Volume 1: Caçadores – Arco 1: Ressurgimento
Capítulo 2: Despertar
No dia anterior
Wally
Minha mente estava completamente adormecida, presa em um sonho tão vívido que não conseguia distinguir a realidade. Meus olhos enxergavam... sorrisos... Todos nós felizes como nunca.
Todavia, aquela velha escuridão ja conhecia, com somente um estalar de dedos, tudo desapareceu. Somente o completo nada beirava minha visão.
Um branco totalmente ofuscante onde não importava para onde olhasse, apenas haveria luz. Ainda assim, nela existia um ser que não vinha de seu fruto, uma sombra totalmente imóvel de um homem alto no horizonte distante.
Foram diversas as vezes que adentrei naquele mesmo recinto, em todas, nunca fui capaz de explicar. Meu corpo se sentia atraído, e minhas pernas acatavam o comando, então, seguia. Caminhava e caminhava, mas o horizonte nunca se aproximava.
Cada passo realizado naquela longa caminhada, mais rápido eu andava, entretanto, aquela distância exuberante ainda assim, não mudava.
Perante a luz refletida no chão espelhado, ajoelhei-me de cansaço. Meus olhos se fecharam enquanto os pulmões buscavam o ar do lado de fora. Lentamente, reerguia-me, levantava minha cabeça e posteriomente, os abria.
O fruto da escuridão estava acenando para mim. Pisquei, ele se aproximou. Outra vez, e o encontrei ainda mais próximo, jamais deixando de acenar.
Então lá estava ele, parado novamente, idêntico a alguns segundos atrás, reto com seus braços grudados ao seu corpo.
Apreciando o homem sombra, aos poucos uma risada aguda se apossava de minha cabeça. Outra vez, a escuridão tomou meus olhos.
Quando a luz ofuscante voltou a raiar, o homem havia me alcançado, ombro a ombro.
"Eu não quero olhar!".
Covardimente, novamente o mesmo ocorreu, eles se fecharam. Com o bŕeu, lentamente sentia meu pescoço virando a direita sem o meu consenso.
Jaz parado, naquele instante, havia algo diferente, um formigamento forte dentro dos meus olhos, como insetos desesperados para fugirem do escuro. Igual a uma tampa removida pela forte pressão da água, minhas pálpebras foram abertas bruscamente.
O fruto da escuridão parado me observava, sorrindo com dentes afiados que circulavam do lugar onde deveria ser sua boca, passando pela testa e voltando a sua origem.
Encarando aquele ser bizarro destacado pelo branquidão, somente uma coisa vinha a minha mente: eu... queria poder ser tão feliz como ele.
Sentindo o suor gelado escorrendo pelo meu corpo, acordei de baixo de um simples pano. Como em todas as outras noites, meu coração não estava disparado. Enquanto os galos cantavam mais uma vez aquele seu velho canto, sentei em minha cama.
Na pequena escrivaninha ao lado, encontrei meu caderno de couro aberto com minhas anotações a mostra ao lado de um copo.
Estiquei meu braço e passei minha mão a cima de sua superfície, sentindo um grande calor vindo de um provável leite quente. Não poderia ter sido deixado alí a muito tempo.
A janela de madeira estava fechada, conseguia ver alguns resquícios de luz passando por suas bordas. Abrindo-a, encontrei-me com um grande e belo jardim.
Diversos tipos de flores de todas as cores que conhecia e as que ainda pretendia conhecer, minha mãe cuidava e observava aquele jardim todos os dias, sem nenhuma falta.
Com uma sensação de fadiga, levantei, caminhei sobre a madeira até a porta e a empurrei. Um grande barulho de rangido aconteceu. Embora do outro lado, não houvesse ninguém para o escutar.
Normalmente minha mãe estaria me esperando na cozinha enquanto meu pai terminará seu café. Pelo jeito os únicos que estavam seguindo a rotina habitual, eram apenas eu e os galos.
Não tinha muito tempo para ser melancólico, logo, continuei meu percurso em direção ao banheiro, precisava me arrumar depressa.
O banheiro estava extremamente limpo, quase impecável. Minha mãe com certeza havia o limpado ainda muito cedo.
Mesmo para um banheiro até que pequeno, precisaria de muita energia para essa grande tarefa noturna. Talvez recebêssemos uma visita.
Olhei-me naquele pequeno espelho e comecei a amarrar meu cabelo. Embora o seu próprio fosse curto, meu pai nunca gostou da ideia de aparar o meu.
— Não devemos alterar sua natureza — ele sempre repetia. Embora no treino aquele tamanho sempre limitava minha visão.
— Wally. — alguém chamava na porta.
Maldição, estava realmente atrasado. Assim que escutei o chamado sai do banheiro correndo até meu quarto.
Em minha gaveta estavam as mesmas idênticas vestimentas, nunca fiz grandes questões sobre roupas, exceto por uma antiga blusa longa de meu pai.
Sua manga longa e golas pontudas, aquele tom azulado escuro que combinava com minha pele me agradavam profundamentem, além de que aquela blusa... sempre foi a coisa que mais me deixou próximo dele.
— Wally!
Terminando de vestir minha calça preta, corri até a porta. Passando pela pequena mesa de jantar feita de madeira, embora estivesse atrasado, por algum motivo, parei bem ao seu lado.
Observando aquela cadeira parada e vazia, surgiu-me uma lembrança. Relembrei um momento único... a única vez que presenciei meu pai sorrir genuinamente.
Estávamos em um jantar, quando eu ainda era bem pequeno, meu pai falava orgulhoso sobre legado e pureza. Dizia que eu seria grandioso, maior que todos que conhecia, que aquilo era meu dever; minha obrigação. Obviamente fiquei animado, sentia um profundo e enorme desejo de corresponder suas expectativas.
— Tão grande quanto o senhor?
Ele me mostrou um sorriso puro e momentâneo, seus olhos Genasis amarelos pareciam brilharem para mim.
Encarando-me, levantou a cabeça, olhou para minha mãe; e depois se virou a outra direção. Estava olhando outra coisa, enxergando algo além.
— Você será muito maior que eu, e muito maior que todos no mundo... porque é seu destino.
Do seu olho direito escorreu uma lágrima enquanto segurava minha mão esquerda, e com a outra pressionava seu peito.
Mas suas escassas lágrimas não eram de tristeza, não, impossível com aquele sorriso sincero e olhar radiante, elas pareciam mais como; esperança.
— Wally!! — a pessoa gritou novamente, dando algumas batidas leves na porta.
Com minha mão esquerda na maçaneta, senti o cheiro agradável de uma das flores de minha mãe, a sua favorita.
Ela amava sua cor violeta, seu cheiro calmante e suas — lindas pétalas que balançam com a ventania — como ela sempre repetia. Respirei fundo o aroma com um leve sorriso e finalmente, abri a porta.
Do outro lado me deparei com Galileu. Um menino da minha idade, com olhos Genasis amarelos, pele um pouco clara e cabelos bem escuros, muito mais escuros que minha pele de tom queimado.
Ainda que tivessemos a mesma idade e obrigações semelhantes, Galileu sempre agia como um tipo de irmão mais velho. Ajudava com quase qualquer coisa, não importasse o dia ou a hora, sua disposição definitivamente era assustadora.
Galileu também estava com um período de treinamento no castelo, graças a isso, frequentemente partíamos juntos pela manhã.
— Você dorme demais, cara.
— Estava acordado, apenas não tinha me trocado — respondi fechando a porta.
— Que demora para colocar só uma roupa, lento como sempre.
Galileu virou de costas e se calou, nem um piu sequer. Tudo parecia estranho naquele dia e por mais que aquilo estivesse me incomodando, não questionei. Apenas o segui pelo caminho que nos levava ao castelo.
Nada parecia fora do comum, tabernas abertas de manhã cedo, feno sendo trocado para os cavalos, vento balançando a grama longe do concreto, pescadores saindo em busca de uma pesca farta, gados recebendo comida nova, guardas patrulhando pela cidade e crianças brincando a fora.
Todos pareciam animados independente do pouco que tinham.
— Tá tudo bem com você? — Galileu perguntou sem olhar para trás.
— Sim, sem problemas.
— Se tiver qualquer problema, por menor que seja, pode contar comigo. Estamos no mesmo barco — Galileu ainda seguindo reto levantou seu braço direito e sinalizou um positivo.
— Bem... Gal, você é feliz?
Aquela sensação estranha aumentava gradativamente. Estava me sentindo cada vez pior desde que acordei. Talvez eu estivesse melhor ainda sonhando com aquela sombra. Retirei meu olhar dos moradores e o voltei a estrada da capital.
— Feliz? Não sei, Wally... eu sorrio quando como o que eu gosto, quando minha mãe conta alguma história ou mesmo quando saio com você... você não se sente feliz?
