Volume 2
Capítulo 8: O Veneno da Ameixa
Maomao despertou com o gorjear dos pardais. Sentou-se em sua cama modesta, o odor característico de ervas medicinais em preparo atiçando o seu nariz.
— Bom dia — disse uma voz calma e acolhedora, de tom quase maternal. Essa voz pertencia ao seu pai.
É verdade... Estou de volta em casa, pensou ela. Essa era sua primeira visita desde que começara a trabalhar no pátio externo. Normalmente, as criadas em sua posição não tinham direito a férias. Claro que não: mesmo que seu senhor tivesse um dia de descanso, não era como se deixasse de viver a própria vida. A maioria dessas pessoas contava com mais de um ou dois criados, o que deixava alguma margem para que um deles se ausentasse. Mas com Jinshi as coisas eram diferentes: ele tinha tão poucos assistentes.
Não acredito que ela conseguiu aguentar tanto tempo sozinha... Maomao só podia tirar o chapéu para a assistente de Jinshi, Suiren, cuja indulgência era a única razão de ela ter conseguido esse descanso. Mas Maomao pagou por isso: no resto do tempo, Suiren a fez trabalhar sem descanso.
Maomao saiu da cama e sentou-se em uma cadeira rústica. Seu pai lhe trouxe um mingau quente em uma tigela lascada. Ela tomou um gole: faltava sal, mas ao menos ele havia dado um sabor robusto, misturando algumas ervas aromáticas. Maomao pingou algumas gotas de vinagre e mexeu.
— Certifique-se de lavar o rosto — disse o pai.
— Sim, depois que eu comer.
Enquanto continuava a mexer o mingau com a colher, o pai preparava ingredientes para um remédio que estava manipulando.
— O que planeja fazer hoje? — perguntou.
Maomao o fitou, quase confusa.
— Nada de especial — respondeu.
— Nesse caso, talvez possa ir até a Casa Verdigris por mim.
Houve uma breve pausa antes de Maomao dizer: — Claro. Tudo bem. — E acrescentou mais um generoso jato de vinagre ao mingau.
A botica de seu pai ficava dentro da Casa Verdigris; ao pedir que ela “fosse” até lá, porém, ele tinha outra coisa em mente. Quando chegou, Maomao cumprimentou o criado da porta com familiaridade e entrou. Passou pelo elegante átrio do saguão e seguiu por uma passagem coberta até a lateral. O pátio central não deixava nada a desejar em comparação ao de uma mansão aristocrática, iluminado à noite por lanternas acesas. Era mantido em ordem suficiente para impressionar os que apareciam ocasionalmente para tomar chá durante o dia.
Mas Maomao não parou no pátio, prosseguiu até um pequeno anexo isolado. Ali não era lugar para clientes. Ao entrar, o cheiro de enfermidade lhe encheu as narinas.
— Bom dia.
Dentro, uma mulher de cabelos desgrenhados dormia. Parecia um esqueleto vivo desagradável.
— Trouxe o seu remédio — continuou Maomao. A mulher, no entanto, não respondeu. Era quase como se tivesse esquecido como falar. Antigamente costumava expulsar Maomao movida por puro ódio, mas nos últimos anos perdera até mesmo essa energia.
Maomao aproximou-se onde a mulher estava deitada indolentemente de costas e a ajudou a engolir o pó que trouxera. Era o que seu pai usava em lugar do mercúrio ou do arsênico. Menos venenoso, dizia ele, e mais eficaz. No momento, ainda assim, nem sequer servia para sedar a mulher. Mas não havia outro meio de tratá-la senão continuar administrando aquele pó.
A mulher sem nariz tinha quase quarenta anos, mas em outros tempos fora celebrada como uma borboleta, exaltada como uma flor. A Casa Verdigris agora já era respeitável o bastante para escolher seus clientes, mas nem sempre foi assim. Nos anos posteriores ao nascimento de Maomao, houve uma época em que não passava de um estabelecimento decadente, com uma placa enlameada como única apresentação. Foi nesse período que essa mulher trabalhava como cortesã, e para sua infelicidade contraiu sífilis, conhecida na língua de Maomao como “Veneno da Ameixa”.
