Volume 2
Capítulo 7: Um Passeio pela Cidade
Eles pegaram uma carruagem desde os aposentos de Jinshi até o portão do pátio externo. A transformação dramática e bem-sucedida de seu mestre, realizada por Maomao, era uma faca de dois gumes: um homem com a aparência de Jinshi andando desajeitadamente pelo palácio certamente atrairia suspeitas. Até mesmo as criadas e os serviçais mais humildes recebiam roupas de qualidade razoável ali.
Poderia parecer óbvio simplesmente vestir roupas mais refinadas para a saída, mas, considerando que o estômago de Jinshi estava artificialmente estufado, uma troca posterior seria complicada. Isso era fonte de irritação para Maomao, que queria que tudo saísse perfeito e se indignava com a incapacidade de Jinshi de compreender a própria beleza.
Eles desceram da carruagem em um local tranquilo e, quase de imediato, Maomao começou a disparar críticas contra Jinshi.
— Mestre Jinshi, sua postura está correta demais. Curve-se um pouco! — No momento, Jinshi permanecia ereto como se houvesse um fio ligando sua cabeça aos céus.
— Ora, fale por si mesma — resmungou ele. — Está pesando demais nas formalidades, não acha? E não use meu nome, isso anula todo o propósito! — Seu tom era rude, exatamente como o homem que agora fingia ser.
Maomao, em silêncio, admitiu que ele tinha razão. Mas, nesse caso, como deveria chamá-lo? Ela semicerrava os olhos, fitando Jinshi de perto. Ainda que não tivesse essa intenção, parecia que observava uma mariposa que voara até uma lanterna. A expressão de Jinshi mudou para algo difícil de descrever.
— Como devo chamá-lo, então, senhor? — perguntou Maomao, por fim.
— Boa pergunta — disse Jinshi, acariciando o queixo. Murmurou um instante e então respondeu: — Pode me chamar de Jinka.
Jinka? Maomao pensou. Não era particularmente estranho, e ela aceitou usá-lo, mas a escolha deliberada do caractere ka, que significava “flor”, era curiosa em um nome masculino. Por outro lado, “Jinshi” também não era o nome mais viril do mundo. Maomao se arrependeu brevemente de não ter disfarçado Jinshi como mulher, mas logo recordou o toque vermelho do batom e desistiu da ideia. Sacudiu a cabeça: Jinshi jamais deveria vestir roupas femininas, sob o risco de o próprio mundo entrar em colapso.
— Muito bem, então, Mestre Jinka... — começou Maomao, mas percebeu o olhar fulminante de Jinshi. Ah, sim, sem formalidades. — Jinka, então. Sem honoríficos, sem deferência. — Para Maomao, já era difícil viver pelo modo rebuscado de fala polida do palácio; contudo, adotar um tom completamente casual era ainda mais árduo. E aquele brilho nos olhos de Jinshi? Ela havia trabalhado tanto para fazê-lo parecer doente; ele arruinaria a ilusão se mostrasse satisfação demais.
— Excelente, minha senhora — disse ele em tom ligeiramente zombeteiro.
— Hã? — Maomao ficou boquiaberta, enquanto Jinshi abria um largo sorriso.
— Acho que essa maneira de falar é a mais adequada, considerando nossas respectivas aparências — afirmou, olhando Maomao de alto a baixo.
O disfarce de Maomao havia sido preparado por Suiren, que a vestira com roupas de segunda mão da própria filha. Exalavam um leve cheiro de cânfora, mas o corte e o material eram excelentes, e o design cuidadoso, de modo que não pareciam fora de moda. Seus cabelos haviam sido cuidadosamente presos e fixados com um grampo. De fato, ela parecia uma jovem de família abastada.
Maomao franziu os lábios e seguiu adiante.
— Vamos acabar logo com isso.
— Sim, senhora.
Maomao estava profundamente desconfortável com essa inversão dos papéis habituais, mas Jinshi parecia se divertir como nunca.
O destino de Jinshi era um restaurante logo fora do Distrito do Prazer. Ao que parecia, teria uma reunião com algum conhecido, mas Maomao não insistiu por detalhes. Ela achava que evitar muitas perguntas era frequentemente uma maneira sábia de se conduzir no mundo.