— Não sei... todos parecem ter um propósito que escolheram, vidas que conseguem aguentar. Levantar a cabeça e seguir em frent...
— Relaxa, você apenas precisa continuar.
— Hã?
— Pelos Deuses... Wally, você apenas precisa continuar. Continue lutando pela felicidade que tanto almeja como você sempre fez.
Gal colocou seus braços em sua nuca e ficou em silêncio seguindo em direção ao portão. Ele nem me ouviu até o final e ainda aparentou incomodado com minha pergunta.
Aquela também tinha sido nossa conversa mais curta e estranha há anos, não conseguia dizer se ele havia falado sério ou apenas fugiu do assunto, na verdade... não sei nem se eu gostaria de saber.
Bem mais perto do castelo, já conseguíamos enxergar o símbolo de Bahamut a cima do portão principal.
Uma espiral de espinhos protegendo o desenho da cabeça de uma grande marmota, ela parecia enfurecida. O escudo de Bahamut demonstrava bem qual era o seu papel em Valíria; distribuir comida.
A segurança a fora dos muros sempre foi alta, provavelmente pela alta demora ao abrir os grandes portões da entrada. Eles demoravam tanto para abrir que mesmo a uma grande distância era difícil não os perceber.
Passando pelo grande muro a segurança era maior ainda, tão seguro que a ideia de alguém tentar invadir o castelo chegava a ser grotesca se falada em voz alta. Mas ainda assim, nenhum guarda se importava quando passávamos pelo portão.
Quando outra pessoa chegava ela era identificada, realizavam perguntas mais específicas para confirmar a identidade e até vistorias, mas conosco, nada; nem se quer fazíamos parte da realeza.
Enquanto me perdia em pensamentos, continuei seguindo Gal. Dominado pela minha curiosidade, apenas fui capaz de reconhecer a arena quando já estava dentro dela.
Em minha frente, alto como uma porta, estava meu treinador. Um homem forte, com cabelo volumoso penteado para o lado e vestindo um traje com uma armadura leve de cor marrom-claro, seu nome era Gaius, o pai de Gal.
— Estão atrasados — reclamou.
— Eu sei, o Wally demorou pra se trocar. — Gal se defendeu balançado a cabeça em minha direção.
— Wally? Ou você que estava tentando fugir de suas obrigações? — questionou relizando alguns passos até Galileu.
Gal desviou seu tenso olhar para outro canto da arena enquanto seu pai se aproximava lentamente até parar a sua frente. O homem levantou sua mão enorme e a colocou no cabelo de seu filho.
— Você, ou o Wally? — aguardava sua resposta enquanto passava a mão sobre seu cabelo.
Observei em completo silêncio meu treinador começar a apertar o cabelo de Gal o levantando do chão aos poucos. Até que depois de alguns segundos, Galileu desistiu. Amoleceu seu corpo e se ajeitou em direção ao seu pai.
— Sim... eu que demorei para chama-lo.
Gaius me olhou de relance antes de eu imediatamente me endireitar para frente, e então o soltou. Gal estava observando o solo da arena em silêncio esperando uma repreensão.
Entretanto, o gigante apenas passou sua mão mais uma vez sobre a cabeça de Galileu, acariciando seu curto cabelo ondulado.
— Você vai treinar o dobro hoje. — Gaius afirmou sorridente.
— O que?! Mas por que?!
Embora não conseguisse entender a razão por trás do sermão que Galileu acabava de receber, aquele clima levemente esquisito e descontraído me fez escapar uma pequena risada.
— Achou engraçado? — Gal sorrindo estranhamente questionou.
Minhas risadas aumentaram assim que me confrontou, tentava esconder, mas não tive éxito, e antes mesmo que eu pudesse responder, Gal virou para Gaius:
— Deixe-nos fazer o primeiro combate amanhã, por favor. — implorou.
Pedia com extrema vontade, inclinou-se um pouco para frente, fechou os olhos com força e até utilizou suas mãos em forma de prece. Aquilo não parecia mais um desejo e sim um pedido aos Deuses.
— Hum... amanhã não é... certo, acho que chegou a hora.
Gal ajeitou sua postura e se virou para mim esboçando um sorriso gigante enquanto esfregava suas mãos, aquilo não cheirava coisa boa. Obviamente ele tinha acabado de planejar algo, mas eu nunca deixaria apenas ele se divertir.