Se aquele medicamento tivesse estado disponível nos estágios iniciais da doença, talvez ela pudesse ter sido curada. Mas agora, o estado de seu corpo era quase insuportável de se ver. A enfermidade devastara não apenas sua aparência, mas também sua mente, deixando-lhe a memória em frangalhos.
O tempo… o tempo era uma coisa cruel.
Quando Luomen a conheceu, a doença estava em fase dormente. Se ela tivesse falado com ele naquela época, em vez de ocultar, talvez as coisas não tivessem tomado um rumo tão brutal. Mas nem todos estavam dispostos a confiar de imediato em um eunuco que surgia do nada, um pária do palácio interno. A dura realidade da vida de uma cortesã era simples: se não atendesse clientes, não comia.
Anos depois, quando as lesões retornaram, os tumores se espalharam com assustadora rapidez. Então, a mulher foi confinada naquele quarto, fora da vista dos clientes. Sim, estava sendo varrida para debaixo do tapete, mas, por outro lado, recebia um tratamento quase compassivo. Uma cortesã incapaz de trabalhar normalmente era expulsa. Ela tinha sorte de não ter sido apenas maquiada às pressas e, em seguida, abandonada em uma vala.
Maomao pegou um pano da bacia e começou a limpar-lhe o corpo. Talvez eu acenda um pouco de incenso, pensou; a porta sempre fechada aprisionava o fedor no quarto.
Havia incenso ali, presenteado por um certo nobre. Era um produto sofisticado, com um aroma do qual o homem dizia gostar, mas raramente era usado. Podia atrapalhar a manipulação de remédios, que absorviam odores estranhos. Só era queimado quando o próprio nobre aparecia, e ainda assim, em pequena quantidade. Maomao resolveu usar um pouco agora.
O incenso tinha um aroma levemente adocicado, e, ao sentir o aroma, um sorriso tênue surgiu no rosto da mulher. Ela começou a cantarolar, em voz trêmula, uma canção infantil, parecendo ter voltado à infância. Com sorte, revivia ao menos uma lembrança agradável.
Maomao deixou o incensário em um canto do quarto, para que a cortesã não o derrubasse por acidente. Nesse instante, ouviu passos apressados do lado de fora.
— Mas o que é isso?
Uma das aprendizes apareceu. Maomao se lembrava que ela servia a Meimei. A garota hesitava em entrar no quarto, parada à soleira. Provavelmente tinha medo da mulher sem nariz.
— Hm... A irmã mandou eu lhe dar um recado — disse a menina. — Falou que, se eu a encontrasse aqui, era para pedir que ficasse mais um pouco. Disse que tem um sujeito esquisito com um monóculo lá fora.
— Oh — disse Maomao. Ela entendeu imediatamente de quem se tratava. O homem estranho de óculos era cliente antigo da Casa Verdigris, mas não era alguém com quem Maomao quisesse cruzar. Enquanto permanecesse ali, porém, estaria a salvo. A madame jamais teria a insensatez de mostrar a um cliente algo que se esforçara tanto para esconder.
— Está bem, entendi — respondeu Maomao. — Pode voltar.
Soltou um suspiro. A mulher sem nariz cessou a cantoria e tirou de lado um conjunto de bolinhas coloridas, alinhando-as uma a uma, como se tentasse organizar os retalhos de sua memória.
Mulher tola, pensou Maomao. Recolheu-se a um canto do quarto e se agachou.
Foi Meimei quem apareceu pouco depois, avisando Maomao de que o perigo havia passado. Ao contrário de sua aprendiz, a cortesã entrou no quarto sem hesitar, como se já o conhecesse bem.
— Obrigada por cuidar dela hoje.
Maomao colocou uma almofada redonda. Meimei se sentou e sorriu para a doente. A paciente não reagiu; em algum momento, adormecera.
— Maomao — disse Meimei. — Eles falaram sobre “você-sabe-o-quê” outra vez.
Maomao de fato sabia do que se tratava. Só a lembrança lhe causava arrepios.