Ainda assim, não deixava de se sentir um tanto usada por Jinshi e Gaoshun. Talvez eu devesse agir de forma um pouco mais distraída, pensou enquanto caminhava pela rua. A estrada abrigava um mercado repleto de mercadores anunciando suas mercadorias. Hortaliças ainda eram raras naquela época do ano, mas havia muitos nabos-daikon graúdos. Maomao tinha recebido algumas moedas; ela cogitava pedir a alguém que torcesse o pescoço de uma galinha para ela cozinhar com daikon, quando alguém a agarrou pela gola.
— O que foi? — perguntou. Jinshi a fitava de cima com um sorriso perturbador.
— Vai fazer compras? — disse ele.
— Vi algo que quero. Estava indo comprá-lo.
— Vestida assim?
Ela entendeu o ponto. Uma mulher suficientemente abastada para ter um criado jamais sujaria as próprias mãos comprando legumes, muito menos mandando abater uma galinha. Maomao lançou um olhar saudoso aos vegetais. Mas eu queria fazer isso para o meu velho... ela pensou. Seu pai era tanto médico quanto apotecário de excelência, mas possuía um defeito gritante: total incapacidade de calcular lucros e perdas. Assim, embora o ofício de apotecário devesse garantir-lhe banquetes para toda a vida, ele vivia em um casebre que parecia ruir ao menor vento. Claro que, se um dia corresse risco real de fome, a velha madame provavelmente se encarregaria de sustentá-lo.
Maomao retomou a caminhada, agora emburrada. Jinshi ainda tentava fingir ser seu criado, mas tinha o passo largo, e logo a ultrapassou. Maomao precisou acelerar para acompanhá-lo. Humm, ele ainda tem muito a aprender, pensou.
Os olhos de Jinshi continuavam a brilhar. Ele ao menos conseguiu não escancarar o olhar, mas era óbvio que se deleitava com o ambiente e com o que estava fazendo. Para um aristocrata mimado como ele, um mercado popular deveria ser uma novidade. Maomao o ultrapassou e o fuzilou com os olhos. Ele pareceu perceber a falta de cuidado e, por um instante, se mostrou repreendido, mas logo retomou a caminhada como se nada tivesse acontecido. Ao menos permaneceu atrás dela dessa vez.
Maomao não disse nada, mas pensou: quando eu chegar em casa preciso ver como está o campo. Curvou os dedos, contando mentalmente as ervas que poderia encontrar ali. Será que a artemísia já brotou? E seria ótimo se a petasites estivesse pronta para colher. Ainda assim, permaneceu em silêncio. Apenas se imaginava fritando a petasites com carne e missô quando percebeu Jinshi surgindo bem ao seu lado.
[N/T: Não há tradução em português para a planta conhecida como petasites. Ela é frequentemente vista no hemisfério norte, e é comumente indicada no tratamento de enxaqueca.]
— O que foi, senhor? — disse Maomao, lançando-lhe um olhar e, sem querer, voltando à deferência habitual. Jinshi estava visivelmente ansioso para dizer algo.
— Por que está tão quieta? — perguntou ele, adotando também a franqueza a que normalmente tinha direito. — Por que não está dizendo nada?
Por que ela não dizia nada? Bem, só poderia haver uma razão:
— Porque não tenho nada a dizer?
Ela havia apenas falado a verdade, mas aparentemente aquilo foi um erro. Jinshi mordeu o lábio, e uma expressão enigmática cruzou seu rosto. Maomao não temia que ele caísse em prantos, não era um garotinho, mas ainda assim conseguia parecer totalmente patético.
Foi ele quem disse para eu ser mais ríspida com ele! Maomao pensou. De qualquer modo, ela não era do tipo que puxava conversa. Se não havia nada em especial a dizer, e ninguém lhe fazia perguntas diretas, preferia guardar silêncio. Por que isso surpreendia tanto aquele homem era um mistério para ela.
Ela coçou a nuca nervosamente, sem saber o que fazer, quando um carrinho de espetinhos apareceu à vista. Ela apressou o passo e pediu dois ao vendedor. Só de olhar para a carne de frango perfeitamente dourada, sua boca encheu d’água.
— Experimente — disse, passando um dos espetos a Jinshi. Ele o pegou lentamente, como se jamais tivesse visto algo assim.
