Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 7

Capítulo 178: De Volta Ao Lar... Inferno

Nathaly era lenta, e Nino percebera que não seria somente Aurora a atrasar a corrida. Foram em uma velocidade bem inferior ao que ele conseguia alcançar, mas ainda assim, na primeira corrida, avançaram cerca de duas horas em alguns minutos — ainda estavam na Floresta do Desespero quando olhou para baixo e viu a menina atordoada com a língua de fora.

Sccrrrchh...

Nathaly notou sua parada brusca e desacelerou, retornando caminhando na direção. Aurora parecia uma maria-mole, braços pendendo no ar. Scrchsst... Nino usou magia da natureza no chão, criando uma cama de folhas para Aurora e, para si e Nathaly, um banco de madeira.

Colocou-a deitada — os olhos ainda girando, cabeça seguindo o fluxo.

— Tá tudo bem, princesa?

Aaaagh...

Nino sentou-se no banco, olhando a criança atordoada na cama. Nathaly chegou e sentou ao lado. O Primordial olhou-a de canto, e quando o fez, lembrou-se de tudo que vira ao se misturar com Nina. Seu rosto se contorceu como se tivesse chupado um limão-capeta, balançou-o para os lados bem rápido, tentando esquecer-se de tudo:

— Blublublubluu...

— Cê tá bem aí? — Nathaly olhou-o, vendo-o agitando o rosto com a língua de fora.

— Caiu algo na minha língua, tô de boa... — parou de repente, olhando-a normal e perguntou: — Mas e aí, qual o plano?

Nathaly olhou para frente, enquanto dizia:

— Primeiro quero parar em uma vila que passei. Quero ver se uma pessoa que salvei está bem.

— Como assim?

— Os sequestradores atacaram uma vila e mataram todas as pessoas, menos um homem, que só o deixaram ferido, e quando eu o encontrei, ele estava abraçado com sua filha morta e sua mulher. Quero ver se ele está lá, ou se foi para o reino que estamos indo como eu pedi. 

Uhum. E se estiver lá?

Nathaly olhou-o e respondeu:

— Não posso fazer nada quanto a isso. Se estiver lá, só espero não encontrá-lo morto.

— Suicídio?

Aborreceu o olhar e respondeu:

— Como consegue falar algo assim com tanta naturalidade?

— Possibilidades. Perdeu a família, ficou ferido e se é fraco, logo também possui uma mente fraca. Uma coisa leva a outra. No desespero de acabar logo com a dor, uma pessoa fraca não pensaria duas vezes.

— ...

— Coisa feia de se falar — murmurou, olhando-o com os olhos semicerrados, boca em biquinho.

Nino desviou o olhar, entediado, para frente e murmurou de volta:

— Já falei coisas piores.

— ...Estando lá ou não, nós vamos enterrar os corpos e entregar dignidade àquelas pessoas.

— Por que perder tempo com isso? — Olhou-a.

— Porque só eram pessoas, Nino. Não monstros. Pessoas que confiaram em outras e morreram por serem boas — repreendeu-o e Nino olhou-a de canto, agora ele quem fazia biquinho.

Uhum. Tudo bem. Qual é o segundo?

— Segundo o quê? 

Olhou-a emburrado:

— Isso era o primeiro, qual a segunda parte do seu plano...? Ficou bonita com essa roupa, gostei do short — elogiou mudando o semblante, olhando-a nas coxas.

Nathaly continuou neutra.

— Obrigada — olhou-se e respondeu: — Era pra você, mas descobri que você não era você.

Uhum-Uhum. Passou no teste.

— Oi?  — Olhou-o.

— Qualquer coisa que eu fazia, você ficava mole, muitas vezes molhada — provocou.

Nathaly continuou neutra.

— Fazia de propósito?

— Passou no segundo teste. Pensei que ia ficar com vergonha. 

— Dá pra parar com esses testes? — pediu em tom raivoso, semblante de gatinho bravo.

