Volume 2
Capítulo 18: Rosas Azuais
O frio aos poucos afrouxava seu domínio sobre o mundo, e os primeiros indícios da primavera já pairavam no ar. Enquanto Maomao estendia algumas roupas de cama para secar, sentiu que poderia facilmente sucumbir à tentação do sol morno e agradável, mas balançou a cabeça (Não posso dormir em serviço!) e forçou-se a manter o foco no trabalho.
O tempo realmente passa depressa quando os dias eram cheios e satisfatórios. Ainda assim, de alguma forma, os dois meses que ela passou a serviço de Jinshi pareceram interminavelmente longos.
Às vezes, ela ainda sentia falta das prateleiras abarrotadas de medicamentos do consultório médico do palácio externo, mas podia resolver esse problema aqui; podia trabalhar com o médico charlatão para colocar o consultório médico do palácio interno em ordem. Enquanto isso, podia contar com Gaoshun para conseguir tudo o que precisasse dos arquivos. Teria sido ainda melhor se ela pudesse sair do palácio interno quando quisesse, mas, bem, não se pode ter tudo. Enquanto estivesse servindo ali, não podia esperar ir e vir conforme sua vontade.
A gravidez da concubina Gyokuyou tornava-se cada vez mais evidente. Sua menstruação ainda não havia retornado, e agora ela também sentia fadiga. Sua temperatura estava levemente elevada, e parecia evacuar com mais frequência do que o normal. A princesa Lingli às vezes encostava a bochecha na barriga de Gyokuyou e sorria, como se quisesse dizer que sabia que havia algo ali dentro.
Será que os bebês percebem isso? Maomao pensou. Lingli acenava em despedida para a barriga de Gyokuyou enquanto Hongniang a levava para a soneca da tarde.
Crianças eram, sem dúvida, criaturas misteriosas.
A princesa havia começado a andar sozinha; o Imperador deu a Lingli um par de sapatinhos vermelhos, e ela, em troca, passou a dar sua cota de dores de cabeça às damas de companhia. Ela também se tornou mais expressiva; se alguém lhe desse um pãozinho macio e gostoso, ela retribuía com um sorriso aberto. As damas do Pavilhão de Jade não tinham filhos, mas aparentemente possuíam instinto maternal, pois mimavam a pequena princesa.
Hongniang passou a dizer com frequência:
— Talvez eu tenha um meu, mais cedo ou mais tarde. Mas as outras mulheres, incluindo Maomao, não sabiam bem como responder. Hongniang parecia preocupada ao dizer isso, embora ninguém esperasse que a dedicada chefe das damas de companhia se afastasse de seu posto. Mesmo que surgisse uma proposta adequada, as outras mulheres provavelmente fariam de tudo para impedir que Hongniang partisse. Era graças a ela que o Pavilhão de Jade conseguia funcionar com uma equipe tão reduzida.
Ah, ser talentosa demais também tinha seus desafios.
Maomao passou a entreter a princesa Lingli quando não tinha outras tarefas a cumprir. A lesão na perna era outro fator. Em vez de sobrecarregar as damas atarefadas e saudáveis com a vigilância da princesa, além de todas as outras obrigações, não seria mais eficiente deixar essa função para a mulher cuja única tarefa era provar comida?
Assim, naquele dia, Maomao se viu mais uma vez brincando com a princesa Lingli, que fazia pilhas de blocos de madeira (propositalmente feitos de materiais leves) e depois os derrubava. Ela também demonstrava interesse por livros ilustrados, então Maomao copiava os desenhos de livros que pedia a Gaoshun que lhe emprestasse, escrevendo as palavras abaixo de cada imagem. Lingli ainda tinha apenas dois anos, mas Maomao tinha ouvido dizer que nunca era cedo demais para começar. Infelizmente, Hongniang deu fim prematuro a seus esforços educacionais quando confiscou os desenhos.
— Desenhe flores como uma pessoa normal — ordenou ela, apontando para as flores do pátio.
