Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 3

Capítulo 13: A Imperatriz Viúva

Maomao estava radiante. Na verdade, dificilmente poderia estar mais feliz. Atrás dela, Hongniang e Yinghua permaneciam de pé, com uma presença intimidadora.

— Sério? Aqui mesmo? — perguntou Maomao, observando Hongniang com atenção.

— Sim! Pense muito bem no que você fez — respondeu a chefe das damas de companhia, bufando. Os olhos de Maomao se encheram de lágrimas, e ela segurou a mão de Hongniang.

— Muito obrigada! — disse ela, curvando-se profundamente.

— Hã…?

— Espera… Maomao?! Ah! Isso é exatamente o oposto do que a gente queria!

Maomao, sem dar a menor atenção ao desespero de Hongniang e Yinghua, praticamente voou para dentro do depósito. A partir daquele dia, aquele seria o seu quarto.

— Você não acha que isso foi um pouco severo, Yinghua? — perguntou Guiyuan, enquanto servia um pouco de chá e o oferecia junto com um lanche.

— Eu também achei, mas a culpa é toda dela — respondeu Yinghua, conseguindo franzir os lábios e tomar um gole de chá ao mesmo tempo. Hoje elas estavam bebendo um chá fermentado do oeste, de aroma adocicado. — A gente vivia mandando ela parar, mas ela não parava! Sabemos que ela estava indo coletar insetos de novo… — Ela lançou um olhar fulminante para Maomao. Pelo visto, Hongniang havia jogado fora todos os frutos do esforço dela.

Maomao apenas inclinou a cabeça. Ela havia parado de tentar juntar caudas de lagarto, percebendo que o trabalho no Pavilhão Jade não avançaria enquanto as damas de companhia continuassem desmaiando.

— Do que você está falando? — perguntou a Yinghua, genuinamente surpresa. — Eu parei depois do incidente do lagarto.

— Tem boatos! Disseram que uma mulher estranha estava andando pelo palácio interno coletando insetos e rindo como uma maníaca.

[Noelle: Mano dá até para imaginar como a Maomao reagia kkkkkkk zoeira dms]

Maomao não disse nada, mas Yinghua, e agora Guiyuan também, pareciam completamente escandalizadas.

Aquilo claramente era algum tipo de mal-entendido.

— Eu não faço isso — disse Maomao, com sinceridade. Sim, ela tinha coletado mariposas uma vez recentemente, mas tinha sido para o trabalho. Não tinha ido atrás de nenhum outro inseto desde então. Nem de lagartos. — E, se eu fizesse algo assim, não seriam insetos. Seriam ervas.

— Mas você admite que ficaria maníaca com isso?

Yinghua e Guiyuan pareciam profundamente exasperadas enquanto observavam Maomao. Ultimamente, elas finalmente começaram a compreender sua verdadeira natureza.

Argh. Ela conhecia bem aquele olhar. Elas não acreditavam nela.

Mas era verdade. Maomao só tinha rido porque encontrou algumas ervas medicinais, não por causa de insetos. Ela tinha, sim, um mínimo de bom senso. Sabia perfeitamente o que aconteceria se tentasse criar insetos naquele quarto apertado. Era verão; seria um desastre.

Maomao franziu a testa e cerrou os punhos. A situação era gravíssima. Mas ela achava que sabia quem era a verdadeira responsável.

— Hã? Hihui está fazendo o quê? — perguntou Xiaolan, com a boca cheia de pãozinho de pêssego. Maomao lhe ofereceu um cilindro de bambu cheio de chá doce e assentiu. Como de costume, estavam conversando e beliscando algo atrás da área da lavanderia. Maomao havia feito Xiaolan escrever alguns caracteres na poeira, só para garantir que a menina estava prestando atenção nas aulas. E estava mesmo.