— Eu precisava conferir se mentiu pra minha irmã. Vai que ainda gosta de mim — provocou-a, olhando de canto.

— Nunca mentiria pra ela, ainda mais descobrindo que quem eu amava era ela.

— Seu rabo.

— O seu!

Se olharam com os olhos quase fechados, desafiando um ao outro.

— Ok, ok... Fala o plano.

Novamente, desviou o olhar, observando as árvores adiante, antes de falar:

— ...Descobrir de dentro o que tá acontecendo e te avisar fora do palácio.

— Eu posso ajudar! 

"Oxi, do nada, tava morta no chão aí agora pouco." pensou Nino, vendo Aurora sentada na cama de folhas, com o rosto extremamente animado. 

— Ajudar com o quê, princesa? — perguntou Nathaly, se curvando próximo da menina.

— Avisando o Nino.

— Pretende fazer isso como, criança? — Nino a olhou meio desinteressado.

— Sou telepata!

"Ata, com essa testona também..." 

— Não sabia... Mas como funciona? — perguntou Nathaly, curiosa.

— Eu chamo você na sua mente. Você me escuta, mas eu não escuto você. Mas se eu chamar você e você me responder na mente, a gente consegue conversar! — Aurora deu um sorriso, quase um salto de braços erguidos.

Nathaly curvada próximo do seu rosto, apoiada com as mãos nas coxas, sorrindo, deixando-a contente e mais animada.

"A mina é um celular..." Nino colocou a mão no rosto e se segurou para não rir com seu próprio pensamento. 

— Testa com o Nino.

— Testa ocê, eu hein?! — retirou a mão do rosto com o semblante indignado.

— Mas é você que vai ficar fora, idiota — Nathaly ficou ereta, olhando-o sentado em sua frente.

— Faz sentido. Chama aí, ce... criança, qual o nome dela mesmo? — Nino começou olhando para Aurora, mas virou o rosto para Nathaly, que o olhava com preguiça.

— Aurora.

— Pode chamar Aurora.

Com um enorme sorriso, Aurora colocou as mãozinhas próximo à cabeça e fechou os olhos, visivelmente fazendo força. 

"Consegue me escutar?"

"Consigo."

Abriu os olhos, muito feliz.

— Viu! Eu posso ajudar! 

Olhando a criança sorridente, Nino resmungou:

Uhum. O plano vai ser o seguinte. N...

— Eu já disse o plano — continuou olhando-o com preguiça.

— Tenho um melhor. "Esqueci completamente tudo que você falou..." Lembrava, só não queria buscar nas memórias.

— Fala então — desdenhou.

— Você vai ajudar Aurora de dentro do palácio a conseguir informações. Ela me passa por telepatia e eu vou pegar eles de surpresa por fora do reino. Vou ficar acampando em algum lugar próximo, já que é melhor eu não entrar e acabar chamando atenção. Por garantia, vou deixar uma sombra minha dentro da sombra de Aurora. É basicamente um clone meu.

O clone surgiu e entrou na sombra de Aurora, fazendo com que ela levasse um pequeno susto, olhando-a apavorada para trás de si mesma, quase correndo do próprio "rabo", como um cachorro assustado. 

Nathaly percebeu-a inquieta sobre a cama, mas continuou prestando atenção no plano:

— Aurora — resmungou Nino, ao vê-la avulsa ao plano.

— O-oi, Ni-Nino! — parou de "correr", ficou ereta em pé, olhando um pouco para cima, no rosto do menino sentado no banco. 

— Caso você precise de proteção e Nathaly estiver longe, se chamar meu nome uma vez, ela vai reagir e te ajudar. Se chamar mais de uma vez, vou entender que precisa muito de mim e vou trocar com a sombra, uma espécie de teletransporte. Ficou confuso?

