Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 9

Capítulo 196: Esperança

Hmm... Shh...

Escuridão.

Tudo... 

Escuro.

Havia uma sala imensa... e quadrada. Suas quatro paredes eram mágicas e invisíveis. Seu teto e chão eram brancos... mas olhando para as quatro direções, só era possível ver a... escuridão.

Uma fraca fonte de luz se mantinha presa no teto desta sala.

Sua luz falha revelava que o quadrado era um parquinho infantil: uma grande piscina de bolinhas brancas se estendia, balanços e escorregadores mórbidos fechavam o ambiente de estranheza e solidão.

...Solidão?

Dentro dessa sala, um garotinho com o número 21 gravado em seu pescoço se levantou antes das outras 49 crianças ali presentes. Todas vestiam branco, e além da numeração em seus pescoços, a numeração era estampada em suas roupas simples.

Assim que se levantou e olhou para a escuridão além da parede invisível, todas as outras crianças começaram a acordar e se levantar como zumbis... Não eram. Com isso, Tlac... Tlac-tlac-tlac! toda a escuridão desapareceu, revelando outros parquinhos ao longo do corredor.

21 não conseguia ver quantas eram, porém todas as salas eram iguais e cheias de crianças com números em seus pescoços e roupas: uma calça e uma blusa comuns de pano. Era estranho... Não se lembrava de nada e muito menos como foi parar ali.

Riiiii-Roooo-Riiiii-Roooo...

Ao ver o número 176 na sala à frente, uma sirene mágica começou a ecoar pelo lugar.

As crianças não entenderam e algumas colocaram as mãos nos ouvidos, sentindo dor. Túnicas brancas surgiram, abrindo todas as salas. O som não causava dor aos túnicas, somente afetava as crianças. Quando o som cessou, as crianças viram os túnicas estendendo as mãos como se as chamassem. Com isso, foram até os homens em grupos diferentes, sendo guiadas por eles.

21 seguiu seu grupo para outra sala ao longo do corredor. Ao entrar, encontrou um ambiente um pouco menor que o parquinho, no entanto, muito diferente. Não era branca, e sim cinza, com grandes blocos de pedra retangulares. Havia correntes e algemas em cada bloco. As paredes não eram altas como no parquinho, e havia um vidro escuro contornando a parte superior da sala.

Os túnicas deitaram todas as crianças sobre os blocos e prenderam suas pernas e braços. 21, confuso, olhou para o homem ao lado, que acabava de prender a última algema. O homem pegou uma seringa de vidro e metal contendo um líquido amarelo e rosa que não se misturam mesmo agitando muito.

— O-o que é isso, moço?

— É algo para o seu bem. Você quer sua mamãe?

— Quero... — respondeu, triste... no automático. Aquelas palavras trouxeram um conforto hipnótico. Não sabia o que era "sua mamãe", mas, ao ouvir, sentia conforto, sentia algo estranho, diferente e confuso.

— Então, fique bem quietinho. Vai doer só um pouquinho.

Shiiirrp...

Injetou a seringa no braço da criança, assim como os outros fizeram com as demais cobaias. 21 não conseguia ver o brilho amarelo fraco fluindo em suas veias, todavia sentia seu corpo esquentar cada vez mais.

— Vou ver minha mamãe depois que acabar, moço? — ...21 era órfão.

— Sim. Ela já está esperando você do lado de fora.

O pequeno abriu um tímido sorriso, ficando alegre.

Eram 500 crianças divididas em 10 salas literalmente iguais, com 50 em cada. Os túnicas saíram das salas, as portas se fecharam e tudo ficou em completo silêncio... 21 olhava para o teto, tentando virar o rosto para ver as outras crianças também confusas.

Conseguiu olhar a garota ao seu lado, número 20... esta não conseguiu vê-lo... porém viu uma silhueta passando atrás do vidro escuro no alto da parede em frente. O corpo quente. Arrepiou-se como um prelúdio de uma composição feita para tocar no inferno.

Aaaaaargh!

AAaaaargh!

AAAaaargh!

Em meio ao silêncio, gritos começaram a ser ouvidos... bem baixinhos no início, porém aumentando gradualmente como uma onda chegando para colidir em seu corpo... O novo teste havia começado e chegou rápido demais nesta nova sala:

AAAAARRGGHH!!

A mágica luz branca e contínua iluminando a sala de 21 agora piscava freneticamente em vermelho... no tempo que os gritos das crianças sofrendo em outras salas se misturavam com as da nova.

Todos se debatiam e agonizavam em seus blocos; suas veias se tornaram visíveis e rígidas, parecendo quererem sair de seus corpos. BURN Algumas crianças começaram a pegar fogo, BTZZ outras foram fritas ainda vivas...

Muitas morreram instantaneamente devido ao contato com magia artificial.

21 encontrava-se na mesma situação de todos os que resistiram, as correntes pareciam prestes a ceder devido aos seus movimentos frenéticos. Ao seu lado, algumas crianças estavam imóveis, já mortas, com seus corpos duros em chamas...