— Velho insistente... — murmurou. — Me espanta que você consiga suportá-lo, irmã.
— Ele é um bom cliente, se aceitarmos como ele é. E, considerando o quanto paga, a velha não tem a menor intenção de se opor.
— É... E é por isso que ela está tão ansiosa para me transformar em cortesã. — O cliente em questão era o motivo pelo qual a matriarca passou anos tentando trazer Maomao para sua casa. Se Jinshi não a tivesse contratado, era bem provável que tivesse sido vendida para esse homem. — Prefiro nem imaginar — disse, com o rosto contorcido.
Meimei soltou um suspiro expressivo ao ver sua reação.
— De uma perspectiva externa pode parecer uma excelente oportunidade.
— Só pode estar brincando.
— Não faça essa cara para mim. (As cortesãs tinham uma noção bem diferente do que significava um bom casamento.) Sabe quantas de nós realmente terminamos com alguém que desejamos de verdade?
— Eu sei. Até porque, para a velha, atração pessoal não pesa nada, mas a prata é pesadíssima.
— Esse é o preço da passagem no barco para o paraíso — disse Meimei, rindo com leveza. Passou os dedos pelos cabelos da doente e então sussurrou para Maomao: — Acho que a velha está pensando em vender uma de nós em breve. Estamos chegando naquela idade.
Meimei ainda não tinha trinta anos, mas, para uma cortesã, era natural pensar em aposentadoria nessa fase da vida. Vender-se “em alta”, por assim dizer; ou melhor, antes que a beleza começasse a desaparecer.
Maomao fitou silenciosamente o perfil dela. Seu rosto, ainda belo, parecia inundado por uma mistura de emoções, mas Maomao não quis refletir demais sobre aquilo. Eram sentimentos que ainda não compreendia. Se existia algo chamado amor, refletia Maomao, provavelmente o deixara no ventre da mulher que a gerara, antes mesmo de vir ao mundo.
— E se você abrisse um lugar só seu?
— Hah! A última coisa que quero é virar concorrente daquela velha bruxa.
Meimei devia ter dinheiro suficiente para se libertar, pensou Maomao. Se ainda não havia abandonado a vida de cortesã, devia ser porque ainda não estava pronta.
— Só mais um pouco — disse Meimei com um sorriso. — Não ficarei neste trabalho para sempre.
○●○
Jinshi pressionava o selo em alguns documentos, com uma expressão séria no rosto. A saída do dia anterior devia tê-lo cansado.
Ele suspirou: jamais teria imaginado que o local da reunião fosse praticamente uma extensão do distrito do prazer. Não havia ido até lá por causa disso! Além do mais, todo o propósito de seu disfarce era justamente a dificuldade de sair em público sem chamar atenção. Ainda assim, terminara acompanhado por Maomao até a porta do encontro. Algo que não havia previsto. A ideia, no entanto, viera do assistente que agora organizava silenciosamente os papéis ao seu lado.
Aquele homem o servia havia muitos anos, mas talvez isso o tornasse disposto demais a agir por conta própria. Sem dúvidas, ele acreditava que fez aquilo para o bem de Jinshi, mas este poderia levantar várias objeções.
— Gaoshun... O que você está tramando? — perguntou Jinshi.
Gaoshun apenas balançou a cabeça, como se a ideia de tramar algo nunca lhe tivesse ocorrido.
— Permita-me responder com outra pergunta, senhor: como foi o seu pequeno passeio pela cidade?
— Ah, sim... — Jinshi não sabia bem o que dizer sobre isso; ele tomou um gole de chá tentando ganhar tempo. Agora ele tinha certeza de que Gaoshun, de alguma forma, achava que estava ajudando. Jinshi buscou mentalmente um jeito de mudar de assunto. — Hum-hum. Descobri algo interessante sobre a garota... o pai adotivo dela é eunuco e já foi médico aqui.
— A garota... você quer dizer a Xiaomao? Se foi instruída por um médico do palácio isso explica muito sobre seus conhecimentos de medicina. Mas um eunuco...
— Você me ouviu.