Ficou e Aurora travou com a boca entreaberta, tentando juntar as informações, mas assim que Nino perguntou, Nathaly protestou:

— Quase a mesma coisa que eu disse.

— Invejosa, meu plano é melhor — provocou e nem olhou-a na cara. Virou o rosto, olhos fechados, braços cruzados e um biquinho barulhento, enchendo o saco... Nathaly o encarou desacreditada, movendo o rosto um pouquinho e bem rapidinho para os lados, boca meio aberta, um olho mais fechado que o outro, olhando-o sem piscar um instante... mas ignorou ao escutar uma voz fina.

O processador da menina finalizou as informações e a mesma respondeu:

— Acho que entendi! Eu acho o homem mau e falo pra você, e a tia Natay me ajuda lá dentro, né?

— Isso mesmo. A tia Natay te ajuda lá dentro.

— "Tia Natay"?

— Sim! Natay — exclamou a criança, contente.

Sniiifff... Arrff... — Nathaly respirou fundo e soltou o ar, olhando para Aurora, que a olhava feliz com seus enormes olhos... não conseguiu corrigi-la, era muito fofa. Mudou a correção para uma aceleração das coisas. — Já está melhor, princesa?

— Já!

— Então vamos correr.

Nino segurou a menina nos braços, Fu!-Fu! e aceleraram mais uma vez — as árvores menores se curvando ao passar, como vento chegando poucos instantes depois dos vultos rasgarem as sombras. O alto farfalhar que Aurora não conseguia escutar com seus olhinhos girando, sua testa parecendo ainda maior com o cabelo se balançando violentamente ao ar.

Saíram da Floresta do Desespero, percorreram bons quilômetros e passaram por um bosque de árvores brancas — uma poeira dourada esbranquiçada sendo deixada para trás — mas não do Poder Sagrado de Nathaly, e sim da areia e terra natural que enfeitava aquele lugar claro e tão belo.

O som de agonia continuava bem baixinha saindo da boca da criança. Nino ouvia, mas não queria perder muito tempo, então forçou um pouco mais, chegando um pouco mais longe antes de pararem ao entrar em um pântano esquisito — quase como entrar em um portal, sair de uma área bonita, com o céu clarinho, e entrar em uma feia, onde o céu era visto com nuvens carregadas, mas esverdeadas, como se a chuva fosse tóxica, ou a água completamente suja.

A terra era escura e a água era grossa, de tom alaranjado com as bordas voltadas para verde-musgo. Nino novamente preparou uma cama para Aurora toda molenga e atordoada. Sentia uma leve fome pela energia gasta, e se estava assim, imaginava que Aurora, mesmo sem ter corrido, poderia estar com mais. Logo, saiu para procurar comida para dá-la.

Neste meio-tempo, Shk... Nathaly cortava uma árvore fina, porém alta, com raízes ondulantes que se estendiam por inúmeros metros pelo chão e pela água. Cortou algumas toras da árvore mais próxima — achou curioso, passara correndo por lá no dia anterior e nem dera tempo de analisar a madeira diferente.

A casca era rosa e o interior era azul.

Burn

Usou-a para fazer uma fogueira, com seu poder humano terráqueo, mas as chamas vermelhas logo assumiram os tons da madeira, iluminando um pouco o arredor e esquentando o corpo da criança desmaiada sobre o frio daquela área úmida.

Sentou em um banquinho que fizera com o tronco e ficou olhando Aurora, esperando Nino retornar... desviou o olhar e viu Nino não tão longe, andando de costas, mãos afundadas nos bolsos da calça.

Observava o chão. Observava a água, mas não via sinal de vida, e esquecera completamente da Detecção de Presença. Parecia o tio que o mesmo matara, achava-se indestrutível, invulnerável, perfeito. Não via utilidade em ficar procurando formas de se manter seguro e atento a todo momento.