Aparentemente, por mais excelentes que fossem as ilustrações, desenhos de cogumelos venenosos eram terminantemente proibidos.
Foi assim que Maomao passou o tempo até que, certo dia, um eunuco deslumbrante apareceu pela primeira vez em muito tempo, trazendo problemas consigo.
— Rosas azuis, senhor? — perguntou Maomao, olhando para o eunuco com um certo cansaço.
— Sim. Veja, todos estão bastante interessados.
Jinshi parecia estar em uma situação difícil. Para as mulheres do palácio, ele continuava belo mesmo em aflição, e, naquele momento, três pares de olhos observavam pela fresta da porta. Maomao optou por ignorá-los. Pouco depois, Hongniang, visivelmente exasperada, agarrou os donos daqueles olhos, com notável agilidade, diga-se de passagem; dois com a mão direita, um com a esquerda, pelas orelhas e os arrastou para longe. Maomao escolheu ignorar isso também.
— Que manejo habilidoso — comentou Gaoshun, uma observação que Maomao guardou para si.
Voltando ao assunto em questão.
— Todos gostariam de admirar algumas dessas flores — disse Jinshi. E, por alguma razão, cabia a ele providenciá-las.
Eu sabia que isso daria problema, pensou Maomao.
— O senhor quer que eu encontre algumas? — perguntou Maomao.
— Achei que você pudesse saber algo a respeito delas.
— Sou apotecária, não botânica.
— Pareceu algo que poderia estar dentro da sua área de atuação… — Jinshi respondeu, sem muita convicção.
— Oh, muito convincente, senhor — disse a concubina Gyokuyou, alegremente, de onde repousava em um divã. A princesa estava ao seu lado, tomando um pouco de suco.
Alguém, em algum lugar (Jinshi jurava não saber quem), havia sugerido que uma das damas de Gyokuyou talvez soubesse algo sobre o assunto. Isso ao menos explicava por que ele estava ali.
Foi o charlatão? Se perguntou Maomao. Não era impossível. O velho patife bem-humorado tinha o péssimo hábito de superestimar as habilidades alheias. Era profundamente frustrante.
Maomao não era totalmente ignorante quando se tratava de rosas. Sabia que as pétalas produziam um óleo usado como embelezador de pele, as cortesãs o utilizavam periodicamente. Ela mesma já havia ganhado algum dinheiro extra cozinhando no vapor as pétalas de rosas silvestres, de aroma intenso, para produzir a substância.
— Pelo que entendi, essas flores já floresceram nos jardins do palácio — disse Jinshi, cruzando os braços.
Hongniang, aparentemente já tendo terminado de disciplinar os três intrometidos, entrou com chá fresco.
— Alguém deve ter visto coisas, com certeza.
Argh, minha panturrilha está coçando, pensou Maomao. O ferimento estava a deixando louca durante a cicatrização. Pequenas bênçãos: seus pés estavam escondidos sob a mesa, então ela podia coçar a perna com os dedos do outro pé. Mas, de alguma forma, isso parecia provocar coceiras em outros lugares.
— Ouvi apenas uma pessoa dizer isso, mas, ao investigar, descobri várias que confirmaram o relato.
A expressão de Jinshi era difícil de interpretar.
— O ópio já foi amplamente utilizado aqui?
— Seria o fim do maldito país se algo como ópio começasse a circular!
Gyokuyou e Hongniang olharam para Jinshi, arregalando os olhos diante da súbita mudança de tom. Gaoshun franziu a testa e pigarreou educadamente. A raiva ainda permaneceu no rosto de Jinshi por um instante, mas, no segundo seguinte, o sorriso celestial havia retornado. Maomao quase implorou com o olhar. Ela simplesmente não lidava bem com aquele sorriso. Gyokuyou observava a cena com evidente diversão, embora Maomao não achasse graça alguma.
— Não há nenhuma possibilidade? — disse Jinshi.
