Volume 2 – Arco 8
Capítulo 187: Assassina a Bordo
Aeroporto de Guarulhos... Voo com destino ao Amazonas.
Fuuuoouuu...
O uivado dos ventos fazia o sobretudo branco de Alissa dançar com o passar. Sobre o telhado do aeroporto, observando seu avião se posicionar para o embarque, a mais forte se encontrava.
Óculos escuros, armação preta e redonda, cobrindo seus lindos olhos azuis. Uma maleta preta firmemente segurada em sua mão esquerda. Seu conjunto de roupa típica hoje era inteiramente branco... Óculos na ponta do nariz.
Empurrou-os com a mão livre, embora sempre coberta por uma luva.
Parou.
Finalmente o avião chegou na posição, conectando-se à passarela.
Poucos instantes depois, a permissão viera e as pessoas, alheias ao que poderia estar acontecendo, foram entrando... Alissa já se encontrava em pé, escondida no banheiro, aguardando os embarques acabarem para se dirigir ao assento "reservado".
Não sentiram-na — a mulher nem afetou o ar ao passar como um teletransporte ao lado dos humanos sem magia... Humanos sem amor à vida.
Poucos minutos se passaram.
Todos agora estavam em seus assentos, quando uma aeromoça se apresentou no meio do corredor, com seu uniforme azul-escuro e um colete inflável laranja no pescoço, demonstrando as dicas de segurança para todos... embora ninguém prestasse a mínima atenção.
Após realizar seu trabalho, a aeromoça saiu, e o voo decolou.
Alissa aguardou mais alguns minutos. Esperou o voo se estabilizar e as pessoas entrarem em um estado de normalidade — dormir, conversar baixinho ou somente não prestar muita atenção ao redor.
Saiu.
Nem mesmo fechou a porta — não queria causar nenhum ruído chamativo ou curioso.
Saiu andando tranquila. Vira no site de voos que um assento naquele avião estaria livre. Não queria comprar em seu nome e alertar as forças competentes, e muito menos envolver Mirlim no que iria fazer naquele dia.
Nem quatro passos de distância estava, Tlaki! quando uma mulher deixou seu celular cair no corredor, em frente à mulher de branco. A exterminadora se manteve parada, olhando na direção do aparelho. Todavia, quando a mulher recolheu-o, vendo os tênis brancos de cano alto, as pernas claras e um sobretudo, olhou imediatamente para cima... foi quando reconheceu tal mulher de pele tão perfeita.
Seus olhos se encheram de terror verdadeiro — a filha do presidente era uma foragida... uma assassina, que o próprio pai ordenara a captura... mas... quem iria fazer isso? Quem iria dar a voz de prisão? Quem iria parar o ser mais forte do mundo?
— A-a assassina do jornal! — exclamou a mulher, que não tinha o cinto afivelado.
Com a adrenalina correndo nas veias, o coração disparado, ergueu-se como se fosse ajudá-la a pensar... ergueu-se e apontou o indicador, como se as outras pessoas pudessem ajudar:
— A exterminadora assassina! — gritou um homem.
O voo se tornou um caos. Todos olhando. Muitos se levantando. Alguns se afastando, já outros arremessando biscoitos e salgadinhos que comiam, mesmo que estivessem ainda sentados, na direção da mulher... que ainda mantinha o rosto abaixado ao chão.
...Nada a atingia.
Seu poder criando uma barreira no contorno do corpo. Seu poder parando os objetos de chegarem perto. P-fp-f... Os alimentos desperdiçados caindo no chão... O olhar cada vez mais irritado. Sua paciência se esgotando.
"Era só ficarem quietos!"
Uma velha, sentada à esquerda, na janela, arremessou a água de um copo de plástico... Ao menos se fosse somente isso, tudo ficaria ameno. Não se contentou em mostrar apenas seu desafeto, seu protesto para com a mais forte... ainda quis disferir algumas palavras agradáveis que qualquer pessoa "amaria" escutar:
— Espero que você morra, assassina desgraçada!
