Volume 2
Capítulo 10: Suirei
Então ele sabe. Maomao já tinha desconfiado de quem Jinshi havia falado no outro dia. Afinal, essa era parte do motivo pelo qual ela se esforçava tanto para evitar chegar perto do acampamento militar.
Ela soltou um suspiro. O vapor que escapou de sua boca foi prova suficiente de que o frio ainda reinava, e a primavera estava longe de dar sinais.
Não havia mais ninguém na sala. Jinshi e Gaoshun tinham saído logo cedo. Nos dois meses em que Maomao o servia, já começara a entender a rotina de Jinshi. Havia uma tarefa específica que se repetia mais ou menos a cada duas semanas. No dia anterior, ele tomava um banho longo e demorado, queimava incenso e, só então, saía. Maomao aproveitava esses dias para encerar o chão com capricho, e era isso que fazia agora, esfregando o pano diligentemente pelo piso. As mãos já estavam dormentes de frio, mas, sob o olhar vigilante de Suiren, suave e ao mesmo tempo inflexível, Maomao nem podia cogitar relaxar.
Quando Maomao já havia espanado metade do prédio, Suiren pareceu finalmente satisfeita e sugeriu que parassem para o chá. As duas puxaram cadeiras em uma mesa redonda na cozinha e se sentaram com xícaras quentes entre as mãos. As folhas usadas eram de sobra, não novas, mas de qualidade tão alta que o aroma continuava delicioso. Maomao apreciou o perfume adocicado enquanto mordia um bolinho de gergelim.
Queria que fosse algo salgado, pensou, mas parecia grosseiro dizer em voz alta. Suspeitava que Suiren tivesse preparado o doce acreditando que uma jovem apreciaria esse tipo de guloseima. Então Maomao se esforçou para parecer agradecida, até perceber que a própria Suiren mastigava ruidosamente uns biscoitos de arroz grelhados.
Maomao ficou em silêncio.
— Ah, esse biscoito salgado é viciante — comentou Suiren. Ela e Jinshi eram realmente parecidos, pensou Maomao. Esticou a mão em direção ao prato, mas Suiren pegou o último biscoito antes que ela alcançasse. Agora Maomao tinha certeza de que era de propósito. Que assistente desagradável.
Sempre que fazia um lanche com outras mulheres, Maomao acabava ouvindo mais do que falando, e não foi diferente com Suiren. Ao contrário das damas do distrito do prazer ou do palácio interno, Suiren não se perdia em fofocas. Preferia discursar sobre o mestre da casa.
— A refeição de hoje à noite será vegetariana. Então trate de não beliscar carne ou peixe escondida — disse Suiren.
— Sim, senhora.
Maomao sabia que era melhor não perguntar por que estavam comendo como se fosse algum tipo de purificação ritual. Mas, pelo tom de Suiren, já conseguia imaginar. Será que eunucos podiam realizar rituais? Normalmente, a purificação era feita por quem participaria de cerimônias religiosas. Pessoas de origem aristocrática ou nobre, afinal, podiam ser chamadas a presidir tais funções.
Havia muitas coisas em Jinshi que Maomao não entendia. Para começar, por que um homem de nascimento como o dele teria se tornado eunuco? Por outro lado, considerando a época da vida em que isso ocorrera, até fazia certo sentido. A antiga imperatriz-viúva, que em seu tempo fora vista quase como uma imperatriz de fato, era uma mulher de habilidades notáveis. Dizia-se que era graças à sua influência, e não ao filho incompetente, que o país não mergulhara no caos durante o reinado do antigo imperador. Mas, como consequência natural, ela se apoiava em sua própria autoridade para muitas de suas ações. Como, por exemplo, tornar eunuco à força um médico talentoso que ela por acaso favorecia, o pai de Maomao. Era razoável supor que Jinshi tivesse se tornado eunuco em circunstâncias semelhantes.
— Ah, preciso que você faça uma coisinha para mim esta tarde. Vá até o médico e traga alguns remédios...
— Sim, senhora! — Maomao se adiantou, sem esperar que Suiren terminasse.
— Queria que você fosse sempre tão entusiasmada — respondeu Suiren, empurrando o último biscoito de arroz para dentro da boca.
