Volume 3
Capítulo 12: O Santuário da Escolha
Dizem que, antigamente, um povo diferente habitava estas terras. Esse povo não tinha chefe, mas uma mulher de sangue nobre veio de um lugar distante e estabeleceu-se entre eles, concebendo em seu ventre o filho do céu, que se tornaria o primeiro imperador do país.
A mulher era chamada de Wang Mu, "a Mãe Real", e alguns diziam que ela era imortal. Ela possuía olhos que podiam enxergar até mesmo na escuridão de uma noite sem lua, e era com essa força de visão que ela guiava o povo.
O eunuco idoso lia o livro em voz alta, com sua voz suave e gentil. Cerca de metade de suas alunas ouvia atentamente; a outra metade ou dormia profundamente ou lutava para não dormir. Maomao, reprimindo um bocejo, não as culpava por se sentirem um pouco sonolentas.
Pelo que ela podia ver do lado de fora da sala de aula, parecia haver cerca de vinte alunas, embora ela não soubesse se isso era muito ou pouco. Era assim mesmo, pensou ela, mas o eunuco ao seu lado parecia um tanto desapontado.
— Senhor, elas vão vê-lo — disse ela a Jinshi, cujo rosto ameaçava ficar visível através da janela. Ninguém conseguiria se concentrar nos estudos se soubesse que uma criatura tão bela as observava.
— Disseram-me que inicialmente havia apenas cerca de dez alunas, então acho que o número aumentou um pouco — disse Gaoshun, em tom conciliador.
Eles estavam no “Instituto de Estudos Práticos” do palácio interno, que Jinshi havia fundado. Ele queria pendurar uma placa proclamando em letras garrafais que era um lugar de aprendizado, mas Maomao o dissuadiu, argumentando que fazer alarde só tornaria as coisas mais difíceis, então, no fim, a escola prosseguiu discretamente.
Eles haviam reformado um dos prédios menos deteriorados do quarteirão norte para servir a esse propósito. Aliás, esse era o prédio que havia sido usado quando os emissários estrangeiros estiveram em visita recentemente, então estava com uma aparência muito boa.
Xiaolan estava entre as alunas. Maomao podia vê-la esfregando os olhos sonolenta, dividindo sua atenção igualmente entre o livro e o professor. Ela já havia aprendido a reconhecer muitas palavras comuns e estava lendo histórias simples. A história que o professor acabou de ler era sobre como a nação havia sido fundada, algo que todos já tinham ouvido pelo menos uma vez na vida.
Maomao, naquele momento da vida, não tinha interesse em aprender essas coisas, mas Jinshi a convidou para ver como as aulas estavam indo, e ela não podia exatamente recusar. De qualquer forma, seria mentira dizer que não estava curiosa. Xiaolan estava lá, junto com algumas outras damas da corte que Maomao conhecia, e, acima de tudo, se o plano de Jinshi desse certo, poderia mudar a face do palácio interno.
— Mestre Jinshi, chegou a hora.
Jinshi era um eunuco ocupado, como seu assistente lhe lembrou, e ele relutantemente se afastou de sua criação. Provavelmente gostaria de ter continuado a observar por mais algum tempo, mas tinha outras coisas a fazer.
— O que você vai fazer agora? — perguntou ele a Maomao.
— Gostaria de ficar aqui e observar mais um pouco, se não se importar.
— Uhum. Se notar algo de errado, me avise.
Maomao se curvou lentamente.
Quando a aula terminou, alguns eunucos apareceram com salgadinhos assados que distribuíram às alunas, que olharam para as guloseimas com desejo. Maomao encontrou Xiaolan e foi até ela.
— Oh, Fwaofwao — disse Xiaolan com a boca cheia de comida. Ela parecia que ia se engasgar, então Maomao pediu a um dos eunucos que trouxesse água, e quando ele trouxe, Xiaolan já estava batendo no peito.
Ao lado do livro didático em sua mesa havia uma bandeja de areia. Os livros eram fornecidos aos alunos, mas distribuir materiais como papel e pincéis logo esgotariam os fundos, então, em vez disso, as alunas praticavam seus caracteres em pequenas bandejas de areia. As manchas no dedo indicador de Xiaolan sugeriam que ela havia se esforçado bastante. É verdade que ela parecia bastante cansada, mas Maomao podia fingir que não tinha notado.
Xiaolan pegou a xícara que Maomao lhe ofereceu e tomou um gole, soltando um suspiro ruidoso em seguida.
— Conseguindo aprender alguma coisa? — perguntou Maomao.
— Hehe. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Quero perguntar ao professor sobre isso — disse Xiaolan, apontando para algo no livro didático várias páginas à frente do que o professor estava lendo. — Eu não sou tão inteligente assim. Se eu não estudar um pouco à frente, acho que nunca vou conseguir acompanhar! — Ela enfiou o resto da comida na boca e tomou outro gole de bebida.