Os monstros, os predadores se escondiam dele naquele lugar, assim como na Floresta do Desespero, por sua presença tão assustadora. Seu pai criara uma imagem perversa em vida. Nenhum ser sábio iria querer trombá-lo e muito menos desafiá-lo. Um cardápio sem frescura — Blacko matava, assava e devorava qualquer coisa que se movesse e um dia tivera vida.

Entretanto, quando um ser irracional se sentia extremamente ameaçado, tendia a tentar fugir ou lutar... e a cada passo que Nino dava, se aproximava de um monstro escondido, que sentia cada vez mais medo daquele menino.

Sua forma de caçar era bem covarde. Uma armadilha no chão: pisou, virou comida.

Instintivo: pisou, atacou. Não pensava, só agia.

Nino entrou em uma área cinza, procurando algo para comer, quando a comida veio até ele. Mrmrn... o chão tremeu.

Hãm?...

Olhou para o chão e viu três linhas se conectando em um ponto... os rostos dos homens-sombras vieram em sua mente. Vu-BUM! pensando que aquilo poderia ser uma boca, realizou um pequeno salto, e no mesmo instante, uma explosão aconteceu, com o chacoalhar do corpo da imensa criatura atacando-o por baixo.

O Primordial foi arremessado para o céu, enquanto aquela espécie de formiga misturada com um peixe de ar, com o corpo longo como de moreia, voava em sua direção... Aquele ser era cinza como a areia onde se escondia, mas era apenas uma camuflagem para se esconder em qualquer terreno.

Quando tentou mordê-lo e falhou, lançando-o para longe, sua cor mudou para um vermelho fosco. A cabeça mais semelhante à de uma formiga era achatada, plana, disfarçada como um pedaço do chão, e sua boca triangular se projetava como a de um tubarão-duende, facilitando os ataques.

PLOCH!

O peixe projetou sua boca em direção a Nino, que, encarando-a, criou uma imensa estaca de pedra sobre o pé direito e a enfiou goela abaixo no monstro, lançando um chute... Aquilo penetrou e travou a boca do monstro gigante, que continuou tentando subir, batendo suas grandes barbatanas como se fossem asas de dragão, na altura do Primordial.

O impacto da estaca empurrou aquela coisa um pouco para baixo, deixando o menino mais alto sobre seu corpo. Nino terminou o movimento do chute virando um mortal tranquilo.

Quando terminou o movimento, com as duas mãos estendidas para trás, os braços passando dobrados ao lado do rosto, criou um machado gigante, semelhante em tamanho com a marreta de Nina. Vul! o machado tinha dois gumes e Nino o arremessou girando em direção ao peixão longo.

Juntamente com a estaca presa em sua garganta, impossibilitando sua boca de fechar SHKRUNCH! o longo peixe foi cortado em duas partes, PHA-PHAAM! que levantaram uma poeira horrorosa naquele ambiente fétido.

Pm...

Nino aterrissou em pé, ao lado daquela coisa, observando a carne de cor roxa.

— Dá pra comer isso? — murmurou.

— Acho que não, a carne é roxa — respondeu Nathaly surgindo ao seu lado, desmaterializando a Hero, que criara para ajudá-lo mas chegou atrasada. Nino fora muito rápido.

"O gosto deve ser parecido com aquela anomalia..." pensou, lembrando um pouco do dia que passaram com a vovó no rio. 

— Eu já comi! É uma delícia! — berrou Aurora, com os olhos brilhando ao olhar para a carne que Nathaly desprezou.

Nino e Nathaly olharam-na, vendo a menina em pé, com um sorriso radiante a bons metros atrás, sobre a cama de folhas. Entreolharam-se e viraram-se para o monstro morto.

— Então tá. Vou cortar uns pedaços e colocar em espetos para assar — comentou Nino.

Passou alguns minutos.

Vários espetos preparados, assando na fogueira que Nathaly criara.

