Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: noelletokito


Volume 3

Capítulo 11: A Terceira Vez é Certeira (Parte 2)

Havia uma grande agitação no local. As pessoas corriam para ver o que estava acontecendo. O elegante hall de entrada já estava lotado de mulheres da corte, incluindo criadas que permaneciam boquiabertas com panos de limpeza ainda nas mãos, completamente alheias ao fato de que estavam limpando corrimãos e caixilhos de janelas.

— Posso perguntar a razão da visita? — perguntou uma senhora com as sobrancelhas franzidas. Ela olhava diretamente para o único médico presente no palácio interno.

Isso era muito incomum. O médico quase nunca saía do consultório; fazia quase um ano desde a última vez que tinha sido visto no Pavilhão Cristal. Como podia ele aparecer por ali depois da morte do jovem príncipe? Sua reputação agora era a de um médico apenas no título, incompetente em todo o redto. Permaneceu naquele jardim de mulheres, impune, principalmente porque não havia ninguém para substituí-lo.

E agora, ali estava ele. O que ele queria?

O médico carregava um embrulho enorme e uma dama da corte o seguia. A mulher era magra a ponto de parecer frágil; seus movimentos eram eficientes e precisos. Em sua boca (que mantinha fechada) havia um toque de batom vermelho vivo, e um leve rubor nas bochechas.

Existe uma mulher assim no palácio interno? Perguntaram-se. E não seria mais típico que o médico eunuco fosse auxiliado por outro eunuco? Talvez estivessem enganadas. De qualquer forma, havia duas mil mulheres ali no palácio. Não seria tão surpreendente se houvesse uma ou duas que não reconhecessem.

Como todas as outras estavam ocupadas cochichando, ela tomou a iniciativa de dar um passo à frente. — Podemos ajudar? — Ao ouvi-la falar, as outras damas imediatamente pararam de conversar. As criadas prontamente retornaram às suas tarefas, embora a demora não tenha passado despercebida. Ela podia não conhecer todos os rostos no palácio interno, mas certamente conhecia todos os rostos aqui no Pavilhão Cristal. Seu nome era Shin, e esse era o seu trabalho.

Ela chegou com Lihua quando esta foi escolhida como concubina e, desde então, vinha trabalhando para conquistar o afeto do Imperador.

— Gostaríamos de ver a Concubina Sábia, se possível — disse o médico. Shin estreitou os olhos. “Concubina Sábia” não era uma expressão que ela queria ouvir daquele homem.

— Peço desculpas, senhor — disse ela. — Não creio que Lady Lihua deseje vê-lo.

O rosto do médico, com seu ridículo bigode se fechou diante da recusa educada. Seus pelos faciais eram verdadeiramente patéticos; como eunuco, ele não conseguia mais cultivar um bigode digno de um homem. Ele estava tão distante do Imperador, com sua gloriosa barba, quanto as nuvens estão da terra.

O eunuco olhou para trás com uma expressão de angústia. A dama da corte atrás dele, com um ar de notável competência, sussurrou-lhe ao ouvido. O eunuco, hesitante, enfiou a mão nas dobras de sua túnica e retirou um pedaço de pergaminho. — Temos uma carta, sabe? — O pergaminho estava coberto de uma caligrafia cursiva e continha instruções para que o médico fosse autorizado a entrar na residência. O nome no final era: Jinshi.

Jinshi era a primeira pessoa em quem qualquer um no palácio interno pensaria ao ouvir as palavras "eunuco deslumbrante". Ele era tão encantador que, se fosse mulher, poderia ter levado o país à loucura, mas não era mulher. Tampouco homem.

Ele era tão belo que até mesmo Shin suspirava, apesar de si mesma, mas, ao contrário das outras damas da corte, não despertava nela nenhum sentimento além disso. Ao refletir sobre o motivo de sua ida ao palácio interno, ela percebeu que não tinha tempo para se distrair com eunucos. Era vital conquistar o afeto do Imperador, não apenas por si mesma, mas pelo bem de seu clã. Esse pensamento foi incutido nela e em Lihua desde a infância.

A mãe de Shin era a irmã mais velha do pai de Lihua. Shin e Lihua tinham a mesma idade; por isso, entraram juntas no palácio interno, e Shin passou a supervisionar o Pavilhão Cristal, onde agora residem. Todas as damas de companhia do Pavilhão Cristal eram filhas de famílias proeminentes, de sangue digno de servir Sua Majestade.

