divertir tanto ao virar as páginas que Maomao achou que seria até cruel interrompê-la.

— Você pode ler algo também, se quiser, Maomao. É só escolher alguma coisa no quarto ao lado.

— Obrigada, senhora.

Livros eram preciosos, então ela devia aproveitar a oportunidade. Entrou no outro cômodo, esperando encontrar algo que lhe interessasse. Se o quarto das camas tinha uma harmonia graciosa, aquele estava repleto de todo tipo de objeto, embora tudo estivesse cuidadosamente organizado. A estante ficava em um canto. Maomao começou a folhear os livros, mantendo a luz a uma distância segura para evitar que as páginas pegassem fogo. Então fechou um deles com um estalo. Digamos apenas que, não importava como analisasse, parecia que ela e Suiren tinham gostos bem diferentes.

Olha só essas coisas, pensou Maomao. Ela deve ser bem jovem de espírito...

Estava prestes a voltar para o outro quarto quando uma caixinha chamou sua atenção. Parecia bastante antiga, mas fios de ouro fino estavam bordados ao redor da borda, e ela havia sido cuidadosamente pintada com suco de caqui.

— Interessada nisso?

Maomao se virou ao ouvir a voz de Suiren.

— Está tudo bem, senhora. Eu não estava planejando roubar nada.

— Eu sei — disse ela, rindo enquanto se aproximava e pegava a caixinha antiga. Levou-a para o outro quarto, colocou-a sobre a mesa e abriu a tampa. Dentro havia uma coleção de brinquedos infantis. — Estes eram os favoritos do Mestre Jinshi. Ele tinha muitos brinquedos, mas só brincava com aqueles de que realmente gostava.

Ela pegou uma boneca de madeira entalhada com nostalgia. Era cuidadosamente esculpida, com partes gastas pelo uso. Quanto devia ter sido manuseada para ficar daquele jeito, quando as mãos que a seguravam jamais haviam conhecido sujeira.

O sorriso de Suiren era afetuoso, mas também triste.

— O que você acha do Mestre Jinshi, Maomao? — perguntou ela.

Isso pegou Maomao de surpresa, mas apenas por um instante. A resposta veio rápido.

— Acho que ele é um excelente empregador.

No sentido de que me dá medicamentos raros.

— Não há nada além desse sentimento?

Maomao balançou a cabeça, constrangida. Suiren colocou a boneca de volta na caixa, aparentemente aceitando a resposta.

— Sabe, esse brinquedo... Houve uma época em que o Mestre Jinshi só brincava com este, e com mais nenhum outro. Então nós o escondemos discretamente, mas isso só o levou a um mar de lágrimas. Ele ficou inconsolável. Gaoshun se esgotou tentando encontrar algo para substituí-lo!

— Por que sentiram a necessidade de tirá-lo dele? — perguntou Maomao.

Os olhos de Suiren baixaram, e ela sorriu novamente, desta vez com uma tristeza genuína.

— Porque quando ele se fixa em algo, aquilo se torna a única coisa que ele enxerga. Mas ele não nasceu em uma posição em que isso pudesse ser permitido. Precisávamos forçá-lo a crescer, mesmo que fosse doloroso. Era isso que a honrada mãe do Mestre Jinshi desejava.

Maomao não respondeu de imediato, mas sentiu que um dos mistérios que a incomodavam havia sido resolvido. O lado estranhamente infantil que Jinshi vinha lhe mostrando fazia parte de quem ele realmente era. Maomao já ouviu dizer que crescer em um ambiente opressivo podia afetar o espírito de uma pessoa. Talvez fosse por isso que o coração de Jinshi permanecia, em certo nível, o de um menino. O mais estranho era que, apesar de tudo isso, todos ao redor dele o tratavam sempre e apenas como o belo eunuco.

Maomao observou os itens dentro da caixa. Entre eles havia um papel dobrado; ela o pegou e abriu. Parecia ser um desenho de uma pessoa, mas Suiren o arrancou de suas mãos.

— Ah, isso... — disse Suiren. — Então foi parar aí. Recebi ordens bem claras para me livrar disso. — Ela parecia falar consigo mesma, e emoções conflitantes atravessaram seu rosto. Por fim, guardou o papel em outro lugar.

O que será que foi isso? Maomao pensou. Recompôs-se e voltou a olhar para a caixa de brinquedos. Um dos itens era primitivo demais para ser um brinquedo. Parecia uma pedra, mas a superfície era polida; brilhava com um tom dourado.

— Posso tocar nisso? — perguntou Maomao.

— Fique à vontade.

— A propósito, a senhora não teria um papel ou um lenço, teria?

— Isso serve?

Maomao pegou o quadrado de papel que Suiren lhe ofereceu, segurou a pedra com ele e fechou um olho para examiná-la melhor.

— Fico pensando onde ele conseguiu isso — disse Suiren. — Ele nunca teve o hábito de colecionar pedras.

Ela sorria novamente, mas a expressão de Maomao se tornou mais rígida.

— A senhora tirou isso dele imediatamente?

— Sim. Uma pedra de sabe-se lá onde não pode ser muito limpa.

— Está certa. E fez o correto.

Maomao devolveu a pedra à caixa, ainda embrulhada no papel. Respirou fundo e então disse:

— É tóxica.

— Meu Deus! — exclamou Suiren, visivelmente abalada. Seu rosto empalideceu e seus olhos se arregalaram.

— Também estou muito curiosa para saber o que está acontecendo. Como ele conseguiu isso. — Enquanto falava, porém, uma hipótese começava a se formar na mente de Maomao. Mas ela queria mais provas antes de dizer qualquer coisa em voz alta.

— Quando era muito pequeno, o Mestre Jinshi chegou a entrar na corte interna? — perguntou.

— Sim, de vez em quando...

A resposta soou ambígua para Maomao, mas ela assentiu.

— O que foi, Maomao? O que está acontecendo? — perguntou Suiren.

— Receio não poder dizer nada ainda. Amanhã vamos chegar ao fundo disso. Apenas espere até lá.

Suiren pareceu prestes a argumentar, mas acabou aceitando em silêncio. Sem dizer mais nada, deitou-se e apagou a vela. Maomao fez o mesmo em seu leito e extinguiu a própria luz.

Ficou decidido que, no dia seguinte, Maomao poderia entrar no quarto na companhia de Jinshi e da Imperatriz Viúva. Francamente, ela não estava ansiosa para transformar aquilo em um grande evento, desconfortável com a possibilidade de suas especulações estarem erradas, mas tampouco estava em posição de recusar.

Quando chegou o momento, Maomao baixou a cabeça respeitosamente e entrou no quarto empoeirado. Um pó branco se ergueu a cada passo, e um odor característico alcançou seu nariz. Parte dele era mofo, mas havia outra coisa ali.

Os pincéis no chão pareciam estranhos: todas as pontas estavam achatadas e endurecidas.

Isso aponta para algo bem óbvio, pensou Maomao, antes de dizer:

— Sua Antiga Majestade tinha interesse em pintura?

Os outros se entreolharam, visivelmente confusos. A Imperatriz Viúva, no entanto, estreitou os olhos e disse:

— Ele me pintou. Apenas uma vez. — Ela levou a mão ao peito, como se remexesse em lembranças antigas.

— Disse que era um segredo a ser mantido apenas neste quarto. Que, se os outros soubessem, tudo lhe seria tirado.

Todos os demais ficaram atônitos. Jinshi, em especial, parecia acreditar que mantinha sua expressão habitual, mas as pontas de seus dedos tremiam, um tique que Maomao notou recentemente.

Maomao não sabia quase nada sobre o homem que havia sido ridicularizado como um idiota, descartado como o fantoche da Imperatriz Regente. Nem desejava saber. Mas, para descobrir a verdade por trás da “maldição”, como lhe fora solicitado pela Imperatriz Viúva, teria de fazê-lo.

— Então era aqui que ele pintava? — perguntou Maomao. Ninguém respondeu. Parecia ser a primeira vez que a maioria deles tomava conhecimento do hobby secreto do antigo Imperador.

— Não tenho certeza, mas posso dizer que, depois que ele começou a vir a este quarto, sempre era acompanhado pelo mesmo homem.

A resposta veio da dama de companhia que servia à Imperatriz Viúva.

— Seria possível chamá-lo? Agora mesmo? — pediu Maomao.

— Creio que ele ainda trabalhe aqui... — disse a mulher. Gaoshun pediu-lhe os detalhes e enviou um subordinado para encontrar o homem.

Enquanto isso, Maomao perguntou:

— Posso tocar nesses pincéis?

— Fique à vontade — respondeu a Imperatriz Viúva.

Maomao pegou um deles e tocou a ponta. As cerdas estavam mais duras do que ela esperava. Aproximou-o do nariz e sentiu o mesmo odor característico.

Ela notou pequenos fragmentos semi translúcidos no chão, como doces endurecidos. Ela os observou atentamente. Então percebeu: havia também um rastro de descolorações no piso. Parecia que alguém tentou desesperadamente limpá-las. Ela as examinou com cuidado e começou a achar que havia mais manchas próximas à parede.

Ela olhou para a parede e estendeu a mão, tocando-a.

Hã?!

Ela se surpreendeu ao descobrir que a parede era mais maleável do que esperava. Havia algum tipo de papel grosso colado ali? Ela foi generosamente coberta com tinta, talvez na tentativa de reforçar a superfície. A razão de parecer tão simples era que o papel de parede, frequentemente usado para ajudar a manter a temperatura do ambiente, mas também com forte função decorativa, não tinha padrão algum e começou a se enrolar com o tempo.

Maomao encarou a parede. O papel de parede.

Será que…

Ela começava a achar que sabia qual era, de fato, a maldição do antigo Imperador. Na verdade, sentia-se bastante segura disso, mas também tinha a sensação incômoda de que essa conclusão a conduzia a outro fato que ela teria preferido ignorar.

— Eu o trouxe, senhores e senhoras — disse o subordinado de Gaoshun, ao conduzir para dentro do aposento um homem idoso e curvado, tão velho que parecia já ter um pé na cova. Era estranho pensar que, muitos anos antes, alguém como ele tivesse sido incumbido de servir no aposento de uma das figuras mais nobres deste palácio.

— Você é… — A Imperatriz Viúva fitou o velho, que semicerrava os olhos enquanto se curvava lentamente.

— Há algo que gostaríamos de lhe perguntar — começou Maomao, mas a Imperatriz Viúva balançou a cabeça com suavidade.

— Este homem foi, no passado, um escravo do Estado — disse ela, e Maomao entendeu de imediato.

Os escravos do Estado eram, como o próprio nome indicava, servos pertencentes ao governo, dentro de um sistema que existiu naquele país até poucos anos antes. Com trabalho suficiente, podiam conquistar a liberdade, de modo que, em certo nível, o sistema se aproximava mais da servidão contratual das cortesãs do que da ideia popular de escravidão em si. Ainda assim, muitos dos que viveram sob esse regime sofreram tratamentos terríveis.

— Ele não consegue falar — acrescentou Sua Majestade.

Às vezes, pessoas incapazes de falar eram escolhidas como criadas, especialmente por nobres que viviam constantemente sob o olhar atento dos outros.

— Há algo que gostaríamos de lhe perguntar — repetiu Maomao. O velho estava curvado, mas encarava Maomao diretamente nos olhos. — Quando o senhor limpava este aposento, havia tintas por aqui?

O homem não reagiu à pergunta, limitando-se a continuar encarando Maomao.

— Achamos que algo aconteceu aqui.

Ainda assim, nenhuma reação. Talvez estivesse demonstrando que não tinha interesse nas divagações de uma garotinha.

Não, pensou Maomao. Não é isso. Ela achava que ele estava escondendo algo. Percebeu o leve tremor de seus dedos enrugados, um arrepio muito semelhante ao que Jinshi apresentou antes. Não deixou passar o momento em que seus olhos se desviaram, ainda que por um instante, em direção à parede. Há algo ali na parede?

Maomao se aproximou da parede mais uma vez. Passou a mão por sua superfície e, ao fazê-lo, notou algo.

— Posso retirar este papel de parede? — perguntou. Foi o velho quem reagiu; deu um passo à frente, claramente contra a própria vontade. — Posso?

— Se acredita que isso a ajudará a compreender, então vá em frente — disse a Imperatriz Viúva. De todo modo, o lugar logo seria demolido.

O homem lançou sobre Maomao um olhar vazio, como se implorasse para que ela parasse.

