Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 7

Capítulo 177: De seu filho

Sentada nua no colo de Nina lhe abraçando, Nathaly acordou, sentindo os seios da namorada lhe massageando sem nem mover-se. Nina apoiava as costas na grande árvore, e quando a menina começou a se mover, sentiu e despertou, abrindo lentamente os olhos.

Nathaly escutou um pequeno suspiro, e virou o rosto para trás:

— Bom dia.

Mwah!

Aproximou o rosto e deu um selinho lento em Nina.

— Bom dia — respondeu a Heroína.

— Dormiu bem?

Nathaly soltou uma leve risada em meio a um bocejo.

— Nem dormimos direito — respondeu e virou o rosto, olhando na direção da colina, vendo árvores gigantes lá de baixo ultrapassando a quebra da cachoeira.

Mwah!-Muamuamua!-Mwwwah!

Nina avançou, dando vários beijinhos no pescoço dela — a gargantilha sendo a única peça de roupa no corpo.

— Bora voltar antes que percebam que sumimos — sussurrou próxima do ouvido.

— Tá — Nathaly respondeu e foi se levantar, Burn mas quase morreu de susto quando Nina criou uma pequena explosão de chamas escuras, limpando-as de todo o suor e fluidos soltos em uma noite tão longa. Além de arrumar os cabelos bagunçados, fios para cima.

Olhou-a ainda sentada, abraçando-a por trás. Nina surgiu vestida, e Nathaly piscava perdida.

Burn

Outra explosão, Nathaly olhou na direção. Nina explodiu sobre as peças da namorada jogadas no chão, limpando-as assim como seus corpos. Nathaly olhou-a novamente — Nina sorrindo como se nada tivesse acontecido.

Ergueu-se para se vestir:

— Espera — pediu Nina, e recebeu mais uma vez a atenção da namorada.

Uma mesa de madeira se formou saindo das raízes da árvore. Nina estendeu os braços e a jovem nua se sentou. Carinhosamente, segurou a calcinha de renda preta, passou pelos pés, deslizou pelas pernas e a vestiu-a com calma. Nathaly permitiu-a sem nenhum comentário, e Nina vestiu-a peça por peça, com calma, com ternura, com os dedos deslizando e sentindo a maciez de sua pele. Olho no olho. Sorriso no sorriso.

Por fim, colocou as meias e encaixou os tênis. Curvou-se e estendeu a mão, que a menina logo segurou. Puxou-a. Um giro como uma bailarina, aproximando-a cada vez mais em um abraço. Mwnm... um beijo lento, um tanto safado.

Parou-o e chamou:

— Vamos?

Nathaly riu e confirmou:

— Sim. 

Voltaram para a casa de Anna rapidamente. Era tudo novo, embora sempre tenha sido as duas. Risos a cada entreolhada. Uma vergonha que tentavam esquecer, dos seus "eus" durante uma relação sexual. Não eram elas. Eram o desejo, o tesão. O tesão fazia você se tornar outra versão de si mesmo, uma sem vergonha na cara, sem escrúpulos algum.

Olhar-se no rosto depois de pedir leitinho horas atrás era vergonhoso. Uma fingindo naturalidade, a outra que nada acontecera, mas as lembranças eram vivas, fixas, e cada toque, cada choque, batida, era lembrada como seus corações pulsando o sangue.

Abriram a porta sorrindo com uma leve risada... assim que olharam para dentro, encontraram Nino, Anna, Clarah e a Princesa Aurora sentados à mesa. Nino abriu um sorriso debochado de orelha a orelha — Nina entediando o olhar ao saber que iria escutar besteira.

Instantes depois do menino que entendeu mais rápido, Clarah e Anna assumiram o mesmo semblante olhando na direção das duas:

Iiiiiiiii! — zoaram juntos.

Aurora, no meio deles, em pé na cadeira por não alcançar a altura da mesa, mexia a cabeça olhando para cada um deles sem entender nada. Nina e Nathaly não disseram nada, mas ficaram um pouco envergonhadas. 

Nesse momento, Nino se levantou e se aproximou provocando:

— E esse casalzinho aí?

Nina ficou com raiva, Thumpf... mas Nino chegou abraçando as duas.

— Estou muito feliz, amo muito vocês.

Nina, que não o abraçou de volta, colocou a cabeça no ombro dele com um semblante irritado.

— Tá, tá, agora sai — reclamou, empurrando-o de leve.

— Nossa, que grossa — provocou.

Mudando de assunto, Nina perguntou:

— O que tá acontecendo? Quem é essa garota?

— Essa criança tá dizendo ser a princesa de um reino aí — desdenhou Nino.

— Sim, é a princesa de Alberg. Estava procurando por ela.

— Ela é a Grande Heroína — Aurora apontou para Nathaly.

— "Grande Heroína"? — Nino não entendeu. 

"'Grande Heroína'? Tá certo isso? Um Primordial namorar a Grande Heroína?" Clarah ficou confusa. Olhava e seus olhos exalavam seu estado. 

— Eu também não entendi direito... Mas, princesa, por que você saiu do palácio? — perguntou, se aproximando da menina.

— Eu fiquei com medo — respondeu ela, abaixando a cabeça.

— Medo de quê?

— Eu vi a mamãe conversando com um homem, só com roupa azul, e ela disse que ia me mandar junto com outras crianças para serem abusadas — seu tom era notório uma fagulha da vontade de chorar ao se relembrar.

"Seria o Primordial Azul?" — Como assim? Lembra de mais alguma coisa? 

— Disse que são muitas crianças, mas que ela iria conseguir.

Nathaly lembrou de Jonas falando sobre um tratado de paz.

— Mais alguma coisa?

Aurora balançou a cabeça, negando saber.

— Não... Eu saí correndo e entrei dentro de uma carroça. Aí homens maus me colocaram com outras crianças depois.

— Não entendi nada — reclamou Anna, enquanto bebia seu suco natural preferido de café da manhã com pão doce.

— Um amigo meu disse... — Nathaly viu Nina a encarando com uma expressão brava. — Um amigo meu que tem noiva disse... — Nina abriu um sorriso amigável. — ...que o rei e a rainha tinham um tratado de paz com os Primordiais, mas ele não sabia qual era o pagamento do acordo. Pelo que a princesa disse, são crianças... E a rainha está envolvida diretamente.

— Olha, se eu e essa retarda ao meu lado aqui — Nina olhou para seu irmão lhe provocando, com desdém — usamos só preto por gostar de preto e também ser o Primordial Preto. Esse imbecil que estava com a rainha deve ser o Primordial Azul.

— Descobriu isso sozinho, gênio? — provocou Nina.

Nino respirou fundo e voltou a dizer:

— O que eu quero dizer é: se ele foi conferir algo, é porque já tá próximo da hora da coleta. Crianças em troca de paz? É isso? Não entendi o lance do tratado, mas deve ser isso.

— Sua cabeça faz eco, né?

Nino encarou Nina com desdém e ela devolveu o mesmo olhar... todos os outros olhando-os com certa preguiça.


Jaan, sentado no corredor dos quartos, próximo à escada, escutava toda a conversa.


— Preciso voltar o mais rápido possível, não posso permitir que isso aconteça — comentou Nathaly. 

— Nino, vem comigo no quarto rapidão.

Hãm...? — Pm Nina agarrou o braço do irmão, puxando-o contra a sua vontade. 

Jaan escutou pisarem no primeiro degrau e correu, sem fazer barulho, até seu quarto... uma missão impossível — quase foi visto, mas nem arriscou fechar a porta. Tlac... quando escutou a porta do quarto de Nina se fechar, fechou a própria da forma mais lenta e cuidadosa que conseguiu pensar.

— Vai só você e a Nathaly nisso — pediu.

— Por quê?

— Imagino que vocês precisem conversar, já que ela, por um tempo, achou que eu era você. 

Nino encarou-a em silêncio com extrema preguiça.

— ...

— Por favor.

— Tem certeza disso? 

Nino ergueu as mãos, indo até o ombro da menina, mas ambos não estavam bloqueando o sangue e ao se tocarem, se misturaram sem querer. Uma reação instantânea: Nina paralisando o rosto, o olhar como se acabasse de presenciar a pior coisa da existência. Seus olhos arregalados quase implorando para serem excluídos da face do mundo e nunca mais presenciarem algo como aquilo — mesmo que nem foram eles os culpados de nada. 

Nino foi diferente: um salto para trás, um carão de nojo olhando na direção da irmã. Ânsia, queria vomitar ao mais uma vez ser obrigado a assistir as duas transando como os seres mais selvagens da vida inteligente. 

— O que que é isso...? Qual o problema de vocês ? Quase vomitei, sua praga — reclamou em quase rosnado. 

— E você acha que eu gostei de ver você comendo a Anna, seu retardado? Porra, parecia que eu tava comendo a Alissa, seu nojento — Nina assumiu um olhar raivoso, olhando-o.

— Ela não tem nada a ver com a Alissa, capeta!

— Como que não?! Ahrr... Esquece... Não enche meu saco! Nós gostamos assim, ponto final. Agora finge que isso nunca aconteceu e bora tomar cuidado para não nos misturarmos de novo.

— É fácil falar quando a única coisa que eu quero é arrancar meus OLHOS, puta merda — reclamou... mas só para continuar enchendo o saco. Nem fora tão traumático assim. Só lhe trouxe novas ideias.

Burn

— Pelo menos posso fazer fogo azul agora — uma pequena explosão de chamas azuis, uma pequena chama sobre sua palma. — Ué? É gelado isso?

— ...Quando matei aquele moleque, eu esperava que fosse mais legal esse fogo, mas só é mais bonitinho mesmo. Basicamente é um atalho; ao invés de misturar gelo e fogo, usa ele direto, mas é bem inútil, sério, nem pra iluminar direito essa merda serve, vai por mim. Mas é isso, tô vazando, vejo você em alguns dias então.

Nino se virou indo até a porta... Tap... mas Nina segurou sua mão.

— Não faça nenhuma merda — repreendeu, bem séria.

— Não foi apenas um sonho, né? — Nino virou um pouco o corpo olhando-a. Os olhos da menina já lhe entregavam sua resposta.

— Não me misturei só com você. Tem alguma coisa aí. — Colocou as mãos no rosto dele, segurando-o firme, e virando-o para o dela. — Olhe nos meus olhos... Olhe bem no meio dos meus olhos. Se descobrir algo sobre essa tal Morte, você vai contar pra mim, pra Nathaly ou pra Anna. Não faça nada sozinho... Você escutou? — Nina ficou muito preocupada com o seu irmão. Seu tom protetor, seu toque de ternura. Suas testas a pouquíssimos centímetros de distância.

— ...Fica tranquila, eu vou falar. Mas... o problema é falar que tem uma mulher dentro de mim. Antes mesmo de eu acabar a frase, a Anna já teria me matado — respondeu normalmente, mas saiu de uma maneira engraçada e Nina não aguentou, tirou as mãos das bochechas dele e começou a gargalhar. Sua barriga sendo abraçada com firmeza. 

Nino olhando-a com seus olhos semicerrados, esperando a menina cair no chão e começar a rolar para todos os lados, mas isso não aconteceu. Nina diminuiu a intensidade das gargalhadas e ainda em meio a elas, pediu:

— Verdade... Mas, Nino... Por favor, não faça nenhuma besteira sozinho, ok?

— ...Vou tentar.

— Não quero que tente. Quero que me prometa — rosnou o encarando séria e brava. 

"Tava rindo agora, fi duma égua, bipolar dos inferno..." — Prometo — decidiu resumir seu pensamento. 

Nina levantou a mão para dar um soquinho. Nino olhou, Tap! e deram um soquinho de mão.

Descendo as escadas, Nina deu o aviso:

— Nathaly, o Nino vai ajudar com isso que tá acontecendo nesse tal reino.

— Um homem todo de azul é com certeza o Primordial Azul. Até poderia ser outra pessoa, mas sinceramente, não faria sentido, já que tem isso do tal tratado — ponderou Clarah.

— Relaxa... Eu venço — respondeu Nino sem muito ânimo, mas cheio de arrogância.

Anna ficou emburrada.

— Vão ir de cavalo? — perguntou Clarah.

— Não. Não sabemos quanto tempo temos. Eu cheguei até aqui correndo, seguro a Aurora e corremos até Alberg.

— Vocês são malucos, é mais de dias de viagem a cavalo — retrucou Clarah.