Maomao decidiu ir com Xiaolan, casualmente. Saíram da sala de aula e atravessaram um corredor coberto até um prédio adjacente, onde ficava o escritório do professor. Do lado de fora, Maomao podia ver o lago que havia sido usado como cenário para a apresentação no banquete noturno e, além dele, um antigo santuário. Supostamente, o santuário existia desde antes da fundação do palácio interno, e sua arquitetura era diferente da que Maomao estava acostumada. Era um prédio longo e estreito, orientado no sentido norte-sul. A relativa ausência de desgaste, em comparação com os outros prédios próximos, indicava que o santuário recebia manutenção regular.
Será que ainda fazem algum ritual ali… pensou Maomao. Mas, de qualquer forma, eles passaram pelo santuário e chegaram ao escritório do professor.
— Com licençaaa — disse Xiaolan. — Me concederia alguns minutos? — Não era exatamente uma saudação refinada, mas o velho eunuco as recebeu com um sorriso mesmo assim. A natureza afável de Xiaolan parecia tê-lo conquistado. Ele falava com ela com a mesma delicadeza com que falaria com sua própria neta.
— Não me recordo de ter visto a sua amiga por aqui antes.
— Só estou acompanhando ela — disse Maomao.
— Entendo, entendo. Sente-se naquela cadeira e espere, então, se não se importar — O eunuco sorriu para ela. Maomao, obedientemente, sentou-se. Olhou pela janela, observando o santuário por onde haviam passado antes. Seus pilares eram próximos uns dos outros, e o interior parecia dividido em uma série complexa de salas.
— Curiosa sobre aquele santuário? — perguntou o eunuco.
— Um pouco. Não consigo deixar de achar a arquitetura um tanto quanto estranha.
Essa era Maomao, que prontamente se tornava obcecada por tudo que lhe chamava a atenção. Ela estava olhando fixamente para o santuário sem perceber.
— Aquele santuário foi construído pelos habitantes originais desta terra. Lady Wang Mu, a Rainha Mãe, optou por não proibir o povo de praticar sua fé enquanto governava este lugar. Em vez disso, ela a utilizou e tornou essa fé concreta.
Wang Mu era a mulher que aparecia no mito fundador que o eunuco ensinava em sala de aula; dizia-se que ela era a mãe do primeiro imperador. Havia muitas interpretações para a história, sendo a mais popular a de que ela era a sobrevivente de um país desaparecido ou uma imortal descendente dos reinos imortais.
— Qualquer um que deseje governar esta terra deve passar por aquele santuário, e somente aqueles que escolherem o caminho correto poderão se tornar chefes da terra. Tal foi a incumbência que Wang Mu impôs ao primeiro imperador. — Seu filho foi capaz de passar no teste e assim se tornou governante da terra.
— Muito interessante.
— Não é mesmo? Aquele santuário foi o motivo da transferência da capital para cá — O velho eunuco sorriu com nostalgia. — Mas não é usado há décadas, e duvido que volte a ser usado no futuro.
— O que o senhor quer dizer com isso?
— Bem… — O eunuco entregou a Xiaolan um instrumento de escrita, gentilmente permitindo que ela usasse seu próprio pincel. Ela o pegou e franziu a testa, ainda com dificuldade para segurar o pincel corretamente. Ela não parecia interessada no que ele e Maomao estavam conversando.
— Todos os irmãos mais velhos de Sua Majestade foram vítimas de uma epidemia. Pior ainda, muitos meninos e bebês morreram, privando a linhagem imperial de quaisquer sucessores em potencial.
Foi por isso que o imperador anterior, o filho mais novo de seus pais, havia ascendido ao trono. As circunstâncias há muito alimentavam rumores desagradáveis de que a imperatriz reinante, sua mãe, teria tido participação na “peste”.
Maomao não pôde deixar de pensar que a história do eunuco não era das mais respeitosas para com a família imperial, mas não percebeu nenhuma hostilidade em sua voz; pelo contrário, ele tinha o ar imparcial de um erudito expondo fatos.
Xiaolan mergulhou o pincel na tinta, espalhando manchinhas em sua bochecha.
Ritos de passagem não eram de forma alguma incomuns, mas Maomao sentiu seu interesse especialmente aguçado por este. Ela olhou para o santuário, e o eunuco olhou para ela, embora a princípio ela não tivesse certeza do que ele estava pensando.
— Devo dizer que fico feliz em saber que alguém se interessa por aquele prédio antigo — disse ele. — Não são muitos os que querem ouvir essas histórias. Já faz bastante tempo. — Então ele também olhou para fora.
— Mas já houve alguém interessado? No passado?
