Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 9

Capítulo 195: Abraço Frio

Na manhã em que as torturas cessaram e o cadáver de Jaan se transformou em carvão antes de evaporar para o todo sempre... uma jovem bem parecida de rosto com ele cruzava extremamente apressada alguns corredores no Palácio do Sol.

Thlon...

Encontrou o salão do trono e entrou.

Seu pai, como sempre, permanecia sentado com a cabeça apoiada no punho, sendo sustentado pelo braço no apoio do trono. Seu olhar tedioso... seu rosto não escondia o desgosto de vê-la se aproximar.

Os olhos da filha eram completamente amarelos... mas seus cabelos, não. Usava um vestido simples em tom azul-claro. Seu cabelo longo era branco, com suas mechas em ciano — bem longe de ser como, mas parecia querer imitar o cabelo de Anna.

"Jane... O que você está fazendo aqui?" Jeane ficou visivelmente preocupada, corpo tenso... embora ainda assim, parada em seu lugar, em pé, ao lado do trono como em todos os dias da sua vida depois de ser escolhida pelo monstro que não conhecia.

Jane se aproximou mais e se ajoelhou diante do Primordial do Sol.

— Papai... por favor, mande subordinados para buscar meu irmão! Senti muita dor e ouvi gritos à noite e madrugada inteira, como se ele estivesse pedindo socorro... Por favor, papai, eu imploro! — Testa colada no tapete enfeitando o chão... lágrimas deixando-o mais escuro em meio ao pedido.

Sol olhou para baixo com soberba.

— Por que eu deveria fazer isso? Vocês não passam de decepções.

Jane levantou o rosto, olhando para ele diretamente.

— E-eu pintei meu cabelo para que você gostasse de mim... E-eu não fiquei parecida com a Lua? — perguntou e era notória a dor de vê-lo olhando-a daquela forma.

— Você achou mesmo que fazendo isso teria minha aprovação?

Jane abaixou a cabeça outra vez — seu corpo quase tremia pelo frio que sentia naquelas palavras cortantes... Encostou novamente a testa no tapete, e clamou aos ventos e ecos do salão:

— Por favor, papai... Salve Jaan!

Só o nome dado por Jeane lhe fazia sentir repulsa, nojo. Dois filhos inúteis. Dois fracos... O que esperava? Não eram Primordiais... Eram demônios comuns até que este morresse para que os dois herdassem o poder por serem gêmeos. Como podia exigir que fossem como você? Como podia ser tão burro?

Emília não era só uma criança. Não era só uma demônio... Querer que seus filhos fossem minimamente mortais, poderosos e fortes como ela era simplesmente loucura. Anna não era só uma demônio. Nenhum demônio comum, nenhum filho de Primordial conseguiria chegar aos pés de seus pais sem que estes morressem.

Mas Sol queria que chegassem.

Sol queria que fossem merecedores de serem chamados de seus filhos... Como? Como conseguiriam isso? Nem o Ragnorok lhes responderiam... Então, como, como conseguiriam isso?

Olhando-a transbordando arrogância e nojo, respondeu em tom frio:

— Eu escutei seu irmão morrendo. Me chamou. Clamou para que eu o salvasse... foi delicioso. SlikHahihk... — Jane tremeu o corpo. Sentia a fúria se misturar ao sangue e queimar cada veia de seu corpo. Aquelas palavras ouvidas. Aquela risada sádica. Sol passou a língua em suas presas mostrando estar excitado enquanto continuava: — Gritou bastante... e morreu sem fazer nada. Morreu sem tentar voltar um único golpe... Um fraco... Só um fracote chorão e mimado. Eu deveria tê-la mandado junto dele. Seria ótimo nunca mais precisar olhar para um rosto tão horrendo. Ainda mais sabendo que morreria sofrendo... Hahahihk.

Jeane sentia cada palavra como se fosse para ela. Como se a culpa fosse dela... de ter feito filhos fracos... todavia permanecia em silêncio, estática ao lado do trono. Se tivesse recusado o chamado do Imperador... teria morrido? Não sabia quem era ele... porém descobriu quando foi obrigada a se entregar para ele naquele quarto luxuoso.

Pensamentos suicidas... Seria melhor ter se suicidado quando percebeu a gravidez? O sofrimento que seus filhos passaram e continuam era melhor do que pôr um fim em tudo antes de tudo realmente começar?

O que esperava?