Quando alguns ficaram prontos, entregou primeiro para Aurora comer, que ficou extremamente contente, mastigando de olhos fechados, sentada na caminha enquanto davam uma pausa mais longa que o normal, algo que incomodava Nino, que queria ir resolver logo o que tinham que fazer.

Nathaly ao lado dele. Ambos olhando as chamas mesclando entre azul, rosa, vermelho e dourado, do Fogo Sagrado querendo consumir o fogo terráqueo, mas Nathaly não permitia. Não queria acabar com suas raízes humanas.

O ambiente naquele lugar era escuro — o fogo iluminando seus rostos tranquilos.

— Sua namorada é a cara da Alissa. Algo não está certo — provocou com sarcasmo, puxando assunto.

— Você também? — murmurou aborrecido.

— Nina falou também? — Nathaly riu. — Parei então, mas são bem parecidas... ou é só a saudade que estou sentindo dela. Será que um dia a veremos de novo? — perguntou em tom meigo.

— Talvez — respondeu sentindo-se meio mal, queria vê-la outra vez.

— Você falou sobre teletransporte mais cedo. Você não consegue ir pro Brasil, não?

Nino arregalou os olhos com a ideia. Uma lembrança explodiu em sua mente, dele batendo uma palma, usando o poder de Louis para atacar Verde.

— POSSO TENTAR! — exclamou animado, dando um susto em Aurora que olhou na direção... e ele juntou as mãos.

Clap!...Pahf...

Nesse momento, Nathaly viu Nino cair para trás, parado, com os olhos abertos, estático.

— Fingindo ser o Louis, é? — zoou... mas Nino não se movia, não respirava nem simplesmente parecia ter vida. — Nino? — chamou... agora preocupada.


Nino surgiu no quarto branco, de pé, olhando fixamente para a frente, seus olhos arregalados como ficara ao lado de Nathaly. De repente, uma voz profunda, que já havia escutado antes, ecoou atrás dele, fazendo seus ossos vibrarem a ponto de quase se esfarelarem: 

— Acha que pode sair deste mundo sem minha permissão...?

O Primordial lentamente se virou, o medo crescendo internamente, e encarou, cara a cara, a Deusa da Morte, exatos três centímetros mais baixa, assim como Nina. Dois metros de distância que não pareciam nada.

— Não tente fugir novamente... — o advertiu com uma voz que paralisava seu corpo. Cada gota de sangue preto parecia querer chorar como tormenta. — ...Filho de Blacko.

Ao ouvir o nome de seu pai, reuniu coragem para tentar falar:

— Qu...

Morte surgiu diante dele, encostando sua mão sobre o rosto do jovem.

HARF!

Nino acordou abruptamente, caído para trás ao lado de Nathaly, ofegante e mais suado que suas noites com Anna. Não se sentia cansado como Anna o deixava, mas o medo reunido era absurdo e ao mesmo tempo prazeroso, era estranho, e não entendia nada, embora quisesse mais.

— Vai ficar brincando aí quanto tempo? — Nathaly perguntou, sem entender o que havia acontecido. Ficou mais relaxada ao entender que era só uma brincadeira. O coração dando uma acelerada foi à toa. "Menino bobo." 

Nino olhou para ela, lembrando-se das palavras de sua irmã:

[ — Não quero que tente. Quero que me prometa. ]

"Não posso falar algo assim agora, no meio de uma missão..." pensou, considerando contar a Nathaly sobre essa descoberta estranha, da Deusa da Morte estar dentro dele, mas receoso de atrapalhar a missão, e sem nem saber direito o que era tudo isso, decidiu não dizer nada. — Deu errado o teletransporte... Fazer o quê, né? — ocultou com uma risada sem graça, sentando-se novamente no banco, olhando para a fogueira enquanto tirava alguns espetinhos prontos. 

— ...Aquele dia que eu te dei o tapa... Você já sabia o que a Nina tava fazendo? — mudou de assunto, olhando-o girar os espetinhos.