— Aquela Shisui… ela é a criatura mais imprevisível — disse Xiaolan, tomando um gole de chá. Talvez sua recente dedicação aos estudos tivesse introduzido palavras difíceis como aquela em seu vocabulário. Ela desceu do barril onde estava sentada e correu até um grupo de mulheres do palácio que conversava perto do poço. — Ei, vocês sabem por onde a Shisui anda ultimamente?

Maomao foi atrás dela. As três mulheres responderam Xiaolan com uma saudação amigável, mas ficaram um pouco rígidas quando Maomao se aproximou. Aquela reação não era incomum; Xiaolan e Shisui eram praticamente as únicas com gostos estranhos o bastante para gostar de conversar com Maomao.

— Ela é estranha — disse uma das mulheres. — Quando você acha que acabou de vê-la, parece que ela já sumiu de novo.

— Sabe, eu também tenho a impressão de que ela anda por aí…

— É, eu também.

A única coisa de que pareciam certas era justamente a incerteza.

— Ah, onde, onde? Conta, por favorzinho! — Xiaolan, sem medo algum de quem quer que estivesse abordando, começou a importuná-las sem piedade.

As três mulheres se entreolharam, visivelmente hesitantes. Provavelmente estavam se sentindo desconfortáveis com a presença de Maomao. A roupa dela não era como a delas. Ainda era simples e prática, claro, mas não era um dos uniformes gerais distribuídos pelo palácio interno. Não; ela vestia roupas dadas por sua senhora, como convinha a uma dama de companhia de uma das concubinas.

Aquelas vestimentas criavam uma barreira invisível, porém intransponível, entre quem servia às concubinas e quem não servia.

Droga… Maomao percebeu que deveria ter mantido distância. Algumas mulheres do palácio eram hostis com quem servia às concubinas, mas muitas simplesmente se fechavam, com medo de que um boato errado lhes trouxesse problemas. Poucas pessoas eram tão despreocupadas quanto Xiaolan.

E agora, o que fazer? Talvez desse para aliviar o clima com alguns lanches, mas ela já tinha dado tudo o que tinha a Xiaolan. Maomao apalpou as dobras do manto, imaginando se carregava algo que pudesse servir como suborno no lugar de comida.

Ah! Pensou, ao encontrar um item específico.

— Se alguma de vocês tiver algum detalhe, talvez eu possa encontrar uma forma de lhes dar isto.

Era um belo pedaço de tecido, agradável ao toque e levemente perfumado. Tecnicamente, era um lenço, mas o material era tão fino que, com um pouco de imaginação, poderia servir para quase qualquer coisa. Na verdade, Jinshi o tinha dado a Maomao quando ela machucou a bochecha. Ela vinha pensando em vendê-lo ao médico charlatão do consultório médico. Não queria pensar muito em qualquer interesse que ele pudesse ter por homens, mas talvez conseguisse algumas moedas por algo que pertenceu ao belo eunuco.

— Isso é…?

— Parece seda, não parece? Um material completamente inadequado para um lenço, eu diria.

Uma das mulheres levou o tecido ao nariz. Seus olhos se arregalaram.

— Esse cheiro… Não pode ser! Pode?

Maomao virou-se para ela com um leve sorriso nos lábios, que não chegava aos olhos.

— Deixo isso à sua imaginação.

Ela temia que dizer o nome de Jinshi fosse contraproducente. Deixaria que elas tivessem uma ideia e preenchessem o resto por conta própria.

A mulher de olfato apurado murmurava para si mesma:

— Espera… Mas… Será mesmo…? Pode ser dele…?

Maomao não tinha certeza em quem ela estava pensando, mas percebeu que tinha fisgado alguém. Ao verem a reação da mulher, as outras duas se revezaram para cheirar o lenço.

Maomao dobrou o tecido e disse, com respeito:

— Talvez eu pudesse contar com vocês para compartilharem o que sabem primeiro?

As mulheres do palácio disseram a Maomao que tinham visto Shisui entre os bosques descuidados do quarteirão norte. Fazia sentido; tinha sido lá que Maomao já tinha esbarrado com ela antes. Aparentemente, era um de seus lugares favoritos.