Se tornou obediente... já não mais sofria... todavia... e os dois? Como estavam? Estavam... bem? Não morreu. Não se matou... e agora, também não apanhava mais... mas e os dois? Estavam... bem? Cadê a mãe? Onde estava? Por que não foi? Por que não ouvia? Por que não os... protegia?

Por que essas lágrimas...? São pelo Jaan... ou por medo da punição recair em você... outra vez?

Jeane olhava para sua filha, quando percebeu Jane lentamente moldar uma adaga de sangue escondida.

"Filha, não faça isso, por favor..." ...Era por ela... ou por você, essa preocupação?

Jane havia se decidido... Não hesitaria, não iria fraquejar outra vez. Terminou de criar a adaga, Fu! e se ergueu o mais rápido que conseguiu, avançando com um golpe reto no coração de seu pai.

"FILHA, NÃO!" ...Não criou coragem nem para vocalizar seu grito...? Deixar de levar um tapa na cara era melhor do que uma única vez em sua vida tentar proteger, salvar, cuidar de sua filha...?

Creck!

Não tinha como tal ataque funcionar.

Velocidades incompatíveis... concepção do tempo completamente diferente. Sol viu-a chegar lentamente em sua óptica, tendo tempo suficiente para segurar o braço da filha e quebrá-lo como um graveto seco. Para Jane seu movimento foi perfeitamente preciso e rápido, porém seu pai destruiu sua ilusão de acerto.

AAAIIII! AAAAAIII!

Pharf... Sol segurava-a suspensa por um momento, observando a expressão de dor e angústia em meio aos gritos bem de perto. Logo desceu-a sem cuidado, fazendo-a colidir com o piso. Ergueu-se do trono, Sccrrrchh... e saiu arrastando-a na direção da porta do salão.

— MÃE! MAMÃE! — clamava por quem dizia ser sua mãe.

Jeane continuava com lágrimas nos olhos... algo parecia mudar. O corpo se mexeu como se fosse dar um passo na direção de sua filha implorando mais uma vez por "colo" após "se" machucar "sozinha"...

— Volte ao seu lugar... — Sol virou o rosto ligeiramente para ela e completou: — Ou quer ser punida junto?

Bastou só isso... Nem havia iniciado direito o passo... e o corpo se paralisou novamente, ficando estática ao lado do trono, enquanto os ecos de sua filha chamando-a continuavam ecoando pelos corredores do palácio vazio.

— M-M-ME DESCULPA!... POR FAVOR!... ME DESCULPA, PAI!

Gritar só deixava as coisas piores. Sua voz não agradava seu pai. Arrastando-a com tamanha brutalidade pelos corredores, finalmente chegou em uma das portas que levava às diferentes masmorras presentes no subsolo de todo o palácio.

Crskh! PAH-PAH!...

Destrancou a porta usando uma chave feita de sangue, e a arremessou escada abaixo, fazendo-a rolar pelos degraus escuros e cobertos de lodo até parar no fim sobre o braço quebrado. Jane chorava sem parar. No chão, ela o viu se aproximar, descendo as escadas em passos raivosos.

Tentou se levantar... não conseguiu. Slii... Escorregou levemente em um líquido espesso, gosmento e escuro cobrindo o chão. Antes de cair novamente, Pm Sol a segurou com brutalidade pelo pescoço, Rrrrrrppppp... e a arrastou pelo corredor do subsolo, deixando pegadas profundas e firmes, enquanto o corpo dela acumulava toda a sujeira do piso.

As paredes de pedra, antes cinzas, agora estavam cobertas de lodo escuro. O ambiente era úmido, Poc!... Poc!... com gotas de um líquido ainda mais escuro pingando das pedras. Rrrrrrppppp... A arrastou pelo chão de tijolos até as celas abandonadas, dominadas por insetos monstros como baratas zumbis, ou as pequenas lacraias mutantes que se esconderam nas fendas ao escutarem o barulho... Larvas se alimentavam do lodo nas paredes.

Ckshk! PAH!...

Sol abriu uma cela e jogou sua filha dentro... Jane caiu sobre o braço quebrado.

A-ah-aii... Argh... — gemia e buscava por ar.

O lugar não tinha nada além de um par de algemas enferrujadas presas à parede e um cheiro insuportável de corpos em decomposição. Nenhuma das celas abrigava outra pessoa, ao menos viva. Esqueletos estavam presos nas paredes, e em algumas, nem sequer ossos restavam, pois haviam servido de alimento para os pequenos monstros que, agora, dominavam aquele lugar.

Insetos comuns disputavam território, contudo logo se tornavam alimento também, deixando esses monstros mais fortes, em uma constante mutação ao ingerir sangue. Se ao menos ela estivesse sozinha naquele lugar em desuso, seria melhor do que conviver com aqueles seres minúsculos e nojentos.

Tremendo de dor, Jane tentava se mover, segurando o braço ferido, tentando amenizar o sofrimento agudo.

A umidade do chão se infiltrava em seu corpo, o vestido nem podia ser descrito como azul-claro. Sentia um frio cortante naquele lugar, que não possuía nem mesmo uma janela para que ela pudesse sentir um pouco do calor solar.

— Você irá apodrecer sem comida e água, irá passar o resto da sua vida definhando até a morte. Você não serve para nada. Seu corpo, seu rosto, nada é igual. Sua inútil.

Caída no chão, olhou para cima e viu o rosto de nojo do pai do outro lado das grades.

— Seu corpo me dá vontade de vomitar. Eu deveria ter arrancado você da barriga da sua mãe e matado antes de precisar olhar para essa sua cara de porca humana fraca. Ptu! — Sol cuspiu no rosto da sua filha e se virou, saindo em direção às escadas.

— ...M-m-me desculpa...

A única luz que iluminava aquele lugar vinha da porta, na escada, do corredor láááá em cima. O Primordial não acendeu nenhuma das velhas tochas do local e, assim que saiu, Plahck! fechou a porta atrás de si...

Jane ficou na mais completa escuridão, somente conseguindo ver os pequenos olhinhos brilhantes dos insetos que a observavam. Kr-kr-kr... O som das larvas devorando o lodo ecoava ao seu redor, kliklikli... e o barulho das patinhas das lacraias, se arrastando pelas fendas das paredes, completava o pesadelo.

— ME DESCUULLPA! — Continuou em lágrimas, deitada no piso, ouvindo os sons das pequenas criaturas ao seu redor durante o dia inteiro, enquanto seu corpo permanecia imerso no líquido escuro, um mar de sangue velho da Linhagem do Sol.


Muitas horas se passaram. Era um novo dia, um novo início de manhã. 

Sol ainda dormia em seu quarto, rodeado de mulheres que Jeane preparara às suas ordens noite passada. Usando disso, Jeane acordou antes do sol começar a iluminar àquela parte do mundo, e foi realizar seu plano... medroso.

Foi até a cozinha, onde demônios se encontravam logo cedo preparando o café da manhã dos Primordiais que ainda residiam no Palácio do Sol. Conversando com as moças, conseguiu pegar comida e água com as servas que decidiram ajudá-la sem denunciá-la ao Primordial... embora fosse estabelecido um acordo, que caso Sol descobrisse, aquelas servas não sabiam de nada...

Jeane aceitou.

Após receber um jarro de água e uma pequena cesta de pães, se dirigiu rapidamente até a escada do subsolo em que Sol aprisionou-a. Crskh! Destrancou a porta manipulando seu sangue na fechadura e conseguiu entrar escondida, levando alimento para sua filha.

Fechou a porta da escada lentamente evitando qualquer barulho e usou uma pequena magia do sol para iluminar a descida pelos degraus lambuzados, indo com cuidado para não escorregar no lodo e sangue velho. Poc!... Poc!... O som das gotas batendo no piso ecoava enquanto o cheiro e a umidade daquele lugar se tornavam quase insuportáveis de suportar.

Constantemente passava o braço no nariz, tentando aliviar o odor.

Quando a escada acabou, começou a caminhar com mais facilidade, escolhendo pisar no centro das pedras, pois nas extremidades havia mais gosma. Iluminava o caminho à frente com o pequenino sol criado... sua iluminação deixava as coisas piores do que só um breu absoluto.

Os esqueletos pareciam presenças olhando-a de canto. Os objetos, barris cheios de gosma pareciam borbulhar — uma piscina nutritiva para os insetos aproveitarem. Nem vento passava lá, mas por que correntes se moviam lentamente... rangiam como se alguém as movessem por lá?

Jeane sentia medo... muito medo.

Um choro baixinho podia ser escutado a cada novo passo da mulher.

Jane sentia muito medo... muito mais medo que a mulher.