— Amanhã correto? Melhor começar a se preparar, Gal. — provoquei com um grande sorriso no rosto.
Rapidamente, passei a alongar todos os membros de meu corpo. Em seguida virei meu pescoço em direção a Gaius e perguntei:
— Quantas serão hoje?
Lá estava seu sorriso de orelha a orelha. O treinador colocou a mão em seu queixo, inclinou a cabeça um pouco para cima e começou a gargalhar.
— Hoje vão ser quinze voltas na arena, duzentos e cinquenta flexões, cem agachamentos, duzentos socos e trezentos e cinquenta chutes! — gritava com euforia.
Assim que Gaius terminou não perdi tempo algum, sai em disparada. Gal desatento e pouco alongado, veio logo em seguida completamente desajeitado.
Todo aquele momento era sempre muito doloroso, odioso e tenebroso. Mas quando estávamos reunidos... o mundo parecia mais leve, o tempo passava mais rápido, tudo que era ruim... se tornava bom.
Quando minha percepção se tornou maior que minha dor, finalmente me enxerguei totalmente abatido. Como em todas as outras ocasiões, nós não conseguimos bater a meta de Gaius. Embora aquele dia tivesse sido nossa tentativa mais próxima de todas as outras.
Estava exausto. Largado no chão ao lado de Gal e encarando o teto prestes a fechar meus olhos. Eu me sentia leve, pleno e confortável.
Mas minha acomodação logo foi interrompida, o que eu mais temia acabava de retornar para mim, uma luz branca ofuscante havia penetrado minha visão.
Jáz abertos, estava de olhos no teto, porém, havia algo estranho com o mesmo, ele parecia meio... próximo demais.
Tentei me levantar... mas não sentia o chão. Com receio, lentamente me virei, e o que eu presenciei, não era a superfície... mas sim uma sombra. O que eu enxergava, acarretou a piora daquele maldito horrível sentimento. Daquela vez; a sombra era eu.
Estava a cima, observando a mim mesmo com olhos fechados, braços esticados e deitado ao lado do meu melhor amigo.
Como se eu estivesse vendo uma espécie de reflexo distorcido, os olhos do meu corpo antes fechados, naquele momento, haviam levantados. Brilhavam ferozmente em amarelo, um brilho tão reluzente que conseguiu iluminar toda a arena.
Com o brilho ofuscante cessando, observei sua boca se mexendo rapidamente, pronunciando palavras que eu não entendia cada vez mais rápido.
Sentindo uma estranha sensação, minha mão foi ao encontro de meus lábios, minha boca havia passado a repetir os mesmos movimentos. Não conseguia parar, quanto mais falava, mais dor recebia. Conseguia sentir a garganta secando enquanto minha língua se rasgava a cada pronuncia realizada.
De uma só vez, os olhos ainda ofuscantes, diminuíram sua força. Lentamente aquele olhar totalmente amarelado arrepiante se virou em minha direção, e como um ataque repentino, iluminaram toda a arena outra vez.
Seu brilho quase me cegou, não conseguia distinguir qual ardência era pior, meus olhos ou de minha boca.
Mas a resposta foi a terceira, um barulho agudo que ele emitia, forte e o longo o suficiente para destruirem minha mente.
Mesmo com a dor e a escuridão apossando minha visão, uma última imagem antes do fechar dos meus olhos permaneceu nítida em minha cabeça; a imagem de mim mesmo com olhos brilhantes... acenando.
As vozes diminuíam e a escuridão aos poucos se dissipava. Enxergava luz e concreto, meus ouvidos ouviam gramas e cavalos, meu olfato farejava ceda e o suor. Levantei meu campo de visão tentando observar ao meu redor, conhecia o local, estava fora do castelo.
O caminho parecia ser a estrada para casa, mas ela estava diferente, relativamente menor. Foi quando percebi finalmente, meus pés não encostavam o chão, e o motivo; estava sendo carregado nas costas de Gaius.
O pai de Galileu era muito maior que o meu, sua altura de quase um metro e noventa fazia o chão parecer distante. Ainda sonolento, mal conseguia mexer meus membros, portanto, aconcheguei minha cabeça e repentinamente cai no sono novamente.
Reconhecendo meus sentidos, minha pele estava de encontro com um conforto incrível: uma maciez e um aroma mais que relaxante. Definitivamente aquela era a minha cama. Abrindo meus olhos, não acreditei, estava realmente em casa.