— Muito bem, então — Shin não gostou, mas sabia quando estava sendo derrotada. Resolveu mostrar o interior aos visitantes. Poderia ter deixado a tarefa para uma das outras mulheres, mas se o médico estava ali a mando do eunuco que supervisionava todo o palácio interno, isso mudava tudo. Ela se perguntava o que ele pretendia. O médico geralmente só aparecia na residência de uma concubina quando ela não se sentia bem, mas Lihua não demonstrava nenhum sinal de doença. Shin estava constantemente ao seu lado; saberia se Lihua estivesse doente. Mas hoje, como em todos os outros dias, a concubina havia tomado o café da manhã com apetite; portanto sentia-se perfeitamente bem.

Enquanto Shin tentava decifrar o significado daquela visita, percebeu que não ouvia mais passos atrás dela. Olhou para trás e viu que o médico e sua assistente haviam parado. Estavam observando uma pequena construção, algo como uma cabana ou barracão, perto do jardim. O quarto de Lihua ainda ficava longe, o cômodo mais interno no último andar do pavilhão. Era apenas uma das pequenas construções anexas no caminho.

— Algum problema? — perguntou Shin.

— Ah, não, eu estava apenas me perguntando o que seria aquele pequeno prédio.

— É apenas um depósito. — Shin estava impaciente para levá-los até a concubina; por que estavam perdendo tempo perguntando sobre prédios aleatórios?

O Pavilhão Cristal foi ampliado quando tudo indicava que seria a residência do herdeiro aparente. Seria tão estranho assim haver banhos independentes ou depósitos? E havia aquela garota sardenta e esquisita que apareceu no ano passado e mandou construir uma coisa bizarra ao lado do banho. Uma sauna, ela chamava, mas Shin não gostava muito, embora Lihua a usasse de vez em quando.

Apesar de Shin ter dito que o galpão era para armazenamento comum, a dama da corte que o médico trouxe consigo não parava de encará-lo. O que ela achava tão interessante ali? Um arbusto com flores amarelas crescia perto da janela, mas essa era a única coisa que diferenciava o lugar.

Era apenas um depósito. Eles precisavam seguir em frente.

A dama da corte puxou a manga do eunuco, sussurrando novamente em seu ouvido. O eunuco franziu a testa e disse a Shin: — Vocês fizeram alguma coisa diferente neste jardim ultimamente?

— Não — respondeu Shin. — Deixamos isso a cargo do jardineiro.

— Entendo, entendo.

Então, uma onda de dúvida tomou conta de Shin. Aquelas plantas sempre estiveram ali? Quando o jardineiro fez aquilo?

O eunuco silenciou, mas a dama da corte cutucou-o novamente. Ele estufou as bochechas, era fácil decifrá-lo, mas a expressão da dama da corte permaneceu inalterada enquanto ela se virava para Shin. Seus olhos escuros fitavam a chefe das damas de companhia, que não disse nada, apenas tentou desviar o olhar.

[Kessel: Só para evitar confusões com a Hongniang. Basicamente, todas as concubinas possuem possuem damas de companhia em seu serviço. No caso das Concubinas de Alto Escalão (Gyokuyou, Lihua, Loulan e Lishu), por possuírem muitas, elas também possuem uma dama de companhia retratada como chefe das demais. No caso da Gyokuyou, é a Hongniang. E no caso da Lihua, é a Shin! 

Aproveitando a explicação, o termo “Dama da Corte” refere-se ao “Palace Women”, um termo mais amplo e genérico relacionado às mulheres que trabalham no palácio. Ou seja, a Shin também é uma “dama da corte”, e tem como função ser a chefe das damas de companhia da Concubina Lihua. A Xiaolan, amiga da Maomao, também é uma dama da corte, ainda que sua função seja a de serva/empregada de menor importância. E é claro, a própria Maomao é uma dama da corte!

Mas é importante não confundir com as concubinas em si, pois estas são mulheres que não trabalham no palácio, mas vivem nele. Elas são consideradas amantes do Imperador, em outras palavras, as mulheres que o Imperador escolheu para serem suas. Existem cerca de cem concubinas no palácio interno, de acordo com a obra, divididas em baixo, médio e alto escalão. Normalmente somos apresentados apenas às quatro principais concubinas, mas já tivemos contato com outras, como por exemplo a concubina de médio escalão que foi vendida para um oficial militar, lembram-se? Seu nome era Fuyou, isso aconteceu no Volume 1. Ou até agora mais recente, no Capítulo 6 desse mesmo Volume, quando Maomao investigou a morte da Concubina Jin, também de médio escalão.]