Finalmente chegou à cela de sua filha e a encontrou deitada no chão, chorando baixinho e cheia de machucados. O rosto da mãe se aliviou. Perdeu um pouco do medo e se agachou. O vestido de Jane estava rasgado, o braço quebrado agora mais roxo, agravado pelo ambiente precário.

Rosto escondido... Jane tremia profusamente, não só de frio...

Olhou na direção do perigo, encontrou sua mãe e os olhos da jovem adulta brilharam. O medo. O medo. O medo... Não era outro ser. Era sua mãe... Mãe? Rrrrppp... Jane se arrastou pelo chão até chegar na grade, desta vez não chorando para dentro... agora gritava bem alto para fora.

Segurava a grade com a única mão que respondia às ordens do sistema nervoso, e dava para ver nitidamente seus dedos claros roídos, em carne viva.

— M-m-mãe, p-por favor, não me deixe aqui sozinha, mãe... Mãe! Mamãe, por favor, não vá! Por favor, mamãe! Não, não... — Soluços, gaguejos... sua voz tremulava mais que o corpo no frio em meio à escuridão.

Puc...

Jeane colocou a comida ao lado das grades para que Jane pudesse pegar e comer.

— Não posso, filha. Tenho que servi-lo lá fora, meu tempo está apertado... Volto amanhã com mais comida... — Sem olhar diretamente para sua filha, se levantou e se virou para sair.

— NÃO! NÃÃO! MÃE!! MAAMÃÃE! MAMÃE!... NÃO ME DEIXE AQUI SOZINHA!... POR FAVOR!! POR FAVOR! NÃO ME DEIXE SOZINHA!... de... novo... ma...mãe...

Jeane continuou subindo as escadas, mesmo ouvindo o choro desesperado de Jane pedindo por ajuda para sair do inferno... outra vez. O som das grades tremendo. O som de Jane se debatendo e tentando quebrá-las com o corpo enquanto chorava de medo.

Quando sua mãe saiu e fechou a porta, selando o pouquinho de luz que entrou durante três segundos... Jane soltou a grade, se sentou no chão e, segurando seu braço quebrado, começou a chorar e soluçar ainda mais.

— Por favor... Me tira daqui, mãe... — clamou baixinho... mas nem em gritos seria suficiente.


No dia seguinte, Jeane retornou às celas do subsolo com uma tigela de comida e uma jarra de água. Seguiu o mesmo procedimento de antes: fechou a porta atrás de si e usou magia do sol para iluminar a descida. Cautelosa, assim desceu os degraus para não escorregar. 

Sua preocupação em não cair foi tamanha que não notou o lodo em muitas partes da escada mais esmagados do que se encontravam no dia anterior... Chegou no final do corredor.

Iluminou melhor o ambiente, notando os insetos das paredes se afastando com a luz. Caminhando, Jeane começou a ouvir sons estranhos e, instintivamente, diminuiu o passo, avançando lentamente enquanto mantinha a luz à frente.

A gosma nas paredes se movia lentamente, porém ali não havia circulação de ar. Os insetos, irritados pela luz, se escondiam cada vez mais nas fendas. A cada passo, a mulher sentia mais medo daquele ambiente escuro. O som de algo sendo mastigado tornava-se cada vez mais nítido.

Finalmente... chegou à cela de sua filha.

Estendeu o pequenino sol diante de si e iluminou Jane, com as costas abertas, sem vida, sendo devorada pela Besta do Primordial Branco. Aquele grande ser que se assemelhava um pouco com um urso, tinha a boca toda suja de sangue amarelo.

Jeane paralisou de medo.

Crash! Clec!

A cesta e a jarra caíram de suas mãos, quebrando e ecoando no ambiente.

— S-s-socorro...

Paralisada, não gritou; murmurou e se virou para tentar fugir, porém, nesse momento, Frufrufrufru... todas as tochas do local se acenderam em chamas brancas. Branco surgiu a centímetros de seu rosto, sorrindo para ela.

Jeane se assustou, Pashfh! e Branco a empurrou contra a parede ao lado da cela, sujando suas costas no lodo espesso e escuro.

— Está indo aonde? — riu, olhando-a, e esta se encolhia de pavor. — Acha que pode chamar alguém? Lisssck! — Branco passou a língua pelo pescoço dela, subindo para o rosto, enquanto a mulher tentava desviar.

— ...

— Já foi um milagre sobreviver ao parto de gêmeos, uma meia-humana tão fraca como você. O que ele viu em você? Essa tinta no seu cabelo fez ele realmente fantasiar que você é a Lua? — Mexia a cabeça para os lados com um tom sarcástico. — Pelo menos esse objeto que você criou serviu de comida para minha Besta.