— Sim. Hum... Um médico que esteve aqui há muitos anos, um verdadeiro excêntrico. Sempre que tinha tempo livre, costumava vaguear pelo palácio interno com uma expressão facial muito parecida com a sua agora.
Um rosto surgiu na mente de Maomao. — Será que o nome dele não seria Luomen, por acaso?
Os olhos do eunuco se abriram em surpresa. — Você o conhece?
O velho Luomen de Maomao parecia uma pessoa comum e sensata, mas na verdade não era. Para começar, se fosse sensato e comum, não teria plantado ervas medicinais por todo o palácio interno.
Ops. Talvez eu não devesse tê-lo mencionado.
Afinal, ele havia sido banido como criminoso; talvez fosse melhor não dizer seu nome. Ao que tudo indicava, porém, o eunuco não nutria qualquer rancor por Luomen. Maomao disse apenas, mas honestamente, que Luomen era seu parente e que agora ganhava a vida (com muita dificuldade) como apotecário.
O eunuco olhou para Maomao, visivelmente comovido. Xiaolan, por sua vez, observava atentamente seus próprios caracteres instáveis.
— Entendo — disse o eunuco. — Sim, Luomen… — Talvez ele tenha sido amigo de seu pai adotivo. Ela quis perguntar sobre isso, mas percebeu que era hora de recuar. Pegou Xiaolan (que havia dobrado a folha com os caracteres, apesar de sua simplicidade, e os guardado com carinho nas dobras de suas vestes) e saiu da escola.
Dois dias depois, Sua Majestade visitou o Pavilhão Jade. Maomao cumpria suas obrigações de degustação de comida como de costume e estava prestes a sair da sala quando ele a interrompeu.
— Como posso ajudá-lo, senhor? — disse ela. Se Sua Majestade quisesse falar com ela, provavelmente seria sobre os “livros didáticos” ilustrados ou algo do gênero. Infelizmente, agora ela só podia distribuir o que conseguisse passar pela censura, então não era mais tão fácil passar informações para Sua Majestade sem que percebessem. Ela pensou ter pedido a Jinshi para lhe dizer isso pessoalmente.
— Pretendo ir ao Santuário da Escolha agora. Gostaria que você me acompanhasse.
Hã? Maomao tapou a boca com a mão antes que o som pudesse sair.
O que diabos estava acontecendo?
Eles caminhavam à luz de lanternas pela escuridão, dirigindo-se para o quarteirão norte do palácio. Os dois eunucos da guarda pessoal de Sua Majestade os acompanhavam, assim como Jinshi e Gaoshun. Jinshi observava tudo com um olhar perspicaz; parecia ter sido chamado ali de repente.
O que Sua Majestade tem em mente? Maomao se perguntou. O quarteirão norte nunca foi exatamente movimentado, mas à noite ficava estranhamente silencioso. O único consolo era que pelo menos não ouviam nenhum som de amor doentio vindo dos arbustos ou das sombras das árvores.
Ao chegarem ao santuário, alguém os esperava: o velho eunuco que Maomao havia falado mais cedo naquele dia.
— Estava à sua espera — disse ele com uma reverência respeitosa. O Imperador, acariciando a barba da qual tanto se orgulhava, acenou-lhe com a cabeça.
— Posso entrar mais uma vez?
— Pode entrar quantas vezes desejar, Vossa Majestade.
Os pelos da nuca de Maomao se eriçaram ao ouvir o que soou como um tom de provocação nas palavras do eunuco. O Imperador, ainda aparando a barba, manteve-se perfeitamente calmo, mas Gaoshun e os outros eunucos não esconderam seu desagrado. Jinshi foi o único que não franziu a testa; ele encarava o santuário atentamente, parecendo estar pensativo.
O velho eunuco destrancou a porta do santuário e conduziu o Imperador para dentro. — Quais deles o senhor necessita como seus acompanhantes? — perguntou o eunuco, e novamente seu tom soou levemente zombeteiro.
— Estes dois, se me permite — respondeu o Imperador. Ele olhava para Jinshi e Maomao, sorrindo.
Do que se trata isso? Se perguntou Maomao, com uma expressão de desagrado ao entrar no santuário. Ela entendia por que Sua Majestade escolheria Jinshi. Ele presidia cerimônias e tudo mais, então estava acostumado com esse tipo de lugar. Mas Maomao? Que propósito ela poderia ter?
— Mulheres não são proibidas aqui, ou algo assim? — sussurrou Maomao para o velho eunuco, que então abriu um largo sorriso.
— Você deve se lembrar que Wang Mu e a imperatriz reinante eram ambas mulheres.
Maomao não respondeu, apenas abaixou a cabeça e seguiu os três homens.