Alissa virou lentamente seu rosto na direção da velha... A jovem mulher sentada no meio e no corredor balançavam a cabeça freneticamente em negação enquanto mantinham seus olhos arregalados, tentando se desvincular de qualquer coisa referente àquela humana sem amor próprio...
(Uma pena... não funcionou.)
Cr-r-r-runch!
Todos os passageiros morreram instantaneamente, tendo seus cérebros implodidos. Pharrft... Caíram mortos nos assentos... os crânios esmagados e o sangue escorrendo pelo chão.
Impaciente, caminhou até seu assento "reservado", puxou a mesinha e deixou sua maleta aguardando-a, no tempo que se dirigia até o fim do corredor, agora cheio de sangue e cadáveres.
— Ainda assiste aquele programa de homem pelado sobrevivendo sozinho? — perguntou o copiloto, zoando.
— Você fala como se a benga não fosse censurada. Preconceituoso — retrucou no mesmo tom.
— Você e suas tendências homoafe...
Brumch!
— POORRA!
Tudo se encontrava em ordem na cabine de pilotagem. Uma conversa descontraída de dois amigos de trabalho, quando a cabeça do copiloto explodiu de uma hora para a outra, espalhando sangue em toda a cabine, sujando absurdamente o vidro e equipamento... além do próprio rosto do amigo.
Desesperado, voou com a mão ao rádio na tentativa de pedir ajuda para algo que nem sabia, à central... Todavia, antes que pudesse tocá-lo, Crash! o rádio implodiu... foi esmagado, quebrando-se e fragmentando-se quase em pó.
Completamente sujo e apavorado... sangue do seu amigo misturado em sua saliva cuspida, quase vomitada, olhava para o que restou de sua esperança caída no chão, quando uma mão fria, porém macia, tocou em seu ombro.
Travou.
Sem olhar para trás, começou a suar frio, fechando os olhos e tremendo, temendo por sua vida.
— Vamos mudar o destino. Não será mais o Aeroporto de Manaus... — Alissa sussurrou em seus ouvidos... o homem reconhecera a voz, o que só o fez ficar ainda mais nervoso com a situação. Corpo tremendo mais rápido que as batidas do coração. — Pouse na base aérea do Amazonas, a DASG.
— M-m-mas...
— Não mandei você me responder.
O silêncio se seguiu... ao menos fora da mente:
"Meu Deus, por favor, me ajude!"
— Não sei pilotar um avião, mas se você tentar qualquer coisa além do que eu mandei... Você morre. — Alissa deu uma risadinha e saiu da cabine, acenando desleixadamente de costas. — Bye-bye.
O piloto abriu os olhos. Havia se mijado e o corpo não parava de tremer... Olhou seu colo — as pernas quentes devido à urina. Como se não pudesse piorar, seu rosto choroso voltou-se à direita quase como um ímã fraco, quando ouviu sons mórbidos de carne... de vísceras sendo movidas.
Virando-se lentamente, seus olhos arregalados viram o cadáver do copiloto se mexendo e o encarando com a boca aberta, igual a um zumbi. O crânio estilhaçado foi moldado, a pele colada errada, a carne, os olhos voltados ao homem, agora quase se cagando.
Aquele corpo era de Alissa. O controle sobre ele, sobre os olhos, sobre as orelhas. A mulher não queria se dar ao trabalho de usar os olhos do homem vivo, preferindo intimidá-lo com a presença do amigo morto-vivo.
Apavorado, tentou ignorar a visão aterrorizante, mudando o local de pouso após limpar o vidro na tentativa de enxergar melhor. O choro se mantinha presente — escutar o barulho baixo e angustiante que seu amigo morto produzia não era lá a melhor das sinfonias.
Algumas horas depois:
Aproximando-se cada vez mais da base aérea... o piloto pousou o avião sem permissão.
Os soldados tentaram entrar em contato com a aeronave, todavia não conseguiram devido ao rádio estar destruído... Corriam riscos... O avião?
Após o pouso difícil, seguiu as ordens de Alissa e abriu a porta... Agora, Alissa se encontrava na floresta — nenhuma câmera humana conseguiria capturá-la em sua velocidade. Seu objetivo era óbvio: achar os itens que Nino mencionara não ter destruído.