Jeane não parava de chorar enquanto ele falava.

Ooh... Que carinha é essa? — Colocou a mão no rosto dela, virando-a para si. — Por que está chorando? Que medo é esse que você está sentindo? — Com a mão apertando as bochechas, PAH! a empurrou no chão com brutalidade.

Segurou-a no chão em frente à cela, agarrou o crânio dela quase o amassando e obrigou-a a assistir a Besta devorando os órgãos de Jane. O ser arrancou o fígado e saiu da cela mastigando-o. Branco continuou forçando-a a olhar o cadáver de Jane parado, frio, sem cor, atrás daquelas grades.

— Olha só que cena mais linda... — disse, com um sorriso estranho no rosto, observando o desespero da mulher. — Limpe essa bagunça, não quero voltar aqui e sentir esse cheiro de carne de meia-humana. Fui claro?

— ...

Muito assustada, não respondeu.

Branco virou o rosto dela para si novamente. 

— FUI CLARO?!

— S-si-s-sim, vou limpar tudo, não se preocupe.

Pahf...

A soltou no solo e, junto de sua Besta, saiu do subsolo.

Completamente desolada, chorava enquanto juntava os restos mortais de sua filha em um velho barril de madeira, no corredor, já repleto de sangue podre, espesso e escuro, que mal parecia ser da linhagem amarela.

Passando a roupa rasgada de Jane pelo sangue, que dava cor ao ambiente sombrio, Jeane continuava soluçando, com a respiração trêmula, no tempo que observava sua filha iluminada pela forte luz branca das tochas.

— Desculpa por não ter ficado aqui com você... É tudo culpa minha. — Passou o braço nos olhos para limpar as lágrimas. — Eu... Eu fui fraca... E-e-eu não fui mãe...

Paf... Se sentou ao lado do corpo.

— Eu deveria ter tentado fugir com você! Eu... Eu deveria ter... EU DEVERIA TER MORRIDO POR VOCÊ! — Abraçou o corpo da filha. — Me desculpa, filha... Me desculpa por ter sido tão egoísta... Mwa... — Tocou seus lábios na testa de Jane com um beijo, segurando-a nos braços, aos prantos.

...De que adiantava tudo isso agora?

Todas essas desculpas... quem iria escutá-las?

Escolhas... decisões...

Quantas vezes pediram ajuda?

Quantas vezes gritaram por você?

Sua vida se tornou um inferno quando foi escolhida por se parecer demais com Lua... uma pena que não era demônia pura. Sua aparência se distanciou rápido demais do ser imortal que Lua era. O desgosto de olhar para sua cara cresceu, e Sol não perdoava ao espancá-la.

Vivia o inferno... colocou duas crianças no mundo e se viu livre dele.

Trocou de posição... passou o inferno para duas crianças que não tinham absolutamente nenhuma culpa de nada... Foi legal? Aqueles 20 anos livres do inferno... foram legais? 20 anos deixando seus filhos sofrerem... Você gostou?

Não sangrou... não levou um tapa no meio da cara e caiu sem os movimentos do corpo... mas... seus filhos... sim. Foi divertido? Inventou desculpas, deu as costas a cada pedido de socorro, a cada vez que Jaan e Jane queriam bolar um plano para fugir com você... eles amavam você... mas... e você? Os amava... também?

Por que nunca foi?

Por que nunca tentou?

Tinha realmente medo de não funcionar e só resultar em mais sofrimento...? Aaaah... tentando isso... você iria sofrer junto... né?

Engraçado... agora se arrependia de não ter fugido... O que seu choro mudava? Suas lágrimas eram inúteis. Soavam falsas. Pense comigo, garotinha assustada, você escolheu tudo isso, você decidiu tudo por eles. Ambos morreram porque você escolheu seguir esse caminho... egoísta.

Escolhas... decisões.

...negações.

Agora que o destino da sua escolha de ficar e não tentar fugir deu errado... ficava bem claro que o certo teria sido tentar fugir. Essa e muitas outras... eram a graça do Poder de Escolha. Não havia como saber o resultado sem escolher e seguir um dos caminhos. Esse deu errado. Talvez o outro também levasse à desgraça, porém agora só restava remoer para sempre que o outro caminho era o certo e você falhou como mãe... outra vez.

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