Volume 3
Capítulo 10: A Terceira Vez é Certeira (Parte 1)
No dia seguinte, Ailan voltou da clínica, mas para desgosto de Maomao, ela própria acabou sendo convocada para lá, pela mesma mulher de meia-idade do palácio que a havia interrogado no dia anterior.
— Então é por isso que querem ver Maomao — disse Gyokuyou a Ailan, com a mão no queixo. Elas estavam na sala de estar, onde Gyokuyou estava deitada, esticada em um sofá. Sua barriga estava bem redonda agora, grande o suficiente para atrapalhar seus movimentos. Ela usava roupas feitas para esconder o volume, mas ainda assim, provavelmente seria melhor evitar tomar chá fora do Pavilhão de Jade durante esse período.
— Sinto muito — disse Ailan. — Eu deveria ter tomado o remédio aqui.
Ao que parecia, Ailan havia tomado o remédio para resfriado que Maomao havia preparado para ela enquanto ainda estava na clínica, onde uma das senhoras a viu e a pressionou para saber onde ela o havia conseguido.
Isso explicaria tudo, pensou Maomao. Remédios não eram permitidos na clínica porque não havia médicos lá, não era permitido que as pessoas simplesmente entrassem com eles. Eles precisavam esclarecer a origem do remédio de Ailan antes que chamasse atenção indesejada.
Maomao estava pensando que o melhor seria ir direto para a clínica, levar a bronca e acabar logo com aquilo, quando Ailan disse algo totalmente inesperado:
— Elas querem saber se podem pegá-la emprestada por um tempo.
— Nossa! — exclamou Gyokuyou, olhando para Maomao com curiosidade. Ailan observava as duas com preocupação.
Maomao só conseguia pensar na dor de cabeça que isso provavelmente lhe traria, mesmo enquanto ponderava sobre os ingredientes para um novo remédio.
No fim das contas, Maomao acabou retornando à clínica praticamente sob escolta. Não foi Ailan quem a acompanhou, mas Yinghua. Ela provavelmente parecia a pessoa certa para a tarefa: mais baixa que Ailan, era, no entanto, mais extrovertida e determinada a enfrentar as coisas de frente.
Embora a clínica estivesse localizada no palácio interno, era uma caminhada longa até lá. Yinghua, sempre tagarela, não conseguia se conter e começou a conversar durante o caminho.
— Ei, Maomao. Depois que você deixou a Ailan ontem, você fez alguma coisa com as lanternas no jardim?
— Você viu aquilo?
Ela estava voltando da clínica (ou melhor, depois de ter encontrado Jinshi e Gaoshun no caminho para casa). Tomada por uma ideia para um novo medicamento, ela imediatamente partiu em busca dos ingredientes.
— Eu só estava procurando os ingredientes para um remédio.
Ela acendeu uma lanterna quando escureceu, atraindo insetos. Assim como uma certa criatura que comia insetos.
— Ingredientes? Diga-me que não eram insetos...
— Não eram insetos.
Apesar das garantias de Maomao, Yinghua continuou franzindo a testa; parecia pressentir que algo ainda menos agradável estava acontecendo. — Hum, Maomao, sobre o seu quarto... Ele está bem cheio de... coisas ultimamente, não acha? Está começando a cheirar a remédio. Lady Hongniang não está nada satisfeita.
— Isso sim é assustador.
— Você não me parece muito assustada.
Nada poderia estar mais longe da verdade, pensou Maomao. A chefe das damas de companhia tinha mãos muito rápidas. Mas, talvez, fosse preciso ser forte assim para sobreviver no palácio interno.
— Acho que um dia desses ela vai te expulsar do seu quarto e te obrigar a morar num galpão no jardim — disse Yinghua com um sorriso irônico.
— Eu adoraria isso.
Um galpão de jardim seria maior do que o seu quarto atual e, mais importante, bem separado dos aposentos das outras mulheres, de modo que ninguém notaria qualquer barulho durante a noite. Isso deixava Maomao louca, pois, apesar de ter descoberto um tesouro de ferramentas sem uso no consultório médico, ela não podia aproveitá-las ali.
— Vou me certificar de conversar sobre isso com a Lady Hongniang — disse Maomao, com os olhos brilhando.
— Hã? Espera, eu… — Elas chegaram à clínica antes que Yinghua pudesse terminar de falar.
— Vamos entrar — disse Maomao.