— Sabia não, ela foi me contar de noite, no dia que matei a Calamidade — respondeu em tom baixo, o som da brasa queimando preenchendo o "acampamento". 

— Mas por que deixou ela fazer isso se você gostava da Alissa?

Nino a encarou sério, e ela riu.

— Parei, parei... É que são idênticas, não tem como discordar.

— "NãO tEm COmo dIScorDaR", blá-blá-blá... — respondeu, fazendo caretas enquanto a imitava. 

— Tá, para de graça — Nathaly respondeu, segurando o riso. — Por que deixou ela continuar fingindo?

— ...Quando olhei para ela, percebi que ela realmente te ama muito. Eu fiquei com medo de você não aceitar o amor dela e ela acabar ficando triste. Então, mesmo que chegasse o dia de contar a verdade e você a negasse, eu deixei ela ter mais momentos com você pra ela ficar feliz...

Nathaly escutava tudo com uma expressão feliz.

— Aí, quando vi vocês duas entrando pela porta de manhã, eu já saquei tudo e fiquei muito feliz — deu um sorriso gentil, virou o rosto e pegou um espetinho para comer.

— É um pouco estranho conversar com você agora, mas estou me acostumando já.

— Por quê? Nhaac! — perguntou, mordendo a carne.

— Ela usava sua aparência, né? Então é estranho.

— Ela ainda usa minha aparência na hora? Nhaac! — perguntou, dando outra mordida.

— Não. Ela só cria um pintão — respondeu olhando para frente, seu semblante relaxado, já com saudade e quase babando.

— Pfffft!

Nino cuspiu a carne, abaixando a cabeça, lembrando de tudo.

— Não devia ter perguntado isso, que visão sinistra, puta que pariu... — murmurou baixinho para si mesmo. "Eu já tinha visto isso. PRA QUE EU PERGUNTEI?!" 

Hum? — Nathaly não escutou nada além do cuspe e alguns murmúrios esquizofrênicos sem sentido.

Aurora, sentada na cama, observava os dois com curiosidade.

— Aquela moça tem pinto?

Nino ergueu a cabeça imediatamente e Nathaly olhou-a na mesma velocidade e intensidade. Ambos com cara de vergonha estridente e Aurora, olhando-os, piscava normalmente, muito confusa.

— Não! Não! Onde escutou isso, criança? — Nino esqueceu até o nome da princesa.

— Já está descansada, né, princesa hahaha... P-podemos continuar? — Nathaly perguntou, tentando mudar de assunto com um sorriso envergonhado e ultramente forçado. Nem havia comido, mas preferiu sacrificar o lanche do que explicar algo assim para uma criança que nem sua filha era.

Aurora cruzou os braços e virou a cabeça para a esquerda.

— Eu não sou criança... Hmph!

— Já que não é criança, você aguenta até chegar lá, né? Nathaly, falta muito?

— Pouquinho até a vila que eu disse. Depois de lá, se pararmos pra ela descansar rapidinho e voltar depois, até o fim de tarde devemos chegar. Pensei que ia demorar mais, mas acho que não. Só não pararmos como dessa vez toda hora — ponderou.

— Vamos então. Pronta aí, criança?

— NÃO SOU CRIANÇA!

— Aparentemente sim — respondeu naturalmente, irritando a menina de propósito.

Segurou-a nos braços.

Vu!-Vu!

Dispararam.

Saíram do pântano. Passaram por alguns morros, mais bons minutos de corrida, novamente Aurora atordoada nos braços dele... Uma pequena pausa por preocupação com a saúde da menina... Acordou? Vu!-Vu! Marcha.

Krá-Krá!...

— ...É aqui? — murmurou Nino, segurando Aurora novamente mole em seus braços. Nathaly ao seu lado. Os dois olhando grandes pássaros escuros semelhantes a urubus comendo da carne dos humanos mortos que foram executados fora de casas.

— Sim.