— Você está usando perfume hoje, não é? — perguntou a dama da corte. Sua voz soava... familiar, de alguma forma. Então, aquela boca graciosa começou a se contorcer — ela estava sorrindo, mas não de uma forma amigável. Havia uma selvageria na expressão, como a de uma fera selvagem observando sua presa.

Shin ficou sem palavras.

— Já faz um tempo, Lady Shin. Peço desculpas pela minha grosseria da última vez que estive aqui. — Seu rosto, com a generosa camada de pó clareador, os olhos cuidadosamente delineados e as longas sobrancelhas, aproximou-se. Os acessórios ostensivos que usava desviavam a atenção do formato do seu rosto, mas era redondo e jovem.

E o jeito como ela olhava... Shin se lembrou daquele olhar. Sentiu um arrepio percorrer suas veias. Sabia por experiência própria que aquela mulher geralmente significava problemas. Ela tinha vindo ao Pavilhão Cristal pela primeira vez no ano anterior. Cuidou de Lihua com afinco, mas durante esse tempo também fez uma série de coisas escandalosas que deixaram metade das damas ali sem coragem para desafiá-la.

Shin não era uma delas, mas, afinal, a mulher tinha reaparecido recentemente e praticamente arrancado as roupas de Shin. Digamos que ela não era alguém com quem Shin desejasse ter qualquer contato.

A mulher continuou a encará-la; Shin se viu involuntariamente recuando.

Foi nesse instante que o médico correu repentinamente para o jardim. O homenzinho rechonchudo parecia estar tentando chegar ao depósito. Shin tentou ir atrás dele, mas encontrou seu caminho bloqueado pela mulher desagradável. Shin a empurrou e tentou perseguir o eunuco, mas já era tarde demais.

Ele segurava a tranca da porta com a mão e permanecia ali, em silêncio, atônito. Um odor peculiar emanava da entrada. Era o mesmo cheiro que Lihua emanou certa vez: o fedor de uma pessoa doente à beira da morte.

A outra dama da corte esfregava o traseiro, talvez tivesse caído quando Shin a empurrou, mas não parecia particularmente preocupada. Havia apenas uma leve ruga na testa. Ela agarrou o embrulho que o eunuco carregava.

Sem se dar ao trabalho de sussurrar, ela gritou: — Água quente! Ferva água imediatamente, por favor! — E correu para o galpão.

A paciente estava deitada em uma cama improvisada, feita apenas de esteiras de palha trançadas empilhadas umas sobre as outras. Ela era uma das lavadeiras.

— Sim, claro, senhorita — disse o eunuco, disparando as palavras tão depressa que seu queixo chegou a tremer.

A dama da corte deu à criada o que parecia ser água, depois se virou para Shin. — Por que ela está aqui?

— Precisa mesmo perguntar? Estamos isolando ela para que ninguém mais fique doente. É o mínimo que se espera.

A dama da corte obviamente queria rebater, mas se conteve. Em vez disso, disse: 

— De fato, é. No entanto...

A serva estava tossindo, mas não parecia normal. A visitante pressionou um lenço contra a boca dela enquanto ela tossia, e quando o retirou, ele estava salpicado de vermelho.

— É verdade, esta é uma doença contagiosa. Não é altamente transmissível, mas uma coisa é certa: se você continuar a tratá-la assim, ela vai morrer. Mas o que é uma serva morta, não é? — Ela se afastou da mulher doente, prestes a entrar mais no galpão. Antes que percebesse o que estava fazendo, Shin tentou agarrá-la pelo ombro, tentou impedi-la, mas a intrusa escapou facilmente de seu aperto.

Não! Isso é…

Shin tropeçou numa caixa de vime ao tentar mais uma vez impedir a mulher, mas agora era tarde demais. A mulher estava pegando algo: uma caixinha.

— Quando entrei nesta sala, me vieram à mente lembranças — disse ela. — Lembranças de quando a Concubina Lihua estava doente.

— O que isso tem a ver com isto?

— Você estava queimando incenso para tentar disfarçar o cheiro.

Sim, mas e daí? Shin estendeu a mão para pegar a caixa de volta.

— Notei algo semelhante quando entrei aqui. Mas desta vez, ao contrário — A mulher abriu a caixa, revelando uma coleção de pequenos frascos coloridos. — Parece que você está usando esta mulher doente para disfarçar o aroma destes perfumes — Ela abriu um dos frascos e cheirou com cautela. — As damas do Pavilhão Cristal gostam de seus segredos. E de deixar eunucos inocentes levarem a culpa.