Credo! Espaço pessoal! Maomao pensou. Ele continuava se inclinando, mas ela não queria que ele se aproximasse nem um pouco mais. Por fim, soltou um suspiro.
— O que exatamente o senhor quer que eu faça?
— Gostaria que estivessem prontas para a festa no jardim, no mês que vem.
Era época da festa da primavera. Já tinha se passado tanto tempo desde a última? As emoções de Maomao ameaçavam dominá-la quando um pensamento lhe ocorreu. Hã? No mês que vem?
— Mestre Jinshi, o senhor sabia?
— Sabia do quê? — Ele a olhou, curioso.
Ele não entendia. Claro que não. Não haveria rosas azuis, nem poderia haver, e não era uma questão de cor.
— Ainda vai levar pelo menos mais dois meses até que as rosas floresçam.
O silêncio dele foi a prova: não fazia ideia. Claro. Ela começava a sentir um de seus maus pressentimentos. Ele insistiria no assunto, e ela não iria gostar nem um pouco.
— Vou recusar… de alguma forma — disse Jinshi, com os ombros caídos.
— Posso lhe fazer uma pergunta, senhor? — disse Maomao.
Jinshi olhou para ela, esperançoso.
— Esse pedido, por acaso, veio de um certo comandante militar?
Era a única explicação que lhe ocorria, dadas as circunstâncias. Isso explicaria a coceira, pensou. Ela já desconfiava; e seu corpo havia reagido com uma negação absoluta àquele nome que não queria ouvir.
— De fato. Laka...
Jinshi tapou a boca com as mãos antes que o nome escapasse.
Gyokuyou e Hongniang o encararam, confusas.
Ele estava falando, é claro, sobre “ele”.
Não havia como evitar, então, pensou Maomao. Se ele estava envolvido, então ela tinha uma certa responsabilidade.
— Não sei se consigo ajudar, — disse ela — mas vou tentar.
— Tem certeza?
— Tenho. Mas há algumas coisas, e um lugar, de que vou precisar.
Seria irritante demais simplesmente fugir do desafio. Nada lhe agradaria mais do que arrancar o monóculo daquele rosto debochado e esmagá-lo.
○●○
A festa de primavera no jardim aconteceria entre as peônias. Normalmente, teria sido realizada um pouco mais cedo, mas as pessoas continuavam reclamando do frio, e por isso foi adiada. Talvez devessem ter feito isso antes, mas precedentes eram coisas difíceis de mudar.
Um tapete vermelho foi estendido, e longas mesas cercadas por cadeiras haviam sido montadas no jardim. Os músicos afinavam inquietos seus instrumentos, prontos para começar a qualquer momento. Mulheres iam e vinham apressadas, certificando-se de que tudo estivesse em ordem, enquanto jovens militares alisavam barbas ainda pouco desenvolvidas e apreciavam a cena.
Uma cortina fora armada atrás de todos como um biombo, e alguém, atrás dela, fazia alvoroço. Uma garota esguia, na verdade, quase cadavérica, segurava um enorme vaso de flores. Acomodadas nele, havia rosas coloridas, embora ainda fosse cedo demais para isso.
— Você realmente conseguiu — disse Jinshi, fitando as rosas, cujos botões ainda não haviam se aberto. As flores eram vermelhas, amarelas, brancas e rosadas e, sim, azuis, além de pretas, roxas e até verdes. Quando Maomao prometera tentar criar rosas azuis, ninguém imaginaria essa profusão de cores. Jinshi recuou um passo, atônito, perguntando-se como ela havia feito aquilo.
— Posso dizer que não foi fácil. Nem sequer consegui fazê-las desabrochar — disse Maomao, com um arrependimento sincero. Ela não se lamentava tanto por ter ficado aquém das expectativas de Jinshi, mas por não ter conseguido fazer as coisas exatamente como havia idealizado. Jinshi já sabia que ela era assim, mas, ainda assim, aquilo o irritava.
Irritava-o profundamente.
— Não, isso vai servir muito bem.
Ele apanhou uma rosa, da qual escorria um pouco de água pelo caule.
— Hm?
Havia algo estranho ali. Por ora, porém, ele não se importou; devolveu a rosa ao vaso.
Ele continuava surpreso pelo fato de que, embora ela tivesse concordado apenas com rosas azuis, Maomao produzira um verdadeiro arco-íris. Independente de como ela tivesse feito aquilo, parecia prestes a desabar de exaustão. Ele a confiou aos cuidados das damas de companhia do Pavilhão de Jade, enquanto levava o vaso e o colocava junto ao assento de honra. Mesmo ainda em botão, e não em flor, as rosas eram mais do que suficientes para ofuscar as peônias; todos as notavam, e todos se mostravam maravilhados.
Murmúrios se espalharam entre os oficiais reunidos, acompanhados de alguns resmungos zombeteiros: aquilo não era possível.
Jinshi era um eunuco sob a graça de Sua Majestade. Além disso, embora soubesse que soava como arrogância dizê-lo, tinha plena consciência de que sua aparência era capaz de tirar o fôlego da maioria das pessoas. Mas, apesar de tudo isso, ele ainda tinha seus inimigos. Era preciso estar praticamente desprovido de ambição para se alegrar com a perspectiva de um jovem eunuco exercendo poder ao lado do Imperador, e a maioria dos oficiais estava longe disso. Jinshi jamais deixava seu sorriso de ninfa vacilar, mantendo a postura impecavelmente ereta ao se aproximar do estrado. O Imperador, com sua barba prodigiosa, estava sentado ali, cercado por belas mulheres.
Os olhares que se voltavam para Jinshi escondiam pensamentos e sentimentos variados. Luxúria não o incomodava, havia inúmeras formas de usá-la. Inveja, da mesma maneira. Extremamente simples de explorar. Qualquer que fosse o sentimento de alguém, desde que se soubesse qual era, havia meios de lidar com ele.
Muito mais problemático era quando a pessoa era difícil de decifrar. Jinshi olhou para o oficial sentado à esquerda do Imperador. Bochechas cheias e olhos que jamais revelavam o que ele pensava. Se Jinshi se sentia um pouco desconfortável perto dele, quem poderia culpá-lo?
Para aquele homem, Jinshi não passava de um jovem presunçoso, e ainda por cima um eunuco. Em um momento, parecia observá-lo atentamente; no seguinte, era como se estivesse olhando para o vazio. O sorriso do homem era ambíguo, desafiando qualquer interpretação precisa.
Ele era Shishou, pai de uma das concubinas atuais do palácio interno, Loulan. Ele desfruta do afeto imperial no reinado anterior, não do imperador, mas de sua mãe, a imperatriz-viúva, e continuava a se impor sobre o governante atual.
Isso não era algo bom.
Ainda assim, Jinshi nunca deixava seu sorriso vacilar… Ao menos, não intencionalmente.
Então seu olhar passou de Shishou, à esquerda do Imperador, para o homem sentado à direita, e seus olhos se encontraram. Esse homem usava um monóculo em um de seus olhos de raposa e devorava uma asa de frango sem qualquer preocupação com o decoro. Ele parecia achar que estava sendo discreto, mas dava uma mordida, escondia a comida na manga, depois dava outra pequena mordida antes de ocultá-la novamente.
No momento, esse era o homem que Jinshi considerava mais perigoso: Lakan. Ele parecia examinar a cabeça do alto oficial em pé ao seu lado. Então, como se a asa de frango já não fosse suficiente, estendeu a mão e arrancou o chapéu do oficial. O que ele estava pensando?
Por alguma razão, um tufo de penugem preta estava preso à parte interna do chapéu. Lakan fingiu espanto. Quando perceberam que a cabeça nua do homem estava exposta, três oficiais à frente dele ficaram em silêncio.
Era uma brincadeira cruel, expondo a peruca do homem (admitidamente bem-feita). Alguns riram da travessura infantil, outros ficaram abertamente exasperados, e alguns tiveram de se conter para não explodir de raiva. Jinshi não foi o único incapaz de manter uma expressão impassível.
Contudo, não ficaria bem cair na gargalhada, então ele conseguiu dominar o rosto e, em vez disso, ajoelhou-se sobre o tapete. Ofereceu um vaso de rosas ao Imperador, que acariciou a barba e assentiu com prazer indisfarçável. Jinshi conteve um suspiro enquanto se retirava respeitosamente.
Lakan examinou as rosas de modo teatral, desta vez com uma uva passa seca entre os dedos. Jinshi não pôde deixar de se perguntar por que nunca havia consequências para suas constantes faltas de civilidade.
○●○
— Você não deve mais ir ao Pavilhão de Cristal.
A cabeça de Maomao repousava sobre os joelhos de Yinghua. Elas estavam em um pavilhão aberto, a certa distância do banquete. Yinghua estava bastante preocupada com Maomao e a observava atentamente.
Com a gravidez começando a ficar visível, a consorte Gyokuyou havia se retirado do evento sob o pretexto de ceder seu lugar a Loulan, a nova Consorte Pura, para quem aquela era, na prática, uma estreia pública.
Por que Maomao havia emagrecido a ponto de alarmar Yinghua? Parecia que toda vez que ia ao Pavilhão de Cristal, voltava devastada pela exaustão.
Era ali que ela estivera no último mês ou algo assim; fora Jinshi quem fizera os arranjos. As damas de companhia do Pavilhão de Cristal continuavam a olhá-la como se achassem que ela era algum tipo de espírito maligno, mas Maomao não lhes dava atenção. Havia algo ali que ela precisava para conseguir fazer suas rosas azuis.

O “lugar” que ela havia pedido a Jinshi era a sauna do Pavilhão de Cristal, que ela havia pedido quando a concubina Lihua estava se recuperando. Maomao sabia que, apesar do alto status da concubina, Lihua podia ser uma pessoa muito generosa, então pensara que não custava tentar pedir para utilizar a sauna. E, de fato, Lihua concordou sem hesitar.
Ainda assim, Maomao se sentia mal por usar o lugar de graça, por isso levara consigo um livro que obtivera recentemente da Casa Verdigris.
— Este é o material de leitura favorito de Sua Majestade — disse ela, ao entregá-lo a Lihua.
O Imperador havia solicitado “textos” novos e diferentes, então não havia por que um deles não vir de Lihua.
Quando a concubina percebeu que tipo de livro era, guardou-o calmamente em seus aposentos privados, mantendo a postura elegante o tempo todo. Suas damas de companhia cochicharam entre si enquanto observavam sua senhora se retirar para o quarto. Maomao fitou-as com um olhar distante; ninguém jamais imaginaria que uma mulher tão aristocrática teria um livro daquele tipo escondido na manga.
Tendo assim conquistado a boa vontade da dona do pavilhão, Maomao recebeu permissão para construir um pequeno galpão no pátio, para onde o vapor da sauna seria canalizado. O edifício tinha uma aparência bastante estranha: possuía grandes janelas, inclusive uma no próprio telhado. Assim como a sauna, era caro. Bem caro, até para Jinshi, que pagou tudo do próprio bolso. Maomao não tinha nada a ver com isso. Ainda assim, ela não pôde deixar de se perguntar quanto ele deveria ganhar para poder arcar com coisas assim.
Ela trouxe as rosas para dentro do edifício. Não apenas uma ou algumas, mas dezenas, centenas. Ela as cultivava aproveitando o calor do vapor, garantindo que recebessem bastante luz e levando-as para fora quando o tempo estava bom. Em qualquer noite fria o bastante para ameaçar geada, ela passava a madrugada acordada com as flores, despejando água sobre pedras aquecidas para mantê-las quentes.
Mais de uma vez, todo esse vai-e-vem fez com que o ferimento em sua perna abrisse novamente. Quando Gaoshun percebeu isso, insistiu em designar outra criada para vigiar Maomao. Xiaolan, logo ela, foi quem apareceu. (Como Gaoshun sabia sobre ela?) Foi fácil motivar Xiaolan: quando descobriu que, além de poder pular suas tarefas, ainda receberia lanches, ficou entusiasmada em aceitar. Provavelmente, ela foi a única coisa que impediu Maomao de desabar de tanto trabalhar.
O objetivo de Maomao com toda aquela manobra elaborada era confundir as rosas.
As flores desabrocham de acordo com sua estação, mas, de vez em quando, por alguma razão, podem florescer em outra época do ano. Era isso que Maomao esperava: enganar as rosas, fazendo-as acreditar que já era hora de florescer.
Ela trouxera aquela quantidade enorme de plantas já ciente de que nem todas criariam botões. Escolhera uma espécie de floração precoce, e nem todas as rosas de sua coleção eram da mesma variedade. Com apenas um mês para trabalhar, não podia garantir o sucesso, por isso ficou radiante quando viu os primeiros botões surgirem. Ela sabia que aquele seria o verdadeiro desafio, muito mais difícil do que alcançar a cor correta. Jinshi lhe cedera vários eunucos como ajudantes, mas as sutilezas de manter a temperatura ideal eram algo que só ela podia supervisionar. Se houvesse o menor erro e as rosas morressem, tudo teria sido em vão.
De tempos em tempos, as mulheres do Pavilhão de Cristal rondavam o local, seja por curiosidade ou pelo desejo de testar a sua coragem diante do puro terror de ver Maomao. Elas começaram a irritar Maomao, então ela decidiu fazer algo para chamar a atenção delas. Mas o quê? A ideia lhe ocorreu quando ela olhava para os próprios dedos, pensando no que fazer.
Ela pegou um pouco do batom e passou nas unhas, polindo-as cuidadosamente com um pano. Era uma esmaltação simples, do tipo que faziam o tempo todo no distrito do prazer, mas incomum no palácio interno. Aquela decoração atrapalhava o trabalho, mas atraiu imediatamente o interesse das damas do Pavilhão de Cristal, que, para começo de conversa, já não trabalhavam muito. Maomao garantiu que as outras mulheres “por acaso” vissem suas unhas, fazendo-as correr para seus próprios quartos em busca de batom.
Isso funcionou muito bem, pensou Maomao, e então teve uma ideia levemente travessa. Decidiu sugerir um esmalte também à consorte Lihua.
O palácio interno tinha suas próprias tendências, e quem ditava a moda com frequência eram as mulheres que chamavam a atenção do Imperador. E como até mesmo uma criada, se se tornasse companheira de leito de Sua Majestade, podia ser elevada ao status de concubina, era natural que todas quisessem imitar qualquer coisa que pudesse agradá-lo.
No momento, era inegavelmente Loulan quem estava na vanguarda da moda no palácio interno, mas ela trocava de roupas com tanta frequência que nenhum de seus visuais conseguia se firmar como uma tendência verdadeira. Quando Maomao voltou ao Pavilhão de Jade para provar a comida de Gyokuyou, mostrou sua esmaltação à concubina Preciosa e às outras damas de companhia. Hongniang foi veemente ao criticar a falta de praticidade, mas as demais ficaram muito impressionadas.
Quem dera eu tivesse algumas plantas de bálsamo ou azedinha, pensou Maomao. O bálsamo, às vezes chamado simplesmente de “vermelhador de unhas”, podia ser triturado junto com a azedinha (que, na linguagem de Maomao, às vezes era chamada de “pata de gato”) e aplicado nas unhas. A azedinha ajudava a realçar o tom vermelho do bálsamo.
Mais ou menos na mesma época em que a mania das unhas esmaltadas começou a se espalhar pelo palácio interno, os botões das rosas começaram a crescer e então se abriram, revelando uma profusão de pétalas brancas. Todas as rosas que a Maomao tinha escolhido eram brancas.
— O que, em nome do céu, você fez? — perguntou Jinshi quando voltou depois de apresentar as flores.
Havia uma ruga profunda em sua testa, e Gaoshun, atrás dele, parecia igualmente intrigado. Yinghua já havia partido, dispensada por Jinshi. Embora Maomao fosse publicamente uma dama de companhia da consorte Gyokuyou, Jinshi ainda era, tecnicamente, seu empregador direto.
— Eu as tingi.
— Tingiu? Mas não há nada nelas — disse Jinshi, puxando uma pétala.
— Não por fora — disse Maomao. — Eu as tingi por dentro.
Ela pegou uma das rosas azuis e apontou para o local onde o caule fora cortado.
Gotículas de líquido azul estavam grudadas nele.
Ela tinha colocado as rosas brancas em água colorida. Era simples assim. As flores absorvem a água, cor e tudo, pelos caules, tingindo as pétalas em todo um arco-íris de tonalidades. Contudo, quando eram arranjadas juntas em um mesmo vaso, todas as flores, exceto as brancas, precisavam ser tratadas separadamente, para que as cores não se misturassem e transformassem as pétalas em um preto desagradável.
Assim, embora as rosas aparentassem estar todas dispostas em um único vaso, a base de cada caule fora envolvida com um pouco de algodão embebido em corante e presa com papel oleado. Maomao deixara o papel ali até o momento exato em que as flores seriam apresentadas.
Era só isso, afinal.
O truque era tão simples que era possível que alguém descobrisse e dissesse alguma coisa, mas Maomao também tinha uma maneira de lidar com isso. Na noite anterior ao banquete, quando Sua Majestade visitou o Pavilhão de Jade, ela contou a ele exatamente o que havia feito. Todos gostam de ser os primeiros a conhecer um segredo, e, com o prazer de ter sido incluído na brincadeira, Sua Majestade parecia inclinado a permanecer de bom humor, independentemente do que alguém dissesse a ele.
Ao que parecia, Jinshi tinha se retirado antes que o Imperador tivesse a chance de lhe contar a história.
— Em outras palavras, da última vez que houve rosas azuis por aqui, foi porque alguém tinha tempo de sobra para passar todos os dias infundindo as rosas com água azul — disse Maomao, olhando em direção ao jardim de rosas.
— Mas por que alguém se daria a todo esse trabalho?
— Quem sabe? Talvez quisesse impressionar uma mulher — respondeu Maomao, sem rodeios.
Então ela retirou das dobras do manto uma caixa estreita e oblonga, feita de madeira de paulownia. Parecia a caixa em que guardava seu fungo-cordyceps, mas era algo que ela tinha pedido para enviar junto quando solicitou os livros “especiais”.
— Ora, isso é incomum — disse Jinshi, inclinando-se para examinar a caixa. — Você pinta as unhas?
— Sim, embora não possa dizer que isso me agrada.
A exposição constante a tantos remédios e venenos, além de tanto esfregar e lavar, deixou suas mãos em péssimo estado. O dedo mínimo da mão esquerda era ligeiramente deformado. Pintá-lo de vermelho não mudava o formato estranho, mas ajudava.
Jinshi parecia interessado demais, então ela o encarou da forma como fazia tantas vezes: como se ele fosse um peixe boquiaberto olhando para a superfície da água.
Ops, não posso fazer isso, lembrou-se ela, balançando a cabeça. Se um simples olhar já era suficiente para perturbá-la, jamais aguentaria lidar com ele. Além disso, ainda havia trabalho a fazer.
— Mestre Gaoshun. O senhor trouxe o que pedi?
— Sim. Exatamente como solicitou.
— Muito obrigada.
O palco estava montado. Ela daria àquele bastardo o maior susto de sua vida.
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