— Rag.

Shk-sh-sk-sk-sh-sh-ks-kr...

Rag abriu seu olho sobre a Marca do menino e executou cada um dos animais, não deixando nem mesmo sangue para trás. Cortou-os da existência em atômicos múltiplos cortes imediatos. Foi como pequenas implosões — só desapareceram, embora no impacto desse para ver o corpo ser desintegrado antes do sangue ir junto.

— Por que matou eles?

Nino olhou-a.

— Se decide, demônio — reclamou.

— Demônio é tu — retrucou. 

Nino saiu andando.

— Não era eu andando pelas paredes naquela casa abandonada — resmungou só para si, lembrando-se de uma das torturas que Nina o fizera passar ao se misturarem.

— Oi? — Nathaly não escutou.

Nino criou uma caminha na sombra, e colocou Aurora deitada, recuperando-se da velocidade exposta ao seu frágil corpo. Já era tarde, e Nino embora não quisesse perder tempo enterrando aquelas pessoas, se importava demais com Nathaly, e se ela se importava com aquilo, aquilo se tornava importante para ele também.

— Onde vamos enterrar? — perguntou, virando-se para ela, mas Nathaly passou por ele e foi direto na casa de Salazar...

Entrou... não o vira, assim como não vira o cavalo.

Poderia ter sido uma infinidade de possibilidades o que aconteceu para nenhum dos dois estarem ali, mas ainda assim, decidiu acreditar que o homem fora até Alberg. Olhou os corpos lá dentro. O carbonizado da esposa e o degolado da filha. A menina não estava com o cachecol que lembrava de ter visto.

Segurou as duas ao mesmo tempo. Nino surgiu na porta, olhando-a curioso. Nathaly saiu, caminhando até o lado de uma das casas, onde havia um grande espaço para fazerem o cemitério.

— Essa era a família dele?

— ...Sim. 

Nino achou o rosto da menina bem interessante para zoações, mas não era um bom momento para piadas, nem mesmo internas. Viu Nathaly posicioná-las com cuidado no chão. Os corpos fedendo um pouco.

— Vam...

Crmn-Crmn-Crmn-Crmn-Crmn...

Nino criara diversos buracos simultâneos com magia de pedra... Nathaly olhou-o com aborrecimento e Nino olhava-a de volta com uma preguiça exalando até mesmo em suas respirações. Seu olhar semicerrado fingindo que não estavam nem aí para aquele carão sério encarando-o diretamente.

— Tampa isso.

— Por quê?

— Anda logo. Vai buscar os corpos, um por um, com respeito, por favor. Eu vou cavar os buracos enquanto você traz.

— Aqui a pouco anoi...

— Anda logo... ou vou ligar pra Alissa — ameaçou.

Nino arregalou os olhos e desapareceu, juntamente dos buracos que foram tampados, surgindo com o corpo de uma mulher bem ferida em suas mãos — não somente pelos homens que atacaram-na com espada, mas pelos pássaros que devoraram parte da carne... O rosto do menino era de indignação.

— Sua mentirosa, nem tem como ligar pra ela! — resmungou em tom alto.

— E você foi mesmo assim — provocou rindo um pouco. — Anda logo, se não quando a gente voltar, vou contar pra Anna! — ameaçou e viu novamente Nino desaparecer com medo, após deixar o corpo da mulher no chão.

Nathaly riu como uma menina boba e começou a cavar os buracos, usando uma pá criada com fogo vermelho terráqueo, no tempo que escutava Nino colocando os corpos atrás de si, com cuidado e respeito, no chão.

Depois de enterrar cada uma das pessoas, Aurora acordou, Vu!-Vu! e a viagem continuou. As pausas se tornaram mais rápidas, a coitada da menina quase vomitando tudo que comera até então... Depois de horas, a noite começava a cair, mas as muralhas se erguiam no horizonte.

Sccrrrchh...

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora