Volume 1: Caçadores – Arco 1: Ressurgimento

Capítulo 2: Despertar (II)

Gal realizou a primeira investida. Tão veloz que mal fui capaz de mostrar qualquer reação! Sempre treinamos nosso físico todos os dias na arena, mas nunca tinha o visto correr daquele jeito.  

Ele se agachou ainda em movimento com o objetivo de agarrar minhas pernas, prestes a ter sucesso em sua investida, pulei com todas as minhas forças para trás. 

Entretanto, Gal não hesitou, ajeitou seu corpo levemente para cima e continuou correndo em linha reta. Desviar ou defender eram as únicas opções que me restavam, e minha melhor escolha... era derruba-lo!  

Assim que meus dois pés tocaram no chão, Gal se encontrava relativamente próximo. Fingindo uma entrada pela esquerda, ginguei meu corpo para a direita, preparando um chute com a perna esquerda.

Poucos milímetros da colisão entre minha perna e Gal; um pequeno sorriso foi esboçado em seu rosto. Ele se agachou novamente e em um rápido instante, levantou minha perna para o ar. 

A arena girava perante a mim, mas, de uma forma... consideravelmente lenta. Era capaz de enxergar tudo com clareza, aquela queda seria dolorosa. 

Sua mão esquerda estava vindo em minha direção, um soco veloz e intimidador, prestes a me acertar ainda no ar. Sabia perfeitamente que se Galileu acertasse o soco... tudo estaria acabado com apenas três movimentos. 

Assistindo minha lenta queda e seu punho se aproximando, sentia-me estranho. Algo estava começando a formigar pelo meu corpo, uma onda de arcanismo que transbordava por cada centímetro dos meus músculos.

Tudo o que passava pela minha visão, tocava em minha pele, entrava em meus ouvidos, era... lento. Embora abismado, voltei minha atenção ao que realmente importava. Bloqueei o punho de Galileu.

Sua espécie de gancho invertido me jogou ao chão. Caído e aparente derrotado para Gal, pouco a pouco me levantei, estranhando a resistência que outra hora não obtinha.

A expressão em seu rosto não poderia ser outra, de fato eu também não entendia, espertamente, Galileu pulou para trás e levantou sua guarda.  

Jaz de pé, limpei o sangue de minha boca, e realizei o mesmo de meu amigo. Enquanto meus punhos fechados limitavam meu campo de visão para apenas Gal, um detalhe diferente me pegou desprevenido... ele estava feliz.

Estava estampado um sorriso exuberante em seu rosto enquanto me encarava diretamente com olhos marejados. Lá ficou ele, parado e me observando no horizonte distante... uma sensação muito familiar.

Abaixei meus braços e comecei a me aproximar de Galileu, sem nenhuma guarda. Conseguia perceber o olhar confuso de Gaius no canto da arena, enquanto Gal não movia um músculo. 

Quando nos encontramos no alcance do chute um do outro; encaravamos nos olhos, eu, com a guarda baixa e ele, alta.

Galileu com extrema força e agilidade golpeou com sua mão esquerda em direção a minha barriga, e ainda assim... era lento demais.

Sem sucesso em sua tentativa, com a mão direita ele proferiu mais um golpe... novamente sem êxito. Conseguia desviar dos golpes de Galileu com facilidade, mas a cada desvio que eu realizava, mais algo me incomodava. 

Bem de vagar, bem lentamente, aquela sensação proliferou completamente. As vozes, a dor... a luz, tudo retornou.

Mas ironicamente, pouco afortunado eu não era, os Deuses estavam comigo. Gal socou meu abdômen da forma mais bruta e raivosa possível, e aquela dor, ela foi enorme. Enorme o suficiente para me trazer lucidez de volta. 

Cansado e exposto, precisava aproveitar a oportunidade para agradecer devidamente. Com meu braço esquerdo lhe entreguei um gancho no queixo.

Aquela foi a primeira vez que soquei o rosto de alguém, a sensação era como se estivesse quebrado todos os meus dedos. Pela dor, pela adrenalina, por minha melancolia, do fundo da minha alma e de cabeça erguida, gritei com euforia.

Com minha voz cessando, retirei meu olhar do teto e deslumbrei o corpo de Gal jogado a alguns centímetros de distância.

Gal não se levantava, ele apenas esticou seus braços e pernas com seus olhos fechados sobre o chão da arena. Aquele combate... não havia sido nada como eu esperava. 

Gaius se aproximou, agachou-se, pegou Gal pelos braços e se virou para mim com uma expressão de alívio. 

— Foram bons movimentos Wally, e você também Gal. Vou leva-lo pra descansar na ala médica, me espere aqui. 

