Volume 2
Capítulo 9: Lakan
Na noite anterior, Maomao tivera um sonho estranho. Sonhou com algo ocorrido há muito tempo, ou melhor, com algo que devia ter acontecido há muito tempo, já que não havia razão para que ela pudesse se lembrar. Não tinha certeza se o que viu em sonho realmente aconteceu.
Deve ter sido por causa da visita àquela mulher, pensou, enquanto trazia de volta velhas lembranças.
No sonho, uma mulher adulta olhava para Maomao de cima para baixo.
Seus cabelos desgrenhados caíam ao redor de um rosto abatido, e os olhos brilhavam de fome enquanto a fitavam. A maquiagem se desfazia, o batom dos lábios borrava.
A mulher estendeu a mão e segurou a de Maomao. A pele possuía pequenas marcas, como uma folha no outono.
Na outra mão, a mulher empunhava uma faca. A mão que prendia a de Maomao estava enrolada em panos de algodão alvejado, camada sobre camada, todos encharcados de vermelho. O algodão tremulante tinha cheiro de ferrugem.
Algo parecido com o miado de um gatinho escapou da garganta de Maomao. Ela percebeu que chorava.
Sua mão estava pressionada contra a cama. A mulher ergueu a faca bem alto. Seus lábios se contorciam e tremiam, e os olhos vermelhos e inchados ainda vertiam lágrimas.
Mulher tola.
A lâmina desceu.
— Nossa, está cansada? Receio que ainda não é hora de dormir — disse Suiren, ao ver Maomao bocejar. A voz soava polida, mas a velha senhora podia ser uma verdadeira disciplinadora, e assim Maomao endireitou a postura e concentrou-se em polir os talheres de prata. Seria praticamente pedir problemas parecer estar relaxando no dia seguinte à folga. O fato de já ser noite não era desculpa.
— Estou bem, senhora — respondeu Maomao. Era apenas um sonho, estranho ou não. Imaginara que, mergulhando na rotina do trabalho, logo se esqueceria daquilo, mas a lembrança persistira o dia inteiro. Isso não é típico de mim, pensou, com um sorriso amargo que lhe passou pelo rosto.
Quando empilhava os pratos de volta na prateleira (clinc, clinc), ouviu passos apressados. As velas de mel ardiam no aposento. Era hora de seu mestre retornar. Suiren pegou um prato que Maomao havia polido com perfeição e começou a preparar um lanche.
Jinshi atravessou a sala de estar e surgiu na cozinha. — Um presente, de um excêntrico. Divida ela com Suiren. — Colocou uma garrafa sobre a mesa. O “excêntrico” era um oficial particularmente desagradável que vinha incomodando Jinshi ultimamente.
Maomao retirou a rolha e foi recebida por um cheiro ácido, cítrico. Algum tipo de suco, imaginou. — Estamos aceitando presentes de excêntricos agora, é? — perguntou, com a voz absolutamente monótona. Jinshi já havia se retirado para a sala de estar e repousava no sofá. Maomao acrescentou carvões ao braseiro.
Gaoshun observou que estavam no fim o estoque de carvão e deixou o cômodo. Devia estar indo buscar mais, concluiu Maomao. Era um homem confiável.
Jinshi coçou a cabeça vigorosamente (um gesto nada elegante) e olhou para Maomao.
— Você está familiarizada com os frequentadores da Casa Verdigris? — perguntou.
Maomao inclinou a cabeça, surpresa com a pergunta.
— Se são chamativos o bastante, sim.
— Que tipo de pessoas vão até lá?
— Isso é confidencial.
Jinshi franziu o cenho diante da resposta seca. Então pareceu perceber que estava abordando o assunto da forma errada e tentou de outra maneira:
— Deixe-me perguntar de outro modo, então. Como alguém poderia reduzir o preço de uma cortesã? — Escolhia as palavras com incomum cautela.
— Que tema desagradável — bufou Maomao. — Mas existem inúmeras formas. Principalmente quando se trata das mulheres de mais alto nível.
As cortesãs mais renomadas, as mais desejadas, não trabalhavam constantemente. Na verdade, atendiam apenas algumas vezes por mês. Receber clientes todos os dias era tarefa das “andarilhas da noite”, mulheres que precisavam trabalhar para sobreviver. Quanto mais alto o nível de uma cortesã, menos gostava de ser vista. O ato de se esconder fazia os clientes potenciais inflarem, por conta própria, a percepção de seu valor.
Tais mulheres atraíam clientes por meio de seus talentos como o canto, dança, habilidades musicais ou outras facetas de sua educação. Na Casa Verdigris as aprendizes recebiam formação básica e eram então separadas entre aquelas com boa aparência e potencial e as que não possuíam tais atributos. Estas últimas começavam a receber clientes assim que estreavam. Não vendiam suas artes, mas seus corpos.
Já as que demonstravam potencial iniciavam servindo chá aos clientes. As que dominavam a arte de encantar pela conversa ou de fascinar pela inteligência elevavam seu valor. Mantendo uma cortesã popular longe de muitos clientes, podia-se criar uma mulher que cobrava o equivalente a um ano de salários em prata apenas para compartilhar uma bebida. Nesse sistema, havia até mulheres que chegavam ao fim de suas carreiras, quando seus contratos eram comprados, sem jamais terem sido tocadas por um cliente. Isso alimentava as fantasias masculinas; todos queriam ser os primeiros a colher tal flor.