Logo após a entrada do santuário havia um grande espaço vazio. Havia três portas, cada uma de uma cor diferente, e acima delas uma placa que dizia: “Não passe pela porta vermelha.”
Maomao apertou os olhos. As portas eram azuis, vermelhas e verdes, respectivamente. A cor de cada uma era nítida e brilhante, sugerindo que eram renovadas regularmente.
— Qual porta o senhor escolhe? — perguntou o velho eunuco, acariciando o queixo.
O Imperador coçou a nuca e dirigiu-se à porta azul. — Da última vez, escolhi a verde. Melhor experimentar esta.
— Certamente, senhor.
O grupo passou pela porta azul. Seguiram por um corredor estreito e, ao chegarem à sala seguinte, encontraram mais três portas e outra placa. Maomao inclinou a cabeça. A placa dizia: "Não passe pela porta preta". Desta vez, as portas eram de um vermelho vivo, preto e branco. As paredes e os pilares estavam visivelmente empoeirados, mas as portas tinham sido pintadas recentemente.
— Cuidar deste lugar é trabalhoso, posso te garantir. Justo quando eu pensava que nunca mais seria usado, aparece alguém dizendo que de repente quer entrar — O velho eunuco esfregou os ombros de forma expressiva; evidentemente, era ele quem tinha que pintar as portas.
O Imperador acariciou a barba e, em seguida, escolheu a porta vermelha. Além dela, havia outro corredor e, depois, outra sala. Mais três portas e um novo enigma. Maomao se perguntou, desanimada, quantas salas mais haveria. Sem janelas para deixar entrar uma brisa, o santuário era abafado e quente.
Ela tinha razão em uma coisa: a planta do santuário era realmente complexa. Às vezes, eles voltavam atrás ou subiam um lance de escadas, até que ela perdia completamente o senso de direção. Finalmente, ela percebeu que alguns dos cômodos compartilhavam portas entre si.
Presumo que não é para acabar tão rápido.
Além da impaciência de Maomao, Jinshi encarava as portas e a placa com uma expressão incomumente séria. "Não passe pela porta azul", dizia a placa. As portas desta sala eram azuis, roxas e amarelas. Sua Majestade escolheu a porta amarela.
— Parece que esta é a última — disse ele. A porta rangeu ao abrir, mas além dela havia apenas uma porta. Em vez de uma pergunta, a placa acima dela dizia: “Filho da realeza, mas não filho da Mãe Real.”
Não fazia muito sentido, mas era uma rejeição bastante clara.
— Igual à última vez, não é? — O Imperador parecia esconder um sorriso amargo por trás de sua barba farta. Jinshi o observava atentamente. — Não me foi dado o direito de conhecer a vontade dos céus?
— Vossa Majestade está brincando. Desde que este santuário foi escondido no palácio interno, somente eu fiquei responsável por ele. A vontade dos céus não tem nada a ver com isso — O eunuco colocou as mãos nas mangas e curvou a cabeça. Algo em seu jeito parecia indicar que, apesar de ter sido feito eunuco, ele ainda nutria um orgulho inabalável. Muito provavelmente, esse homem vinha cuidando daquele santuário há muito tempo, e quando o edifício passou a fazer parte do território do palácio interno, ele chegou ao ponto de aceitar a castração para continuar protegendo-o.
O Imperador havia seguido à risca todas as instruções dos sinais. Mesmo assim, teria ele cometido algum erro?
O eunuco abriu a porta diante deles. — O senhor encontrará a saída por aqui — disse ele.
Maomao e os outros, ainda inquietos, saíram.
Com que base concebível o Imperador havia sido rejeitado? Maomao contou nos dedos, somando o número de cômodos, pensando em quais portas o Imperador havia escolhido. Ela até se sentou para refletir sobre isso, usando um graveto para riscar na poeira a ordem das portas que ele havia escolhido, da melhor maneira que conseguia se lembrar. Ela percebeu que provavelmente não era o comportamento mais apropriado com o próprio soberano ainda presente, mas fez mesmo assim.
Tenho certeza de que Luomen entenderia — disse o eunuco.
Meu pai entenderia? Maomao refletiu. Será mesmo? Seria esse um enigma que ele poderia desvendar para eles? Foi gentil da parte do eunuco dar uma dica, mas ao mesmo tempo isso fez Maomao franzir os lábios em irritação. Ela sentiu como se ele estivesse dizendo: Seu pai entenderia, mas você nunca entenderá. Ela sabia que seu pai adotivo era especial, mas a incomodava ser completamente descartada daquela forma.
Em outras palavras, Maomao estava com raiva.
— Você está dizendo que meu pai adotivo saberia o que está acontecendo?
— Não saberia dizer. É possível — respondeu o eunuco, repentinamente evasivo.