Restavam 290 crianças.

O procedimento cessou. Harrff... arrrfff... 21 agora ofegava com força, respirando profundamente e suando muito. Scchh-Phaf... Viu de relance os túnicas passando, retirando os corpos das cobaias mortas em uma espécie de carroça branca. Seus olhos estavam pesados, piscando lentamente, como se fosse desmaiar.

Nem percebeu quando os túnicas saíram e, após mais uma piscada lenta, as luzes voltaram a piscar. O segundo estágio do procedimento havia começado; todos voltaram a sentir dor e gritar. Várias cobaias morriam a cada segundo... mas 21... não estava entre elas.

Restavam 243 crianças.

— Senhor, é melhor parar por hoje. Devem estar no limite e precisam descansar.

Um homem, vestido com uma túnica branca, mais longa e detalhada, começou a rir:

— Coloque-os para dormir e leve-os para o parquinho.

Tcssssiiii...

Um gás mágico, derivado da magia da natureza, começou a sair de buracos no teto da sala. Juntamente com todas as crianças que sobreviveram... 21 caiu no sono.


Enquanto levavam as crianças, dois túnicas conversavam: 

— Será que vai dar certo? — perguntou em tom preocupado. Empurrava um carrinho cheio de cobaias amontoadas inconscientes... Aquelas crianças pareciam lixo.

— Imagino que falhar não seja mais uma opção — respondeu no mesmo tom, carregando outra leva.


No dia seguinte, 21 acordou... só não no parquinho. 

Ao ver o teto cinza, olhou para o lado e viu outras crianças ainda inconscientes. Ao lado de cada uma, um túnica injetava novamente o líquido da seringa. Quando chegou a vez dele, o túnica segurou seu braço, Shiiirrp... e injetou a droga sem mais nem menos.

— Me tira daqui, moço, por favor... — pediu baixinho, com voz de choro.

— Calma, garoto, não vai demorar muito.

Uma lágrima escorreu pelo rosto dele enquanto observava os túnicas saírem da sala. Vendo as outras crianças dormindo, 21 presenciou o momento exato em que as luzes começaram a piscar, e todas as crianças despertaram em desespero, gritando sem parar.

Restavam 198 crianças.


No dia seguinte, todas as cobaias acordaram nos parquinhos que ainda restavam. 

21, em sua sala, andava de um lado para o outro, pensando em como poderia escapar daquele lugar. As cobaias das outras salas o observavam, confusas, sem entender por que ele agia de forma tão agitada. Elas não queriam se mover, não queriam fazer nada. Já haviam aceitado que estavam presas ali, sem controle sobre suas próprias vidas.

Olhando para o teto da sala, 21 viu buracos e teve uma ideia.

— Vou tirar a gente daqui! Me ajudem a subir até lá! — Apontou para os buracos e as crianças da sala começaram a se empilhar umas sobre as outras na tentativa de alcançar.

— CONSE... — Tcssssiiii... — gui...

Pah...-Pahpapapa-pah...

Assim que 21 colocou a mão no buraco, uma fumaça começou a sair dele. A torre desmoronou, e todos caíram adormecidos, despertando novamente na sala dos blocos de pedra. Lá, AAAAHHRG! gritaram sem parar, com os olhos arregalados de dor, prestes a saltar de suas faces.

Restavam 133 crianças.


21 acordou sozinho no parquinho, se levantou lentamente e olhou ao redor. Não via absolutamente nada, apenas infinitos parquinhos completamente vazios. Thum! Thum! Thum! Começou a ficar ansioso e seu coração a bater muito forte. 

O silêncio gritava em sua mente, e o desespero tomava conta de seu corpo.

Fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, o cenário havia mudado. Encontrava-se agora em um infinito branco. Assustado, fechou os olhos por alguns segundos e, ao abri-los, tudo continuava igual. Tentou mais uma vez... nada mudou.

Desesperado, começou a gritar, cobrindo o rosto com as mãos, todavia sua voz não saía. O silêncio absoluto era ensurdecedor; nada que ele fizesse parecia aliviar a situação. A angústia, o medo e a solidão gritavam ao mesmo tempo... no entanto era tudo em silêncio.

Não conseguia pensar, não escutava seus próprios pensamentos; o silêncio era como um som agudo contínuo, rasgando sua alma, e ele não sabia como fazê-lo parar. Continuou abrindo e fechando os olhos desesperadamente, tentando voltar, tentando sair de lá.

Após várias tentativas, caiu de joelhos e abriu os olhos, olhando para o chão enquanto chorava. Nesse momento, viu uma sombra se formando no chão e rapidamente olhou para frente. As crianças de sua sala anterior o olhavam fixamente.

Todas abriram as bocas juntas e começaram a murmurar:

— Você disse que ia tirar a gente daqui.

As olhou, chorando, sem reação, apenas olhando sem tentar dizer ou fazer qualquer coisa.