A mulher tinha aberto um frasco de óleo perfumado, algo que veio da caravana outro dia. A maioria dos frascos tinha sido confiscado pelos eunucos.

— Cada um deles individualmente é apenas minimamente tóxico, mas se você os combinar, quem sabe? — disse a mulher melodicamente, com os olhos semicerrados enquanto sorria. Então, Maomao perguntou a Shin: — O que exatamente você está fazendo, tentando criar um remédio para induzir um aborto?

○●○

E agora, o que fazer? Maomao pensou enquanto enxugava o rosto com um lenço. Ela detestava a sensação do pó clareador, e o blush simplesmente não saía. Mais tarde, teria que lavar bem o cabelo, que havia penteado com óleo perfumado. Para disfarçar os olhos relativamente inexpressivos, cortou as pontas do cabelo bem curtas e as colou perto dos olhos. Usava uma saia mais comprida que o habitual, escondendo sapatos de salto alto que a faziam parecer mais alta, mas talvez isso não fosse necessário.

Afinal, as damas do Pavilhão Cristal mal tinham reparado nela.

Sentindo-se um pouco abatida, Maomao tirou os sapatos de salto. Ela também trocou de roupa, pois a mulher doente havia tossido catarro nela enquanto Maomao a examinava. A doença era apenas levemente contagiosa, é verdade, mas ela não ia sair por aí com aquelas roupas e pediu uma nova por precaução. Tiveram que se contentar com um traje de dama de companhia do Pavilhão Cristal, que, no entanto, não era muito prático. Mais do que tudo, Maomao queria um banho, mas não havia essa possibilidade, então desistiu da ideia.

Finalmente com uma aparência um pouco mais apresentável, ela entrou na sala onde todos a aguardavam.

As pessoas reunidas na sala de recepção tinham semblantes sombrios. Estavam vestidas com as mais refinadas roupas, e quando Maomao entrou, já sem maquiagem, sentiu-se completamente deslocada.

A Concubina Lihua estava presente, assim como Jinshi e Gaoshun, e uma mulher esguia com um rosto típico de beleza clássica. A um comando de Lihua, as demais damas de companhia se retiraram. O médico charlatão parecia desejar ardentemente estar ali, mas tinha outras obrigações e decidiu priorizá-las. Francamente, sua presença não teria sido de grande ajuda.

A bela mulher era Shin, a chefe das damas de companhia da Concubina Lihua. Elas eram primas e, como mulher de sangue ilustre, Shin tinha um ar orgulhoso; para ser justa, era bonita o suficiente para atrair olhares até mesmo aqui, no palácio interno. Seu rosto lembrava vagamente o de Lihua, talvez outro sinal da ligação familiar. Ela era apenas uma dama de companhia, mas seu status social poderia tê-la qualificado para uma posição tão elevada quanto a de uma concubina de médio escalão.

Então, foi por isso que ela foi nomeada chefe das damas de companhia?

As concubinas não eram as únicas que podiam conquistar o afeto do Imperador. Casos em que até mesmo humildes criadas caíram sob o olhar imperial e se tornaram mães da pátria não eram totalmente desconhecidos nos livros de história. Então, por que ter apenas uma bela flor em um só lugar quando se poderia ter, por assim dizer, um buquê?

Se uma dama de companhia se tornasse companheira do Imperador, e essa dama tivesse uma origem social suficientemente distinta para justificar o título de concubina, este lhe seria quase certamente concedido de imediato.

Então, o que isso significa para elas? Maomao se perguntou. Ela não sabia nada sobre o histórico familiar de Lihua, mas podia imaginar que os sentimentos entre ela e Shin deviam ser complexos. Certamente, seria reconfortante forjar um laço de confiança que transcende tais conflitos.

Que sorte tem a Concubina Gyokuyou. Sua chefe das damas de companhia, Hongniang, não foi designada para servir a um propósito específico, mas parecia existir unicamente para supervisionar as mulheres de Gyokuyou. A serviço dessa causa, ela até mesmo perdeu a oportunidade de se casar, então espera-se que Gyokuyou consiga arranjar um bom casamento para ela algum dia. As outras damas de companhia da concubina também eram todas doces e atraentes, mas nenhuma delas nutria ambições de despertar o interesse do Imperador.

Mas quanto às damas de companhia da Concubina Lihua...