Do outro lado, as ordens do coronel — que assumira o lugar depois do desaparecimento do antigo tenente-coronel — eram seguidas... Por segurança, assim que as turbinas se desligaram, todos os soldados armados se posicionaram cercando a aeronave: um grupo posicionou a escada e outro subiu, parando em frente à porta, aguardando a última ordem:
— Entrem! — ordenou o coronel.
O primeiro grupo armado invadiu a aeronave. Um cobrindo o outro... Todavia, assim que entraram e olharam para os tripulantes sem cor, Crunch! P-pah... caíram mortos, juntando-se ao cenário de sangue e cadáveres que preenchia o avião.
Entre todos os corpos caídos... um com os olhos na direção da porta era controlado por Alissa... Uma mulher. Uma humana? Um Semi-Deus forjado por um ser poderoso, mas igualmente medroso. Tamanho poder compactado em uma mulher de 1,79 m de altura.
Só precisava ver, ouvir, cheirar, sentir ou imaginar que alguém estava em determinado lugar — como atrás da porta, ou observando-a por trás de uma câmera — para ter controle absoluto sobre o corpo e os poderes caso o humano possuísse.
Imparável... Só outra seria capaz... Só outro ser tão poderoso... Uma pena para o lado oposto, Mirlim se encontrava no décimo quarto sono do dia, e muito menos iria se opor à sua filha.
Chhhhh...! Os rádios dos soldados respondiam apenas com ruído, até que, poucos segundos depois, Cr-r-rash! todos foram esmagados.
— Alguém aí? Câmbio... — Vários segundos se passaram sem resposta. — Respondam! Câmbio!
Enquanto isso, Alissa continuava pela floresta, até que finalmente encontrou um local com muitas árvores derrubadas... Local esse que fora interditado, mesmo que não houvesse mais riscos... Bem... Quem poderia dizer isso?
Voo longo.
Chegaram fim de tarde, e a noite começava a cair.
Caminhava tranquilamente, ainda era possível ver mais do que só pequenos olhos brilhantes — fora o seu — de pequenos seres olhando-a. Insetos, pequenos animais escondidos. Viver no mundo selvagem era estressante. Sobreviver não era tão fácil quando sua raça não se encontrava no topo da pirâmide.
Em meio à área planificada, uma grama linda, verdinha... nem estranhou-a, mas ao pisar, Pl-Pl-Plosh! esta se transformou em um lamaçal... Sujou seu tênis branquinho... os seres que saltaram não teriam seu perdão.
Cr-r-rrunch!
Anomalias que se assemelhavam a jacarés gosmentos de lama verde emergiram, todavia foram destruídas imediatamente, permitindo que Alissa continuasse a caminhar sobre a lama, enquanto os tênis se limpavam de toda a sujeira, perfeitamente.
Não encontrava nada... Procurava no lugar errado?
Sem muita paciência — fazia um bom tempo desde sua última refeição e não queria perder mais um dia —, olhava para os lados, analisando tudo. Retirou os óculos escuros. Seu "disfarce" nem era mais necessário.
Quando seus olhos passaram na direita, enxergou ao longe o fim das árvores derrubadas. Além de que uma leva de árvores tinha um grosseiro corte em seus troncos. Aproximou-se. Lá, encontrou no chão um item de cor bege, diferente das folhas secas e galhos mortos deixados pelo tempo.
Agachou-se e pegou-o no chão — era um caderninho.
Abriu-o... o tempo não fora cuidadoso.
Chuva.
A umidade destruiu-o.
Páginas podres, coladas e sujas de lama e terra.
Ficou indignada.
Se levantou segurando o caderninho ilegível, quase esmagando-o de raiva... Quase o fez. Vush! Arremessou-o para o lado como lixo. O coitado ficando ainda mais destruído. No entanto, valeu a pena. Ao arremessar, acompanhou-o com seus lindos olhos, vendo que o mesmo caiu ao lado de algo que refletia um pequeno brilho... Era um celular.
