Volume 2
Capítulo 11: Por Acaso ou Algo Mais
Maomao estava limpando um corredor em algum lugar no pátio externo, como de costume, quando ouviu uma história muito estranha.
Uma figura grande se aproximou dela, um tanto em pânico. Ao olhar mais de perto, viu que era o cachorro grande, Lihaku.
— O que está acontecendo? — perguntou Maomao, colocando o pano de lado. Aquele robusto oficial militar não teria motivo para ir ao escritório de Jinshi, a menos que precisasse de algo de Maomao.
— Sem tempo para conversa fiada! Há um problema!
— E o que seria? — Se ele tinha ido até ali, devia ser sério.
Apesar do jeito como às vezes agia, Lihaku dificilmente tinha tempo a perder.
— Lembra-se do incêndio naquele armazém? Depois descobrimos que, no mesmo dia, houve um roubo em outro. — Coçou a cabeça enquanto falava. — A única coisa em que consigo pensar é que alguém usou o fogo como distração.
Maomao cruzou os braços: então essa era a história. — O que foi roubado, se me permite perguntar?
Ao ouvir isso, Lihaku silenciou constrangido. Tocou no ombro dela e gesticulou, aparentemente querendo ir a algum lugar onde não fossem ouvidos. Maomao deixou que ele a guiasse para fora da galeria rumo ao jardim. Lihaku se agachou à sombra de algumas árvores, encostou o dedo ao lado do nariz de modo conspiratório e disse:
— Certos instrumentos de rituais desapareceram.
— Instrumentos de rituais? — Um objeto bem estranho para se roubar, pensou Maomao.
— É. Vários parecem ter desaparecido, mas receio que não saibamos ao certo quais. — Lihaku balançou a cabeça, impotente.
— Vocês não sabem o que havia lá dentro? O responsável pelo armazém era tão descuidado assim?
— Não, não é bem assim... No momento não há ninguém encarregado do lugar. Um oficial importante que estava intimamente envolvido com o assunto morreu no ano passado, e isso virou tudo de cabeça para baixo.
Talvez seja uma questão de novos superiores reorganizando as coisas.
— Talvez você pudesse perguntar a quem supervisionava o local antes dele, então?
— Há um outro problema nisso também. Veja, ele não está em condições de voltar ao trabalho. Ele teve intoxicação alimentar não faz muito tempo e... bem, ainda está inconsciente. — Lihaku soltou um suspiro para enfatizar em que situação difícil se encontrava.
Mas as palavras intoxicação alimentar fizeram a memória de Maomao funcionar. Não tinha havido um caso desses logo após o incêndio? Na verdade, quase simultâneo a ele...
— Não seria o escriturário-gourmet, por acaso? — perguntou ela.
Os olhos de Lihaku se arregalaram.
— Como você sabe disso?
— Longa história.
O incêndio, o roubo e a indisposição do escriturário: poderia tudo ser uma enorme coincidência? Em certo nível, sempre era possível, mas parecia altamente improvável. Outra coisa que Lihaku disse também chamou sua atenção.
— Você mencionou um oficial importante que faleceu no ano passado. Que tipo de pessoa ele era?
Lihaku levou o dedo à testa e resmungou.
— Lembro que era um velho rabugento que sempre tinha uma vara enfiada no... quer dizer, que sempre seguia os princípios. Qual era o nome dele? Droga, está na ponta da língua! Sei que era fissurado em doces...
— Talvez esteja falando do Mestre Kounen — disse Maomao, lembrando-se da pessoa sobre a qual Jinshi lhe falara no ano anterior. Um oficial rígido e amante de doces que morrera por overdose de sal.
— Isso! Era ele! Espera... você também sabe sobre ele?
— É uma longa história.
A surpresa de Lihaku era compreensível. Maomao não era otimista o bastante para presumir que todas essas coincidências fossem, bem, mera coincidência. Cada uma delas parecia um acidente isolado. Mas não havia garantias de que o que parecia acidente fosse realmente acidental, como o caso do baiacu havia provado. Seria possível que todos esses incidentes fossem deliberados, mirando algum objetivo maior?
Maomao olhou para Lihaku.
— Desculpe-me, Mestre Lihaku, mas o que isso tem a ver comigo?
— Certo! Era sobre isso que eu vim falar com você! — Ele revirou uma bolsa e tirou algo que se revelou ser o cachimbo de marfim que Maomao havia encontrado no armazém incendiado. Ela o entregara a ele não faz muito tempo, depois de limpá-lo e restaurá-lo. Ele dissera que o devolveria ao vigia do armazém, mas ainda estava com ele.
— Não é culpa minha — disse Lihaku agora. — O guarda me mandou ficar com isso. Disse que não queria mais.
O guarda havia sido demitido depois que a culpa pelo incêndio do armazém recaiu sobre ele. Maomao imaginara que o cachimbo fosse uma compra cara, mas, ao que tudo indicava, fora um presente. Alguém foi muito generoso, pensou ela.
— Ele disse que uma das damas do pátio externo deu isso para ele. Não acha estranho? Por que uma delas daria algo assim para um guarda qualquer?
— Pode fazer sentido, dependendo da pessoa. — Quando cortesãs recebiam um presente de um cliente particularmente detestável, logo vendiam por dinheiro ou davam a outra pessoa. Mas Maomao conseguiu pensar em outra possibilidade também. — Talvez ela soubesse que ele gostaria de usar logo de imediato um presente tão valioso.
Nem todos teriam esse impulso, mas muitos teriam. E se esse fosse o objetivo da mulher misteriosa... Ela devia ter previsto o curso dos acontecimentos: o incêndio iria começar. As pessoas viriam correndo. A segurança estaria mais fraca em outros lugares, o momento perfeito para se esgueirar.
Lihaku, antecipando o que Maomao estava prestes a perguntar, disse:
— Infelizmente, ele disse que não conseguiu ver o rosto da mulher que lhe deu o cachimbo. Estava escuro demais.
Uma mulher andando no escuro? Isso também era estranho. Mesmo o palácio não era um lugar para uma mulher andar sozinha à noite. O guarda do armazém encontrou a mulher fazendo exatamente isso, e foi gentil o bastante para acompanhá-la até a saída, por segurança. Ela agradeceu dando-lhe o cachimbo. Estava frio, e o rosto da mulher estava escondido por uma gola alta.
— Ele disse que ela parecia incomumente alta para uma dama, e que cheirava levemente a remédio.
— Remédio?
— Não se preocupe, sei que não era você. Ele enfatizou que ela era alta. Só fiquei imaginando. Parece alguém que você conhece?
Embora parecesse um brutamontes idiota, Lihaku podia ser bastante perspicaz. Não posso dizer que não tenho ideia nenhuma, pensou Maomao. Talvez devesse simplesmente contar exatamente o que suspeitava. Mas então o mantra do pai lhe veio à mente: não tire conclusões com base em suposições. Maomao refletiu e decidiu por um meio-termo.
— Aconteceu mais alguma coisa fora do comum além dos acidentes e incidentes que mencionou?
— Essa pergunta até parece um presságio e tal, mas eu nem teria ligado tantos pontos sem suas dicas — disse Lihaku, cruzando os braços. — Está dizendo que há algo mais que eu deveria investigar?
— Talvez sim. Ou talvez não.
— Qual dos dois? — disse Lihaku, exasperado.
Maomao se agachou e pegou um graveto do chão, com o qual começou a desenhar um círculo na terra.
— Duas coisas costumam acontecer por coincidência. — Desenhou outro círculo, parcialmente sobreposto ao primeiro. — Três coisas podem acontecer e ainda serem acaso. — Adicionou mais um círculo. — Mas não concorda que, em certo ponto, deixa de ser coincidência e passa a ser intencional?
Ela preencheu o segmento no centro dos três círculos sobrepostos.
— Suponha que essa dama da corte externa, se é que é isso que ela é, esteja no ponto de interseção dessas coincidências deliberadas.
— Entendi! — Lihaku bateu palmas. Quanto a Maomao, uma imagem de Suirei lhe veio à mente, mas achou que isso não vinha ao caso. — Você é mais inteligente do que parece — disse Lihaku, batendo no ombro dela com um sorriso enorme.
— Mas você é tão estupidamente forte quanto parece, Mestre Lihaku, então, por favor, tenha cuidado.
Lihaku sentiu um leve calafrio quando Maomao o encarou. Virou-se para descobrir que ela não era a única lançando-lhe um olhar fulminante.
— Fico feliz em ver que estão se divertindo. — A voz era maravilhosa, mas carregada de sarcasmo. Lihaku deu um passo intimidado para trás ao ver a quem pertencia.
— Não estou particularmente me divertindo — disse Maomao.
Jinshi os observava de perto, meio oculto pela sombra da árvore. Gaoshun estava atrás dele, com a testa franzida em sua costumeira e perpétua expressão de desaprovação.
O grandalhão foi embora às pressas, deixando Maomao para lidar com Jinshi, que parecia contrariado por algum motivo.
— Você parece bastante amistosa com aquele homem.
— Pareço? — Ela serviu chá de um pequeno bule que havia colocado para ferver. Uma xícara de cerâmica talvez produzisse uma bebida mais saborosa, mas a maioria das louças usadas por Jinshi eram de prata. Maomao ainda não compreendia totalmente a posição de Jinshi na hierarquia política. Ele era mais do que um eunuco que perambulava pelo palácio interno; tinha negócios de verdade no pátio externo também.
— O que ele é? Algum tipo de oficial militar?
— De fato, senhor, como pôde ver. Ele veio conversar comigo sobre algo que o incomodava.
Maomao colocou petiscos para acompanhar o chá sobre a mesa. Não podia ter certeza se Jinshi poderia ter algum interesse no que Lihaku lhe contara. Afinal, Kounen estava de alguma forma relacionado. Então Maomao ofereceu:
— Gostaria que eu lhe contasse exatamente sobre o que ele veio perguntar?
Jinshi apenas tomou seu chá em silêncio.
Quando Maomao terminou a explicação detalhada, Jinshi fechou os olhos e franziu a testa, visivelmente inquieto.
— Uma rede complicada, de fato.
— Sim, senhor.
Jinshi não tocara nos petiscos. Gaoshun estava parado na entrada do escritório, parecendo tão perturbado quanto seu mestre.
— E como você acha que tudo isso se relaciona? — perguntou Jinshi.
— Isso eu não sei — respondeu honestamente. Não fazia ideia do que qualquer daquelas situações pretendia alcançar. Qualquer um dos casos poderia ter sido acidental. A única coisa certa é que, enquanto parecessem acidentes, dificilmente alguém juntaria as peças. — Pessoalmente, acho que parecem menos um grande plano único e mais uma série de armadilhas, cuja simples eficácia de qualquer uma já serviria aos propósitos de quem as armou.
Jinshi tomou outro gole de chá em resposta. O gole esvaziou sua xícara, então Maomao foi ferver mais.
— Concordo — disse Jinshi. — E isso significa que há a possibilidade de existirem outras armadilhas.
— Não podemos ter certeza. — Até mesmo Maomao só tinha sua especulação em que se basear. Se alguém lhe dissesse com certeza que tudo não passava de uma série de coincidências, só poderia assinar embaixo e aceitar.
— Humm. Não está muito empolgada com isso?
— Empolgada, senhor? — E daí? Não é como se eu me metesse nessas coisas por interesse pessoal. Ela apenas tomava nota do que acontecia ao seu redor. Havia gente demais disposta a envolvê-la em seus próprios assuntos arriscados, esse era o problema. Maomao teria ficado perfeitamente feliz vivendo uma vida tranquila como apotecária: sentada na varanda tomando chá e fazendo seus experimentos medicinais. — Sou apenas uma empregada — disse ela. — Apenas faço o trabalho que me é dado.
— Humm — repetiu Jinshi, aparentemente achando a resposta sem graça. Ele brincava distraidamente com um pincel na mão. Empurrara os petiscos para um canto da mesa. Talvez não estivesse interessado neles. Maomao achou que ele parecia incomumente jovem.
— E que tal isso, então? — disse ele. Chamou Gaoshun com um sorriso e sussurrou em seu ouvido. Fosse lá o que tivesse dito, Gaoshun claramente não ficou entusiasmado.
— Mestre Jinshi... — disse ele.
— Você me ouviu. Prepare tudo, por favor.
Gaoshun assentiu sem convicção e, enquanto isso, Jinshi mergulhou o pincel com o qual brincava em tinta e começou a escrever em um pedaço de papel com movimentos fluidos e elegantes.
— Quando estava visitando os mercadores itinerantes outro dia, ouvi falar de um item muito interessante. Acho que este era o nome.
Ergueu o papel com um floreio e o mostrou para Maomao. Os olhos dela imediatamente começaram a brilhar.
Escritos no papel havia dois caracteres: niu huang: calculus bovis. Bezoar de boi.
[N/T: Deixamos os dois nomes oficiais em sua língua original e traduzimos apenas o nome popular para melhor imersão. Daqui para frente usaremos cálculo bovino quando ela se referir à “calculus bovis”.]
— Você gostaria de tê-los para você?
— Gostaria!
Antes mesmo de perceber o que estava fazendo, Maomao correu até a mesa de Jinshi e pulou sobre ela.
Cálculo bovino era um remédio, uma pedra biliar retirada de uma vaca ou boi. Diziam que apenas um em cada mil animais produzia uma; era considerado um dos suplementos medicinais mais raros e valiosos que existiam. Uma apotecária pobre do distrito do prazer teria sorte se visse uma única vez em toda a vida. Era uma perspectiva de dar água na boca.
E aquele eunuco estava dizendo... o quê? Que realmente lhe daria uma? De verdade? Mesmo?!
Jinshi recuou levemente de Maomao, que começara a se inclinar cada vez mais para perto dele. Ela só percebeu o que estava fazendo quando Gaoshun puxou sua manga, trazendo-a de volta à realidade. Maomao desceu devagar da escrivaninha e ajeitou a saia.
— Aí está a motivação.
— Posso mesmo ficar com ele? — Maomao lançou a Jinshi um olhar cauteloso, mas agora ele parecia um pouco mais adulto do que antes. Maomao reconheceu aquele olhar sedutor que ele frequentemente lançava às criadas do palácio interno.
— Isso depende do quanto você vai se esforçar. Deixe-me começar passando todos os detalhes. — Jinshi começou a amassar o papel e o jogou na cesta de lixo, trazendo de volta o sorriso meloso de sempre. Maomao não poderia se importar menos com o sorriso, mas ele estava oferecendo recompensá-la com algo que ela desejava desesperadamente caso fizesse um bom trabalho e isso era tudo que ela precisava saber.
— Entendido. Basta me dizer o que deseja, Mestre Jinshi. — E então Maomao recolheu a xícara de chá e os petiscos intocados.
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Kessel: O "big dog" Lihaku. Sempre me arranca uma risada quando vejo a Maomao comparando ele com um cachorro. kkkkkkkk
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