Luomen entenderia: em outras palavras, a chave estava em algo que ele sabia. Seu conhecimento era vasto, mas ele se destacava particularmente na medicina. Seria aí que residia a solução?
Jinshi e o Imperador observavam Maomao com expectativa. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Queria que parassem com aquilo. Podiam olhá-la com toda a esperança que quisessem; ela não era seu velho e não conseguiria dar a resposta tão facilmente. Isso só a deixava mais frustrada. E algo ainda a incomodava.
Três portas, três cores... Como é que elas combinam?
— Sabe o que significa dizer que eu não sou filho da Mãe Real? — perguntou o Imperador.
A Mãe Real? Maomao pensou. Wang Mu?
Sim, a mãe do primeiro imperador, mencionada nas histórias mais antigas do país. Os contos nunca mencionam um pai. Normalmente, seria de esperar que isso enfatizasse a linhagem materna. No entanto, no país de Maomao, a descendência agnática era a regra, com a herança passando de pai para filho.
Mais uma vez, Maomao refletiu sobre as palavras daquela última placa.
Filho da realeza, mas não filho da Mãe Real.
Será que essas palavras escondiam algum grande segredo?
Será que a expressão "filho da realeza" se refere à linhagem paterna?
Dizia-se que os filhos homens recebiam de seus pais o que os tornava aptos a governar. Enquanto isso, em um sistema matrilinear, as filhas mulheres recebiam de suas mães o que as torna aptas a governar.
[Kessel: Descendência Agnática é uma forma diferente de se referir ao sistema patrilinear, ou seja, com a linhagem da família paterna sendo a prioridade. Enquanto o sistema matrilinear, é o contrário, com a linhagem da família materna sendo a prioridade.]
O trono imperial foi ocupado por uma linhagem direta de sucessores masculinos; é verdade que, ocasionalmente, uma imperatriz se interpusera, mas, até onde Maomao sabia, a linhagem dessas mulheres não havia continuado. Suponha que o sangue de Wang Mu ainda permanece de alguma forma: a que isso levaria?
De repente, Maomao se lembrou da história do antigo imperador. O último dos filhos de sua família, seus irmãos mais velhos morreram jovens vítimas de uma epidemia, abrindo caminho para que ele assumisse o trono. O fato dele ser o único sobrevivente, enquanto todos os seus irmãos haviam falecido, alimentou rumores de que a imperatriz reinante poderia ter tido alguma influência nos acontecimentos.
Mas, será possível que…?
Maomao olhou para o velho eunuco, o Imperador e Jinshi, e então foi até Jinshi e parou diante dele. — Mestre Jinshi. Os irmãos do soberano anterior eram todos filhos da mesma mãe?
Ele pareceu perplexo com a repentina pergunta, mas mal levou um segundo para responder: — Entendo que nem todos compartilhavam a mesma mãe, mas que as mães de todos os príncipes imperiais eram irmãs. Primas do penúltimo imperador, acredito.
— Parentes próximos, então. — Quando se tratava de sangue nobre, casar com irmãs e parentes próximos não era incomum; aliás, a própria Concubina Lihua era parente não muito distante do Imperador. — Posso perguntar mais uma coisa? — disse Maomao, com certa hesitação.
— O quê?
— Receio que isso possa ser considerado extremamente impróprio. — Dependendo da reação deles, ela poderia até ser morta ali mesmo.
— Fale. — Não foi Jinshi quem deu a ordem, mas o próprio Imperador.
Maomao respirou fundo e deixou escapar todas as palavras de uma vez: — Será possível que muitos, ou a maioria, daqueles que ocuparam o trono ao longo das gerações tivessem problemas de visão?
Não foram Jinshi nem Sua Majestade que reagiram de forma mais notável a essa pergunta, mas sim o velho eunuco. Maomao deu um sorriso irônico.
— Ouvi dizer que muitos deles não enxergavam bem, mas o imperador anterior tinha uma visão excelente — disse Sua Majestade, mas isso apenas confirmou para Maomao o que ela já suspeitava. Ela olhou para o santuário.
— Seria possível passar por isso tudo de novo?
— Você se considera qualificada, mocinha? — disse o eunuco em tom de deboche. — Muitas mulheres já foram trazidas ao santuário, mas sempre foram princesas ou concubinas. Da última vez, você teve permissão para entrar, mas receio questionar a necessidade de permitir sua entrada repetidamente. Principalmente se você pretende dar conselhos sobre a escolha das portas.
Maomao era magra demais para ser chamada de bela princesa, mesmo em tom de elogio; evidentemente, seria impróprio para ela entrar no santuário repetidamente. O Imperador caiu na gargalhada. — Talvez eu devesse nomeá-la uma de minhas concubinas então. Embora ache que teria sorte se conseguisse contar isso a Lakan e sobreviver.