O consultório médico ficava no lado leste do pátio externo, perto do quartel militar. Talvez fosse conveniente para lidar com todos os ferimentos produzidos pelo exército. Maomao se lembrava do que Jinshi havia dito sobre aquele médico, mas tinha seus próprios motivos de interesse. Já experimentara um de seus remédios e aquilo bastara para convencê-la de que se tratava de um profissional habilidoso. O palácio interno, em comparação, tinha um completo charlatão à frente de sua enfermaria, um desperdício. Maomao estava curiosíssima para ver como as coisas funcionavam no pátio externo.
— Vim buscar alguns remédios — disse, mostrando a etiqueta que Suiren lhe entregara.
O médico, um homem de maçãs do rosto proeminentes, olhou para o objeto, pediu que Maomao se sentasse e desapareceu em uma sala dos fundos.
Maomao respirou fundo. Uma mistura de cheiros pungentes e sabores amargos encheu-lhe o nariz e a boca. Na mesa em que o médico estivera até sua chegada, havia um pilão com ervas meio esmagadas.
Com enorme esforço de vontade, conteve o impulso de revirar tudo. Daria qualquer coisa para examinar de perto o armário cheio de medicamentos no cômodo ao lado.
Não! Eu tenho que resistir, implorou a si mesma. Ainda assim, sentiu o corpo se inclinando, querendo espiar a outra sala.
— Posso saber o que você está fazendo? — disse uma voz fria de mulher.
Maomao despertou do transe e deu de cara com uma dama da corte visivelmente contrariada. Lembrou-se dela: era a mulher alta. Maomao percebeu que parecia profundamente suspeita esgueirando-se daquele jeito e voltou apressada para a cadeira.
— Só estou esperando alguns remédios — respondeu com inocência. A outra mulher pareceu querer retrucar, mas, neste momento, o médico retornou com a receita.
— Ora, Suirei. Quando você chegou? — disse com leveza.
A mulher chamada Suirei franziu a testa, sem gostar do tom dele.
— Vim repor os medicamentos que ficam no quartel da guarda — respondeu.
Ela deveria estar se referindo a algum local dentro do acampamento militar. Agora que pensava nisso, Maomao se deu conta de que da última vez que encontrara Suirei também fora nas proximidades da área militar. Na ocasião, já tivera a sensação de que a mulher implicava com ela, e a atitude agora só confirmava suas suspeitas. Suirei a olhava como se desejasse que a criada estivesse em qualquer outro lugar.
Agora pelo menos Maomao entendia por que Suirei cheirava a ervas medicinais quando se encontraram da outra vez.
— Está tudo aqui. Precisa de mais alguma coisa? — perguntou o médico.
— Não, nada mais. Tenha um bom dia.
Suirei respondeu ao tom bajulador do médico com quase indiferença. Ele, por sua vez, pareceu até um pouco triste ao vê-la sair.
Ah, então é assim, pensou Maomao, observando o desapontamento estampado nele e refletindo sobre como era fácil de ler. Quando percebeu que ela o encarava, o médico franziu a testa e estendeu o remédio para ela.
— Aquela mulher trabalha com os militares? — perguntou Maomao. Não tinha nenhuma intenção especial, apenas um pensamento passageiro.
— Sim. Embora não haja necessidade de uma mulher qualificada do pátio externo lidar com esse tipo de coisa… — Maomao o olhou, esperando que explicasse, mas ele não continuou. Apenas balançou a cabeça e disse: — Não é nada. De qualquer forma, aqui está o seu remédio! — Enfiou o pacote em suas mãos e fez um gesto de despedida: vá, suma daqui. Pelo visto, Maomao havia dito algo que não deveria, embora não conseguisse entender o quê.
Algo que normalmente uma dama da corte não faria? Repetiu para si mesma. Decidiu, porém, que não valia a pena se torturar tentando decifrar a fala enigmática. Apenas pegou o embrulho e espiou dentro. Era algum tipo de pó. Curiosa, colocou a ponta do dedo na boca. (Seu mau hábito.)
— Isso é... pó de batata?
Saiu do consultório do médico intrigada.