Receio que não. Ela já havia preparado água e um pincel, e começou a umedecer o papel de parede. Segurou uma das pontas que já estava descascando e começou a puxá-la devagar. À medida que avançava, o choque se estampava nos rostos ao redor.

Isso explica a elasticidade, pensou Maomao. Havia outra camada de papel sob aquela que ela acabou de retirar.

— O que é isso? — disse Jinshi, examinando-a de perto. A folha recém-exposta estava em péssimo estado por ter ficado coberta por papel de parede, mas, ainda assim, era evidente que não havia sido feita para decorar uma parede.

Era uma pintura, reconhecível apesar das cores desbotadas. No centro, parecia haver uma mulher adulta, cercada por jovens damas. Mesmo naquele estado lamentável, havia algo na imagem que tocava o coração. Não eram os materiais usados nem a técnica do artista, parecia haver ali uma mensagem latente.

Parece estranhamente familiar…

Era isso: a imagem que ela vislumbrou na noite anterior. Suiren a arrancou de suas mãos antes que pudesse observá-la direito, mas a forma como a figura foi desenhada era muito semelhante.

[Noelle: Interessante que no anime o papel não foi ligado a pintura…]

Maomao pouco se importava com o tipo de pessoa que o antigo Imperador tinha sido. Pensava apenas em como, pelo simples fato de ocupar o ápice da hierarquia de seu país, ele morreu sem jamais ter a chance de exercer sua verdadeira vocação. As pinturas tornam isso impossível de negar.

Quando terminou de retirar o papel de parede, Maomao examinou a superfície da pintura.

Eu sabia. Era possível ver manchas de tinta dourada. Um tom vibrante, muito semelhante a algo que ela tinha visto na noite anterior: a pedra na caixa de brinquedos de Jinshi.

— Esta tinta aqui… suspeito que tenha sido feita a partir da pulverização de uma rocha com propriedades tóxicas semelhantes às do arsênico.

Havia um tipo de pedra conhecido como orpimento, que podia ser esmagada para produzir um pigmento amarelo intenso, chamado “ouro de orpimento".

As tintas eram feitas misturando-se a fonte do pigmento com um líquido, e, a princípio, Maomao pensou que Sua Antiga Majestade talvez tivesse sido exposto inadvertidamente a alguma substância tóxica usada no papel de parede. Mas, quando soube que Jinshi, ainda criança, havia encontrado uma pedra de orpimento no palácio, e depois de ver o formato peculiar dos pincéis naquele aposento, começou a considerar outra possibilidade. De todo modo, o antigo Imperador não havia ingerido uma grande dose do veneno de uma só vez; seu corpo o absorveu lentamente ao longo do tempo.

— O arsênico tem efeito conservante. Ele impede a decomposição.

Na época da morte do soberano, seu corpo provavelmente estava saturado da substância. Os médicos teriam considerado essa possibilidade, mas não saberiam dizer exatamente de onde ela vinha. Não tinham autoridade para dizer ao Imperador o que ele podia ou não fazer; apenas confirmar que o veneno não tinha sido misturado à comida.

Pintar quadros era visto por muitos como um passatempo vulgar para alguém no topo da hierarquia nacional. Assim, aquele homem, já tratado como um tolo, escolheu esconder seu hobby, chegando ao ponto de empregar um escravo mudo para vigiar o aposento onde praticava a atividade.

Maomao deixou a mão deslizar pela parede. Ainda havia certa elasticidade ali, mesmo depois de removerem uma camada de papel. Muito provavelmente, cada vez que o Imperador terminava uma pintura, colava-a ali e a cobria com mais uma camada. Devia haver muitas outras obras escondidas naquele lugar.

Ainda assim, Maomao tinha uma dúvida quanto aos materiais de pintura do Imperador. A superfície do papel de parede estava revestida com cola ou algo semelhante, para que o pigmento aderisse com facilidade. Isso explicava os fragmentos transparentes que ela tinha encontrado antes. Provavelmente, ele os dissolvia para fabricar as tintas. Quanto aos pincéis, bastava ter acesso a pelos de animais para confeccioná-los, mas e quanto às resmas de papel e às pilhas de pedras, os ingredientes dos pigmentos? Não era algo que se encontrasse em qualquer lugar.

Maomao ficou observando o tom dourado esmaecido do orpimento e refletiu. Parecia-lhe que todos ali sabiam quem era a mulher retratada no centro da pintura. Ele quase nunca olhava para mulheres adultas, nem mesmo como sombras que se projetavam atrás dele, impossíveis de encarar por muito tempo.

A Imperatriz Regente devia saber, pensou Maomao. Devia ter percebido que o próprio filho não era apto para o trono. Por isso concentrou o poder em suas mãos e se esforçou tanto para protegê-lo. Para manter a salvo o filho que praticamente tropeçou até a liderança. Foi assim que ela passou a ser vista praticamente como uma Imperatriz por direito próprio. Que ironia seria, então, se seu último presente ao filho tivesse sido justamente aquele lugar e aqueles materiais de pintura.

Maomao não disse nada disso, mas saiu silenciosamente do aposento, lançando um olhar ao antigo escravo para confirmar suas suspeitas. Ele, porém, mantinha os olhos fechados, a cabeça baixa como em oração. Talvez tivesse sido ele quem recebeu os materiais da Imperatriz Regente e os entregou a Sua Majestade, sem que nenhum dos dois soubesse que eram venenosos.

A Imperatriz Viúva, por sua vez, olhava para o céu, como se fizesse uma pergunta a alguém além da abóbada azul-safira que se estendia sobre eles. Talvez fosse apenas um gesto inspirado por um traço sentimental. Maomao balançou a cabeça.

Ela se curvou em reverência. — Eu disse tudo o que podia.

○●○

Anshi estendeu lentamente a mão em direção à parede, ainda coberta de forma irregular por pedaços de papel, com um sorriso de autocensura no rosto. Aquela mulher do palácio, Maomao, deu-lhe explicações mais do que suficientes. Na verdade, talvez a tivesse conduzido a coisas que teriam sido melhores se permanecessem desconhecidas.

Anshi sabia perfeitamente quem era a mulher no centro da pintura na parede. Embora a imagem estivesse desbotada, sua presença permanecia intacta.

Qual delas era ela? Talvez fosse uma das jovens que cercavam a figura central, ou talvez nem sequer estivesse entre elas. Talvez tivesse sido apenas alguém passageiro para ele, alguém que simplesmente cruzou o seu caminho. O pensamento fez com que a raiva surgisse dentro dela. Ela tocou o próprio ventre, a cicatriz que sabia que estava ali. Foi aquela cicatriz que a transformou no que ela era agora, a mãe do país. As pessoas viam Anshi como um objeto de pena, ou às vezes de escárnio. Algumas sentiam compaixão por ela, a pobre garotinha que Sua Antiga Majestade engravidou por acaso.

Era verdade, ele engravidou uma jovem. Mas Anshi já conhecia de antemão as inclinações sexuais do governante. Seu pai foi um oficial civil, e Anshi, sua filha ilegítima. Aconteceu dela ter tido a primeira menstruação mais cedo do que outras meninas e de sempre parecer mais jovem do que realmente era. Seu pai apenas enxergou nela uma ferramenta conveniente e a utilizou.

Ela fechou os olhos e se lembrou daquele dia.

Um de seus parentes foi eunuco no palácio interno, bem informado sobre o comportamento do Imperador. A cada poucos dias, ele visitava o palácio interno e passava pelas concubinas de alto escalão. Às vezes, visitava também as concubinas de médio escalão, mas jamais passava a noite. Podia dar um passeio errante pelos jardins, mas, cedo ou tarde, sempre ia embora.

Anshi entrou em serviço como dama de companhia de uma concubina de médio escalão, uma meia-irmã mais velha. A mulher nada sabia dos planos do pai de Anshi e passava os dias ansiando pela visita de Sua Majestade. E, de fato, ele veio, dando a Anshi sua oportunidade muito antes do que esperava. Guiado por um eunuco, o soberano foi ver sua mais nova concubina de médio escalão. Mesmo tão jovem, Anshi percebeu que ele não demonstrava grande interesse pela visita, embora sua meia-irmã, cujo único pensamento era atrair a atenção do Imperador, parecesse completamente alheia a isso.

Ela não se lembrava exatamente de como tudo havia começado. Só sabia que, de repente, o Imperador empurrou sua irmã para o lado, fazendo-a cair no chão. Ele se encostou na parede, com o rosto voltado para baixo.