Você só pode estar brincando, pensou Maomao.
— Você só pode estar brincando — disse Jinshi, colocando-se à sua frente. — Imagine os olhares que suas outras damas lhe lançariam.
— Verdade, verdade! — disse Sua Majestade, caindo em gargalhadas. Ele deu um tapinha na cabeça de Maomao. Ela estava acostumada a vê-lo em seus momentos de lazer no Pavilhão Jade, mas esta noite ele parecia estar relaxado de uma maneira um tanto diferente.
Eu acho que ele tá brincando comigo.
E talvez fosse mesmo. Afinal, Maomao sabia muito bem que uma dama precisava ter um busto de cerca de noventa centímetros para sequer começar a despertar o interesse do Imperador. Tanto a Concubina Gyokuyou quanto a Concubina Lihua atendiam a esse padrão e até o superavam.
Jinshi olhava perturbado para o Imperador, seria imaginação de Maomao ou ele parecia um pouco com uma criança emburrada?
— Então fique com ela você — disse ele a Jinshi, e então olhou para o velho eunuco. — Você não teria nenhuma objeção, teria?
O eunuco fez uma careta, mas olhou para Jinshi. — Você aceitaria isso?
— Se Sua Majestade assim ordena, então só me resta obedecer. De qualquer forma, a garota está tramando algo.
— E eu estou bastante interessado em saber o que é — acrescentou o Imperador, dando uma risadinha. O velho eunuco voltou para a entrada do santuário, com uma expressão de completa exasperação. O Imperador, que parecia bastante satisfeito, apontou com o polegar na direção em que o eunuco tinha ido, como quem diz: “Vamos lá”.
Eles foram até a entrada mais uma vez, desta vez com Jinshi à frente, seguido pelo Imperador e o velho eunuco. Maomao vinha atrás, surpresa ao perceber que parecia que qualquer um poderia tentar entrar no santuário. Eles entraram na primeira sala, e Jinshi se virou para olhar para Maomao. As portas vermelhas, azuis e verdes estavam diante deles.
— Qual devo escolher? — perguntou ele.
Maomao estreitou os olhos. A placa acima das portas dizia apenas para não passar pela vermelha. Lentamente, ela apontou para a porta azul. Jinshi obedientemente a abriu. Era a mesma que o Imperador havia escolhido antes. O velho eunuco arqueou uma sobrancelha.
Na sala seguinte, Maomao escolheu a porta branca, o que lhe valeu mais uma arqueada de sobrancelha.
— Hum, seguindo um caminho diferente do meu desta vez? — disse o Imperador, acariciando a barba enquanto seguia Jinshi pela porta branca. Normalmente, poderia ser considerado rude Jinshi andar à frente de Sua Majestade, mas nenhum deles, Jinshi, o Imperador ou o velho eunuco, pareceu se incomodar. O soberano sempre demonstrou uma certa tolerância, então talvez não estivesse particularmente interessado em formalidades.
Maomao os conduziu pela sala seguinte, e depois pela próxima, até que finalmente chegaram à décima câmara. Desta vez, a placa dizia algo um pouco diferente:
Escolha a porta vermelha.
Ainda havia três portas, mas nenhuma delas era vermelha. Em vez disso, eram branca, preta e verde.
— O que é isso? — perguntou Jinshi, com a voz agitada. Era compreensível; ele não via nenhuma porta vermelha. Era exatamente isso que, na mente de Maomao, deixava claro que aquele era o enigma final. Ela apontou para a porta verde.
— Passe por lá e você entenderá — disse ela.
Jinshi devia confiar nela, pois abriu a porta verde sem hesitar. Além dela, havia um corredor, no final do qual avistaram uma escadaria. Subiram, seus passos ecoando nos degraus, e abriram a porta no fim, sendo recebidos por uma brisa úmida.
Eles estavam no telhado do santuário, em uma altura suficiente para avistar todo o palácio interno. O espaço quadrado parecia ter sido construído especificamente para inspirar a sensação de que se estava contemplando tudo ao redor de cima.
Os lábios do velho eunuco tremiam; Maomao não tinha certeza se ele estava reprimindo um sorriso ou uma carranca. — Meus parabéns. Você escolheu o caminho certo — disse ele, olhando ao redor — Antigamente, apenas aqueles escolhidos por Wang Mu podiam se tornar o próximo rei. Com o tempo, os reis passaram a ser chamados de imperadores.
Ao longo dos tempos, a primeira tarefa daqueles assim escolhidos era proferir um discurso a partir deste santuário. Considerando a sofisticação da arquitetura da época, presume-se que o santuário tenha sido a estrutura mais alta existente.