— Precisa de algo do consultório médico hoje? — perguntou Maomao, lançando um olhar para Suiren. Mas a dama de companhia não se deixava enganar.
— Não vou permitir que você relaxe no serviço — disse com firmeza.
Não considero isso relaxar, retrucou Maomao mentalmente. Só estava ansiosa por sentir mais uma vez aquele aroma rico de remédios.
— Por falar nisso — acrescentou Suiren, enxugando as mãos, — percebi que você anda usando nosso depósito para guardar umas ervas incomuns. Quero que isso pare imediatamente.
Ela nunca deixava de cutucar a ferida. Maomao torceu o rosto em uma careta enquanto torcia o pano e esfregava o chão. Suiren era muito mais temível do que a chefe das damas do Pavilhão de Jade. Talvez a idade realmente trouxesse astúcia.
— Se acha que não tem espaço suficiente no seu quarto, pode falar com o Mestre Jinshi. Temos mais do que quartos de sobra aqui. Se você pedir, talvez se surpreenda com o quanto ele pode ser compreensivo — disse Suiren, em um tom incomumente animado.
Maomao se perguntou se isso seria verdade. Afinal, Jinshi havia recusado sem pestanejar quando ela pediu um estábulo.
— Não, senhora. Nunca transformaria a residência de um nobre em depósito de ervas medicinais.
Suiren levou a mão à boca, surpresa, antes de se sentar em uma cadeira.
— Você não parece do tipo que se importaria com isso, Xiaomao, mas sempre acaba se mostrando tão cautelosa.
— Sou apenas uma jovem de origem humilde. Ninguém está mais surpresa do que eu mesma por estar aqui.
— Entendo. Mas... — Suiren desviou o olhar para a janela, onde pequenos flocos de neve caíam de vez em quando. — Quero que não imagine que os nobres são criaturas essencialmente diferentes de você. Ninguém, seja príncipe ou plebeu, sabe o que vai acontecer em sua vida. Só isso já nos une, apesar de todas as diferenças.
— Acha mesmo, senhora?
— Tenho certeza — respondeu Suiren com um leve sorriso, levantando-se. Em seguida, trouxe um enorme cesto abarrotado de lixo. — E agora, é hora de trabalhar, Xiaomao. Pode jogar isso fora para mim?
Ela mantinha um semblante sereno, mas o cesto chegava quase até o peito de Maomao e parecia pesadíssimo.
Não era qualquer criada que podia ser encarregada de descartar o lixo da residência de Jinshi. Havia muitas pessoas dispostas a revirar tudo em busca de algo que lhes desse alguma vantagem estratégica.
— O caminho até o depósito de lixo passa pelo consultório médico — disse Suiren. — Se você só passar por lá, não vejo problema.
Isso não é favor, é tortura, pensou Maomao com uma careta. Ainda assim, ergueu o cesto nas costas, cambaleando sob o peso.
Maomao examinou as marcas profundas que as alças haviam deixado em seus ombros, imaginando quanta coisa devia haver ali. Bem, pelo menos ninguém poderia mexer no lixo daquele nobre agora: tudo virara cinzas. Quanto a ela, só podia suspirar diante da ignorância desse homem importante sobre o quanto fazia os outros trabalharem por causa dele.
Estava prestes a voltar quando algo chamou sua atenção. É o que estou pensando?! Não muito longe do depósito de lixo havia uma construção, pelo relinchar dos cavalos, parecia um estábulo. Ali por perto crescia capim, natural e sem cuidado. Mas, claramente, nem tudo era apenas forragem...
Maomao olhou furtivamente para os lados, depois correu e se atirou sobre seu alvo. Para olhos destreinados, parecia apenas capim ressecado. Tinha cheiro de planta castigada pelo inverno. Mas, ao arrancá-la do solo, revelou longas raízes e um pequeno, porém inconfundível, tubérculo.
Era uma planta silvestre frequentemente usada para dar sabor a remédios. Não era rara em si. O estranho era encontrá-la crescendo aparentemente ao acaso, entre um punhado de outras gramíneas.
Muito adubo aqui atrás dos estábulos, talvez? Maomao pensou. Mas algo lhe dizia que não era o tipo de planta que brotaria naturalmente nesse lugar.
Observou em volta outra vez. Havia uma colina modesta ali perto, coberta por uma profusão de ervas com aparência claramente medicinal. Largou o cesto e correu para o monte.
Encontrou um campo de terra macia e rica, repleto de flores e ervas de cheiro peculiar, nada que fosse produto comum de cozinha. Estavam um pouco sem cor, por causa da estação, mas ainda assim os olhos de Maomao brilharam. Feliz, começou a examinar cada planta, tentando identificá-las, quando ouviu passos abafados pela terra fofa se aproximando.
— E o que pensa que está fazendo? — perguntou uma voz irritada.
Ainda agachada, Maomao olhou para trás e viu a mulher alta parada ali. Trazia um cesto pequeno em uma mão e uma foice na outra. Era Suirei, fora assim que o médico a chamara.
Droga. Maomao sabia que parecia suspeitíssima naquela situação. Decidiu tentar se explicar, plenamente consciente de que a foice poderia descer sobre ela a qualquer momento.
— Por favor, senhora, não precisa se alarmar. Ainda não colhi nada.
— O que significa que estava prestes a colher, posso supor? — retrucou Suirei, com uma calma impressionante. Em vez de erguer a foice contra Maomao, colocou-a suavemente no chão, junto com o cesto.
— Qualquer agricultor gostaria de inspecionar um campo tão bom assim.
— E que palácio é povoado por agricultores?
Ela a pegou de surpresa. Mas Maomao até achou sua resposta espirituosa. Onde havia campos, deveriam existir agricultores, certo? Pena que Suirei não considerou a lógica tão coerente quanto Maomao.
Em vez disso, suspirou. — Não estou aqui para pendurá-la pelos polegares ou algo assim. Esse jardim, na verdade, nem deveria existir. Mas um aviso: o médico aparece por aqui de vez em quando, então eu não recomendaria muitas visitas. — Enquanto falava, começou a arrancar ervas daninhas.
— Então ele deixou você encarregada deste lugar?
— Mais ou menos. Ele me deixa plantar o que quiser, pelo menos.
Aos ouvidos de Maomao, o tom de Suirei soou desinteressado. Ela mesma não era das mais entusiasmadas, mas parecia ter encontrado uma alma parecida. Ainda assim, Suirei demonstrava senso social suficiente para se juntar às outras damas da corte quando resolveram implicar com Maomao.
— E o que gosta de plantar?
Suirei a fitou em silêncio por um instante, depois voltou o olhar ao chão.
— Um remédio para ressuscitar os mortos.
O coração de Maomao disparou. Quase agarrou Suirei para exigir explicações, mas a razão a conteve no último momento.
Suirei a observou e então disse a pior coisa possível: — Estou brincando. — Maomao não respondeu, mas a devastação em seu rosto devia ser clara porque a outra soltou uma risada sem humor. — Ouvi dizer que você é uma apotecária.
Maomao se perguntou onde ela teria escutado isso, mas assentiu. Suirei, de novo inexpressiva, arrancava folhas secas e cortava algumas com a foice.
— Fico pensando quão boa apotecária você realmente é — disse, e Maomao teve a impressão de perceber um tom de ironia em sua voz.
Ela apenas respondeu: — Boa pergunta.
— Hm. — Suirei se levantou. — Eu planto ipomeias aqui todos os anos. No entanto, ainda não é bem a temporada. — Então juntou as ervas e desceu a colina.
Um remédio para ressuscitar os mortos...
Se algo assim existisse, Maomao faria qualquer coisa para consegui-lo. A humanidade buscava a imortalidade havia séculos. Será que podia mesmo existir? Maomao acreditava que não se podia descartar essa possibilidade, mas balançou a cabeça, duvidando que fosse simplesmente um remédio capaz de trazer os mortos de volta à vida.
Lançou um olhar saudoso ao campo. Parte dela queria colher alguma coisa, outra parte sabia que não devia. O conflito interno só a fez se atrasar no retorno.
A disciplina de Suiren era discreta, mas severa: Maomao acabou limpando e polindo até as vigas do teto.
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