— Ei, aquilo que eu disse... eu não…
Maomao não ouviu Yinghua com atenção; estava ocupada demais imaginando se, com um prédio próprio, conseguiria trabalhar com fogo. Seu coração se encheu de expectativa.
[Kessel: Não bastava ela ser louca sozinha, ainda dão ideias para ela…]
A mulher de meia-idade chamava-se Shenlü. Ao observá-la atentamente, Maomao notou que seus olhos tinham um tom esverdeado, assim como os da Concubina Gyokuyou. Talvez ela tivesse algum sangue ocidental. A cor de seus olhos também pode ter inspirado seu nome, que significa "verde profundo".
Maomao e Yinghua foram conduzidas ao que parecia ser a recepção da clínica, que tinha um leve cheiro de álcool. Shenlü trouxe chá. Elas se sentaram em uma mesa simples, que parecia robusta e bem usada, assim como as cadeiras e prateleiras ao redor.
— Peço minhas sinceras desculpas pela minha grosseria — começou Shenlü. — Eu não fazia ideia de que você era uma serva da Concubina Preciosa.”
— Não se preocupe com isso — respondeu Maomao.
Shenlü, assim como muitas das mulheres do palácio que não serviam diretamente no Pavilhão de Jade, referia-se a Gyokuyou por seu título. Diferentemente de muitas delas, Maomao não teve uma educação particularmente distinta. Ela estava, em essência, além de sua posição ali.
Shenlü parecia calma e serena, sem qualquer traço do tom maternal firme que havia adotado no dia anterior, quando estava atolada em roupas para lavar. Agora era óbvio que ela era uma dama da corte do palácio interno, devidamente educada.
Eu sabia que ela era sagaz, pensou Maomao. Nem todas as damas do palácio interno sabiam ler e escrever. Para ter ficado ali tanto tempo quanto Shenlü parecia ter ficado, ela devia ser uma mulher muito inteligente. Ou então devia haver algum motivo especial para mantê-la por perto.
Naquele momento, a expressão de Shenlü era um tanto sombria. Seria porque agora ela sabia que Maomao era uma das damas de companhia da Concubina Gyokuyou? Maomao não estava nada satisfeita com a ideia de estar recebendo tratamento especial. As pessoas tinham uma clara tendência a fazer vista grossa quando se tratava dos assuntos das concubinas de alta hierarquia, e de suas damas de companhia. Contudo, Shenlü havia convocado Maomao pessoalmente, um fato que parecia deixá-la quase tão desconfortável quanto Maomao.
Por fim, Shenlü olhou diretamente para Maomao e suspirou. — Tenho um favor que gostaria de lhe pedir.
— Sim, senhora?
Shenlü pareceu momentaneamente surpresa com a naturalidade com que Maomao falava, mas logo se recompôs e disse: "Receio que possa soar um pouco ousado. Você se importa?"
— Por favor, prossiga.
Maomao estava mais do que acostumada a ser tratada com grosseria. Na verdade, ela geralmente era tão culpada disso quanto qualquer um de seus interlocutores, ou pelo menos suspeitava que fosse. Assim, ela tinha a confiança necessária para deixar a maioria das coisas passarem batidas.
“E se eu lhe pedisse para preparar um remédio para uma das damas que servem a Concubina Sábia?”
— O quê? — A reação não veio de Maomao, mas de Yinghua, que bateu as mãos na mesa e se inclinou para a frente. O chá derramou nas xícaras, algumas gotas caindo na mesa, onde deixaram manchas escuras. — Você sabe o que está pedindo?! — Yinghua exigiu.
Shenlü suspirou novamente. — Acredite, eu sei muito bem disso. — Ela olhou para Maomao.
Maomao olhou para trás, percebendo que Shenlü estava falando sério. — Presumo que você tenha algum bom motivo.
— Maomao!
— Sinto muito. Mas não custa nada ouvir o que ela tem a dizer, não é?
Yinghua sentou-se novamente, franzindo as sobrancelhas. Tomou um gole de seu chá, que agora estava frio, e pareceu estar tentando se recompor.
— Talvez você pudesse ter a gentileza de me contar o que está acontecendo — disse Maomao.
— Muito bem — respondeu Shenlü, e começou a contar a história.
— Isso está saindo do controle — disse Yinghua, curvando-se de forma incomum.
— Você não está errada — respondeu Maomao. Ela concordava com Yinghua que aquilo só traria problemas, mas não podia ignorar o que acabou de ouvir. Uma das criadas da residência da Concubina Sábia, Lihua, estava gravemente doente. A paciente encontrava-se no Pavilhão de Cristal naquele exato momento.
Essa empregada costumava lavar roupa na lavanderia do quarteirão norte, então ela e Shenlü acabaram se conhecendo. A empregada desenvolveu uma tosse preocupante há algum tempo, e Shenlü sugeriu que ela descansasse; já fazia cinco dias desde então e Shenlü não tinha visto a mulher.
Talvez ela estivesse lavando roupa em outro lugar, ou talvez a pessoa responsável pela lavanderia tivesse mudado, sugeriu Maomao, mas Shenlü balançou a cabeça negativamente. — Mesmo que seja verdade, eu gostaria que ela viesse fazer um exame pelo menos uma vez.
Então, uma tosse, hein? Maomao pensou. Segundo Shenlü, era uma tosse incomum. Começou vários dias antes da mulher parar de aparecer na lavanderia, mas mesmo antes disso, ela se sentia cansada e tinha uma febre leve, porém persistente. Maomao perguntou se a empregada tinha ido formalmente à clínica, mas aparentemente ela não tinha conseguido autorização.
Que lugar horrível, pensou Maomao. Uma simples criada provavelmente não teria pedido permissão diretamente à Concubina Lihua para ir à clínica; teria falado com uma das damas de companhia, que muito provavelmente a ignorou. Considerando os sintomas, Maomao desejou que não tivessem feito isso.
— Você acha mesmo que ela está lá? — perguntou Yinghua.
— Acredito firmemente que precisamos investigar isso — disse Maomao. Se o que Shenlü lhe contou fosse verdade, eles precisavam lidar com o problema, e logo. Caso contrário, ele poderia se espalhar muito além do Pavilhão de Cristal.
Yinghua observou Maomao atentamente. — Eu sei que esse tipo de coisa chama sua atenção, mas estamos falando do Pavilhão de Cristal. Você precisa esperar pelo menos até que possamos organizar uma visita formal. Você sabe disso, não é? Não pode simplesmente entrar lá sem avisar de novo.
— Eu sei…
Embora Maomao tivesse algum contato com a Concubina Lihua, ela não podia simplesmente aparecer em sua residência. Ela havia cometido esse erro recentemente. Estava desesperada para ir ao Pavilhão de Cristal assim que pudesse, mas as coisas simplesmente não estavam a seu favor. Ela precisava ao menos estar com Jinshi, ou jamais conseguiria entrar.
Certo, entrar em pânico não vai me ajudar em nada. Maomao estava tentando se distrair pensando em outra coisa quando a viu. Ela correu até lá, embora tenha tido que pular algumas vezes como um sapo antes de finalmente conseguir pegá-la.
— Maomao! O que eu estava dizendo mesmo? — Yinghua exclamou, levantando a barra da saia e seguindo-a.
Maomao franziu a testa, sentindo a coisa entre as palmas das mãos. — Desculpe. Não consegui me controlar. Vi algo que estava procurando.
— O quê? Um inseto? Eca!
— Não é um inseto.
E não era. Mas também não era um corpo inteiro. Esse, infelizmente, havia escapado, mas deixou Maomao com o que ela queria. Ela ainda podia senti-lo se contorcendo em suas mãos.
— Olha — disse ela. Abriu as mãos, revelando o rabo de uma lagartixa, que ainda se agitava descontroladamente. Rabos de lagartixa podiam cair, mas também podiam crescer de novo. Essa era a ideia.
Não se pode desistir de nada. No momento em que se desiste, tudo acaba, disse certa vez um imortal. Se você quer criar um novo remédio, primeiro pesquise outras coisas com efeitos semelhantes. E eu quero um remédio que faça as coisas viverem e crescerem. Daí o interesse de Maomao por lagartos, que ela suspeitava que pudessem comer os insetos que se reuniam ao redor das lanternas do jardim.
— Eu queria tentar descobrir como e por que o rabo cresce de novo — disse ela. Ela estava se sentindo bastante satisfeita, mas não houve resposta. Ela olhou para o lado e descobriu que Yinghua, com o rosto pálido e a boca aberta, havia caído para trás.
Maomao enrolou o rabo em um lenço e o enfiou nas dobras de seu robe. Ela acabou tendo que cuidar de Yinghua até que ela se sentisse melhor.
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