O simples fato era que raramente um médico do palácio interno seria um homem renomado. Quem tinha condições de se tornar um médico respeitado não precisava virar eunuco para conseguir trabalho. Os únicos que acabavam ali eram os que tinham algum problema.
— Um praticante tão talentoso poderia realmente estar entre os eunucos? — perguntou Gaoshun.
— Essa é a questão, não é? — disse Jinshi.
Gaoshun levou a mão ao queixo, pensativo. Jinshi sentiu que já havia falado o suficiente; seu assistente era perspicaz o bastante para levar a investigação adiante.
O som claro de um sino ecoou. Era um pequeno dispositivo instalado para que Jinshi soubesse imediatamente quando alguém chegasse ao escritório. Gaoshun deixou o trabalho de lado e foi até a entrada, aguardando o visitante.
Mais um dia, mais uma visita do excêntrico homem do monóculo. Não tinha nenhum assunto específico; simplesmente se recostava em um sofá, bebendo suco. — Obrigado por cuidar daquele assunto outro dia. Ufa, rendeu uma boa história, não rendeu? — Lakan acariciou o queixo e semicerrou os olhos para Jinshi, tornando-os ainda mais estreitos.
— Parece que o mais novo dos irmãos era o mais capaz, afinal — disse Jinshi, folheando alguns papéis. Suspeitava que o comandante já soubesse disso desde o início. Depois do incidente com a herança do pai, os três homens aparentaram se reconciliar, mas não passava de aparência. O caçula revelara de repente uma habilidade até então oculta, e já se comentava que poderia, em breve, trabalhar para o palácio. Jinshi vira alguns de seus produtos, e a delicadeza do acabamento o impressionara. Não sabia exatamente o que acontecera, mas suspeitava fortemente de que a filha do apotecário sabia, e não dizia nada.
— Acho que, se conseguíssemos que esse jovem cuidasse do mobiliário do ritual, seria uma glória para nosso soberano.
— Sim, claro. — Jinshi detestava como Lakan conseguia dar importância a qualquer assunto. Um homem de sua posição normalmente mal ouviria falar de preparativos de rituais.
— E ainda há a última obra deixada pelo pai. Apenas ferragens simples, mas tão refinadas que poderiam, elas mesmas, servir em rituais.
— Pergunto-me, mestre estrategista, por que sente necessidade de me falar sobre esses artesãos.
— Ora, por que não? É um desperdício deixar talentos enterrados.
Lakan podia ser irritante, mas quando tinha razão, tinha razão. Mesmo que houvesse segundas intenções no que dizia. No mínimo, era um excelente juiz de talentos. Não seria exagero dizer que essa habilidade o levara à posição que ocupava. Podia parecer ocioso naquele momento, mas, na prática, seu trabalho era feito, e feito com afinco, pelas pessoas que ele havia descoberto e empregado. Jinshi quase sentia inveja.
— O que importa se é o irmão mais velho ou o mais novo? A nata sempre vem à tona!
Fazia soar tudo tão simples. Essa inclinação para a simplicidade o tornava útil, mas exigia manejo cuidadoso.
Jinshi organizou seus papéis e os entregou a um oficial, que os levou embora.
— A propósito, queria lhe perguntar sobre algo. Aquilo de que falamos antes — disse Jinshi.
Referia-se à cortesã sobre a qual Lakan havia falado anteriormente, mas será que ele ia se fazer de desentendido outra vez?
O comandante apoiou as mãos nas bochechas e abriu um sorriso largo. — Se quiser saber desse mundo, é melhor perguntar a quem veio dele. — Em seguida, levantou-se. O oficial que o acompanhava soltou um suspiro, aliviado por enfim poder ir embora. — Ah, vejo que já está na hora. Meus subordinados não me dariam sossego se eu os fizesse esperar demais.
Bebeu o resto do suco e deixou a outra garrafa que trouxera sobre a mesa de Jinshi.
— Dê às suas criadas. Desce fácil, não é muito doce. — O soldado de meia-idade acenou vagamente na direção de Jinshi. — Até amanhã.
E foi embora.
Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios