Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle Tokito

Revisão: Kessel


Volume 2

Capítulo 17: Como Rescindir um Contrato

— Então, quanto custa comprar o contrato de uma cortesã? — perguntou Lihaku. Ele e Maomao estavam sentados na sala que ligava o palácio interno ao mundo exterior. Quando Maomao ouviu a pergunta de Lihaku, ela ficou boquiaberta. Como ele a havia convocado pessoalmente, em vez de mandar uma carta, ela presumira que ele tinha alguma informação nova para lhe dar sobre o incidente. Mas era isso que ele queria saber? 

Eu sabia que ele era um cachorro grande e burro.

Lihaku segurou a cabeça até que, por fim, incapaz de aguentar mais, bateu com força na mesa entre eles e exclamou:

— Você precisa me dizer, senhorita!

Os eunucos que guardavam as entradas nas duas extremidades da sala observaram a agitação, mas claramente consideraram aquilo tudo uma dor de cabeça.

Ao que parecia, numa visita recente à Casa Verdigris, Lihaku ouvira comentários sobre alguém que estava comprando o contrato de uma das damas. Uma das três princesas, nada menos. Lihaku, que era profundamente apaixonado por Pairin, uma dessas princesas, não conseguiu deixar o assunto de lado.

— Há inúmeras respostas para essa pergunta — disse Maomao. 

— Para uma das melhores cortesãs, então.

— Eu te escutei — disse Maomao, observando-o por entre as pálpebras semicerradas. Ela pediu um pincel e uma pedra de tinta a um dos guardas, e Lihaku providenciou um papel. — O preço de mercado pode mudar num piscar de olhos, é claro, então considere isto apenas uma estimativa — disse ela. Em seguida, escreveu o número 200 no papel. Aquilo era, a grosso modo, a quantia de prata que um agricultor comum podia esperar ganhar em um ano. Uma cortesã simples e barata podia ser adquirida por cerca do dobro disso. Lihaku assentiu.

— Mas isso exclui o dinheiro da celebração — informou Maomao. O preço real de resgate de uma cortesã podia ser influenciado por fatores como quanto tempo ainda restava de seu contrato e quanto dinheiro se esperava que ela ganhasse nesse período, mas também era possível acabar pagando quase o dobro desse valor além do resgate. Pois era costume no Distrito do Prazer despedir suas damas com as mais grandiosas celebrações.

— Seja direta comigo. Quanto posso esperar pagar no total?

Maomao ficou um pouco perplexa com o olhar sincero de Lihaku. Não é uma pergunta fácil de responder, pensou. Pairin conquistou muitos clientes, e uma quantia proporcional de dinheiro, desde que fizera sua estreia no estabelecimento. Ela não devia nada ao bordel por roupas ou adornos de cabelo e, na verdade, seu período de serviço formal já havia terminado há muito tempo. Ela permanecia na Casa Verdigris, e continuava ganhando, porque suas preferências sexuais a tornavam perfeita para o trabalho de cortesã. Se o preço de resgate de uma mulher fosse puramente para quitar suas dívidas, então o de Pairin teria sido praticamente nulo.

Quantos anos ela fez mesmo este ano? Maomao se perguntou. Pairin era a mais velha das três princesas, título ao qual pertencia desde antes do nascimento de Maomao. Ainda assim, sua pele permanecia brilhante e ela havia aprimorado a sua especialidade, a dança, ao longo de muitos anos. Sua aparência jovem às vezes até gerava rumores de que ela se mantinha jovem sugando a essência dos homens. Havia práticas, as chamadas fang zhongshu, ou “artes do quarto”, que supostamente permitiam tanto a homens quanto a mulheres preservar sua essência vital por meio do ato sexual, e Maomao ocasionalmente se perguntava, sem grande compromisso, se Pairin teria aprendido tais habilidades.

Julgando estritamente pela idade, o valor de Pairin deveria ser nulo, mas sua beleza permanecia intacta, assim como sua energia. Ao mesmo tempo, a velha madame não queria que suas três princesas estagnassem; ela estava pensando em transferir a mais velha delas, Pairin, em breve. Maomao a ouvir murmurando sobre isso em sua última visita.

Pairin tinha sido uma cortesã exemplar, sustentando a Casa Verdigris quando ela estava à beira do colapso, mas não poderia descansar nesses louros para sempre, nem a Casa Verdigris poderia descansar nela. Seria preciso fomentar uma nova geração de rostos famosos enquanto o estabelecimento ainda está em ascensão, para que não ocorra de, um dia, a colheita atual de repente parecer velha e empoeirada.

Maomao coçou a nuca e resmungou pensativa. 

— Se alguém fosse comprar a mana, quer dizer, a Pairin, seria uma dessas duas pessoas.

Ela vasculhou na memória. Provavelmente seria alguém que Pairin conhecia bem; a Casa Verdigris não recebia tantos clientes novos.

Um dos candidatos era o chefe de um próspero negócio mercantil, um gastador extravagante que foi bondoso o bastante para continuar frequentando a Casa Verdigris mesmo quando ela passava por tempos difíceis. Um velho decente. Ele frequentemente dava doces a Maomao quando ela era pequena. Muitas vezes vinha não exatamente para passar a noite, mas para beber um pouco de vinho e apreciar uma ou duas danças. Já falara em comprar o contrato de Pairin mais de uma vez. A velha gananciosa conseguira desviá-lo do assunto em todas as ocasiões, mas, se ele voltasse a levantar essa possibilidade agora, talvez ela se mostrasse mais receptiva.

A outra possibilidade era um oficial de alto escalão que era cliente regular. Ainda jovem, pouco acima dos trinta, Maomao não sabia exatamente que tipo de oficial ele era, mas, ao se lembrar do ornamento cravejado de joias que tinha visto no punho de sua espada alguns anos antes, percebeu que, já naquela época, ele ocupava um posto mais alto do que Lihaku ocupava agora. Certamente o homem tinha sido promovido desde então. Ele parecia combinar muito bem com Pairin no que dizia respeito às atividades noturnas: ela sempre estava de excelente humor depois de uma noite com ele.

Apenas uma coisa incomodava Maomao em relação a esse segundo pretendente. Comparado à incansável Pairin, ele frequentemente parecia um pouco… cansado. Ela se preocupava com como Pairin se daria depois de ser comprada por qualquer um desses homens.

Pairin era uma mulher linda e uma excelente dançarina, mas, ao mesmo tempo, era famosa por nunca sair em desvantagem na cama. Diziam-se até que, quando ficava frustrada demais, seus apetites podiam se estender não apenas aos criados do bordel, mas também às outras cortesãs e aprendizes… Em resumo, ela era insaciável.

Foi isso que levou a madame a considerar não apenas a possibilidade de vender o contrato de Pairin, mas também, a alternativa de deixá-la assumir a Casa Verdigris. Também era concebível que Pairin simplesmente deixasse o bordel, mas sua personalidade tornava isso improvável.

Embora provavelmente fosse a solução mais pacífica para ela, pensou Maomao. Formalmente, ela se aposentaria, mas poderia ser autorizada a receber clientes em casos especiais, enquanto, em seu tempo livre, poderia amar livremente. Ela teria muito mais liberdade do que jamais tivera antes, o que provavelmente lhe agradaria imensamente.

Hmmm… Maomao lançou outro olhar para Lihaku. Ela calculou que ele estivesse na casa dos vinte e poucos anos. Ele era tonificado e musculoso, com braços fortes, exatamente do tipo de que Pairin gostava. Sem mencionar que, quando ele foi à Casa Verdigris pela primeira vez, ele e Pairin tinham ido para o quarto dela e não saíram durante os dois dias em que Maomao esteve em casa, e mesmo assim, Lihaku não parecia exausto depois.

— Mestre Lihaku, quanto dinheiro o senhor ganha?

— Essa pergunta parece meio direta demais — disse Lihaku, um tanto apreensivo. 

— Cerca de oitocentas pratas por ano?

— Ei, não saia tentando colocar preço nas pessoas. — Lihaku franziu a testa, mas não com muita força. Um pouco baixo, percebeu ela.

— Mil e duzentas, então?

Dessa vez ele não disse nada. Isso sugere um número intermediário: algo em torno de mil pratas por ano. Uma renda razoavelmente boa para a idade dele. Para comprar o contrato de uma cortesã de alto nível, porém, o ideal era ter pelo menos dez mil pratas em mãos. Afinal, mulheres assim podiam cobrar cem pratas por uma xícara de chá, ou trezentas por uma noite de companhia.

Lihaku voltou para passar mais duas ou três noites com Pairin desde aquela primeira visita. Ele teria de esticar o salário para sustentar esse hábito, mas Maomao suspeitava que a própria velha madame estivesse por trás disso. Muito provavelmente usando Lihaku para ajudar a garantir que Pairin não ficasse frustrada demais.

— Não é suficiente? — perguntou Lihaku.

— Receio que não.

— E se eu prometesse devolver o dinheiro depois que fizer meu nome no mundo?

— Eles nunca permitiriam isso. Provavelmente vão exigir pelo menos dez mil em dinheiro vivo.

— D-Dez mil?!

Lihaku ficou paralisado no lugar. Maomao não tinha certeza do que fazer. Se ele conseguisse, de alguma forma, levantar o dinheiro, não seria um pretendente ruim para Pairin. Ela sem dúvida apreciaria sua resistência extraordinária.

Sim, ela apreciaria, mas isso constituía amor? Maomao não tinha certeza. Hmmm, pensou novamente. Olhou para Lihaku, que estava claramente abatido, e soltou um suspiro.

Ele parecia estar pensando na mesma linha que ela. Olhou para Maomao com incerteza e disse:

— Se, hipoteticamente, eu conseguisse juntar dez mil pratas, eu poderia comprar o contrato dela?

— Você está perguntando se a mana simplesmente o rejeitaria de imediato? — disse Maomao com frieza. No instante em que falou, os olhos de Lihaku ficaram um pouco mais injetados de sangue e ele rangeu os dentes. Ela apenas mencionara a possibilidade; não dissera que isso aconteceria.

Pois bem, só me resta uma coisa a fazer, pensou ela. Maomao se levantou e ficou diante de Lihaku.

— Por favor, levante-se um instante, senhor.

— Certo… — disse Lihaku, desanimado. Talvez um cachorro desapontado seja um cachorro obediente, pois ele prontamente fez o que Maomao disse.

— Ótimo. Agora tire a camisa, levante os braços até a altura dos ombros e flexione.

— Tudo bem. — Lihaku começou a obedecer, mas parecia estar causando certo alarme entre os eunucos de guarda. Eles o detiveram antes que pudesse tirar a camisa.

— Não se preocupem, nada impróprio está acontecendo — disse Maomao. — Eu só quero dar uma olhada nele.

Apesar de suas garantias, os eunucos não se moveram.

Ainda abertamente decepcionado, Lihaku sentou-se formalmente na cadeira.

— Se eu tirar, ela não vai me rejeitar?

— Se eu não sei de mais nada, sei dos gostos da Pairin.

— Eu vou tirar — disse Lihaku prontamente, e então o fez. Ele silenciou as objeções dos eunucos exibindo seu distintivo de cargo.

Maomao circulou Lihaku, que posava, examinando-o de todos os ângulos. Ocasionalmente, ela formava um quadrado com as palmas e os dedos indicadores e o observava através dele de maneira crítica. Ele tinha o corpo cuidadosamente moldado de um oficial militar. Nada estava flácido ou caído, e os músculos cobriam praticamente tudo. O braço direito era ligeiramente maior que o esquerdo, o que sugeria que ele era destro. Pairin era voraz e devoraria quase qualquer coisa se não tivesse outra escolha, mas, como qualquer pessoa, tinha suas preferências. Se ela estivesse ali naquele momento, estaria lambendo os lábios.

— Muito bem. Agora a parte de baixo.

— A parte de baixo? — disse Lihaku, em tom suplicante.

— Eu insisto. — A expressão de Maomao era perfeitamente séria.

Lihaku saiu das calças, embora não parecesse satisfeito com isso, até ficar ali em nada além de uma tanga. O rosto de Maomao não mudou; ela continuou a estudá-lo com um rigor quase científico.

As pernas e os quadris de Lihaku eram tão robustos quanto o resto dele, demonstrando que não havia desequilíbrios em seu regime de treinamento. Não havia gordura nas coxas, e os músculos fluíam suavemente em direção às articulações dos joelhos, para então se expandirem novamente nas panturrilhas.

Estes realmente são músculos excepcionais, pensou Maomao. Ele não tinha a barriga inchada pelo vinho como tantos outros que frequentavam o bordel; sua pele tinha um tom saudável. Exatamente o tipo da mana. 

Maomao fez Lihaku assumir pose após pose, começando a achar que talvez ele realmente tivesse o necessário. À medida que Lihaku ia se soltando no exercício, assumia posições com vigor cada vez maior. Por fim, Maomao estava pronta para inspecionar a parte mais importante.

— Agora, se você puder tirar as suas... — ela começou, mas foi interrompida pela porta sendo escancarada com força. Lihaku, que um instante antes parecia totalmente entusiasmado, empalideceu. Os eunucos pareciam achar que poderiam receber a pena de morte. 

Quanto a Maomao, sua boca simplesmente ficou aberta.

— O que todos vocês estão fazendo aqui?

O supervisor do palácio interno (com uma veia saltada de forma evidente na têmpora) estava parado na porta, acompanhado de seu assistente. Um grupo de mulheres do palácio que rondava o local na esperança de se aproximar de Jinshi se dispersou, algumas até desmaiando, como se tivessem visto algo insuportável.

— Bom dia, Mestre Jinshi — disse Maomao com tranquilidade.

Algumas coisas no mundo eram misteriosas, pensou Maomao. Por exemplo, por que ela estava sentada de maneira tão formal naquele momento? E por que Jinshi a encarava com um olhar tão frio? Lihaku tinha corrido para casa às pressas, ainda malvestido. Maomao achou toda a cena ridícula. Também sentiu que havia algo vagamente injusto naquilo, mas manter o soldado ali provavelmente tornaria tudo ainda mais complicado do que já estava, então talvez fosse melhor mesmo que ele tivesse ido embora.

— O que vocês estavam fazendo? — Jinshi perguntou novamente.

Maomao ergueu os olhos para ele, observando em silêncio que pessoas bonitas são realmente assustadoras quando ficam zangadas. Jinshi estava de braços cruzados, impondo-se à frente dela. Atrás dele, Gaoshun permanecia com as mãos juntas e a expressão impassível de um monge contemplando o vazio. Os eunucos, com ar cansado, haviam retomado seus postos junto às portas, embora lançassem olhares ocasionais para seu glorioso chefe.

— Ele apenas veio até mim pedir conselhos — disse Maomao.

Ela havia informado Hongniang no Pavilhão de Jade, conforme o protocolo. Ela tinha terminado a lavanderia pela manhã e, como não havia festas de chá planejadas para aquele dia, um provador de alimentos não seria necessário. Maomao não tinha deveres de trabalho até o anoitecer.

— Conselhos, é? Então por que ele estava daquele jeito?

Ah, pensou Maomao, então era isso. Apesar de haver guardas presentes, era de fato mais do que problemático que um homem de fora do palácio interno fosse visto naquele estado. Ela decidiu resolver o que claramente era um mal-entendido.

— Não foi nada impróprio, senhor. Eu não toquei nele; apenas o observei com atenção.

Ela tentou enfatizar bem esse ponto: não havia colocado um dedo sequer nele. Era isso que queria que Jinshi entendesse. Jinshi, porém, reagiu mal; seus olhos se arregalaram e ele pareceu prestes a cair para trás. Gaoshun, por sua vez, parecia estar passando da contemplação do vazio para a realização da iluminação. Maomao se perguntou por que ele a encarava com a compaixão serena de um bodhisattva.

[N/T: Um bodhisattva é, de acordo com a doutrina budista, um ser que alcançou o despertar espiritual, mas adia seu próprio Nirvana para ajudar todos os outros seres sencientes a atingir a iluminação.]

— Observou com atenção, você diz?

— Sim, senhor. Apenas observei.

— Com que finalidade?

— Achei que isso fosse óbvio. Eu precisava confirmar se o corpo dele seria satisfatório, e examiná-lo de perto era a única forma.

Numa conversa sobre quem compraria o contrato de Pairin, Maomao queria ter certeza de considerar com especial cuidado os sentimentos de sua irmã. Pairin era uma mulher que amava com frequência e intensidade, e, na opinião de Maomao, o ideal seria que ela fosse para um homem por quem realmente gostasse. Se Maomao tivesse achado que Lihaku estava muito distante do tipo de Pairin, certamente não teria oferecido mais conselhos a ele. Ela não era tão sentimental assim.

Maomao cresceu na Casa Verdigris, pelo menos até ser arrancada de seu velho. Na infância, foram as três princesas: Pairin, Meimei e Joka, junto com a velha madame, que cuidaram de sua criação. Pairin era única porque, embora nunca tivesse tido um filho, seus seios ainda produziam leite, e foi esse leite que alimentou Maomao quando bebê. Quando Maomao nasceu, Pairin havia acabado de concluir seu período de aprendizado, mas já era bastante voluptuosa. Maomao sempre pensou em Pairin como “mana”, mas, na prática, era algo mais próximo de “mãe”. Aliás, ela usava esse tom informal com Pairin para evitar que Meimei e Joka ficassem irritadas.

Maomao suspeitava que, se Pairin acabasse com um dos dois pretendentes antigos, dificilmente teria a vida que realmente desejava. Ainda assim, Maomao não tinha certeza se seria melhor simplesmente seguir adiante e acabar como a velha madame. Muitas ex-cortesãs desistiram de ter filhos. O uso constante de drogas contraceptivas e abortivas tirava do útero a força necessária para gerar uma criança. Maomao não sabia se esse era o caso de Pairin ou não. Mas, quando se lembrava de seus primeiros anos, sendo embalada para dormir nos braços de Pairin, achava que seria uma pena se Pairin nunca tivesse filhos próprios. Ela era uma mulher de apetites sexuais imensos, mas seu instinto materno era igualmente forte.

Lihaku estava completamente apaixonado pela cortesã Pairin. Ele sabia muito bem que, como cortesã, ela não oferecia seus serviços apenas a ele. Ainda assim, por mais que Lihaku às vezes parecesse um filhote grande demais, no fundo era um homem sério e diligente, e sua determinação em ascender na vida por causa de uma mulher era ao mesmo tempo tola e cativante. A obstinação de Lihaku tornava improvável que sua paixão esfriasse de repente, e mesmo que um dia a deixasse de amar, Maomao suspeitava que poderia ajudar a lidar com os arranjos de uma eventual separação. O mais importante era que ele tinha uma resistência impecável.

E foi justamente enquanto ela avaliava aquele espécime que Jinshi apareceu. Como responsável por supervisionar os assuntos do palácio interno, ele provavelmente não ficou nada satisfeito ao encontrar uma de suas mulheres se reunindo com um homem qualquer de fora. Ele escolhia, pensou Maomao, os momentos mais estranhos para demonstrar tanto zelo pelo trabalho.

— O corpo dele… satisfatório?!

— Sim, senhor. A aparência é apenas uma parte da pessoa, mas é natural esperar que ela agrade alguém.

Pelo que tinha visto, Maomao poderia dar uma nota de aprovação ao corpo de Lihaku. Já começava a pensar em como explicaria a Pairin que não tivera a chance de avaliar a última e mais importante parte de todas. Maomao havia dito a Lihaku que seriam necessários dez mil em prata para comprar o contrato de Pairin, mas, dependendo de como a situação fosse conduzida, talvez ele conseguisse pagar apenas metade disso. Tudo dependeria, em especial, de como Pairin se sentia em relação a ele.

— A aparência externa é tão importante assim?

Jinshi finalmente parou de se impor sobre ela e se sentou. Seu pé batia inquieto no chão; ele ainda estava claramente irritado.

— Eu diria que sim — respondeu Maomao, achando curioso que justamente Jinshi fizesse essa pergunta.

— Confesso que nunca esperei ouvir isso de você. Então? O que achou da aparência dele?

Ele só sabe fazer perguntas, pensou Maomao. Mas era o fardo de um subordinado responder a toda e qualquer indagação de quem estava acima.

— O corpo dele tem proporções excelentes. É magro por completo. Fica claro que tem uma base física excepcional, e acredito que seja justo supor que ele é bastante dedicado. Deve treinar e cuidar do condicionamento físico todos os dias. Se tivesse de arriscar, diria que ele é bem capaz mesmo para os padrões militares.

Jinshi ficou boquiaberto com a declaração de Maomao. Ela quase achou que ele tinha se surpreendido. A expressão dele rapidamente se fechou, até ficar visivelmente furiosa.

— Você realmente consegue dizer que tipo de pessoa alguém é apenas pela aparência física?

— Mais ou menos. Os frutos do hábito se manifestam na carne, por assim dizer.

Ao fornecer remédios a um cliente relutante em falar sobre si mesmo, era importante saber identificar com quem se estava lidando. Qualquer apotecário que se preze acabaria adquirindo essa habilidade, intencionalmente ou não.

— E você conseguiria me avaliar pelo meu corpo?

— Hã? — Maomao deixou escapar. Ela quase pensou que havia um traço de emburrecimento no rosto de Jinshi. 

Espere… 

Será que ele estava com ciúmes de Lihaku? Isso explicaria por que ele vinha ficando cada vez mais descontente ao longo da conversa. Tudo porque Maomao havia elogiado demais as qualidades físicas de outro homem. Não acredito nesse cara, pensou, suspirando por dentro. Ele só precisava de uma reafirmação de que é o mais atraente.

Jinshi tinha um rosto belíssimo. Tão belo que, se fosse uma mulher, poderia ter o país inteiro aos seus pés; e mesmo sendo homem, não parecia algo impossível. E ainda assim, apesar de ter uma aparência incomparável, agora queria se vangloriar do corpo também? 

Bem, tanto faz, pensou Maomao. O vislumbre que tivera do corpo de Jinshi mostrava alguém surpreendentemente musculoso e definido. Nem precisaria observar de perto para perceber que ele era bastante atraente. Mas e daí? Será que ele sugeria que ela deveria recomendá-lo a Pairin caso julgasse que supera Lihaku em beleza física? Pensando bem, ela sequer tinha mencionado Pairin a Jinshi alguma vez?

Enquanto Maomao refletia sobre tudo isso, Jinshi apoiou os cotovelos na mesa e a observou atentamente, com os lábios franzidos. Os eunucos de guarda pareciam completamente intimidados, mas ainda assim fascinados por sua expressão tempestuosa. Quanto a Gaoshun, ele olhava para Maomao com toda a tranquilidade de uma imagem do nirvana encarnado.

Maomao sentiu um pouco de pena de Jinshi, mas precisava ser clara ali e naquele momento: Jinshi não possuía a única coisa que Pairin considerava mais importante do que qualquer outra em um homem. Não importava quão refinadas fossem suas outras qualidades físicas; sem isso, não havia nem o que discutir.

— Eu vi seu corpo, Mestre Jinshi, mas temo que simplesmente não há sentido nisso — disse Maomao, ainda que com relutância. A atmosfera na sala congelou imediatamente. Gaoshun passou de santo em nirvana a parecer o criminoso Kandata quando o fio da aranha se rompeu.

[N/T: A História de Buda e o Fio da Aranha é um dos ensinamentos budistas, de certa forma parecido com as parábolas de Jesus. Nessa história, Buda observa o inferno através de uma poça de água e enxerga o criminoso Kandata, e decide conceder à ele uma oportunidade de redenção, estendendo um fio de aranha para que ele pudesse ascender ao paraíso. Mas, por certas razões, o fio acaba se rompendo, e Kandata cai novamente ao inferno. Podemos pressupor, portanto, que a feição que ele fez nesse momento foi de puro desespero e horror.]

— Sinto muito em lhe dizer isso, senhor — continuou Maomao — mas o senhor simplesmente não é compatível com minha irmã mais velha.

— Hã?

Dessa vez, foi Jinshi quem soou completamente desnorteado. Gaoshun encostou a testa na parede.

○●○

Lihaku só conseguia se perguntar o que, afinal, estava acontecendo. O eunuco que lhe havia lançado o olhar mais fulminante de sua vida por aquele pequeno erro no dia anterior agora estava ali, diante dele e em seu rosto impecavelmente belo havia um sorriso. 

O nome do homem era Jinshi, lembrou Lihaku. Jinshi parecia um pouco mais jovem do que Lihaku, mas também era alguém da confiança do Imperador. Com aquele rosto magnífico, rumores surgiam ocasionalmente sobre um possível caso entre Jinshi e o Imperador, mas, no mínimo, Jinshi parecia levar seu trabalho a sério; nesse aspecto, não havia do que reclamar. A capacidade que ele tinha de fazer praticamente qualquer pessoa, homem ou mulher, se apaixonar perdidamente por ele podia ser um problema, mas fora isso, na opinião de Lihaku, não havia nada de condenável nele. Quanto ao próprio Lihaku, porém, ele não era do tipo que se interessaria por outro homem, não importando quão belo fosse. 

Ainda assim, quando aquele homem surgiu praticamente do nada e passou a encará-lo com tanta intensidade, Lihaku ficou um pouco sem saber como agir. Ficou apenas aliviado por não haver mais ninguém por perto para vê-los. Eles estavam no edifício dos oficiais, um lugar que raramente tinha muita gente. Um comandante particularmente excêntrico mantinha ali sua base de operações, alguém com quem todos os outros preferiam ter o mínimo de contato possível.

Corria o boato de que o excêntrico andava bastante ativo ultimamente, e Lihaku pensou que talvez aquele eunuco tivesse sido praticamente coagido a ajudar em alguma coisa por ali. Lihaku havia entregue sua papelada e tentou sair do prédio o mais rápido possível para não acabar envolvido em nada, mas, justamente quando estava deixando o escritório de Lakan, acabou esbarrando nesse eunuco. E agora estava diante daquele sorriso enigmático.

Falando em enigma, o assistente parado atrás de Jinshi era o homem que havia pedido a Lihaku que servisse de intermediário no bordel. Ao que diziam, ele era um velho conhecido de um dos superiores de Lihaku. Lihaku havia se perguntado como aquele homem conhecia a mulher sardenta do palácio, Maomao, mas agora tudo começava a fazer sentido.

— Poderia me conceder um momento do seu tempo? — perguntou Jinshi.

Era um pedido educado, mas Lihaku dificilmente estava em posição de recusar. Embora o outro fosse mais jovem do que ele, o ornamento cravejado que pendia em sua cintura tinha uma cor mais prestigiosa do que o de Lihaku. Se não fizesse o que lhe era solicitado, não tinha como saber se algum dia conseguiria a promoção que almejava.

— Como desejar — foi tudo o que disse, seguindo então os eunucos.

Eles estavam em um pátio do palácio, um local onde os oficiais costumavam ir para aproveitar a brisa refrescante nas noites de verão. É verdade que Lihaku não era um frequentador assíduo; nunca tivera grande sensibilidade para estética. Naquela estação, o frio no ar ia além de refrescante; já estava ficando bem intenso. Pela época do ano e pelo horário, podiam contar que não seriam incomodados.

No verão, flores chamadas hortênsias-de-folhas-grandes teriam desabrochado ali, com pétalas tão grandes como bolas bordadas à mão. Diziam que eram flores incomuns, trazidas de um país insular a leste, e que, dependendo do dia, as flores podiam ser vermelhas ou azuis. O comandante fizera questão de mandá-las plantar ali. As flores lembravam um pouco lilases, mas no momento pareciam apenas arbustos baixos e sem graça. Lihaku às vezes se perguntava se davam liberdade demais àquele homem, mas comentava-se que até o general tinha dificuldade em se impor diante do sujeito de monóculo, então talvez não houvesse muito o que fazer.

Jinshi sentou-se em um pavilhão aberto e fez um gesto para que Lihaku se sentasse também. Sem outra escolha, ele se acomodou de frente para o eunuco.

Jinshi apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas e fixou Lihaku com um sorriso radiante. Seu assistente, atrás dele, parecia totalmente acostumado com aquilo, mas Lihaku se sentiu um tanto desconcertado. Era ridículo, mas o sorriso era tão brilhante que quase dava vontade de desviar o olhar. Ele percebeu então que todo aquele falatório de que Jinshi poderia colocar o país inteiro de joelhos se fosse uma mulher não era apenas fofoca vazia. Mas ele era um homem. Ainda que lhe faltasse algo normalmente considerado importante em um.

Era fácil se deixar enganar pelo sorriso de ninfa e pelos cabelos sedosos, mas a estatura e a largura dos ombros o denunciavam. Ele não parecia frágil nem mesmo ao lado do próprio assistente, que tinha um ar nitidamente militar, e qualquer um que, iludido pelo sorriso delicado, achasse que poderia se aproveitar daquela pessoa, provavelmente descobriria o contrário, e de forma dolorosa. Cada movimento que ele fazia era de uma elegância hipnotizante, mas também absolutamente eficiente e preciso. Lihaku já pensava nisso mesmo quando apenas seguia atrás do eunuco. Também tinha a impressão de que o homem lhe parecia familiar, mas não conseguia identificá-lo. A sensação o incomodava, embora só tivesse visto Jinshi de relance antes; nunca realmente cara a cara. O que alguém de posição tão elevada queria com ele?

— Minha assistente me informou que você, meu rapaz, está apaixonado por alguém.

Lihaku se perguntou se estaria exagerando ao sentir que o comentário “meu rapaz” era uma facada um tanto desnecessária. Levou um segundo para entender a quem Jinshi se referia como assistente, mas logo percebeu que, naquele contexto, só podia ser a garota magricela e sardenta. Pensando bem, ela aparentemente já havia passado um tempo no palácio externo, Lihaku percebeu então que ela trabalhava justamente para aquele eunuco. Levou a mão ao queixo de forma inconsciente.

Ele sempre pensou que seria preciso alguém com gostos muito particulares para contratar aquela mulher como sua serva pessoal. Ele nunca teria imaginado que aquele eunuco deslumbrante tivesse esses gostos.

Mesmo reconhecendo que a situação em que Jinshi os encontrara exigiria alguma explicação, Lihaku ainda ficou surpreso ao perceber que ela havia contado a Jinshi sobre seu desejo de comprar o contrato de Pairin. Talvez fosse isso que inspirava o eunuco a sorrir para ele com tanta intensidade. Pela pouca idade, aspirar a comprar o contrato de uma das cortesãs mais belas e reverenciadas de todo o país era, de fato, algo cômico.

E, francamente, Lihaku não se importava se Jinshi o considerasse um tolo. Que risse dele, mas, se pretendesse menosprezar sua amada Pairin, então a história seria outra.

Pairin era uma boa mulher. Não apenas uma boa cortesã, uma boa mulher. Ele a imaginou sorrindo para ele na cama. Viu-a dançando, segurando a barra do robe com dois dedos. Pensou na maneira como ela servia o chá, atenta a cada detalhe.

Alguns diriam que isso era apenas o que se esperava de uma cortesã, e com pessoas assim não haveria espaço para mais discussão. Mas Lihaku não se importava. Não lhe importava se era verdadeiro ou não. Enquanto ele acreditasse, isso bastava.

Ele já tinha visto mais de um colega se perder em mulheres e jogos, e, para quem olhava de fora, talvez ele parecesse apenas mais um caso perdido. Aqueles que lhe diziam que Pairin não era adequada para ele provavelmente tinham boas intenções. E por isso ele era grato, mas desejava que se intrometessem menos.

Lihaku ia à Casa Verdigris por vontade própria. Muitas vezes nem chegava a ver Pairin, sendo servido apenas com chá na sala da frente por uma aprendiz. E isso estava bom para ele. Fazia parte do ofício de Pairin ser inalcançável como uma flor em um pico distante. Se ela cobrava um mês de prata por uma xícara de chá, quem era alguém para chamar isso de ganância? Pairin colocava tudo de si em ser uma cortesã; ela era uma mercadoria viva. Quem dizia que ela era cara demais simplesmente não entendia.

Por isso, se o eunuco à frente de Lihaku tentasse diminuir Pairin, Lihaku estava pronto para partir para a agressão. Ele sabia muito bem que isso poderia lhe custar a cabeça, mas aceitava esse risco, por assim dizer. Nunca comprometera seus princípios, suas convicções; e esse modo de vida, tão direto e implacável como um animal em disparada, sempre lhe agradou. Se os outros achavam que ele tinha enlouquecido por causa de uma mulher, que pensassem assim.

Por ora, conteve-se com esforço, apertando as mãos trêmulas e encarando Jinshi.

— E se for esse o caso, senhor?

Ele teve o cuidado de não acrescentar “isso não lhe diz respeito” ou qualquer coisa desnecessariamente provocadora. Jinshi pareceu não dar atenção ao olhar sombrio de Lihaku; o sorriso celestial permaneceu intacto. O que Jinshi disse em seguida deixou Lihaku chocado.

— O que você faria se eu dissesse que assumiria o custo da compra do contrato dela por você?

Lihaku prendeu o fôlego, pulou de pé e bateu na mesa. A superfície de granito devolveu-lhe parte do impacto. Só depois que o tremor percorreu todo o seu corpo ele conseguiu falar.

— O que o senhor quer dizer com isso?

— Exatamente o que disse. Quanto seria necessário para comprá-la? Vinte mil; acha que isso seria suficiente?

Era como se o número não significasse nada para Jinshi, mas fez Lihaku engolir em seco. Vinte mil não era uma quantia que se entregava assim, de qualquer forma. Muito menos a um oficial que mal conhecia. Jinshi já teria falado com Maomao sobre o custo provável? Ou aquela soma realmente era apenas um detalhe para ele? Lihaku enterrou o rosto nas mãos.

O pensamento lhe ocorreu: se aquele homem falava de vinte mil como se fosse nada, então metade disso seria menos do que nada para ele. Mas decidiu não se perder em uma fantasia ingênua.

— Suas palavras me enchem de alegria, senhor — disse ele —, mas preciso perguntar, o que o motivaria a tamanha generosidade para com alguém que o senhor mal conhece.

Ofertas boas demais sempre escondem uma armadilha. Até uma criança sabia disso, e Lihaku não era tolo a ponto de esquecer essa regra básica. Ele se recostou na cadeira e encarou o homem à sua frente. Apesar de ter oferecido uma soma tão absurda, a expressão do eunuco não mudou em nada, embora o assistente atrás dele parecesse levemente exasperado.

— Minha gata é extremamente desconfiada, e ainda assim não apenas esteve disposta a conversar com você, como parece considerar seriamente você como um possível par para uma mulher que ela vê como uma irmã mais velha.

A “gata” só podia ser Maomao, era o significado do nome dela, e, pensando bem, Lihaku percebeu que ela realmente tinha algo de felino. Podia ser tão desconfiada quanto um gato de rua, mas, quando havia comida, aproximava-se o suficiente para pegá-la, levava o máximo que conseguia e depois desaparecia.

[Kessel: Lembram que eu comentei que em alguns momentos, o Gaoshun e Suiren chamam a Maomao de Xiaomao? Xiao, como já expliquei, é algo como pequeno/pequena ou criança. E Mao é gato, ao menos, sonoramente (meow, miau, mao). Portanto, toda vez que eles chamam a Maomao de Xiaomao, estão chamando-a de pequena Mao, criança Mao, ou simplesmente gatinha (no sentido felino)!] 

Lihaku nunca quis ter um gato. Se fosse ter um animal, preferiria um cachorro, algo que pudesse caçar com ele.

Apesar da metáfora escolhida pelo eunuco e da atitude de Maomao, aparentemente ela confiava em Lihaku ao menos em certa medida. Era verdade que o desinteresse em seus olhos deixava claro o quanto ela achava irritante ter de responder às perguntas dele, mas respondia assim mesmo. No fim, isso havia levado àquela conversa.

— O senhor está dizendo que, quando um gato desconfiado simpatiza com alguém, isso já é motivo suficiente para confiar nessa pessoa — disse Lihaku, arrancando um leve sobressalto de Jinshi.

Ele se perguntou se teria dito algo errado, mas o sorriso suave voltou ao rosto de Jinshi tão rápido que Lihaku chegou a pensar que tinha imaginado.

— Fiz algumas perguntas a seu respeito por aí — disse Jinshi. — Descobri que você é filho de um oficial provincial. Subir na hierarquia na capital deve ter exigido bastante esforço.

— Um tanto considerável.

Havia panelinhas e facções em qualquer lugar. Seu pai foi sim um oficial, mas apenas um administrador civil regional. Isso significou uma trajetória difícil para Lihaku, e muito tempo até que alguém realmente o levasse a sério.

— Dizem que você foi notado por um comandante com olhos para talentos e recebeu uma unidade própria.

— Sim, senhor — respondeu Lihaku, hesitante. Ele se perguntava até que ponto aquele homem sabia sobre ele. Oficialmente, Lihaku teria sido promovido após o comandante de uma pequena unidade deixar o serviço.

— E quem não gostaria de manter boas relações com um jovem soldado promissor? — continuou Jinshi.

Muitos gostariam, mas raramente ao custo de vinte mil moedas de prata.

Lihaku precisava, na verdade, de apenas metade desse valor, ou, considerando suas próprias economias e tudo o que poderia juntar, talvez apenas um quarto disso. Um quarto, ou seja, cinco mil em prata. Será que aquele homem simplesmente lhe daria isso?

Lihaku quase passou mal de tanto desejar que fosse verdade, mas balançou a cabeça.

Ele olhou Jinshi com seriedade e disse:

— Aprecio sinceramente sua confiança, e confesso que quase perco a razão querendo aceitar sua oferta, mas não posso aceitar sua prata. Para o senhor, ela talvez seja apenas mais uma cortesã; para mim, ela é uma mulher. Uma mulher que desejo tomar como esposa. E se eu não fizer isso com meu próprio dinheiro, que tipo de homem eu seria?

Lihaku conseguiu dizer tudo isso a Jinshi, embora se cansasse por ter de estar constantemente atento ao tom de suas palavras.

Ele imaginara que Jinshi ficaria irritado com a recusa, mas o sorriso de ninfa não mudou. Chegou a parecer que se suavizaram um pouco. Então o sorriso se transformou em riso.

— Entendo! Receio ter sido bastante rude.

O eunuco se levantou, absolutamente elegante ao passar os dedos pelos cabelos. Parecendo ter saído de uma pintura de beleza clássica, ficou ali com um sorriso satisfeito no rosto.

— Acho que talvez haja algo sobre o qual eu queira conversar com você mais tarde. Não se importaria?

— Como desejar, senhor.

Lihaku também se levantou, fechou o punho contra a palma aberta em sinal de respeito e fez uma reverência. O belo eunuco respondeu com um breve aceno de cabeça, e então ele e seu assistente foram embora. Lihaku observou Jinshi se afastar, quase atônito diante de tanta elegância, até que desaparecessem de vista.

Por fim, murmurou:

— O que foi isso, afinal?

E coçou a cabeça, genuinamente confuso. Seu coração afundou um pouco ao sentir a área ainda careca onde o cabelo havia sido chamuscado. Depois, sentou-se novamente, resmungando:

— O que eu vou fazer...?

Ele teria que mostrar seu melhor lado aos superiores no próximo treino. Ou talvez assumir mais trabalho. Não, não, havia algo mais importante. Ele enviaria uma carta à mulher com quem esperava se unir um dia. Não a tomaria de forma unilateral. Queria saber também como ela se sentia. Qualquer que fosse a resposta, talvez apenas por cortesia, ele depositaria fé nela; seria isso que o sustentaria.

— Tudo bem.

Lihaku enfiou as mãos nas mangas e saiu do pátio em trote rápido. Perguntou-se que tipo de galho faria o melhor acompanhamento para sua carta.

○●○

— Maomao, chegou uma carta.

Guiyuan estendeu um feixe de tabuletas de madeira para escrita. Maomao pegou-o e desatou o cordão, encontrando as tabuletas cobertas por uma caligrafia leve e fluida. Era uma resposta à mensagem que ela havia enviado à Casa Verdigris alguns dias antes.

“A velha pode dizer o que quiser, mas eu ainda ganho muito bem.”

A carta era de Pairin. Maomao quase conseguia ver a irmã mais velha e sensual estufando o peito avantajado.

“Além disso, ainda estou esperando que um príncipe em seu cavalo branco venha me buscar.”

Em um país distante, dizia-se que os príncipes montavam cavalos brancos quando vinham resgatar donzelas aprisionadas. Pairin ainda era uma mulher, e tinha sonhos de mulher. Talvez fosse um pouco tarde para chamá-la de donzela, ela já estivera com mais cavalheiros do que se podia contar nos dedos das mãos, mas não desistia da fantasia. Talvez fosse essa teimosia que preservara sua juventude por tanto tempo.

Eu meio que suspeitava, pensou Maomao. Se o pretendente fosse alguém que a agradasse, ele nem precisaria daqueles dez mil em prata. Ele só teria de desempenhar o papel de ser o “príncipe”. O papel exigia força física absoluta e resistência, além de algo que a maioria dos homens tinha, mas os eunucos não. Acrescente uma pitada de teatralidade e um pouco de dinheiro para comemorar, e isso bastaria. Não seria necessário, propriamente, comprar o contrato de Pairin, mas a comunidade não ficaria parada vendo-a partir sem marcar a ocasião.

A própria velha madame já dissera uma vez a Pairin:

— Se quiser se aposentar, não vou impedir. Mas vamos fazer a festa das festas.

Era uma observação bastante marcante vinda de uma mulher normalmente tão mesquinha. Quando Pairin deixasse o palco, isso seria celebrado como convinha a uma das flores mais belas do bairro do prazer. Afinal, uma cortesã tinha seu orgulho. Assim, para um homem que impressionasse Pairin de maneira adequada, nem mesmo a velha madame tentaria exigir demais. Mas certamente seriam necessários uns cinco mil para a celebração. Qualquer um que não conseguisse reunir ao menos isso não era digno de Pairin e, se tivesse o dinheiro mas se recusasse a gastar, isso seria ainda pior.

Sim, mesmo que dez mil estejam fora de alcance, cinco mil devem bastar. Se Lihaku continuasse sua ascensão constante na hierarquia, deveria conseguir economizar essa quantia em alguns anos. O resto dependeria da sorte. Se Pairin acabasse sendo manipulada pela velha, tudo estaria perdido. Lihaku só precisa tirá-la dali antes de isso acontecer.

Não havia papel algum para Maomao em tudo isso. Havia apenas uma coisa que a preocupava. Ele não iria se endividar para conseguir o dinheiro, iria… pensou ela. Se recorresse a empréstimos, a madame perceberia, e aí seria o fim. “Como posso deixar Pairin ir para um homem atolado em dívidas?” ela demandaria. Maomao estava razoavelmente confiante de que Lihaku não faria algo tão tolo, mas não podia ter certeza.

Com esses pensamentos passando por sua mente, ela chegou ao fim da carta, onde encontrou algo muito preocupante.

“Uma certa pessoa andou por aqui falando em comprar um contrato. Acho que as aprendizes entenderam errado.”

Uma certa pessoa. Certo, pensou Maomao. Era incomum Pairin ser tão indireta, mas Maomao sabia perfeitamente de quem ela falava.

Maomao amarrou a carta novamente e a colocou em uma prateleira de seu quarto.

Ao sair para o corredor, descobriu que Jinshi visitava o Pavilhão de Jade pela primeira vez em vários dias. Na última vez em que se separaram, ele parecia bastante irritado, mas naquele dia parecia de ótimo humor.

Maomao foi até a cozinha preparar o chá, perguntando-se o que poderia deixá-lo tão contente.


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