— Rápido, antes que esfrie. — Maomao os guiou até uma rua lateral perto da estrada principal. Tirou a poeira de uma caixa de madeira e sentou-se sobre ela. Ao morder a carne grelhada, os sucos explodiram em sua boca, e a pele crocante do frango estalou audivelmente.
Nossa, isso é muito bom. Maomao inclinou-se para frente para evitar que o caldo respingasse nas roupas. Jinshi não comia, apenas a observava.
— Não vai comer o seu? Como vê, não está envenenado.
— Não, não é, ãn, isso que estou preocupado… — respondeu Jinshi, batendo levemente na própria bochecha.
— Ah. — Ela se lembrou: havia enchido a boca dele com algodão para alterar o perfil. Maomao retirou um quadrado de papel e lhe entregou; ele cuspiu as bolinhas e as jogou na lixeira próxima. Um simples papel versátil como aquele era valiosíssimo, apenas mais um dos cuidados de Suiren, além das roupas.
Não pensei em trazer algodão de reposição, refletiu Maomao. Isso feria seu perfeccionismo, mas duvidava que alguém reparasse. Ainda examinando o espeto com certo fascínio, Jinshi o levou à boca. Devia estar um pouco quente, pois ele soprou com força antes de mastigar e engolir.
— O que achou, senhor?
— Bem melhor do que o que serviram no acampamento. Bom e salgado — disse Jinshi, limpando o suco dos lábios com os dedos. Maomao tirou um lenço da bolsa e o entregou a ele, embora pensasse: acampamento?
Até onde sabia, eunucos não costumavam servir no exército, e não sabia o que pensar disso. Talvez alguém como Jinshi fosse enviado ao campo em caso de guerra, mas em circunstâncias normais? O que levaria um eunuco a passar as noites ao relento?
Enquanto refletia sobre a questão, Maomao observou o rosto de Jinshi. Parte da maquiagem havia se apagado ao redor da boca, mas não o bastante para preocupá-la; desviou o olhar. Certo, seja qual for o nosso objetivo aqui, vamos acabar logo com isso, pensou. Terminou o último pedaço do espeto e levantou-se da caixa. Estava decidida a voltar e comprar aquele daikon e a galinha assim que se livrasse de Jinshi.
Apesar de sua pressa, Jinshi fazia questão de realizar cada movimento com calma e elegância, para a irritação de Maomao.
— Tem certeza de que chegará a tempo para a reunião, Jinka? — perguntou ela de forma incisiva, usando o nome falso dele.
— Acho que ainda temos alguns minutos.
— Não seria melhor chegar cedo? É falta de educação fazer alguém esperar.
Dessa vez, foi Jinshi quem demonstrou aborrecimento.
— Se eu não soubesse melhor, diria que você está tentando se livrar de mim.
— Acha mesmo? — respondeu Maomao com inocência, embora ele tenha acertado em cheio. Jinshi pareceu um pouco contrariado, mas não reclamou mais. Em vez disso, mudou de assunto.
— Não consigo imaginar que a vida no palácio seja tão ruim assim. Com certeza deve ser melhor do que aqui, no Distrito dos Prazeres.
Maomao teve de admitir que não era tão ruim, especialmente agora que servia ali por vontade própria. Dispunha de um quarto pequeno, mas limpo, e até recebera a oferta de mudar-se para outros aposentos. Considerava-se bastante sortuda. Mas o estilo de vida não era o único motivo pelo qual ela desejava retornar ao distrito.
— Estou preocupada com o meu velho, se está cuidando bem de si mesmo — disse.
A boca de Jinshi quase caiu aberta.
— O que foi? — perguntou Maomao.
— Nada... é só que... nunca imaginei que você tivesse interesse em algo além de drogas e venenos.
Maomao respondeu com um olhar gélido. Desgraçado grosseiro!
— Meu pai adotivo é meu mestre em medicina, então espero, sim, que continue a viver por muito tempo. — E, virando-se de costas de forma decisiva, começou a andar. Agora tinha certeza: queria terminar logo com aquilo.
Jinshi, um pouco atordoado, apressou-se para acompanhá-la.
— Esse seu pai... pelo que percebo, é realmente um talentoso apotecário.