— O que significa isto? — Jinshi exigiu, batendo com o punho na mesa. Sobre a mesa havia uma coleção de óleos de perfume e especiarias: os mesmos que haviam sido encontrados no quarto da mulher doente. Nenhum deles, de forma isolada era particularmente notável, mas juntos produziam um aroma perceptível.

Um aroma que impregnava a chefe das damas de companhia Shin. Mesmo que da última vez que Maomao esteve ali, ela não usasse perfume algum. Isso significava que suas compras não haviam sido confiscadas? Ou ela simplesmente conseguiu escondê-las?

Shin ficou parada em silêncio, com os olhos fechados.

Não vai falar nada, é?

Seu crime foi duplo: não apenas possuir as substâncias proibidas, mas também tentar usá-las para fazer algum tipo de mistura. Isolar uma serva em um depósito provavelmente não seria considerado uma ofensa. Retirar a mulher doente da residência principal para evitar a propagação da doença foi uma resposta apropriada. Com apenas um médico para todo o palácio interno, as servas muitas vezes não eram atendidas imediatamente.

Mas o consultório médico está tão cheio que praticamente está se transformando em um café para eunucos.

Uma simples serva talvez nem sequer se sentisse à vontade para ir à clínica. Nem todos gostavam de ver mulheres assumindo o controle dos cuidados médicos. Se alguém morresse por causa dessa atitude, era um incômodo, mas nada mais. As servas eram simplesmente descartáveis.

Jinshi usaria as evidências à sua frente para provar qualquer irregularidade que pudesse, mas Shin permanecia de pé, como se não soubesse de nada daquilo. Além disso, sua família era importante o suficiente para que ela pudesse se opor à investigação, não importando o que ele dissesse.

A mais enigmática de todas na sala era a Concubina Lihua, que simplesmente olhou para sua chefe das damas de companhia, com as sobrancelhas franzidas. A expressão era de... tristeza.

Shin se recusou a olhar para o chão e encarou o eunuco.

Hum. Essa mulher tem garra. A maioria das damas da corte teria se intimidado sob o interrogatório de Jinshi, mas parecia que seus poderes quase sobrenaturais não funcionavam com essa oponente.

— Não tenho a mínima ideia do que você quer dizer — disse Shin. — É verdade, fui eu quem ordenou que aquela serva fosse transferida para aquele prédio. Mas acho que há um problema muito mais óbvio aqui: visitantes que aparecem do nada exigindo ver Lady Lihua e depois invadem nossos depósitos. Você não concorda?

Seu tom era seco e confiante. Era verdade; não havia como provar que os itens encontrados no depósito pertenciam a ela. Como o prédio abrigava uma pessoa doente, era improvável que alguém tivesse muito contato com ela além de levar-lhe refeições, mas, por outro lado, quase qualquer pessoa poderia ter entrado lá.

— Então, basta perguntarmos à própria empregada.

— Se você acredita que pode confiar na palavra de uma mulher que está ardendo em febre.

— Então você sabia que ela estava com febre alta — interrompeu Maomao. A expressão de Shin mudou; ela pareceu ressentida com a intromissão. — Que gentileza sua — continuou Maomao. — Se dar ao trabalho de ver como uma simples serva estava se sentindo. Suponho que isso explique, então, como o cheiro deste perfume impregnou em você. — Seu tom era descarado enquanto pegava um dos frasquinhos sobre a mesa.

Muito bem, hora de dar um tempo, pensou Maomao, mas seu corpo não a obedecia; continuava se movendo. Ela não gostava nem um pouco disso, mas havia coisas que a irritavam tanto que as preocupações com sua posição social desapareciam.

— É assim que você cheira. Este óleo perfumado. Mesmo estando guardado cuidadosamente dentro de um baú de vime. Será que o cheiro é mesmo tão forte a ponto de vazar desse jeito? Talvez eu possa verificar?

Maomao tentou agarrar a manga de Shin, mas a dama de companhia foi mais rápida. Ela se afastou, arranhando ao mesmo tempo a bochecha de Maomao com suas longas unhas.

A sala começou a se agitar. Maomao passou o polegar pelos cortes. Eles haviam perfurado a pele, mas não estavam sangrando. — Peço desculpas — disse ela. — Não é apropriado que alguém da minha posição inferior toque em alguém do seu nível. Deveríamos designar outra pessoa, alguém mais apropriado, para realizar a investigação.

Ela falou com indiferença enquanto todos os olhares na sala se fixaram em Shin. A outra mulher mal conseguia conter uma carranca, e seus olhos estavam injetados de sangue. Um cheiro desagradável de suor emanava dela. Suas pupilas estavam dilatadas.