Embora quase sem luz, conseguia reconhecer meu quarto, uma estante de madeira com outras flores, um pequeno bloco de madeira refinado onde eu me sentava, e meu caderno com anotações ainda em cima da escrivaninha.
Um detalhe mais curioso também estava presente, conseguia escutar algumas vozes totalmente abafadas e distantes. Em pouco tempo fui capaz de perceber de onde elas vinham, estavam do outro lado da porta.
Olhando para a minha janela não enxerguei nenhum resquício de luz pelas frestas. Encontrava-me com receio, se meus pais me descobrissem acordado tão tarde seria péssimo, todavia, minha curiosidade gritava mais alto.
Levantei cuidadosamente e comecei a caminhar em sua direção. Agachando-me, espiei pela pequena fresta na porta semiaberta.
Daquele lado estavam minha mãe e Gaius sentados na mesa junto de meu pai em pé entre eles. Estavam conversando, meu pai parecia irritado, meu treinador preocupado e minha mãe... estava chorando?!
— Por que?!... Será que fiz algo de errado?
Meus pensamentos foram diversos, não conseguia pensar nada positivo através daquela cena. Eu me levantei, encostei um pouco na porta e coloquei meu ouvido sobre a madeira.
Passei a conseguir escutar o que eles diziam, ou foi o que eu esperava. Ouvir o som do choro de minha mãe me preocupava ainda mais, roubava completamente minha atenção. Embora ela parecesse completamente abalada, graças aos céus aos poucos ela acabou se acalmando.
— Will, já se passaram dezesseis anos e nada mudou no seu filho, eu sinto muito, mas... eu não acho que possamos traze-lo de volta... eu... sinto muito!
Gaius bateu seu punho fechado na mesa enquanto meu pai socava a parede de madeira e repetia consecutivamente a palavra... "não".
Nunca tinha presenciado nenhum dos dois daquele jeito, em uma negação consecutiva e dolorosa. Tentei aproximar mais ainda meu ouvido na tentativa de ouvir sobre quem Gaius estava falando, mas, eu me descuidei. Acabei empurrando a porta, e como era de se esperar, ela rangeu.
Escutei uma das cadeiras se movendo bruscamente para trás, minhas pernas começaram a tremer e minhas mãos amoleceram.
Por um segundo quase travei em frente a porta, mas ainda com as pernas cambaleando sai o mais rápido e silencioso possível, jogando-me na cama quase de uma vez.
Virei-me, deitei e fechei meus olhos. Logo em seguinte, a porta se abriu lentamente. O rangido soou bem de vagar em meus ouvidos. Meu corpo suava frio enquanto alguém se aproximava calmamente de minha cama.
A pessoa se agachou bem perto e acariciou meu cabelo por alguns segundos, levantou-se e saiu de meu quarto. Daquela vez, fechando definitivamente a porta.
Por todos os Deuses! Aquela havia sido por pouco. Alívio era a única coisa que eu sentia, entretanto, não só por não ter sido descoberto, mas também por não ver nenhuma luz branca ou qualquer silhueta de uma sombra no restante da noite.
Enquanto os galos cantavam, o esperado caiu como uma bigorna em minha mente. De fato era impossível fugir daquilo, minha cabeça martelava cada palavra que eu havia ouvido ontem... Eu era um fracasso! Havia decepcionado meu mestre, meu pai e até mesmo fui capaz de fazer minha mãe chorar.
Por mais que meu desejo fosse apenas de me embrulhar e chorar até o fim dos tempos, aquilo não aliviaria dor alguma. O que eu podia fazer naquele momento era colocar um sorriso no rosto e me esforçar em dobro.
Caminhei até a porta e a abri. Uma ótima surpresa encontrei daquela vez, minha mãe estava na cozinha, e o melhor, cantarolando. Virou-se para trás e colocou na mesa um prato: pão com carne acompanhado de um copo de leite.
— Acordou cedo, Wal — falou sorrindo depois de se sentar em uma cadeira.
Eu me aproximei da cadeira a minha frente, rente a de meu pai, e sentei observando seus lindos olhos negros.
— Senti falta do seu café, mãe. Vocês já comeram? — perguntei já mastigando.
Ela esboçou aquele seu doce sorriso que brilhava por cima de seus lábios e cabelos escuros, olhou para a cadeira de meu pai e em seguida voltou seu olhar em minha direção.
— Seu pai pulou o café de hoje, mas não se preocupe, esse eu fiz apenas para você.
Minha mãe se dirigiu até suas flores do balcão, cheirando uma por uma e voltou a cantarolar sua música favorita. Que sensação maravilhosa, ela parecia estar tão bem...
Degustei de minha refeição enquanto aproveitava a atração exclusiva. Ela cantou cheia de alegria, limpou cheia de alegria, sorriu cheia de alegria. Aquela velha felicidade que ela sempre soube, fingir muito bem.
Minha cabeça ainda estava presa a noite de ontem, muito mais acorrentada do que ela geralmente ficava com aquela maldita sombra. Mas havia algo que eu precisava fazer, tinha um treino para realizar e um objetivo para alcançar.
Nunca mais gostaria de a ver chorar de novo e um dia até mesmo... tira-la desse lugar. Levantei de minha cadeira e fui de encontro com minha mãe acompanhado de um grande e longo abraço.
— Tenha um ótimo dia, Wal — desejou enquanto acariciava meu cabelo.
Levantei a cabeça, olhei mais uma vez para seus olhos negros hipnotizantes e ergui um enorme sorriso.
— Hoje, será meu primeiro combate contra o Gal, mãe, e eu te prometo... eu vou vencer!
— Sim, Wal, eu sei que vai. Meu pequenino grande homem.
Soltei-a um pouco relutante e me direcionei até a porta, meu corpo caminhava para a saída, mas minha cabeça só queria voltar para o abraço dela.
— Volte logo, Wal. — pediu ao sorrir e deixar suas mãos sobre seu avental.
— Pode deixar, eu já volto. — retribui o sorriso antes de fechar a porta.
Do lado de fora não via Gal, ele sempre me esperava todos os dias para irmos até o castelo, aquilo era incomum.
Sem delongas e tentando esvaziar minha mente, iniciei o percurso. A estrada era a mesma, o caminho era o mesmo, até mesmo as pessoas tão felizes; estavam felizes como sempre.
Não importava o que eu fizesse, como realizasse, ou talvez até mesmo o que almejasse, nunca fui capaz de entender o que em mim faltava.
Finalmente no final de meu percurso e passando pelos portões, outra coisa se apossou de minha atenção, uma carruagem real parada do lado de dentro dos muros.
Enxergava bandeiras chamativas amarradas nas pontas do teto da carruagem. Seu símbolo era um grande círculo com uma aparência de pequenos degraus que se encaixam em volta de um grande dragão.
Dragão aquele atravessado por duas gigantes espadas, uma em destaque no símbolo e a outra um tanto esboçada pela metade, a criatura parecia estar pisando em um pequeno escudo.
Aparentava ser o símbolo do reino Eques Dracaries. Mas existia apenas uma carruagem, não haviam outras escoltando do outro lado.
Dracaries sendo um reino integrante da grande trindade, não era fraco, nem muito menos pequeno, o que tornava aquilo mais estranho ainda. De qualquer forma, não tinha nenhuma relação comigo.
Segui em direção a arena estralando todas as partes do meu corpo. Aquecendo-me aos poucos e descendo os longos degraus até a arena.
Passando por toda aquela marca de arcania, finalmente eu havia chegado. Gal estava alongando enquanto Gaius o observava apoiado na parede próximo a entrada.
— Finalmente você chegou, Wally — Gal falou se levantando.
— Comece seu alongamento. — Gaius ordenou.
— Tudo bem.
Por nervosismo não neguei o pedido de Gaius e me alonguei mais uma vez. Aquela era uma chance única, caso eu conseguisse vencer Gal, talvez facilitasse minha entrada no exército, sim... era uma chance de ouro. Galileu era um menino de muita sorte, afinal, seu pai era o guerreiro mais forte de Bahamut.
No final do meu breve alongamento, percebi muitos passos acelerados no andar de cima, entretanto, Gaius estava quieto e Gal realizava vários socos no ar, os dois não pareciam se importar.
— Estou pronto! — proclamei confiante.
Gaius saiu de seu apoio e começou a caminhar em direção ao meio da arena, parando um pouco antes de nós, nos olhou por um instante e voltou sua visão para frente.
Em sincronia, Gal e eu levantamos nossas guardas. Meu treinador com um semblante sério se afastou aos poucos com seu braço esquerdo levantado para cima.
Ao chegar a pouco mais de alguns metros de distância... sussurros extremamente baixos começaram a fluir pelos meus ouvidos, eram quase indecifráveis.
Entretanto, uma única palavra fui capaz de compreender antes de Gaius dar início ao combate: accelerate.
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