O correto para uma dama de companhia naquela situação teria sido consolar sua senhora ou se desculpar com o soberano por qualquer impertinência que o tivesse provocado. Mas Anshi não fez nenhuma das duas coisas. Em vez disso, disse:

— O senhor está bem?

Aquilo poderia ser considerado impróprio; de fato, os eunucos ao redor de Sua Majestade a advertiram severamente para não tocá-lo e a afastaram. Ela pensou que seria punida junto com a meia-irmã, mas as coisas tomaram um rumo bem diferente.

Tudo o que sua meia-irmã tentou fazer foi tocar o Imperador, e ainda assim, com delicadeza. Ela havia sonhado com o palácio interno, e agora estava ali, diante de um soberano mais belo do que jamais tinha imaginado. Criada para ser uma borboleta, uma flor, ela simplesmente se deixou levar.

Anshi, porém, captou a expressão do Imperador enquanto ele encarava o chão. Suas sobrancelhas, finas como galhos de salgueiro, estavam franzidas, e lágrimas escorriam de seus olhos. Devia ter sido o braço esquerdo que sua meia-irmã tocou, pois ele o esfregava com força, como se quisesse se livrar da sensação. Aquela não era a imagem de um homem no topo da nação. Era a de um fraco, apavorado por uma concubina de médio escalão que mal conseguia se erguer do chão.

E quem se aproximaria daquele homem tímido, senão uma garota descuidada de dez anos?

O tempo passou, e, à medida que Anshi deixava de parecer uma garotinha, o Imperador deixou de fazer qualquer esforço para visitá-la. Talvez ela também tenha se tornado objeto de seu medo. Sua meia-irmã enlouqueceu de ciúmes; acabou sendo casada para ser retirada para fora do palácio interno, e Anshi nunca soube o que lhe aconteceu depois. Ouviu dizer que, anos mais tarde, a meia-irmã morreu de doença, mas, àquela altura, Anshi já era Imperatriz Viúva e estava de luto pelo marido, incapaz de comparecer ao funeral.

Ela esteve longe de ser a última menina a chegar ao palácio interno com a missão de atrair o interesse de Sua Majestade; muitas vieram depois dela. O palácio interno cresceu rapidamente, e três novas áreas foram acrescentadas. A parte construída quando seu marido ascendeu ao trono era agora o quarteirão sul.

A vida de Anshi foi ameaçada muitas vezes. Sua sorte foi que seu filho nasceu menino e que a avó da criança, a Imperatriz Regente, o reconheceu. Certa vez, o Imperador recusou-se a reconhecer uma filha nascida de uma de suas mulheres, o que levou tanto a criança quanto o oficial médico considerado seu pai ao exílio. Até então, médicos eram os únicos homens isentos da castração ao servir no palácio interno, mas, após esse episódio, decretou-se que até os doutores deveriam ser eunucos. Doía em Anshi saber que foi por isso que o médico que havia operado seu ventre precisou ser castrado.

Quando o Imperador fazia suas pinturas ali, ela supunha que pensasse apenas na mãe, a Imperatriz Regente, ou então em garotas que não o desafiariam. Ela não tinha lugar nessas imaginações. O soberano passou a temê-la tanto quanto temia a meia-irmã que tentou tocá-lo. Talvez até mais.

Quando seu segundo filho nasceu, houve quem suspeitasse de ilegitimidade, mas Anshi apenas ria. Isso jamais poderia ser verdade.

Ela nunca viu Sua Majestade tão apavorado. Ele não passava de um fantoche da Imperatriz Regente, um homem patético, dominado por mulheres adultas, capaz de se relacionar apenas com meninas. Ser esquecida por alguém assim, isso era insuportável. Os sentimentos explodiram quando ela o viu passar direto por ela para ficar com sua nova companheira de brincadeiras.

Anshi o confrontou mostrando a cicatriz em seu ventre, atormentando ele enquanto ele implorava por perdão. Ainda assim, para ela, aquilo parecia nada comparado ao que ele infligiu a todas aquelas meninas. Na cama, continuava a sussurrar maldições venenosas, como se quisesse feri-lo mais do que ele havia ferido todas aquelas crianças juntas. Para que ele se lembrasse dela, mais do que de qualquer uma das garotas que machucou e ainda machucava, mais até do que de sua augustíssima mãe, a Imperatriz Regente.