— Se você ia nos tirar daqui... Por que eu morri?

21 continuou chorando, e as vozes das crianças ecoavam em sua cabeça:

— Por que eu morri?

— Por que você não cumpriu sua palavra?

— Eu merecia morrer?

— Eu não vou ver minha mamãe?

— Estou com medo...

O menino não aguentava mais as vozes em sua cabeça. Caído no chão, tapando as orelhas, chorava sem parar. Mas, de repente, o silêncio voltou à sua mente. Levantou a cabeça e olhou para frente, vendo a si mesmo em pé, encarando-o.

Após alguns segundos de estranheza e silêncio absoluto, o rosto do 21 à sua frente começou a se desfigurar, transformando-se em uma aberração repleta de braços e pernas de crianças, enquanto as cabeças lamentavam e choravam incessantemente.

O monstro o olhava no chão... e mais uma cabeça apareceu naquela aberração; o rosto completamente desfigurado do garoto chorando sozinho berrou como se estivesse dentro da mente dele:

— TENHO QUE TIRAR A GENTE DAQUI!


Harff-afficuf-caf...

Despertou do sonho assustado no parquinho. Ao abrir os olhos, percebeu que era o único acordado. Olhou ao redor e viu novas crianças substituindo seus colegas que haviam morrido nos testes anteriores.

Ao olhar para frente, avistou dois homens de túnica observando-o e conversando entre si.

Dominado pela raiva, o pequeno correu em direção a eles, Pham! todavia colidiu de cara com a parede mágica invisível que o cercava.

Se levantou com ainda mais raiva, fechou os punhos e, Bam-Bam-Bam! começou a socar a parede, mirando nos homens do outro lado.

— 21 parece estar desenvolvendo o poder divino — comentou um homem para outro, observando a criança com semblante irritado enquanto desferia socos que soltavam faíscas elétricas de seu corpo.

— Vamos iniciar os testes imediatamente — respondeu o túnica responsável, suas vestes maiores destacando sua autoridade.

As outras cobaias acabaram acordando do descanso devido ao barulho que 21 fazia, contudo, ao se levantarem, Pah-papapapah-pah... começaram a cair novamente. Tcssssiiii... 21 olhou para trás e percebeu que estavam utilizando o gás outra vez. Com os túnicas rindo ao fundo, Bam!-Bam!-Bam! intensificou seus socos, o poder artificial reagindo violentamente a cada golpe.

BACRECK!... Pah...

Um de seus socos foi tão forte que rachou a parede mágica, porém, logo em seguida, o menino caiu no chão, dormindo como as outras crianças, enquanto faíscas de raio amarelo pulsavam em seu corpo.

Restavam 119 crianças.


Mais um novo dia... mais uma "nova" tortura.

O jovem garoto se via perdido. 21 não sabia o que fazer... Se isolou dos outros. Sentava sozinho em um cantinho do parquinho. Os olhos arregalados e vazios. Sua cabeça balançava repetidamente, enquanto murmurava a mesma frase incessantemente:

— Tenho que tirar a gente daqui... Tenho que tirar a gente daqui...

Restavam 80 crianças.


No parquinho... agora o menininho permanecia de pé, porém com dificuldade, quase incapaz de se equilibrar. Parecia um zumbi, um morto-vivo, e mesmo assim continuava a repetir a mesma frase como um louco: 

— Tenho que tirar a gente daqui... Tenho que tirar a gente daqui...

Restavam 18 crianças.


O túnica responsável conduziu os assistentes, que arrastaram os 18 sobreviventes de volta ao parquinho. Assim que chegaram, a barreira mágica foi desativada, Pah-papapah... e eles jogaram as crianças inconscientes no chão como se fossem lixo descartável... O círculo mágico foi reativado imediatamente após tal ato desumano.

Um dos assistentes, visivelmente animado, virou-se para o responsável:

— FOI UM SUCESSO! Três conseguiram magia elétrica divina, outros 15 com magia de gelo. Na hora de fundir, será um bom teste — comentou com euforia, olhando para as cobaias caídas.

— Façam os testes de risco, alimentem, e deixem-nas descansar por no mínimo sete dias. Não quero que esse teste falhe — ordenou o responsável.

— Mas é só um teste, podemos pegar mais no orfanato — respondeu olhando-o de perfil ao seu lado.

— Não é bem assim. As cobaias humanas estão acabando, e não sei se funcionaria com demônios.

— Podemos test...

— Chega.

O assistente abaixou a cabeça, em silêncio.

— Temos que mostrar resultados. Se falharmos mais uma vez, minha cabeça pode rolar, e eu serei substituído.

— Sim, senhor.

— Faça exatamente o que eu lhe ordenei.

— Sim, senhor.

O assistente se retirou, e o responsável ficou ali, observando as cobaias desacordadas com seus olhinhos ainda abertos no chão do parquinho.

— Não me decepcionem — rosnou... frio.

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