— Uma flor tem valor porque é intocada — disse Maomao, acendendo um incenso suave. Fazia-o por Jinshi, que parecia cansado ultimamente, mas, naquela noite, talvez servisse também para si mesma. — Quando alguém a colhe, seu valor imediatamente cai pela metade. Mas há mais... — Suspirou suavemente e aspirou fundo o aroma do incenso. — Se tal mulher viesse a engravidar, seu valor se tornaria praticamente nulo. — A mesma voz desprovida de emoção.
Tudo por causa daquele sonho estúpido.
○●○
Jinshi soltou um suspiro profundo ao carimbar um documento. Perguntava-se o que estava acontecendo. A fala da filha do apotecário na noite anterior o incomodava. Ela parecia tão solene.
E então, convenientemente, surgiu o homem mais provável de ter a resposta à sua questão particular.
— Olá, olá. — A raposa sorridente bateu à porta e entrou sem esperar convite. Viera, como prometera no dia anterior. Trouxera até um subordinado carregando um sofá com almofada macia. Jinshi tentou não fazer careta ao imaginar quanto tempo o homem ficaria ali naquele dia.
— Retomemos de onde paramos ontem? — perguntou Lakan, servindo suco de uma garrafa que trouxera. Também trouxera quitutes: colocou sobre a mesa atulhada de papéis um lanche assado que exalava um aroma forte de manteiga. Os ocupantes do escritório desejavam que ele parasse de depositar comida diretamente sobre a mesa; Gaoshun só pôde levar a mão à testa ao ver as manchas de óleo nos documentos.
— Parece que o senhor fez algo bastante repreensível — disse Jinshi, carimbando outro papel. Mal registrou o que estava escrito, mas, como Gaoshun, de pé atrás dele, não disse nada, devia estar certo.
Com base no que Maomao lhe dissera, tinha uma boa ideia do que aquele insano astuto devia ter feito. E, logo em seguida, veio outro pensamento igualmente incômodo. Que as ações do homem não eram incompreensíveis. Que possuíam consistência. Até certa lógica. Jinshi achava que entendia por que Lakan começara falando em comprar o contrato de uma cortesã da Casa Verdigris. Porque mencionara um velho “amigo”, mas Jinshi não queria admitir as implicações. Fazê-lo só traria ainda mais problemas.
— Repreensível? Que grosseria. E é a última coisa que quero ouvir de um pequeno ladrão. — Os olhos de Lakan semicerraram atrás do monóculo, mas logo ele riu. — Eu finalmente havia convencido a velha senhora, sabia disso? Foram dez anos de esforço. E então você aparece e rouba de mim — imagine como me sinto. — Lakan gesticulou com o copo. Cubos de gelo flutuavam no suco.
— Está dizendo que devo devolver o seu bibelô brilhante? — referia-se à jovem relutante.
— Não, fique com ela. Não quero cair no mesmo círculo vicioso de antes.
— E se eu não a quiser?
— Então o que eu poderia fazer? Posso contar nos dedos de uma mão as pessoas capazes de ir contra sua vontade, meu senhor.
Lakan jamais dizia exatamente o que queria dizer. Isso enlouquecia Jinshi. Ele sabia quem e o que Jinshi era; do contrário, jamais teria dito o que dissera. Mas a lógica estava ali, nas palavras.
Lakan retirou o monóculo, limpou-o com um lenço e o recolocou, diante do outro olho. Era apenas uma encenação. Jinshi sempre soubera que ele era um sujeito estranho.
— Mas eu fico me perguntando o que minha, cof cof, filhinha pensará. — O modo como enfatizou filhinha... argh. Então era verdade. Por mais que Jinshi resistisse a admitir.
Lakan era o pai biológico de Maomao.
Jinshi finalmente parou de carimbar a papelada.
— Poderia avisá-la de que irei fazer uma visita um dia desses? — disse Lakan. Em seguida, deixou o escritório lambendo os dedos engordurados de manteiga. Deixou o sofá no lugar, o que implicava que voltaria.
Quase em uníssono, Jinshi e Gaoshun abaixaram a cabeça e suspiraram profundamente.
— Conheci um oficial que gostaria de vê-la — disse Jinshi a Maomao assim que retornou ao quarto. Concluíra que não adiantava nada esconder aquilo dela e resolveu pôr logo às claras.
— E quem é esse oficial? — perguntou ela. Jinshi julgou perceber um lampejo de inquietação por trás da expressão cuidadosamente indiferente dela, mas Maomao escondia isso muito bem; sua voz permanecia tão impassível como sempre foi.

— Hum. O nome dele é Lakan...
Mal as palavras saíram de sua boca, a expressão de Maomao se transformou. Seus olhos se arregalaram e ela deu um passo para longe de Jinshi, quase que de forma involuntária. Até então, ela o havia olhado como um besouro, como uma minhoca ressecada, como lama, como poeira, como uma lesma e até como um sapo esmagado, em outras palavras, de maneiras depreciativas e humilhantes. Mas Jinshi percebeu que todas essas comparações eram brandas e gentis em relação ao olhar que ela lhe lançava agora.
Era, francamente, difícil de descrever, mas até mesmo Jinshi sentiu que mal poderia suportá-lo. Maomao parecia prestes a abrir seu coração à força e derramar dentro dele metal em brasa, de modo que nem cinzas restariam.
Esse único olhar comunicou a Jinshi, com absoluta clareza, o que a filha de Lakan sentia por seu pai.
— Vou recusá-lo. De algum modo — conseguiu dizer Jinshi, ainda um tanto atordoado. Era um milagre que seu coração não tivesse parado.
— Obrigada, senhor. — Maomao, por sua vez, recuperou sua habitual expressão inexpressiva e retomou o trabalho.
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