Que tipo de pintura era aquela?

Apenas uma vez o Imperador havia pintado a Anshi. Ele parecia tão sereno enquanto manejava o pincel. Pintar. Seu pequeno segredo. Ela valorizava aquela pintura, mas depois ordenou à sua dama de companhia que a jogasse fora. Anshi não precisava mais do antigo Imperador. Assim como ele não precisava mais dela.

Quando percebeu que seu filho poderia estar em perigo, agiu com rapidez e decisão. Que dissessem que ele era ilegítimo ou uma criança trocada; ela o amava do mesmo jeito.

Foi então que começou a compreender algo que antes não havia enxergado com clareza. Anshi deu um passo para trás, afastando-se da pintura na parede. Do lado de fora do aposento, estava a dama de companhia que sempre a acompanhava, desviando o olhar de vez em quando, inquieta.

Na parede, havia um rosto tão belo que só poderia ser descrito como sobre-humano. Ele se parecia com alguém que Anshi conheceu no passado, alguém cuja beleza a surpreendeu até a ela. Mas essa pessoa já não existia, e a pintura era de décadas atrás. Restariam poucos capazes de identificar aquela imagem.

— Lembro-me de que ele veio nos visitar uma vez, não foi? — disse alguém.

— Sim — respondeu Anshi. — Quantos anos já se passaram desde então…

Com ela estava um homem chamado Jinshi. Ele se referia a algo ocorrido havia mais de dez anos. Devia ter sido por volta da época em que o antigo Imperador começou a se trancar naquele edifício. Ele já estava perdendo o contato com a realidade. Anshi não desejava se aprofundar no motivo.

A Imperatriz Regente chegou rapidamente naquele dia, ela se lembrava, consolando o seu filho amado e o levou embora.

— Foi quando encontrei isto — disse Jinshi, mostrando-lhe uma pedra dourada que segurava envolta em um lenço. — Pelo que me disseram, chama-se orpimento. — Ela se impressionou com o distanciamento dele. Então o veneno já estava devastando Sua Antiga Majestade naquela época. — Suiren finalmente devolveu para mim esta manhã.

Exatamente como Anshi tinha instruído anos antes: se ele brincar demais com uma coisa, tire-a dele.

Então foi isso que eles haviam feito, sem jamais compreender o quão cruel aquilo era. Cada vez que o menino erguia o olhar para ela, tentando avaliar seu humor, ela desviava os olhos por reflexo. Foi algo terrível o que ela havia feito. Talvez tenha sido isso que o levou a crescer tão depressa, enquanto ainda batia dentro dele um coração de criança.

— Acho que me lembro de ter visto um dos desenhos dele uma vez. Retrata uma jovem, em cores delicadas. Talvez esta cor tenha despertado essa lembrança por causa daquela pintura.

Então Suiren guardou silenciosamente a pintura que Anshi lhe mandou jogar fora.

— Você sempre gostou de usar amarelo — continuou Jinshi.

Foi apenas uma coincidência. Sua família produzia uma grande quantidade de cúrcuma e, por isso, as roupas que vestia naturalmente continham muito amarelo. Ela simplesmente nunca deixou de usá-lo.

Por fim, ele perguntou:

— A mulher daquela pintura é mesmo a Imperatriz Regente?

— Eu realmente não sei.

— O que você acha que ele tentava comunicar naquele momento?

— Eu realmente não sei.

E agora já não havia como descobrir. Foi escolha dela sequer não formular essa pergunta.

 

insert6  

— Vejo que você encontrou uma mulher bastante interessante no palácio — disse Anshi, numa tentativa de mudar de assunto.

— Alguém bastante útil.

Era verdade; ela conseguia ouvir isso em sua voz, mas também percebia que não era tudo. Ela lutou e sobreviveu naquele campo de batalha por muito mais tempo do que ele. Quantos anos ele achava que ela o observava?

— Entendo. — Ela semicerrou os olhos, sentindo que precisava ao menos deixar isso claro: — Mas, se você não tomar cuidado para esconder suas preferidas, alguém pode escondê-las de você.

E, com isso, Anshi retornou aos seus próprios aposentos.


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