Maomao foi até lá e se sentou entre as árvores. Como era verão, havia muitos insetos barulhentos. O coro das cigarras ela até conseguia perdoar, mas esmagou alguns mosquitos que zumbiam irritantemente perto de sua orelha.

Devia ter trazido um incensário, pensou. Usavam artemísia e agulhas de pinheiro para produzir uma fumaça espessa que afastava os insetos. Sempre havia um queimando no Pavilhão Jade, já que a Princesa Lingli ainda era muito pequena.

A área ao redor do bosque não era bem cuidada, e Maomao viu todo tipo de planta crescendo ali: capim-dos-pampas, por exemplo, e um monte de flores vermelhas. Ela se inclinou para observá-las. Então é aqui que elas crescem. Eram flores brancas. As flores em forma de trombeta começariam a se abrir ao anoitecer.

Maomao colheu uma e esmagou as pétalas, manchando os dedos com um suco vermelho. Era um pequeno jogo que costumava brincar quando criança. Enquanto isso, as cortesãs colhiam aquelas flores por causa de suas sementes, que continham um pó semelhante ao pó clareador facial.  Mas não era para isso que elas as usavam.

Uma pergunta ainda pairava na mente de Maomao. Era sobre o que havia acontecido no Pavilhão Cristal alguns dias antes, quando Shin, a chefe das damas de companhia da Concubina Lihua, foi descoberta tentando produzir uma droga para provocar um aborto.

Shin nunca tinha usado perfume antes. Se aquela substância contivesse ingredientes prejudiciais a uma gravidez, e se ela acreditava que ela deveria ser a concubina, isso explicaria por que ela não queria usá-lo. Provavelmente ela esperava tomar o lugar de Lihua. Talvez pensasse que, se a concubina atual não gerasse um herdeiro, a sua família se veria obrigada a oferecer outra mulher a Sua Majestade. E, ainda assim, naquela ocasião, ela estava tão desesperada para produzir o abortivo que chegou a usar o temido perfume. Por quê?

A Concubina Lihua estava usando roupas mais largas do que o normal. Roupas que não apertavam a barriga, assim como as da Concubina Gyokuyou. E seria imaginação de Maomao, ou ela parecia um pouco mais cheia do que antes?

Gyokuyou não era a única que recebia as visitas do Imperador. Havia uma possibilidade muito clara, mas Maomao não ousava dizer em voz alta. De qualquer forma, não estava em posição de ajudar a Concubina Lihua.

O que realmente a incomodava eram os ingredientes envolvidos no que quer que Shin estivesse preparando naquele depósito. Qualquer pessoa com dinheiro suficiente podia ter comprado óleos de perfume e afins da caravana. Isso era óbvio. Ainda assim, Maomao se sentia perplexa.

As cortesãs coletavam as sementes da flor-branca não para fins cosméticos, mas para criar uma droga que eliminaria a criança em seu ventre. Ela era fervida com outros ingredientes, incluindo lanterna-chinesa, peônia-arbórea, bálsamo, peônia-florida e mercúrio, para alcançar o efeito desejado.

Com exceção do mercúrio, todas essas plantas podiam ser encontradas no palácio interno. Mas a mistura de Shin não incluía nenhuma delas, embora esse parecesse o caminho mais fácil e barato. Isso deixou Maomao com um pensamento inquietante: talvez alguém tivesse deliberadamente contado a Shin sobre toxinas. E essa pessoa ainda poderia estar no palácio interno.

Ela tentou dar a Jinshi uma pista do que estava pensando, por meio de uma sugestão indireta, e o conhecia bem o bastante para esperar que ele investigasse o assunto. Tinha menos certeza se a orgulhosa e teimosa chefe das damas de companhia seria facilmente levada a falar.

Naquele momento, o barulho das cigarras cessou de repente.

Triiiim.