Gaius simplesmente se virou e saiu da arena carregando Gal pela saída no sentido contrário da entrada que usei.

— Mas... que merda foi essa? — questionei-me sozinho desabando de costas na arena.

Por mais que eu não entendesse por que ele ficaria aliviado com a derrota do próprio filho, uma pergunta mais importante destruía minha cabeça.

Através dos olhos amarelados de Gal, enxerguei meu reflexo. Nele, os meus olhos... estavam brilhando em amarelo... igual aquela sombra dos meus sonhos.  

Completamente estirado no chão de repente, senti um arrepio estranho; um frio perturbador que congelou todos os meus pensamentos. Levantando-me rapidamente, encontrei um homem gigantesco, maior até que Gaius. 

Aquele desconhecido vinha caminhando devagar em minha direção, usando uma roupa escura com um grande capuz que cobria toda a sua pele e cabelo. 

Escondendo sua face existia uma máscara escura com um grande símbolo roxo estampada, uma espécie de “X” em linhas paralelas dentro de um círculo fragmentado em quatro pedaços. 

— Está tudo bem, Wally? — o mascarado perguntou.  

Mesmo usando aquela máscara sua voz grossa sooava pelos meus ouvidos perfeitamente. 

— Quem é você? — questionei me levantando.

— Sou Dominus, lorde da Ordem dos Caçadores. 

Ouvia diversas histórias sobre os caçadores contadas por Gal, ele dizia que eles eram o “escudo da humanidade”, ‘os verdadeiros defensores dos reinos', que sem eles as criaturas nos afugentariam, dizimando a todos nós. 

— Ah... como posso te ajudar?  

— Wally, acredito que você já saiba, qualquer Híbrido a partir dos quinze anos são convocados para os caçadores. — iniciou sua explicação juntando suas mãos.

— Sim... eu sei algo sobre, mas senho...

— Mas o seu caso é especial. Por essa razão vim leva-lo a ilha pessoalmente.  — continuou ao me interromper.

— Mas eu... 

— Não se preocupe, você pode se despedir da sua família. Após, iremos partir, não é mais seguro para você aqui. — repetiu o feito.

— Como assim não é mais seguro? — questionei o mascarado dando um passo a frente.

— Existe uma criatura de Caos no reino, sua família não será afetada, mas você tem que vir comigo hoje. Vocês dois lev.... 

Dominus que apenas com sua postura exalava confiança, por um pequeno momento, perdeu um pouco de seu equilíbrio acompanhado do cessamento de sua fala. 

Enquanto observava as costas do lorde dos caçadores, um forte aperto no peito começou a crescer em mim, seguido de uma dor gigantesca na cabeça. 

Mnhas forças pareciam sumir lentamente, como se estivessem sendo drenadas. O chão da arena, parecia... pedir socorro. Como uma éspecie de pedaço de carne, sentia o solo da arena se rasgando bem abaixo dos meus pés. 

Meus dedos estavam formigando, sentia-os se revirando... mas... sem o meu consenso. Passei a escutar sussurros, diversos da mesma voz, tantos que era impossível compreender algum.

Meu punho direito se fechou aos poucos e meu braço dobrou com meu cotovelo sendo puxado para trás... levantei meus lábios para pedir ajuda, e eles simplesmente se fecharam. Firmando ainda mais meu punho, meus músculos pressionavam meus ossos ao ponto de conseguir ouvir rachaduras.

Observando as costas de Dominus, sentia minha boca formando lentamente um grande sorriso. O que estava acontecendo comigo?! Meu corpo não reagia, tentava mexer minhas pernas, porém elas não se moviam, tentava gritar, mas não obtinha voz.  

Posteriormente as minhas tentativas fracassadas, os sussurros mudaram; se tornaram risadas. Diversas em tons diferentes na minha cabeça, altas como um sino gigante, e aumentando gradativamente. 

Quanto mais alto se tornavam, mais meus olhos começavam a se encherem de um liquido vermelho, pegajoso e viscoso.  

Quando todos os dedos de minha mão haviam sido quebrados e minha visão completamente tampada, um grande brilho branco penetrou meus olhos; mais uma vez... escutei um estalar de dedos.

— Vocês dois acompanhem o Wally. Soltrone, não o perca de vista. 

Os olhos, meus braços, mãos e dedos... estavam normais. Eu estava no controle. Não era possível, aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado?... O medo de Dominus tinha me feito imaginar coisas? Não sabia dizer.

Ao lado do lorde, surgiram dois homens. Um indivíduo de olhos azuis claro e pupila preta, magro e meio alto com um rosto e pele totalmente acabados. Tinha um cabelo escuro curto e ondulado além de vestir uma roupa mais justa sem armadura.

O outro era menor e possuía um longo cabelo escuro, seus olhos eram da cor vermelha e pupilas pretas como seu colega. Pés descalços e uma calça escura, sem mais nada por baixo, somente um manto branco o cobria, manto aquele completamente sujo de... sangue?!...

O mais baixo agarrou meu braço me levando com ele em direção a saída. Caminhando forçadamente, enxerguei de relance parado na frente de Dominus, um homem baixo de pele escura com cabelos prateados. 

Seu cabelo estava amarrado com um lenço vermelho e portando roupas finas com tons entre branco e vermelho, aquele mesmo homem aparentava me olhar de canto com raiva. Será que já nos conhecíamos? Ele me era... familiar de alguma forma.  

Quando menos me dei conta, já estávamos fora dos muros do castelo. O homem mais baixo me soltou, enquanto o mais alto parecia focado em escutar alguma coisa.

Não me sentia bem com aquilo, ir até a minha casa com aqueles dois por perto não me parecia uma boa ideia... eles eram mesmo caçadores? Os dois não batiam muito com os contos de Gal, eram meio; assustadores. 

Entretanto... Dominus me assustava ainda mais. Sem outras escolhas disponíveis, tomei a decisão seguir o caminho pela estrada em direção a minha casa.  

Por todo o trajeto, as pessoas nos encaravam, sem nem ao menos disfarçar. Bem, minha companhia não ajudava. 

Um dos homens fedendo e banhado em sangue e o outro ficava cochichando com o vento. Perguntava-me se todos os caçadores eram tão "peculiares" como eles.

Não importava para onde eu ia, um deles não me perdia de seu campo de visão, parecia até enfeitiçado, aquele provavelmente era o caçador Soltrone. 

Com minha casa já visível, enxergava as janelas aparentemente fechadas. Aproximando-me ainda mais, percebi que a porta estava trancada. Embora ainda não tivesse escurecido em Bahamut.

Aproximei-me da porta, respirei fundo, destranquei e a abri. A casa... estava vazia. De certa maneira, um leve alívio me dominou, alívio aquele que durou apenas dois segundos antes da sensação horrível se apossar em meu peito. 

Olhei para minha direita e encontrei as lindas flores de minha mãe enfileiradas no balcão de pedra, tentei não recordar, mas não tive êxito. A imagem de minha mãe cantarolando tomou minha mente.  

Foi quando a ficha finalmente caiu, eu provavelmente nunca mais a veria de novo. Eu simplesmente... não conseguia segurar minhas lágrimas. 

Com tamanho pesar, virei-me e caminhei até Soltrone. Rasguei um pedaço do seu grande manto branco na parte interna, enquanto escutava seu companheiro falando sozinho virado para a sua esquerda. 

O homem de afinidade com Espírito veio até mim, colocou uma mão em algum tipo de pequena bolsa e com um leve sorriso, estendeu sua mão com um pincel pena brilhando em um tom azulado na ponta. 

— Não precisa de tinta é só escrever... leve o tempo que precisar. 

Peguei a pena com a minha mão esquerda e enquanto Soltrone me encarava com um olhar ávido, enxuguei minhas lágrimas com meu braço direito.  Virei, puxei a cadeira rente a de meu pai e comecei a escrever:

“Mãe, pai, não irei voltar tão cedo para casa. Dominus, o lorde dos caçadores, se encontrou comigo na arena. Não se preocupem, não deve existir um lugar mais seguro em Valíria do que a base dos caçadores, por favor, aguardem meu retorno. Wally”.  

Fechei o pedaço me sentindo totalmente destruído, não importava o quanto eu pensasse, não conseguia encontrar palavras melhores para minha despedida. 

Eu o deixei no centro da mesa preso em baixo do vaso onde residia a flor favorita de minha mãe, e por uma última vez; respirei fundo seu aroma doce e aconchegante.

Molhando a flor, minha vontade era de gritar, socar Dominus e espernear sem parar. Eu não queria ir embora... não queria... eu só queria... ver o sorriso dela de novo. 

De cabeça baixa, sentia o impaciente Soltrone me puxando pelo ombro. No fundo... sempre soube... eu não era um Genasis como meu pai.

Eles sempre tentaram esconder o motivo da minha mãe não sair muito, dela não ter família ou amigos, e dos meus olhos serem diferentes, mas eles nunca me enganaram... eu sempre soube que minha mãe era uma Nullu. 

Sua pele mais escura e olhos negros me mostraram desde novo qual seria meu destino, cedo ou tarde, eu seria dos caçadores... e não algo grandioso como meu pai me contava. 

Fechei a porta, despidi-me daquela velha casa com os olhos vermelhos e então, passei a seguir os homens de Dominus. 

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