Demon And Human Brasileira

Autor(a): The_Mask

Revisão: Melão


Volume 1

Capítulo 5: Primeiro dia de treino

“Houve há muito tempo, minhas filhas, um homem que sonhava com a vida eterna. Ele buscou nos quatro cantos do seu mundo, mas não encontrou nada. No entanto, seu desejo não diminuiu. Apenas aumentou. Ele decidiu, então, se aprofundar na sua busca e ir para um lugar em que os homens sem-magia não eram bem-vindos. O lar dos Profundos. 

Lá ele conheceu Aztefanoa, um Profundo que dominou o mandamento da mana, possuidor de um conhecimento gigantesco sobre quase todas as coisas. O homem se aproximou de Aztefanoa e suplicou: ‘Me diga como alcançar a imortalidade.’

Aztefanoa sorriu e disse: ‘Busque na floresta da penumbra os restos de Acobrim e os coma até sentir seus ossos doerem.’ ”

Essa memória era de muitos anos atrás, um conto da sua mãe. Lira sonhou com ela nesta noite e acordou suando por causa disso. Sentia a cabeça latejar e o corpo inteiro suar. Ela lentamente colocou os pés no seu novo quarto, na sua nova casa e na sua nova vida.

“Levante-se, Lira, hoje começa seu treino! Ande logo!” Philip gritou da cozinha.

“Já vou!” Ela gritou de volta. Começou a procurar as roupas de treino que Merlin havia feito para ela no dia anterior, e demorou um bocado para achar. Ela ainda não havia se acostumado com o quarto. Era relativamente grande com seus 15 metros quadrados, mas os móveis o tornavam bem pequeno.

Um guarda-roupa embutido na parede, uma pequena lareira para as noites e dias frios, uma cama um tanto maior que uma de solteiro e um baú de madeira escura.

Depois de terminar de se arrumar, começou a descer as escadas saltando de três em três degraus e já sentiu o cheiro de gordura fritando. Foi correndo para a cozinha e assim que tocou o chão, quase escorregou. Chegando lá, viu Philip sentado na cadeira de madeira no canto da sala de jantar lendo as correspondências e Merlin estava cozinhando com um avental branco e azul. O cheiro de chá-mate e de algo fritando era bem forte.

“Finalmente acordou.” Philip abaixou as cartas e olhou para Lira com um sorriso. “Ande logo e coma. Hoje o dia será puxado.”

“Okay.”

Ela se sentou e começou a observar Merlin, que ainda não havia colocado o café na mesa. Ela parecia concentrada no seu próprio trabalho, não tendo olhado uma vez sequer para Lira. Parecia vidrada nas facas em sua mão cortando os mamões e as bananas para a massa que assava no pequeno fogão a lenha da cozinha, ao mesmo tempo vigiava as panelas e frigideiras, cozinhando e fritando.

Só depois de tudo ter terminado foi que Merlin virou-se para Lira com um sorriso.

“Bom dia, querida, como foi sua noite?” Sua voz era doce, calma e alegre. Ela começou a colocar os pratos na mesa, em seguida os copos e a comida.

“Foi boa, apesar de eu ter achado meio fria.” Lira colocou alguns pedaços de fruta no seu prato e comeu, estavam doces como mel.

“É por causa do telhado.” Philip comentou enquanto chegava perto da mesa e colocava comida no prato. “Aquela telha absorve muito pouco calor durante o dia e tem alguns buracos que deixam uma brisa leve entrar. É gostoso no verão, mas estamos no fim da primavera.” Ele passou manteiga num pedaço de pão recém-saído do forno e comeu com gosto. “Você se superou dessa vez, Merlin.”

“Oras, óbvio que sim. Temos uma nova moradora na casa, quero que ela coma meus pães caseiros sem pensar duas vezes.” Com um sorriso orgulhoso, colocou no prato da Lira dois pedaços de pão, com bastante manteiga. “Droga, esqueci o leite.” Se levantou e pegou uma jarra de madeira bem polida e colocou na mesa.

Os três comeram e conversaram por cerca de 40 minutos. Na maior parte do tempo, Philip contava histórias de bar da época em que estava no exército, ou situações engraçadas que aconteciam com os novatos nas guarnições. Porém, sempre chegava perto de citar os conflitos no campo de batalha e na fronteira, ele se esquivava ou mudava de assunto.

“Bem, eu estou cheio.” Philip se levantou, pegou todos os pratos e talheres que usou, e os agrupou na pia. “Lira, me encontre no meu escritório, tenho que te ensinar algumas coisas antes de começarmos.” Ele saiu da sala de jantar, e logo depois, foi possível ouvir a porta da frente abrir e fechar.