Ela ouviu algo que soava como o tilintar suave de um sino, seguido de um farfalhar distinto. Ela se virou em direção ao som e viu algo grande se movendo pelo capim-dos-pampas. Aquilo saltou como um sapo, depois ergueu as mãos e começou a rir alegremente.

— Peguei você desta vez! — guinchou a criatura. A voz tinha o mesmo tom de inocência da de Xiaolan, mas era mais aguda. A dona da voz sorria, um rosto surpreendentemente jovem para alguém tão alta.

A mulher, claramente satisfeita do fundo do coração, pegou o inseto com as mãos e o colocou dentro de uma gaiola de bambu.

Não acredito nisso, pensou Maomao, observando a garota gargalhar enquanto pulava entre as ervas, tentando agarrar insetos. Elas me confundiram com isso? Era frustrante. Ela se considerava um pouco menos desequilibrada do que aquilo. Com a curiosidade satisfeita, Maomao tratou de sair dali.

Ela não conseguiu ir longe.

Ouviu de novo: triiiim, desta vez bem ao lado da orelha. Confusa, levou a mão à cabeça, e descobriu um inseto pousado ali. Pelo visto, aquela era a verdadeira origem do “sino” que vinha escutando. E tudo bem, se fosse só isso.

Mas, em vez disso, uma figura veio correndo e se chocou contra Maomao. — Meu inseto! — gritou. Então a figura olhou para Maomao, surpresa. Seu rosto lembrava o de um esquilo, de alguma forma.

— Se você puder sair de cima de mim, eu agradeço — disse Maomao, mas a garota não mexeu um músculo. A mão dela estava pousada sobre a cabeça de Maomao, perfeitamente imóvel. Parecia perturbada. Maomao entendeu rapidamente o que estava acontecendo. — Anda logo e tira isso daqui. Não quero ficar deitada com um inseto na minha cabeça.

Houve um “ploc” quando a garota a derrubou. Algo foi esmagado, e Maomao sabia exatamente o quê.

— Desculpa mesmo, Maomao — disse Shisui, ainda sorrindo, enquanto finalmente se levantava.

Foi maravilhoso despejar a água fria do poço sobre a cabeça, mas nem assim ela conseguiu se livrar da sensação de nojo.

A outra garota entregou a encharcada Maomao um lenço. Ela o aceitou com gratidão e começou a se enxugar. A gaiola de insetos presa à cintura da garota estava ocupada por vários insetos de coloração escura, como se tivessem sido chamuscados; eles sacudiam as asas, produzindo um som parecido com o de um sino.

— Então era isso que você estava tentando pegar?

— Uhum. — Shisui ainda parecia um pouco envergonhada, mas seus olhos brilhavam ao se virar para Maomao. Maomao sabia que ela gostava de insetos, mas não tinha ideia do quanto.

Enquanto Maomao ainda tentava decidir o que fazer, sentiu a outra garota puxá-la até o lado oposto do poço. Ali havia sombra das árvores e uma caixa de madeira, perfeita para se sentar. Shisui bateu na tampa da caixa, indicando que Maomao se acomodasse.

Maomao estava começando a ter uma péssima sensação sobre aquilo. E seus pressentimentos ruins geralmente estavam certos.

— Esses insetos são nativos do país insular a leste, sabe? Eles fazem barulho vibrando as asas — explicou Shisui, sem tirar os olhos dos habitantes da gaiola. — Acho que alguns devem ter vindo junto com uma missão comercial e depois escaparam. Acho que este é o único lugar do nosso país onde eles vivem, assim como aquelas mariposas.

Maomao demonstrou um interesse pouco convincente.

— A cor deles faz parecer que são baratas, mas não são, então fica tranquila.

Maomao poderia ter vivido muito bem sem saber disso, pensou, esfregando a cabeça com ainda mais vigor usando o lenço.

A garota, claramente com pouca noção na escolha de palavras, continuou aquela palestra errante sobre insetos por trinta minutos inteiros. Se aquilo continuasse, o sol se poria antes que terminassem. Maomao tentou várias vezes escapar da conversa e ir embora, mas sempre sentia um puxão na manga e era arrastada, inevitavelmente, de volta à aula. Ela entendia perfeitamente a vontade de falar sobre algo que lhe interessava, mas queria alertar Shisui sobre o quão entediante aquilo era para quem ouvia.

Se ao menos estivéssemos falando de drogas. Aí eu conseguiria sobreviver a isso.

Aquela situação desconfortável foi interrompida de repente pelo som seco de um bastão de madeira.

Clac, clac.

Maomao olhou ao redor, tentando descobrir de onde vinha; podia ver outras mulheres do palácio próximas fazendo o mesmo.

A origem logo foi revelada pelo portão ao sul. Uma figura apareceu, ladeada por uma dama de companhia e um eunuco guarda-costas de cada lado, com mais três pessoas vindo atrás, uma delas tocando o badalo. No centro do pequeno cortejo estava uma mulher vestida com trajes coloridos. Maomao achou que reconhecia aquele rosto sereno e gentil.

Acho que é a Imperatriz Viúva.

Ela só a tinha visto uma vez, no banquete do jardim no ano anterior, mas poucas pessoas poderiam atravessar o palácio interno com uma comitiva tão grande. Comparando a figura àquela memória vaga, concluiu que só podia ser a Imperatriz Viúva. Ela parecia jovem demais para ser mãe do atual Imperador, com sua barba robusta, mas lá vinha ela, ao som constante do badalo.

— Onde será que ela está indo? — cochichou Shisui. Ela estava agachada na sombra de um prédio.

— Por que você está se escondendo? — perguntou Maomao.

— Ué, você não está?

Shisui tinha razão. Num reflexo quase condicionado, Maomao também havia se agachado atrás de um pilar. Todas as outras mulheres do palácio ao redor estavam se curvando profundamente. Desde o momento em que chegavam ali, isso era incutido em todas: era assim que se devia agir quando alguém de status superior passava. Tecnicamente, era o que Maomao deveria fazer sempre que Jinshi e seus acompanhantes apareciam, mas ela vinha criando o hábito de esquecer disso ultimamente.

Isso não pode continuar, pensou. Precisava manter os limites adequados. Balançando a cabeça, decidiu que se comportaria  melhor no futuro.

— Ela está indo na direção da clínica? — refletiu Shisui, apoiando o queixo na mão enquanto observava a Imperatriz Viúva.

De fato, a clínica ficava naquela direção.

— A clínica, hein… — Maomao se perguntou o que a Imperatriz Viúva estaria fazendo indo até o consultório médico não oficial do palácio interno.

De forma bastante inesperada, Shisui forneceu a resposta:

— Ouvi dizer que foi ela quem começou aquilo. Foi na época em que a imperatriz reinante ainda tinha muito poder, então não dava para fazer abertamente. Mesmo agora, ainda é algo bem discreto.

Isso fazia sentido. A Imperatriz Viúva tinha fama de ser uma mulher bondosa. Dizia-se que foi por sua influência que tanto a escravidão quanto a criação de eunucos haviam sido proibidas com a ascensão do atual Imperador. Qualquer uma dessas mudanças, sozinha, já teria sido revolucionária. Muitas pessoas as consideravam decisões corretas do ponto de vista da simples humanidade, mas elas trouxeram efeitos colaterais problemáticos.

O comércio de escravos, por exemplo, era uma forma de negócio, e retirá-lo de uma vez fez certos setores simplesmente pararem. Havia também a questão de onde traçar a linha do que constituía escravidão. Quando as pessoas eram reunidas e vendidas como animais, isso era óbvio. Mas e aqueles que, na prática, se tornavam garantia de uma dívida? Tecnicamente, entravam em algo parecido com um contrato de trabalho, mas isso também poderia ser considerado escravidão. Se se incluísse isso na equação, até as cortesãs, naquele momento, perfeitamente legais, poderiam ser vistas como escravas. Maomao se lembrava de ter visto a velha madame discutir essa possibilidade, com o rosto pálido.

Em resumo, embora oficialmente não houvesse mais escravidão no país, todos sabiam que, em muitos aspectos, a prática apenas havia mudado de nome e se adaptou aos novos padrões sociais. Maomao não tinha interesse nos detalhes mais específicos e não sabia muito além disso.

— Acho melhor eu voltar — disse Shisui, pegando a gaiola de insetos e se levantando. — Cuidado, Maomao. Você vai se meter em encrenca se ficar enrolando aqui por muito tempo.

— É, acho que sim.

Ela se perguntou se a ida da Imperatriz Viúva na direção da clínica tinha algo a ver com os acontecimentos recentes no Pavilhão Cristal. Se Sua Alteza estivesse se envolvendo, talvez em breve houvesse outra revolução, desta vez no tratamento médico do palácio interno. Maomao queria muito ser uma mosca na parede, mas tinha medo do que aconteceria se fosse pega escutando escondida. Além disso, Shisui estava certa, Hongniang certamente a repreenderia se ela demorasse demais para voltar.

Hmmm. Ela cruzou os braços, pensativa. Parecia que, ultimamente, as outras damas de companhia só se irritavam com ela.

— Acho que é melhor eu voltar mesmo — disse, seguindo a contragosto para o Pavilhão Jade.

Quando Maomao voltou, foi, de maneira bastante incomum, colocada para fazer uma limpeza de verdade. Mandaram que limpasse os peitoris das janelas com mais atenção do que o normal, e seu trabalho só foi aprovado na terceira tentativa. Duas reprovações. Ela começou a se perguntar se Hongniang estava se vingando de sua atitude recente, mas, ao perceber que todas as outras damas de companhia também tiveram que refazer suas tarefas pelo menos uma vez, concluiu que devia ser outra coisa.

Alguém devia estar chegando, mas quem?

As únicas vezes em que limpavam com tanto cuidado eram quando outra concubina vinha para uma refeição ou um chá. Esses encontros haviam sido suspensos recentemente, e apenas concubinas em quem confiavam plenamente eram recebidas no Pavilhão Jade. Justo quando Maomao se perguntava quem se encaixava nessa descrição, a visitante chegou.

Era a própria Imperatriz Viúva.

— Faz muito tempo, Lady Anshi — a Concubina Gyokuyou cumprimentou-a com um sorriso delicado e postura impecável. Ela estava provando por que era uma concubina; com exceção de Hongniang, suas damas de companhia quase murcharam diante da presença de Sua Alteza.

O olhar da Imperatriz Viúva pousou sobre o ventre de Gyokuyou, mas apenas por um segundo. Foi assim que Maomao aprendeu o nome de Sua Alteza, Anshi, um nome que ela sabia que quase certamente nunca pronunciaria.

Então é isso que está acontecendo, pensou Maomao. Como algo equivalente à sogra de Gyokuyou, a Imperatriz Viúva compartilhava com ela um entendimento implícito. O fato da desconfiada, e com razão, Gyokuyou não apenas receber a Imperatriz Viúva, mas também torná-la ciente de sua gravidez, dizia muito sobre a confiança que depositava nela. Ou talvez ela fosse obrigada a avisá-la. Se os rumores sobre a Imperatriz Viúva fossem verdadeiros, a primeira hipótese parecia mais provável, mas Maomao não tinha como saber.

De todo modo, ela parecia de ótimo humor. A Princesa Lingli, a princípio, ignorou a avó, mas logo se acostumou com a gentileza da Imperatriz Viúva. Maomao provou a comida em busca de veneno, mas, antes que pudesse se retirar, a Imperatriz Viúva disse:

— Você, querida… é a assistente que Jinshi enviou, não é?

Como ela sabe disso? Maomao se perguntou. E por que ela estava se dignando a falar com uma mera provadora de comida? Ela quis perguntar, mas sabia que poderia ser falta de educação, então apenas respondeu:

— Sim, senhora — e se curvou.

— Foi Suiren quem me contou. Disse que finalmente tinha encontrado uma garota que valia o esforço, mas que ela estava voltando para o palácio interno.

Suiren era a dama de companhia pessoal de Jinshi, uma mulher já entrando na velhice. Nunca pareceu ser do tipo afável, mas, pelo visto, era uma velha amiga da Imperatriz Viúva.

— Ela já foi minha própria dama de companhia, sabia?

Isso explicava tudo. Era comum que filhas de oficiais servissem como damas de companhia ou amas.

Então Sua Alteza lançou um olhar a Gyokuyou. A concubina perspicaz pareceu compreender imediatamente.

— Sinto muito, Lady Anshi, mas poderia me dar licença por um momento para colocar a princesa para dormir? — disse ela.

Hongniang segurava Lingli, que parecia cansada depois de brincar com a avó. Ela já estava praticamente desmamada, mas aquilo servia bem como desculpa para Gyokuyou deixar o aposento. Hongniang acompanhou sua senhora.

E assim, Maomao se viu sozinha numa sala com a Imperatriz Viúva.

— Ela sabe mesmo entender um recado, não acha? — comentou Sua Alteza, com um leve tom de diversão. Naquele momento, parecia menos a sogra de Gyokuyou e mais uma amiga um pouco mais velha. Maomao não tinha certeza do que deveria fazer, então permaneceu de pé, educadamente, observando a Imperatriz Viúva em busca de alguma pista. Sua Alteza percebeu e fez um gesto para que Maomao se sentasse em uma cadeira.

— Parece que você ajudou a resolver muitos problemas para nós — disse ela. Segurava um copo cheio de gelo, esfriando as palmas das mãos. O gelo era um presente que trouxera consigo. A Concubina Gyokuyou não podia deixar o corpo esfriar demais, mas podia colocar o gelo na boca e saboreá-lo enquanto derretia. A princesa, por sua vez, devorava guloseimas feitas de gelo raspado coberto com suco de frutas.

Maomao respondeu: — Eu apenas ofereci o conhecimento que tinha e que, por acaso, se encaixava na situação. — Maomao não era especialmente alguém que tinha muitas ideias mirabolantes. Acontecia apenas que, às vezes, a verdade se escondia entre as coisas que ela sabia, que não passavam de uma janela para tudo o que seu pai havia ensinado a ela. Se perguntassem diretamente a ele, Maomao acreditava que ele teria resolvido os problemas em metade do tempo que ela levou.

Suas palavras poderiam facilmente ser interpretadas como contraditórias e, de fato, a dama de companhia ao lado da Imperatriz Viúva, uma mulher com pouco mais de quarenta anos, que exalava experiência, franziu a testa. Estavam apenas as três naquela sala.

Mal-entendido ou não, Maomao não se sentiria confortável sem fazer aquela ressalva antes. Não tinha interesse algum em superestimar as próprias capacidades e queria deixar isso claro para a outra mulher. Alguns poderiam dizer que ela se diminuía, mas esse era um de seus princípios, e ela pretendia viver de acordo com ele.

— Isso já é suficiente para os meus propósitos — disse a Imperatriz Viúva. Seus olhos baixaram por um instante e pareceu a Maomao, embora não pudesse ter certeza, que a gentileza neles foi substituída, por um breve momento, por algo opaco e vazio. — O que quer que você consiga fazer será o bastante — continuou ela. — Mas quero que investigue algo.

A dama de companhia observava atentamente a Imperatriz Viúva, que balançou a cabeça lentamente enquanto encarava Maomao.

— Você acha que fui amaldiçoada pelo antigo imperador?

Era uma pergunta e tanto para a Imperatriz Viúva fazer. Uma pergunta realmente impressionante.


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