— Houve épocas em que ninguém conseguia escolher o caminho correto. Nesses casos, eles retornavam acompanhados por uma concubina que fosse capaz de fazê-lo — O velho eunuco olhou para Maomao com uma expressão de dor. — Tradicionalmente, apenas aqueles de sangue puro conseguiam ter sucesso, mas neste caso parece que alguém mais adivinhou a ordem certa — Isso evidentemente o desagradou.
O velho faz parecer que isso é uma coisa ruim, pensou Maomao, facilmente convencida pela provocação dele. Ela tinha escolhido certo: o que havia de errado nisso?
— As aulas de história são ótimas, mas talvez você pudesse explicar o que está acontecendo para que eu possa entender? — disse o Imperador.
— Será que alguém tão nobre quanto Sua Majestade se rebaixaria a pedir ensinamentos a mim? — disse o eunuco. Desta vez foi a vez de Jinshi erguer uma sobrancelha, mas o Imperador estava sereno demais para se deixar levar pela provocação do eunuco. Mesmo assim, o velho disse: — Não deveria ouvir isso de mim. Sugiro que pergunte à moça.
Ele ia passar a responsabilidade para ela.
— Então? — disse o Imperador, virando-se para Maomao. Mas havia coisas que até ela achava difícil de dizer.
Tentando decidir a melhor forma de abordar o assunto, ela disse: — Muito bem. Permita-me explicar o que orientou meu raciocínio na escolha das portas.
Das três primeiras portas, azul, vermelha e verde, Maomao escolheu a azul. A placa dizia apenas para evitar a porta vermelha, então alguém poderia pensar que a porta verde era uma escolha perfeitamente aceitável. E normalmente, essa pessoa estaria certa. Mas o "normal" não se aplicava exatamente a este santuário...
— Há certas pessoas que seriam incapazes de distinguir qual porta era vermelha e qual era verde — disse Maomao.
— Não consegue distinguir um do outro? — perguntou Jinshi, intrigado. Sua Majestade parecia igualmente perplexo. Os dois eram pessoas tão diferentes, mas com aquela expressão de confusão no rosto, pareciam estranhamente semelhantes.
— Sim — respondeu Maomao — e assim eles escolheriam a porta que tivessem certeza de que não era vermelha.
Essa seria a azul. A primeira câmara reduziria o número de candidatos pela metade.
— A próxima sala é igual. Se você não conseguisse distinguir entre preto e vermelho, escolheria a porta branca. — E metade dos candidatos restantes seria eliminado novamente.
Em cada sala, parecia haver duas respostas corretas possíveis, mas na verdade havia apenas uma. O enigma final funcionava da mesma maneira. Como o candidato teria certeza de que a porta branca era branca e a preta, preta, ele presumiria que a porta final deveria ser a vermelha. Não era, é claro; era verde, mas como qualquer pessoa que tivesse chegado tão longe seria incapaz de distinguir vermelho de verde, ela não saberia disso.
Na primeira sala, apenas metade dos que entravam no santuário escolhiam a porta correta; na segunda sala, um quarto dos que entravam acertavam, e na nona porta, apenas um em cada 512 pessoas fazia a escolha certa.
— E o que tudo isso significa? — perguntou Jinshi, ainda visivelmente perplexo.
— Significa que aqueles que são escolhidos por este santuário, aqueles que provam ser filhos de Wang Mu, têm uma coisa em comum: não conseguem distinguir cores.
É claro que eles conseguiam ver algumas cores. As diferenças individuais significavam que algumas pessoas ainda fariam escolhas erradas e, inversamente, era possível que algumas simplesmente tivessem adivinhado errado. Mas bastava que retornassem com alguém cujo sangue fosse mais próximo ao de Wang Mu. Era por isso que as concubinas tinham permissão para entrar no santuário.
— Não é comum neste país, mas no Ocidente, periodicamente, pessoas nascem incapazes de distinguir entre vermelho e verde — disse Maomao. Seu pai lhe contou que, aproximadamente, uma em cada dez pessoas no país onde ele estudou apresentava essa condição. Era evidentemente menos comum em mulheres do que em homens. Era hereditário, transmitido de pais para filhos, e embora pudesse ser um obstáculo no dia a dia, também era possível se adaptar a ela de forma que os outros jamais percebessem que a pessoa possuía essa característica.
Foi por isso que o velho eunuco disse que o pai de Maomao talvez entendesse.
— Alguns também afirmam — continuou ela — que quanto mais dificuldade alguém tem em distinguir cores, melhor é sua visão noturna. — Ela nunca havia investigado essa afirmação pessoalmente, então não podia ter certeza. No entanto, para uma característica tão profundamente desafiadora persistir até os dias atuais, era provável que ocorresse juntamente com algum benefício excepcional. — E acredito que na história da fundação, é dito que Wang Mu é capaz de enxergar claramente mesmo em uma noite escura.