Arregalou os olhos e o pegou rapidamente, tentando ligá-lo... Sem sucesso.
— Merda!
A escuridão chegou.
O céu em "chamas" fora embora. No breu, Alissa caminhava com o apoio da luz da lua. Usando sua magia de gravidade, limpou toda a sujeira do aparelho — interna e externa, tudo que poderia estar fazendo-o não funcionar. Era da ADEDA, Mirlim criara, aquilo era quase indestrutível, mesmo que fosse uma versão antiga — antes de guardá-lo no bolso de seu short de cintura alta, evitando que sujasse a peça branca.
Nesse momento, uma luz intensa brilhou à sua direita. Olhou e viu uma serpente gigante flutuando sobre o chão, seu corpo ondulando como numa dança, coberto de chamas vermelhas e centenas de olhos espalhados por toda a extensão.
— Huh? Então você é real? — comentou, desanimada. — Não vim para colocar fogo na sua floresta, relaxa. Estou bem ocupada... — se virou, caminhando de volta, enquanto falava e gesticulava preguiçosamente com a mão direita coberta pela peça branca de tecido fino — no momento.
A anomalia sem registro, sem incidentes e sendo catalogada apenas como lenda local, chamada Boitatá, não queria nem saber. Última vez que alguém pisara naquela região destruiu uma área colossal, além de causar uma explosão que poderia desencadear em um incêndio.
Não era um humano. Não tinha a inteligência de um. Tinha o conhecimento da própria força... mas a arrogância era uma faca de dois gumes.
O Boitatá abriu sua boca, sua língua se projetou antes de voltar para dentro... Vuf! Seu corpo disparou em uma corrida para abocanhar a mulher despreocupada com sua presença, usando suas presas incandescentes pingando veneno fervendo e brilhando como magma densa.
THUM!
Seu coração parou. Seu corpo... também.
Esticada no ar, viu-se e sentiu-se ser virada do avesso. Suas entranhas trocaram de lugar com sua pele, CRUNCH! e Alissa comprimiu o espaço ao redor, esmagando a criatura como se fosse um pedaço de papel amassado, no entanto, feito de carne em chamas.
— Não tenho tempo para brincar com você — disse, sem olhar para trás, enquanto voltava para o avião.
— Eles vão me matar... Eles vão me-g-h-t... — Chorando de medo, o piloto se encontrava olhando para a porta da cabine fechada, com muito medo dos soldados entrarem e o matarem do nada.
Porém, Alissa surgiu ao seu lado. O homem quase infartou, não ouviu e muito menos notou, mas logo lançou o olhar ao chão, cabeça baixa perante quem mandava em sua vida.
— Feche a porta de embarque. Vamos decolar de volta para Guarulhos — sussurrou e saiu andando.
— S-s-s...
— Não responda. Apenas obedeça — deu sua ordem e fechou a porta da cabine.
O piloto iniciou a decolagem, ainda escutando e vendo seu amigo morto olhá-lo sem pausa.
Alissa caminhava com certa tranquilidade até o assento que deixou sua maleta. Remotamente, limpou-o de qualquer impureza. Retirou os cadáveres e deixou a mesinha na altura certa que queria.
Creckk!!
Passou por mais de 21 corpos de soldados mortos... (Não poderia voltar com essas provas contra você mesma para São Paulo... não é?) Todos os corpos, armas e equipamentos foram comprimidos até se transformarem em uma única bola.
Essa bola foi arremessada do absoluto nada para fora, enquanto a porta se fechava, indo parar na floresta onde serviria de alimento para alguma anomalia menor ou animal que passasse por ali. Um pacote extremamente nutritivo para uma anomalia que buscava por força.
Assim que Alissa se sentou, o avião começou a se mover, e todos os soldados ao redor ficaram em alerta... Pah-pah-papapap-pah... (Bem... alguns estavam com soninho.) Todos caíram de um segundo ao outro desmaiados ao mesmo tempo, naquele chão frio.
— Coronel, eles estão decolando! — Dentro do QG (Quartel-General) o tenente-coronel responsável pelas tropas se encontrava desesperado em busca de uma resposta de seu superior.