As pessoas transpiram quando ficam nervosas, mas é um suor brilhante, diferente daquele produzido pelo exercício físico. O odor forte pode incomodar até mesmo quem o produz. Os olhos também mudam quando uma pessoa está ansiosa. Embora não seja tão óbvio quanto nos gatos, as pupilas humanas mudam de tamanho. Isso era mais perceptível na Concubina Gyokuyou, que tinha íris mais claras, do que na maioria das pessoas; por isso, durante os chás com outras concubinas, era comum vê-la semicerrar os olhos levemente enquanto ria.

Só mais um empurrão... Maomao tinha acabado de dar um passo à frente quando alguém disse:

— Talvez eu seja mais indicada para lidar com o assunto, então.

A voz era firme, mas não arrogante. Pertencia à Concubina Lihua, que se levantou do sofá, sua longa saia farfalhando enquanto caminhava em direção a Maomao… não, em direção a Shin, que estava parada bem em frente a Maomao.

Hum? As roupas de Lihua eram bem parecidas com as que Gyokuyou vinha usando ultimamente. Faria sentido, se ela também tivesse comprado roupas da caravana.

— De que crime ela seria acusada?

— Lady Lihua… — disse Shin. Havia uma grande mistura de emoções conflitantes em seus olhos, mas desespero não era uma delas. Ela se recusou a implorar.

— Se for comprovado que ela sequer tentou criar uma droga capaz de provocar um aborto, será considerado o mesmo que assassinar o filho do Imperador — Jinshi fechou os olhos, sabendo que era tudo o que tinha a dizer.

— Entendo — disse Lihua suavemente. — E isso seria válido independentemente de qual concubina fosse o alvo dela?

— As concubinas de baixo, médio e alto escalão são todas iguais nesse aspecto.

Lihua baixou os olhos para o chão e depois olhou para Shin.

Um pensamento passou pela cabeça de Maomao: os nomes Lihua e Shin formavam uma espécie de par, significando "flor de pêra" e "damasco", respectivamente. Essa mulher, Shin, certamente não parecia pouco inteligente para Maomao. No entanto, o mundo estava cheio de pessoas perfeitamente inteligentes que faziam coisas estúpidas, muitas vezes quando deixavam suas emoções as dominarem e as levavam a cometer um erro. Shin, pensou Maomao, poderia ser uma delas.

Então Lihua desferiu o golpe de misericórdia: — Mesmo que sua única vítima pretendida fosse eu mesma?

— Concubina! — exclamou Jinshi, inclinando-se para a frente. — Você está falando sério? — Gaoshun também estava com os olhos arregalados.

Para Maomao, no entanto, a pergunta de Lihua fez tudo se encaixar. Ela sempre achou estranho que uma mulher tão capaz como Lihua tivesse tanta dificuldade em encontrar damas de companhia decentes. Certamente, ela deveria ter atraído criadas melhores.

Não tinha sido culpa dela. Quem formou o grupo de damas de companhia no Pavilhão Cristal foi ninguém menos que Shin.

Após o incidente com o pó facial tóxico, uma dama de companhia foi obrigada a se retirar, mas as que estavam acima dela continuaram seu trabalho sem interrupções. E agora, Lihua confrontou sua chefe das damas de companhia...

— Shin. Você nunca me tratou como convém a uma verdadeira concubina. Suponho que você nunca achou que eu merecesse ser a mãe da nação.

Isso também soou verdadeiro para Maomao. Ela tinha reparado que Shin nunca se referia a Lihua como "Concubina".

— Você e eu... Até o último instante, não sabíamos qual de nós seria a concubina, não é? — A voz de Lihua era triste. Ela sentia verdadeira compaixão por Shin. Mas será que Shin sentia o mesmo? Ela mordeu o lábio e olhou para Lihua, os olhos faiscando de ressentimento.

— Como ousa falar comigo dessa forma? — zombou a chefe das damas de companhia. — Sempre detestei isso em você. Eu era uma aluna melhor do que você. Eu era melhor em quase tudo do que você. Então, por que todos te bajulavam?"

Maomao observou em silêncio o tamanho dos seios, mas teve a decência de se sentir mal com o pensamento assim que ele surgiu. Afinal, Shin também não era exatamente pequena. Não, espere, esse não era o ponto.

Não se tratava de ter seios maiores, mas de ser uma pessoa melhor.

— É porque você era filha do chefe da nossa família? Você achou que isso a tornava melhor do que eu? Não me faça rir. Fui criada a vida toda para ser uma mãe para esta nação. — Shin parecia uma loba mostrando as presas. Pensando que a chefe das damas de companhia poderia atacar a concubina a qualquer momento, Maomao tentou se colocar entre as duas mulheres, mas Gaoshun e Jinshi já estavam lá.

— Posso entender que você está admitindo as acusações? — disse Jinshi.

Em resposta, Shin pegou o frasco de óleo perfumado da mesa e atirou-o em Lihua. Gaoshun deu um tapa no frasco, que se estilhaçou no chão.

— Que você definhe neste jardim, como uma mulher estéril! — Shin cuspiu como se pronunciasse uma maldição, enquanto Gaoshun agarrava suas mãos e a imobilizava. — Como ousa um eunuco me tocar! — ela gritou. — Criatura impura e imunda! — Ela se debateu, mas não tinha esperança de se libertar. Mesmo sendo um eunuco, Gaoshun ainda era um homem. Seus lábios nobres continuavam a proferir um fluxo de insultos obscenos.

Às vezes você encontra gente como ela, pensou Maomao. Quando Shin finalmente precisou parar para respirar antes de retomar seu discurso, Maomao se colocou na frente dela e deu um sorriso irônico.

— O quê? — exigiu Shin.

— Ah, nada. Eu estava apenas pensando: a senhora deve realmente venerar Sua Majestade, Lady Shin.

— Claro que sim! Do que você está falando?

— Para mim, pareceu simplesmente que o que você realmente amava era o status de mãe da nação. Ao contrário da Concubina Lihua. — Maomao deu outro largo sorriso. Shin ficou boquiaberta.

Agora estava muito claro o que a Lihua tinha que a Shin não tinha.

— Shin... Então era assim que você se sentia. — Embora parecesse estar lutando contra as lágrimas, a voz da Concubina Lihua era clara e firme. Então ela parou diante de Shin, ergueu a mão e lhe deu um tapa no rosto.

Acho que esse é o mínimo que ela deveria esperar, pensou Maomao.

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Então, porém, a Concubina Lihua disse algo que nem mesmo Maomao esperava.

— Senhor Jinshi, estou dispensando esta chefe das damas de companhia do meu serviço, devido ao uso de linguagem abusiva contra sua patroa. A ponto de eu mesmo ter que levantar a mão contra ela.

Dessa vez foi a vez de Jinshi ficar boquiaberto. — Concubina...

— Vejo que um gesto de mão aberta não foi enfático o suficiente. — Mesmo enquanto Shin permanecia atordoada pelo tapa, Lihua a agarrou pela gola e fechou o punho. Jinshi e Gaoshun correram para impedi-la. Apenas Maomao se viu impressionada. A dama sabe se defender! Lihua não era mais a concubina de antes, esperando passivamente que o fio de sua vida fosse cortado.

— Dispenso esta mulher do meu serviço. E solicito formalmente que ela nunca mais tenha permissão para entrar no palácio interno sob quaisquer circunstâncias — disse Lihua, com clareza e convicção.

Mesmo que Shin viesse a se tornar a mãe da nação, ela viveria sua vida não para o povo, mas para sua própria posição. Ela buscava apenas o poder; não tinha interesse em cumprir os deveres e responsabilidades que o acompanhavam. A nação não precisava de uma rainha assim.

Shin ainda não havia se recuperado do tapa. Será que ela entendia a misericórdia que lhe estava sendo demonstrada? Ou pensaria que Lihua a havia prejudicado e se ressentiria ainda mais?

Talvez não importe.

Por mais nobre que fosse seu sangue, uma mulher que deixasse o palácio em circunstâncias escandalosas seria incapaz de retaliar contra uma concubina. Pessoalmente, Maomao achava que Lihua estava sendo um pouco branda, mas consideremos a humilhação que esse tratamento deve ter causado a uma mulher tão orgulhosa.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse Jinshi enquanto caminhavam pelos corredores do Pavilhão Cristal. Ele estava olhando para o prédio onde a empregada doente estava deitada na cama.

— Sim, senhor?

— Eu sei que você sabia que a mulher doente estava aqui no Pavilhão Cristal, mas você não sabia exatamente onde ela estava, sabia? Quer dizer, você até se deu ao trabalho de se disfarçar, presumivelmente para que ninguém suspeitasse se você visitasse o local repetidamente.