Depois de um instante, Maomao respondeu com hesitação: — Ele é. — Não achava justo Jinshi usar seu pai como recurso para continuar a conversa. — Pelo que sei, ele estudou no Ocidente quando jovem. — Assim, conhecia não apenas a medicina tradicional de sua região, mas também técnicas médicas ocidentais. Ela às vezes o via escrevendo anotações em uma língua estrangeira e, ocasionalmente, utilizando palavras que lhe soavam incomuns. Isso a fazia pensar que ele havia passado bastante tempo naquela terra distante.
— Sério? Ele fez isso? — perguntou Jinshi. — Deve ter sido alguém especial, então. Pelo que sei, só são enviados para esses estudos os que têm recomendação do governo. — O espanto transparente de Jinshi apenas confirmou para Maomao que seu pai era, de fato, uma pessoa extraordinária.
— Sim, ele é realmente incrível. Diz o provérbio que “o Céu não dá dois dons a um mesmo homem”, mas acho que existem exceções.
A empolgação transparecia em sua voz, tornando-a mais falante do que de costume.
— Ele devia ser um grande homem, sem dúvida... — comentou Jinshi, agora mais contido. Talvez Maomao tivesse dito demais, e algo em seu fluxo de palavras o tivesse perturbado. Ele foi quem insistiu que eu falasse, pensou ela. Gostaria que ele se decidisse de uma vez.
Jinshi, tentando evitar encarar Maomao, deixou o olhar vagar pelas lojas que margeavam a rua. Os restaurantes e barracas de comida haviam dado lugar a estabelecimentos de tecidos e acessórios. Homens transitavam de um para outro, escolhendo presentes para agradar suas borboletas noturnas.
— E o que faz uma pessoa tão distinta administrar uma botica em um canto obscuro do Distrito dos Prazeres? — perguntou Jinshi, com uma ponta de espinho oculta nas palavras.
— O Céu lhe concedeu muitos dons, mas a sorte não foi um deles. E, assim como lhe foi dado muito, também lhe foi tirado algo. Algo importante.
O azar: esse era o grande defeito de Luomen, se é que tinha algum. Seus estudos no Ocidente serviram de pretexto para a mãe do antigo imperador, isto é, a antiga imperatriz-viúva, obrigá-lo a se tornar eunuco.
Jinshi observava Maomao em silêncio. Quando ela já começava a temer que mais uma de suas piadas sobre o distrito tivesse caído em desgraça, ele disse:
— Está me dizendo que o pai que a adotou é um eunuco?
— Sim, senhor — respondeu Maomao, perguntando-se se já não havia mencionado aquilo antes.
Jinshi começou a murmurar: — Eunuco... apotecário... Médico...
Entre falas e murmúrios, chegaram ao destino. Maomao olhou para a nota que Gaoshun lhe dera. — Creio que é aqui, senhor — disse, apontando para um lugar na fronteira do distrito. O andar superior era uma hospedaria, e o térreo, um restaurante. Uma disposição bastante comum.
— Sim, acho que você tem razão. Mas ainda temos alguns minutos — respondeu Jinshi, olhando em volta.
Ah, agora entendi, pensou Maomao, semicerrando os olhos. Compreendia, enfim, por que Jinshi havia se dado ao trabalho de se disfarçar e andar pelo mercado. Sim, agora via tudo claramente.
Maomao soltou um longo suspiro. — Temo que, se andar demais, sua maquiagem acabe saindo. Além disso, a pessoa com quem vai se encontrar pode já estar lá dentro. Melhor entrar logo do que correr o risco de deixá-la esperando, não acha?
Jinshi finalmente pareceu captar a sugestão.
— Então, me despeço aqui de você — disse ela.
— O quê? Aqui mesmo?
— Sim. Você se deu ao trabalho de se disfarçar. Seria um desperdício se eu entrasse com você.
Maomao fez um leve aceno de cabeça e voltou-se para o mercado. Ao se afastar, lançou um olhar por cima do ombro e viu Jinshi entrando no restaurante. Imagino que até eunucos precisem de um dia de folga de vez em quando, pensou. Cruzou os braços e assentiu. E então voltou a refletir: se ele tinha ido até ali, bem que poderia entrar de vez no distrito. Pois Maomao sabia perfeitamente que tipo de restaurante era aquele em que Jinshi havia acabado de entrar. Serviam as garçonetes junto com a comida.
Espero que ele tenha uma boa noite, pensou, com uma pitada de ironia, fitando o restaurante com olhar gélido.
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