“Com pressa ele, você não acha, Merlin?” Lira comia as últimas frutas que estavam no prato.

“Ele deve estar ansioso para te ensinar.” Ela bebeu o último gole de chá mate restando no seu copo e, assim como Philip, começou a ajeitar sua louça suja, colocou-as na pia e se virou para Lira. “Obrigada de novo por convencê-lo a fazer isso.”

“Não há de quê.” Lira também terminou de comer e levou a louça para a pia. “Mas, Merlin, por que Philip não fala sobre a guerra? Eu sei do seu trauma e tudo, mas seria bom para ele conversar sobre, ele melhoraria mais rápido.”

“O problema é justamente esse, Lira. O Philip não quer esquecer ou melhorar, ele se sente culpado até hoje, então pensa que merece toda essa tortura, entre aspas.”

“Entendo.” Mentiu, Lira não conseguia entender. Philip lutou há tantos anos, ela pensava que ele já pagou pelos seus pecados depois de todo esse tempo. “Vai querer ajuda com a louça?” Mudou de assunto.

“Não precisa, vá rápido antes que ele se irrite.” Merlin começou a lavar a louça.

“Certo, tchau Merlin.”

“Tchau Lira, até mais tarde.”

Lira foi correndo até a porta da frente e depois de ter saído, continuou a correr até o escritório do Philip. No processo viu que a fazenda estava bem diferente do dia anterior.

Os animais hoje estavam soltos, todas as ovelhas, vacas e laraltos pastavam e comiam. Mais distante do centro, próximo ao escritório, ficavam os porcos. Eles pareciam solitários, distantes de todos os outros animais, porém eram bem barulhentos.

“E malcheirosos também.” Lira complementou em pensamento.

A porta do celeiro estava aberta para o lado de fora e rangia com o pouco vento que passava naquele horário. Ela entrou correndo e subiu as escadas, com altas expectativas para o que viria a seguir.

Quando entrou no escritório, viu Philip polindo um revólver com um pano, ele assoprava, passava o pano, molhava ele num pote e repetia o processo. Philip finalmente percebeu que Lira havia chegado e largou a arma num canto.

“Bem, está na hora. Lira, puxe uma cadeira, tenho que te explicar algo antes de começarmos.”

Ela pegou uma cadeira sem encosto e se sentou de frente para Philip com um sorriso bastante animado.

“Pode tirar o sorriso da cara, menina.” Philip deu uma risadinha ao ver a alegria de Lira. “Isto será uma aula teórica, só depois partiremos para a prática.” Ele se ajeitou na cadeira e coçou a garganta. “Me diga, você sabe como o exército funciona?” 

“Não, conheço pouquíssimas coisas sobre.”

“Então vamos do começo. Quando os humanos aprenderam a usar magia, tivemos que mudar toda a forma como nossos homens lutavam e os batalhões se organizavam.” Deu uma breve pausa para ver se Lira prestava atenção. O sorriso animado havia sumido e foi trocado por uma expressão muito maleável, que mostrava o exato sentimento que ela tinha, nesse momento era concentração. “Levou algum tempo até a ideia de separar os soldados em classes surgir. Simplificando para você, os soldados exerceriam a função que melhor se assemelhava a eles. Isso criou uma série de funções para que os soldados seguissem no campo de batalha.” 

Philip se levantou lentamente da cadeira e foi até um quadro negro cheio de fotos, tirou elas dali com bastante cuidado e puxou um giz branco de um dos bolsos.

“Antes de virar comandante de batalhão, eu era um assassino.” Escreveu a palavra ‘assassino’ no quadro. “Lutava pelos flancos do inimigo, pensando em matar o máximo deles com o menor número de movimentos, buscava informações e caçava fugitivos ou criminosos.” Escreveu tudo isso em poucas palavras no quadro. 

“Existem outras 6 classes: espadachim, curandeiro, suporte, arqueiro ou atirador, mago e mecânico.” Escreveu todas essas classes no quadro uma abaixo da outra. “Todas elas contribuem para o batalhão na hora da batalha e seguem um padrão de ataque. Além disso, existem aqueles que são melhores que o padrão, eles são chamados de heróis de classe, muito poderosos, os mais fortes de todo o país.” 

Philip guardou o giz e voltou a se sentar e olhou no fundo dos olhos de Lira.