Ele tinha razão: Maomao usou aquela roupa porque, naquele momento, ela própria era extremamente indesejada ali. Ela percebeu que talvez não conseguisse descobrir onde a doente estava em uma única visita, então tomou cuidado para que as pessoas não soubessem quem ela era. Sim, uma dama da corte acompanhando o médico atraía certa atenção, mas certamente menos do que Maomao teria recebido sem um disfarce.

As servas do Pavilhão Cristal sabiam manter a boca fechada. Ou talvez tivessem aprendido como, por meio da disciplina rigorosa das damas de companhia acima delas, falar em algum lugar onde a Concubina Lihua não pudesse ouvir.

— Ah, mas eu sabia onde ela estava — disse Maomao. Ela já tinha uma ideia de onde uma pessoa doente ficaria: em algum lugar isolado dos aposentos das outras servas, ou em qualquer outro lugar discreto. Quando ela trabalhava aqui em tempo integral, as servas que não se sentiam bem recebiam novos aposentos para garantir que a doença não se espalhasse. Havia até uma área reservada para doentes dentro do pavilhão.

Mas um depósito, nossa!

O odor que emanava de Shin lhe causou uma sensação estranha, mas ela jamais imaginaria que as coisas tivessem chegado a esse ponto. Foi pura sorte ela ter notado o lugar.

— Essa era a minha pista — disse ela, apontando para algumas flores brancas. O arbusto devia ter sido plantado recentemente, porque a terra embaixo dele tinha uma cor diferente do resto do jardim. Era um lugar terrivelmente ruim para ser obra de um jardineiro. Bem ao lado de um galpão. O arbusto dava frutos pretos cheios de um pó branco que se transformaria em pó clareador facial.

— Como assim?

— No feng shui, acredita-se que objetos de cor verde sejam benéficos para a saúde. Supostamente, o ideal é combiná-los com o branco.

[Kessel: Segundo o pai Google, o Feng Shui é uma prática milenar chinesa, traduzida como "vento e água", que visa harmonizar a energia vital (Chi) dos ambientes para melhorar a saúde, relacionamentos e prosperidade dos moradores.]

Brancas, como todas as flores do arbusto. Embora a planta fosse conhecida como flor-branca, ou às vezes como flor-das-quatro-horas, o vermelho era uma cor mais típica para ela. Maomao percebeu que alguém devia ter escolhido especificamente mudas que florescessem de branco.

Ela não se lembrava daquele arbusto ali no Pavilhão Cristal. Alguém o havia plantado, ela não sabia quem, mas devia ter sido alguém que se compadeceu da mulher doente. Maomao sentiu um alívio imenso ao saber que havia pelo menos uma pessoa ali que se compadecia.

Mas a flor branca... Maomao contemplou a ironia do que encontrou na presença da flor, junto com a mulher doente. Soltou um longo suspiro e então percebeu que alguém a observava. Olhou para trás e viu a pessoa meio escondida atrás de uma coluna.

— O que houve? — Jinshi parou e olhou para ela. A pessoa que observava Maomao parecia aflita.

— Siga em frente, Mestre Jinshi.

— O quê? Por quê?

— Porque você está no caminho.

Sua resposta direta pareceu irritar Jinshi, mas Gaoshun o acalmou como quem acalma um boi frustrado, dando a Maomao uma nova oportunidade de apreciar o quão bom era ter alguém por perto que realmente conseguia intuir o que estava acontecendo.

Maomao olhou para a mulher escondida atrás da coluna. — O que foi? — perguntou. A outra mulher parecia um pouco mais velha que Maomao, mas também aparentava estar visivelmente intimidada. Por Maomao ou por suas companhias? Era difícil dizer.

— Hum, hum... Sobre a mulher naquele prédio...

Havia uma flor branca e fresca na mão da jovem. Verde e branca: as cores eram inconfundíveis. A mulher tinha uma postura elegante, embora falasse com hesitação.

— Ela não está mais lá. Decidiram que ela deixaria o palácio interno, mas a estão enviando para um lugar onde será mais fácil para ela se recuperar.

A Concubina Lihua, sentindo que a responsabilidade recaía sobre si, ofereceu-se para pagar as despesas médicas da mulher e dar-lhe uma pensão para que ela pudesse viver.

— Ah. Então ela foi embora… — A empregada olhou para o chão, mas ao mesmo tempo, pareceu aliviada. Deixou as mãos roçarem o rosto, tentando esconder as lágrimas que lhe escorriam, depois fez uma reverência a Maomao e voltou ao trabalho.

Atrás dela, havia apenas pequenas pétalas brancas no chão.


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