Wang Mu veio de uma terra distante e trazia consigo uma deficiência que não existia aqui antes: a incapacidade de distinguir cores. Não deve ter sido fácil para ela e para os criados que a acompanhavam começar uma nova vida neste lugar. Talvez a solução fosse o casamento. Na história, Wang Mu não tinha marido, mas seria razoável supor que ela se casaria com o chefe da região. Não era incomum que pessoas de outras terras fossem tomadas como cônjuges para ajudar a diluir o sangue que se tornou muito concentrado. Se esse cônjuge tivesse autoridade local, melhor ainda. Isso explicaria por que as pessoas daqui valorizavam a descendência patrilinear, apesar de traçarem sua ancestralidade até Wang Mu.
No entanto, Wang Mu, ou talvez alguém que a acompanhasse, não queria que a linhagem por si só determinasse a sucessão; em vez disso, embora se mantivesse a linhagem do chefe, criou-se uma forma diferente de discernir se uma pessoa havia herdado o sangue de Wang Mu: o Santuário da Escolha.
A passagem de tempo distorceu lentamente a verdade dos fatos. Quando um povo estranho com tecnologia estranha chega a um lugar novo, com o tempo, eles são absorvidos pela população local, geração após geração. Um método mais simples era deixar um registro escrito. A história de Wang Mu foi escrita em caracteres que a população local não conhecia, e à medida que aqueles que testemunharam sua chegada foram morrendo, a história se tornou a verdade. Uma conquista paciente e pacífica.
Não que eu possa dizer isso a eles, pensou Maomao. Ela então explicou tudo a Jinshi e ao Imperador, omitindo as partes mais inconvenientes. Talvez eles olhassem com desdém para alguns pontos, mas ela duvidava que eles fossem se aprofundar muito no assunto, e nem queria que o fizessem. Todos ficariam mais felizes assim. Então Maomao contou a história aos poucos, evitando dizer qualquer coisa que achasse que seu velho não lhes teria contado.
— Então você está dizendo que o sangue de Wang Mu não corre nas minhas veias? É verdade que minha mãe não era de linhagem real, nem minha avó, a imperatriz reinante.
Maomao balançou a cabeça. — Este santuário existe apenas como uma forma de ter certeza da presença do sangue, não para provar que não existe. Às vezes, uma característica pode ser vista no pai ou na mãe, mas não aparece na criança.
Havia também, é claro, sempre a possibilidade de que a venerada mãe do Imperador tivesse sido infiel, mas ela guardaria isso para si.
[Kessel: Acho que ela ainda considera importante manter a cabeça no lugar, kkk]
— Em todo caso, permitir que o sangue fique muito concentrado pode trazer sérios problemas. — Todos os irmãos mais velhos do antigo imperador morreram da mesma epidemia, por exemplo, provavelmente junto com muitos outros parentes próximos. — Talvez seja resultado de tentar demais satisfazer o santuário.
Quando Maomao terminou sua explicação, ouviu palmas: o velho eunuco estava aplaudindo.
— Jamais imaginei que alguém como essa moça pudesse realmente desvendar o enigma — disse ele. Bem, ele podia ser rude às vezes. — Dizem que Wang Mu chegou a governar estas terras por causa de sua sabedoria incomparável. — Afinal, só um intelecto verdadeiramente brilhante poderia conceber algo como aquele santuário como forma de perpetuar sua linhagem. — Se deseja diluir ainda mais o sangue, sugiro que inclua alguém como essa jovem em seu séquito.
Com licença?
O que aquele velho gagá estava pensando? Maomao teve vontade de tirar um sapato e atirar nele.
— Por mais engraçado que isso possa parecer, prefiro não arranjar inimizade com o Lakan. E, talvez ainda mais importante, o busto dela teria que crescer mais uns quinze centímetros primeiro!
Primeiro: quão intimidado ele era pelo "raposa estrategista"? E segundo: sério?
— Admito que muitos não aprovariam isso — disse o velho eunuco. Ele olhou para o horizonte por um segundo e depois lançou um olhar para Maomao. — Seja cautelosa.
— Estou bem ciente disso — disse o Imperador.
— Eu sei que sim, Majestade — disse o eunuco, desta vez olhando para Jinshi. — Seja cauteloso — repetiu ele.
Jinshi acenou sem dizer nada.
Quem será esse sujeito? Maomao se perguntou. Um simples eunuco que conquistou o favor do Imperador? Não importava. Maomao não via nenhum benefício em saber a resposta. Talvez não importasse quem ele fosse. Ela preferia deixar as coisas como estavam. A ignorância, como diziam, era uma bênção.
Contudo, ela também ignorava outra coisa: que ainda teria motivos para se arrepender daquilo que desconhecia.
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