“A partir de agora, vou te treinar para ser uma assassina. Vou lhe ensinar a arte da esgrima de pontos vitais, balística, rastreamento, combate corpo a corpo, sobrevivência, ocultação e intimidação.”

“Intimidação?” 

“Você vai entender quando começarmos. Hoje e até você dominar, treinará a sobrevivência.” Ele se levantou, pegou uma bolsa que estava em cima da mesa e entregou para Lira. “Vamos.” Começou a caminhar na direção da porta, parecendo com pressa. Lira veio logo atrás.

“O que vamos fazer?” Perguntou, estranhando a pressa de Philip.

“Vou levar você para a floresta, lá você terá seu primeiro treino.”

Lira ficou carregando a bolsa todo o caminho e era bem pesada. Ela estranhou.

“Por que diabos essa bolsa é tão pesada?” Enquanto dizia isso, colocou a bolsa nas costas para fazer menos esforço.

“Tem muito equipamento aí dentro, armas, facas, munição... Esse tipo de coisa.”

“Pra que tudo isso?”

“Você vai entender quando chegarmos à floresta.”

Foi uma caminhada longa, 40 minutos atravessando uma trilha que levou eles da fazenda até uma clareira bem aberta. Lira parou para descansar, achando que seria ali que treinariam.

“Por que parou? Não é aqui que vai ser seu treino.” Philip comentou, também suando e arfando levemente.

Lira olhou ao redor e não viu sinal de nenhuma trilha, além daquela que eles vieram.

“Nós vamos treinar... no meio da floresta?” Lira estava exausta com aquela caminhada. A bolsa era mais pesada do que pensava. “Já foi difícil... atravessar essa trilha” Ela estava confusa e um pouco irritada.

“Não se preocupe, é bem perto daqui. Se quiser posso carregar a bolsa para você.” Philip esticou as mãos na direção da bolsa.

“Obriga...” Lira já ia tirando a bolsa, quando viu o olhar de Philip. 

Era algo um tanto ameaçador e difícil de se olhar, bem diferente de hoje de manhã. Foi então que ela percebeu. Aquilo já era um teste.

“Pensando melhor.” Guardou a mochila de volta nas costas e ajeitou a postura e os ombros. “Não precisa, eu aguento.”

“Tem certeza?” O fingimento em sua voz era evidente.

“Sim, tenho.” Respondeu ajeitando a mochila de novo e tirando determinação não sabia de onde.

“Então vamos.” Ele se virou e começou a caminhar através da mata. Lira veio logo atrás com bastante esforço.

Ela percebia agora o quão mais fácil era caminhar numa trilha. Aparentemente, havia chovido na madrugada da noite passada e agora a terra estava lamacenta. Por causa disso, estava ficando muito difícil caminhar e Lira fazia o dobro de esforço graças a mochila nas suas costas.

O resultado de tudo isso foi uma caminhada de 15 minutos através de um terreno lamacento e com muito esforço. Quando Philip finalmente parou, ela se sentou de costas para uma árvore, não se importando com a sujeira.

“Finalmente.” Ela arfava e fechou os olhos por um momento, descansando.

“Bem, aqui começa seu treino de sobrevivência.” Philip comentou e Lira ouvia de olhos fechados. “Tem um sinalizador na bolsa para emergências. Você passará uma semana aqui sem meu auxílio. Se desistir, não prosseguirá com o resto do meu treino.”

“Okay.” Lira estava quase dormindo, quando percebeu o que Philip disse. “Espera! O quê?!” Gritou e se levantou bem rápido. “Que papo é esse, Philip?!” Olhando ao redor, não viu sinal dele em lugar algum, era como se ele tivesse virado fumaça e sumido com o vento. “Velho coisa nenhuma. Esse cara tá melhor que eu para fazer essas coisas.” Comentou irritada. 

Vendo que não tinha muito o que fazer. Ela sentou-se de novo contra a árvore com a mochila nas costas e começou a olhar para cima pensando no que faria a partir de agora.

“O que eu faço agora?” Murmurou. Era bem difícil ver o céu e a luz do dia, por causa das árvores que tampavam quase tudo. O tempo estava fresco e a brisa que vinha do Leste era refrescante. Aos poucos, o sono foi abatendo-se sobre Lira, e ela foi fechando e pregando os olhos mais e mais vezes. Até que desistiu de lutar. 

“Bem, acho que uma soneca não fará mal a ninguém.” Tirou a bolsa, deitou e se ajeitou, pouco depois estava dormindo feito pedra.

À distância, um homem sentado num galho grosso bateu na própria testa.

“Não, Lira! Você já começou errado.” Philip reclamava do alto de uma árvore. “Não é dormindo que se sobrevive numa floresta.”

Ele bufou e começou a se levantar no galho, mas o fez muito rápido e ficou zonzo. Sentiu-se tombar para frente e quase cair, mas recuperou-se pouco antes.

“Droga, estou ficando velho para essas coisas.” Olhou de novo para Lira, ela parecia prestes a roncar alto. “Eu já a soltei, não tenho mais o que fazer agora. Acho que vou voltar para a Merlin.”

Philip olhou para um outro galho distante e num salto alto o alcançou, repetiu o mesmo movimento várias vezes bem rápido, indo em direção a outros galhos, enquanto voltava para onde veio. A caminhada que antes levou mais de 50 minutos, levou pouco mais de 10.

Philip chegou na beirada da floresta e já podia ver a fazenda. Ele agarrou a beirada da árvore e desceu pela lateral. A aterrissagem foi perfeita. Philip limpou os joelhos e as mãos. 

Caminhando devagar e bem tranquilo, ele voltou para casa. Como se há pouco tempo atrás ele não tivesse largado uma menina de 10 anos para sobreviver na floresta.

“Philip!” Ele ouviu um grito. “O que aconteceu? Já acabou seu treino com a Lira?!” Merlin veio correndo e quando viu Philip sozinho, parou abruptamente. “Onde está Lira?”

“Bem...” Colocou uma das mãos atrás da cabeça e ficou evitando o olhar confuso e furioso da Merlin. “Então...”

“Não me diga...” Merlin colocou uma das mãos na têmpora. “Que o primeiro treino que deu a ela foi o de sobrevivência?” Olhou no fundo dos olhos de Philip, aguardando a resposta que não queria ouvir.

“Se eu dissesse que não, você acreditaria?” Comentou com uma voz suplicante e inocente, como uma criança pedindo mais um biscoito quando já havia comido vários.

“Philip, ela é uma menina de 10 anos.” Gritou indignada. “Como pode deixá-la sozinha numa floresta por 3 dias!?”

“Então, sobre isso, não são 3 dias.”

“Sério?” Suspirou de alívio. “Que bom, ao menos uma vez você foi sensato. Quanto tempo ela vai ficar lá?”

“Uma semana.” Falou tão baixo, que até um sussurro seria mais alto.

“Quanto? Não consegui ouvir.”

“Uma semana.” Falou mais alto.

A felicidade de Merlin caiu por terra, e sua expressão mudou de alívio para raiva pura num único segundo. Ela parou, respirou fundo e disse:

“Até ela voltar, você vai dormir no sofá.” Se virou e começou a andar de volta para casa.

“Merlin, não seja assim.” Philip seguiu ela, gesticulando com as mãos, tentando ao máximo se defender. “Já treinei garotos mais novos e menores que ela, Lira vai aguentar.”

“Pois me diga, quantos desses garotos já não treinavam antes ou tinham pais militares?”

Philip ficou sem resposta. Todos os soldados que ele já treinou quando era comandante tinham um treinamento básico ou já foram treinados pelos pais.

“Ela precisa de algum aquecimento para eu testá-la, senão não saberei se vai aguentar o resto do treino.”

“Philip, tudo se começa na teoria, não na prática.”

“Eu dei a teoria para ela.”

“Você deu um resumo do resumo em menos de cinco minutos sobre como o exército funciona.” Philip ficou com um rosto surpreso. “Estou casada com você há pelo menos 20 anos, Fili. Te conheço melhor que ninguém.”

“Mas ainda assim, querida.” Philip aproximou-se da frente dela e se virou para Merlin. “Ela não precisa da teoria agora, precisa entender que meu treinamento não será fácil. Estou testando mais do que suas habilidades de sobrevivência, estou testando sua determinação, coragem e vontade.”

Merlin parou e olhou bem para Philip, tentando entender as palavras dele. Colocou de novo uma das mãos na têmpora.

“Você exige coisas de uma menina que nem sequer homens adultos costumam tê-las.” Deu um suspiro longo e cansado. “Mas eu entendo que você está testando-a, já soltou ela na floresta e não pode voltar atrás. ‘O gatilho já foi disparado’. Quem costumava dizer essas coisas mesmo?”

“O Willian, quando tomava alguma decisão ruim.” Sua expressão ficou triste e sua mente cheia de lembranças infelizes.

“Verdade, o Willian.” Merlin também ficou com um semblante um tanto triste. “Bem, não importa.” Com um sorriso forçado, tentou mudar de assunto. “Da próxima vez, seja mais leve. Tá bom?”

“Sim, pode deixar.” Os pensamentos de Philip ainda estavam no assunto anterior, mas ele forçou um meio sorriso.

“E você ainda vai dormir no sofá até ela voltar.” Merlin comentou e voltou a caminhar.

“Achei que esse assunto tinha sido esquecido.” Philip foi atrás dela, surpreso.

“Não foi.”

Os dois voltaram para casa e Philip tentou convencê-la de que deveria dormir, mas Merlin o ignorou.

Assim, um bom tempo se passou.

O sol já estava dando seus últimos suspiros e a pouca luz que entrava na floresta quase não mais existia. Lira, depois de muito dormir, enfim, abriu os olhos. A pouca luz do ambiente a fez pensar que ainda estava com os olhos fechados.

“Eu dormi tanto assim?”. Ela se sentou e se espreguiçou, esticando os braços. Sua barriga roncou alto e Lira olhou para ela em choque. “Parece que está com fome, não é?” 

Pegou a bolsa atrás dela e começou a vasculhá-la em busca de alguma comida e tudo o que achou foram algumas maçãs e amoras. Pegou um punhado delas e as comeu enquanto olhava ao redor.

A floresta estava coberta por uma penumbra e os ventos começaram a uivar e ventar muito se comparado com de manhã. Era uma brisa fria que fazia todas as folhas dos pinheiros balançarem.

O tempo continuava a passar e logo estaria impossível ver uma palma na frente do nariz. Lira pegou uma lamparina que estava presa do lado direito da bolsa.

“Agora, como eu acendo isso?” Lira pensava que teria que ter gordura ou algo parecido para manter aquela coisa acesa. Foi então que ela viu várias inscrições e símbolos ao redor da base da lamparina que iam até um botão. Ela o apertou, as inscrições brilharam em um tom azul e a lamparina acendeu. “Uma lamparina de selos! Nunca tinha visto uma.” Exclamou.

A luz vinda da lamparina não era forte, mas era o suficiente.

“Agora a escuridão não é um problema.” Voltou a encostar na árvore e comer as amoras. Instantes depois, como se a floresta tivesse ouvido e se irritado com o comentário de Lira, um uivo de lobo veio de algum lugar na escuridão. “Que boca grande a minha.” 

Começou a olhar ao redor, pensando em como escapar daqueles lobos, até que olhou para cima.

“E se eu...?”

Ela guardou as amoras de volta na mochila e procurou alguma coisa pontiaguda. Encontrou duas adagas simples de padrão militar e ela apostava que não foram feitas para o serviço a seguir. Colocou a mochila nas costas, sentindo todo aquele peso mais uma vez e começou a trabalhar.

Aos poucos e lentamente, foi subindo o pinheiro usando de apoio as duas adagas que tinha. Foi cansativo, mas quando chegou lá em cima se sentiu recompensada, e a noite já dominava naquele momento. Sentou-se num galho largo e prendeu a mochila num outro galho bem próximo. Puxou novamente as amoras e continuou a comê-las. Com um sorriso sujo e azulado, Lira encostou-se no tronco da árvore e olhou para cima.

O céu da noite ainda não estava no seu ápice e várias constelações e estrelas solitárias ainda apareciam aos poucos, devagar e tímidas como rosas no chegar da primavera. Apesar disso, no entanto, era uma visão linda.

“Essa paz...” Começou a pensar. “Quando foi a última vez que senti ela?” Vasculhou suas memórias até dar de encontro com uma porta. 

Essa porta estava trancada a sete chaves, era grossa, escura, alta e amedrontadora. Lira sabia que sua resposta estava ali e que precisava entrar lá. Mas não conseguia.

Seus pés e pernas não se moviam, suas mãos não ousavam chegar perto das trancas ou da maçaneta de cobre.

“Por quê?” Começou a se perguntar. “Por que eu não consigo me lembrar?”

Pensou e pensou várias vezes, mas só chegou a uma resposta, uma resposta que não queria que fosse verdade.

“Eu não consigo me lembrar...” Algumas lágrimas caíram do seu rosto. “Porque eu não quero me lembrar. Se essa porta abrir, sinto que o que sair dela vai me machucar.”

Afastou sua mente disso e voltou a olhar para o céu, tentando não pensar na porta. Era difícil, quase impossível. Lira dormiu chorando, com um passado que não queria se lembrar.



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