Todavia... o coronel permanecia parado no meio da sala cheia de computadores.
— Coronel... Os soldados lá fora estão vivos, apenas desmaiaram!
— Coronel...?!
— Coronel?!!
"O que está acontecendo?", pensou o coronel, completamente paralisado.
— CORONEL! Preciso da permissão para interceptar a decolagem!
Alissa, com um sorriso estranho no rosto, e o coronel, com uma expressão travada, disseram simultaneamente:
— Negada.
Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para o coronel.
— O-o quê?!
— Negada? O quê?... — olhando para o coronel, o tenente-coronel ao seu lado, no comunicador de um soldado, se virou e deu a ordem: — CANCELAR INTERCEPTAÇÃO!
— Entendido! Câmbio — responderam os soldados mais afastados do desmaio em massa, pelo rádio.
— O que o senhor está fazendo, coronel?! — exclamou um sub-tenente.
O coronel, com lágrimas escorrendo pelo rosto sem expressão, respondeu:
— ...Zelando por nossas vidas.
Após a decolagem, Alissa parou de controlar o coronel, assim como acordou todos os soldados que desmaiara, para não precisar derramar mais sangue inocente em vão. Confortavelmente sentada, abriu sua maleta, retirou seu notebook e o ligou.
Com o cabo do próprio carregador de celular, conectou no celular do Doutor Ben.
— Funciona logo.
Depois de alguns longos segundos, a tela mostrou 0% de bateria e o status de "carregando".
Aliviada, a mais forte finalmente deixou-se relaxar um pouco, apoiando as costas e cabeça no assento... O poder de poder fazer o que quiser e mesmo assim não fazer. O poder de dominar o mundo. Matar quem e quantos quiser e nada acontecer com você. Nenhuma punição. Afinal, quem ditava era ela, as leis eram para os fracos, os fortes não precisam seguir. Os poderosos... não precisam seguir, e mesmo assim, ela seguia.
Uma situação complicada.
Uma narrativa moldada.
Era necessário matar todas aquelas pessoas?
...Quantas pessoas deixou de matar?
Entregaria a sua vida para salvar as de seres que nem conhecia?
...Por que o outro teria que se sacrificar?
Tendo a escolha, você ou eles... Quem você escolheria?
Tap, tap...
Passos baixos, porém de uma mulher que não possuía mais vida se aproximavam em sua direção pelo corredor. Era uma aeromoça que Alissa controlava desde que entrara na floresta. Usando a mulher, fez um cafezinho e agora ela mesma servia-se numa caneca imensa, Tclklk enquanto teclava no seu notebook particular.
Shlblbll...
No tempo que enchia o recipiente com sua bebida preferida, escutou o piloto comunicar-se com ela através do sistema de som da aeronave:
— O combustível não será suficiente para chegar ao aeroporto de Guarulhos — segurou muito para não gaguejar nada.
Alissa abriu um pequeno sorriso.
— ...Esse é o plano — murmurou para si, olhando pela janela enquanto tomava um belo gole do café.
Desde que tocou o solo após pular das muralhas, Nino não parou um segundinho sequer de correr. Saiu de Alberg de manhã e, na mesma tarde, chegou à vila. Não queria deixar Nathaly completamente para trás, então deu uma leve reduzida ao menos para que a garota porventura não se perdesse no caminho.
Nino chegou e notou uma pequena montanha de coisas destruídas, separadas da vila após serem substituídas por novas — telhados, móveis, paredes... Não parou, continuou rasgando na direção da casa de Anna.
— Nino está vindo aí — resmungou Anna, deitada com o rosto sobre a mesa, rosto tristinho esperando seu suco de Momi.
— Hã?! — exclamou Nina, sentada à mesa comendo o café da tarde ao lado da cunhada. — Com...
THAAM!
Nino entrou pela porta, quase a explodindo.
A empregada levou um baita susto. Quase derrubou alguns pães doces que havia acabado de assar. Ao menos deixou o suco para levar após os pães... se ela tivesse derramado uma gota que fosse, Nino tomaria um cacete de Anna — mesmo que sempre gostasse — por tal pecado no ponto de vista da namorada.
Anna e Nina encaravam a empregada, que as olhava de volta, depois as duas viraram os rostos beeem lentamente na direção de Nino, parado na porta, olhando-as com os olhos arregalados.
Muito preocupado, entrou... mas também notou Anna com seu novo visual. Principalmente as Marcas no pescoço... suas íris roxas vidradas naquele pescoço claro. Caminhou até ela, Thunpf... se curvou e a abraçou, apoiando a cabeça no ombro.
— O que era aquela lua? — murmurou baixinho, tom carinhoso, quase como um menininho assustado.
— Era eu... Fomos atacados pelo Primordial Vermelho e eu o matei — respondeu em tom normal.
— ...Você está linda. Nunca imaginei que você poderia ultrapassar a perfeição.
Anna abriu um leve sorriso seguido de uma corada nas bochechas. Mwah... Nino deu um beijo carinhoso no pescoço, antes de continuar por mais um tempo o abraço apertado. Rosto apoiado no ombro. Preocupações diminuindo gradativamente.
Do outro lado... Nina com rosto de nojinho, quase vomitando pelo grude dos dois... expressão essa que desapareceu quando Nathaly entrou pela porta, toda suada, morta de cansaço e cambaleando como um cachaceiro retado.
Achou que conseguiria acompanhar o passo e forçou-se demais... agora se apoiava na parede para não cair de cara no chão... Não tinha uma recarga como um Primordial possuía, precisava descansar, dormir. Continuava sendo uma humana. Mesmo com um poder divino, ainda era humana.
Thunbf...
Nina abraçou-a e segurou-a bem preocupada. Os olhos da coitada rodavam igual ao rosto. Murmúrios que eram impossíveis de entender. Nina a segurou e a levou até o quarto... Nathaly dormiu imediatamente em seus braços.
Com as bochechas cheias de ar, parecendo um esquilo, mas com um biquinho meio bravo, Nina olhava-a após colocá-la deitada confortavelmente na cama. Limpou-a com um banho de água mágica. Todavia deixou a água na mesma temperatura corporal da namorada. Só queria deixá-la fresquinha para dormir tranquila, não queria acordá-la... bem, queria, mas não assim. Não com a garota exausta.
Desceu as escadas.
— Por que só vocês duas estão aqui? Não deveríamos estar fazendo uma festa, um churrasco ou algo assim?
Sentindo dor por não querer vê-lo mal, Nina acabou transparecendo em seu rosto uma feição entristecida, antes de responder o que não queria:
— Nino... Roberto e Minty morreram.
A expressão do irmão não mudou... Visivelmente estática, travada... ficou.
— Enquanto Anna lutava contra o Vermelho, os subordinados dele atacaram a vila.
Micro tiques podiam ser vistos. O rosto tombava velozmente e voltava... O jovem Primordial deu um passo para trás, atordoado, e desapareceu, surgindo na porta da casa de Roberto.
Anna também desapareceu, seguindo-o e mantendo-se a uma distância bem longa para observá-lo. Do outro lado, Nina surgiu mais próxima dele, vendo-o de lado, erguer a mão direita para bater na porta.
Toc, toc...
Instantes depois, Wime abriu, e Nino se lançou de joelhos, mantendo a cabeça no chão, chorando por deixar mais um amigo morrer.
— ME DESCULPA!... ME DESCULPA POR EU NÃO ESTAR AQUI! ME DESCULPA POR EU NÃO TER CONSEGUIDO SALVÁ-LO!...
Todos saíram de suas casas e olharam para Nino.
— Desculpa por não ter impedido a morte do meu amigo... — Nino parou de berrar. Sua voz ficou baixa, quase um murmúrio interno se vendo impotente mais uma vez.
Nina ficou bem abalada ao vê-lo daquela forma outra vez. Virou-se e voltou para a casa de Anna, sentando-se à mesa e apoiando a testa sobre ela. Ao seu lado, o suco de Anna aguardava-a retornar, mas do outro, a empregada vinha caminhando até a Primordial.
— Está tudo bem, senhorita?
Sem levantar a cabeça da mesa, respondeu:
— Vou tentar ficar bem.
— Quer um docinho?
Nina virou um pouco o rosto, ainda apoiada na mesa. Seu semblante era como o de um gatinho sapeca, Rrrrcss... assistindo a tigela de doces sendo arrastada até ela.
— Talvez...
A empregada sorriu e lhe entregou os docinhos.
Enquanto Nino chorava, Wime o abraçou.
— Líder... Não precisa disso. Meu marido nunca o culparia por isso! Obrigada por derramar lágrimas por ele... — Também começou a chorar.
Ron chegou e abraçou sua mãe, colocando a mão nas costas de Nino, que permanecia com o rosto no chão.
— Papai nos protegeu! Ele nos mandou fugir e enfrentou a mulher malvada. Quando eu crescer, quero ser forte como ele para proteger a mamãe! — Palavras que doíam não só em Wime, mas também em Nino.
Era acostumado com a morte. Matar... Matar era normal, gostoso. Mas ver quem amava morrer, não era nem um pouco. O sentimento de que falhou. Marta. Alice. Blacko. Samanta... Thales. O pensamento que poderia ter sido diferente, que tinha força suficiente para evitar tais mortes.
Como? Como faria isso?
Não saber como lidar. Seus sentimentos eram limitados, os novos eram estranhos. Como lidar com a saudade se mal a entendia? Era para estar sentindo isso? Era para realmente se importar com essas pessoas? Não era para ser o oposto?
Sentimentos que não deveria possuir, mas desenvolvia.
Seu pai não escapara, também desenvolvera... embora nem tanto.
Tudo voltava ao mesmo ponto — Sua Natureza.
Quando o sentimento tomando sua cabeça não podia ser compreendido, o que restava era voltar ao modo de fábrica... o ódio. Alguém tinha que sofrer. Alguém tinha que pagar por aquilo. Era mais fácil sentir isso, depositar-se nesse sentimento familiar do que conseguir aprender e se acostumar com o que não possuía respostas.
Depois de alguns minutos, Nino se levantou e ficou parado por mais bons minutos em completo silêncio diante do túmulo de Roberto... não deu a mínima atenção ao túmulo do lado... o túmulo de Minty.
Dor.
Saudade.
Falta.
Naquele momento, estariam conversando enquanto trabalhavam juntos em algum projeto...
Cadê a voz dele?
O silêncio era cruel.
Os corpos de Samanta e Thales sobre as macas voltavam como flashes de disparos na mente do Herdeiro. Sua raiva, seu ódio voltava a assumir sua cabeça, mandando a saudade estranha para o inferno enquanto o sangue esquentava e sua Marca sangrava querendo respostas, querendo saber quem era o culpado, e quem iria precisar matar para tentar minimamente aliviar esse peso sobre seu corpo esguio.
Virou-se.
Fu...
Seu pé direito mal tocou o solo e Nino surgiu dentro da casa de Anna.
Nina continuava na mesa — costas apoiadas na cadeira, rosto ao teto depois de se entupir de doces.
— Como descobriram a vila? — Os sentimentos dominando-o também alteraram momentaneamente sua voz, tornando-a grave a ponto de machucar ouvidos comuns.
— Jaan era um traidor — Nina resmungou sem olhá-lo.
Nino cerrou o punho... gotas de sangue pingando no piso, antes de voltarem ao corpo.
— V-você o matou?
— Não. Eu o prendi.
— O-onde ele está?
— Se eu disser, você irá matá-lo.
— Eu não vou matar — rangia os dentes. — Onde ele está?!
— Não vou dizer.
Os tiques de rosto... Nino parecia que explodiria a qualquer momento.
Sem mais enrolação, virou-se e, enquanto saía da casa, Rag abriu seu olho sobre a Marca, ao sentir seu mestre chamando-o para fora:
— Encontre-o!
O português informal deixando de ser usado a cada camada de estresse.
O olho de Rag se dilatou, lançando uma reação em cadeia invisível, como um radar, um sonar, procurando seu alvo... que logo localizou. O rosto de Nino surgiu virado na direção, seu sorriso se alargou, Fu! ...disparou.
Nina havia deixado o julgamento para Clarah. Não iria permitir Nino matá-lo, e com isso, foi atrás do irmão.
Srcc...
Com uma rápida deslizada na frente de uma pequena montanha íngreme, Nino parou, Thumpf... porém, antes de destruir e abrir a entrada, Nina o alcançou, pulando sobre ele, impedindo-o de fazer aquilo.
Sccrrrchh...
Deslizaram no chão. Nina criou uma espada de sangue e posicionou no pescoço dele.
— NÃO VOU DEIXAR VOCÊ FAZER ISSO!
— EU NÃO VOU MATAR!
— VOCÊ QUER VINGANÇA, ASSIM COMO TÁ ATRÁS DOS PRIMORDIAIS!
— ESTOU MATANDO OS PRIMORDIAIS POR JUSTIÇA! SE EU QUISESSE ME VINGAR DE ALGUÉM, NÃO ENTREGARIA A MORTE! FARIA ESSA PESSOA SOFRER E IMPLORAR POR ISSO!
Os dois se encararam em silêncio.
— ...Não vou soltar você até me prometer que não vai matar ele.
Nino encarou Nina, visivelmente estressado, e Anna apareceu do nada.
— Nino, vamos pra casa. Agora.
— Tá — respondeu com uma expressão completamente normal, olhando para Anna, mesmo com o corpo imobilizado e a espada querendo cortá-lo.
— Pera, o quê? — questionou Nina, confusa com aquela reação.
— O que o quê?
— Ela você obedece, né, seu merda!
— Claro, não sou doido — respondeu com o olhar semicerrado, tedioso, olhando-a de baixo.
— Gado. — Nina o olhou transbordando desdém, e ele simplesmente desapareceu debaixo dela, reaparecendo num pulo, Thumpf... abraçando Anna.
Pahf...
Nina caiu sentada no chão, observando-o com desgosto, enquanto ele agia todo carinhoso e fofinho com a namorada, visivelmente brava. Com um braço no pescoço, abraçando sua dona que se mantinha de braços cruzados, voltando para casa, mostrou o dedo do meio escondido para Nina, que ficou ainda mais irritada...
Algumas horas se passaram.
O jantar se encontrava pronto e posicionado sobre a mesa. Tudo certinho, mas... Nino não estava presente. Emburrada, Nina ficou e saiu para procurá-lo.
Não usou Detecção. Tinha uma ideia e a colocou em prática.
Subiu na árvore mais alta que encontrou e o encontrou sentado no topo da árvore ao lado — que era pouquíssimos centímetros mais alta que a de Nina —, em uma plataforma que ele criou usando magia de natureza para se sentar com mais conforto.
Encarou-o por alguns segundos, vendo-o inerte, com uma expressão triste e pensativa olhando para o nada.
— ...Você queria estar falando com ela, né?
Nino virou o rosto lentamente na direção dela... e assim, ficou em completo silêncio.
— ...Eu estava atrás da porta naquele dia e escutei toda a conversa sobre o que aconteceu no Amazonas... Assim como ela disse, você não tem culpa do que aconteceu aqui. Não tinha como saber que o Jaan era um traidor.
Nina caminhou até ele, criando uma ponte de madeira reta até a pequena plataforma.
Thuf...
Sentou-se e o abraçou de lado... Nino não reagiu, o rosto voltou ao infinito em sua frente.
— ...Eu quero muito matar aquele inseto — ele disse, com a voz baixa.
— Eu sei... Eu também quero, mas é a Clarah que tem que decidir o que fazer. Ela amava o Minty há tantos anos e, de repente, o perdeu sem sequer ter a chance de se declarar...
— ...Ela está no quarto?
— Sim.
Continuou o abraçando por alguns segundos... ambos em silêncio.
Retirou os braços.
Nino olhou-a.
O olhar era derrotado... e Nina então tentou animar o momento triste, com uma pergunta sobre alguém muito importante:
— ...O que será que a Alissa está fazendo neste exato momento?
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