— Somos muito mais rápidos que cavalos. Ainda tá de manhã, talvez chegaremos hoje à noite se sairmos agora. Quando saí de lá, eu saí de cavalo, passei uma madrugada até de tarde, deixei o animal descansando e continuei correndo. Cheguei aqui de noite, então acredito que dá pra chegar ainda hoje lá em Alberg — ponderou Nathaly.

"Faz sentido." pensou Clarah, jogando um movimento de cabeça afirmativo e sem resposta, de volta. 

— Nã... — Pn Nina tampou a boca de Anna para ela não falar nada. 

Anna ficou com os olhos meio fechados, visivelmente aborrecida.

— Então é melhor saírem agora, né...? — perguntou apressadamente Nina, com um sorriso forçado. 

— Já comeu, princesa?

— Já! — respondeu com um sorriso fofo para Nathaly.

— Então vamos. 

Já fora da casa, Nina permaneceu segurando Anna lá dentro.

— Princesa, pra chegarmos mais rápido, vamos correr um pouco. Se você ficar enjoada, me aperta que eu paro — ordenou Nino.

Aurora o olhou e balançou a cabeça afirmativamente.

— Tá bom!

Se despediram de todos, Nino segurou a menina nos braços, Fu!-Fu! e desapareceram correndo, o Primordial seguindo a Heroína.

Aaaaaaaaaaa...

Como eram muito rápidos, Aurora ficou com a boca aberta, gritando em tom baixo, contínuo, meio tonta durante todo o primeiro tempo... Depois que saíram, Nina parou de segurar Anna fazendo birra dentro de casa.

— Eu vou lembrar disso aí — rosnou baixinho, olhando para Nina com um olhar mais que ameaçador.

Hehe... — a Primordial voltou uma risadinha com um sorriso forçado, olhando-a se afastar lentamente, sem piscar e muito menos desviar o olhar da menina de preto. 


Jaan, em seu quarto, sentou-se no chão, à frente da mesa.

Pensando muito se deveria fazer o que precisava, uma lágrima caiu e ele parou de hesitar. Levantou a palma da mão e uma folha de sangue do sol se formou. Flp... colocou-a sobre a mesa e, enquanto pensava, palavras foram sendo escritas neste papel.

"Pai, o Primordial Preto vai interferir no tratado de Rosa com Alberg. Ele está indo junto com a Grande Heroína para lá. Estou na vila que eles lideram na Floresta do Desespero, próximo à antiga escola do Primordial Verde, já que esta foi destruída e ele morreu. Entrando pelo leste, não muito longe da borda, demora entre sete a nove horas de caminhada. Tem demônios e alguns humanos aqui. Não há ninguém forte, então, caso queira atacá-los e tirar tudo que ele tem, será fácil! De seu filho. Assinado: Jaan."

Com lágrimas agora caindo do seu rosto, borrando um pouco do papel, deixou informações erradas na carta.

Não hesitou totalmente, mas naquele momento, era como trair dois lados ao mesmo tempo.

Foi até a janela do quarto e, quando olhou por ela, viu Minty muito adiante, ainda treinando sem parar, sem camisa e todo suado, tentando controlar mais do seu sangue para criar mais do que apenas pequenas garras de sangue. Entretanto, ele não conseguia.

Era visível a diferença dos treinos em seu corpo, que ficou mais forte, mais definido, mas em termos de manipulação de sangue, era impossível. Ele era um demônio comum, não mais que isso. Naquele momento, o certo era treino físico ou mágico.

Manipulação de sangue era algo com o qual se nascia. O demônio até poderia controlar totalmente, mas apenas se tornar-se o novo Primordial da sua Linhagem. Jaan olhou para ele e seu coração apertou pensando em enviar aquela carta. Medo. Duas pessoas. Amor... Fechou os olhos quase em choro profuso, e estendeu a mão, fazendo um pássaro de sangue do sol surgir e brilhar sobre ela.

O pássaro segurou a carta e saiu voando silenciosamente, camuflando-se cada vez mais nos raios solares. Segundos depois, desmaterializou-se, viajando por meio dos raios, e instantes depois surgiu se materializando à frente do trono do Primordial do Sol no Palácio do Sol.

Tudo naquele salão era de acordo com o seu sangue. Todos os desenhos no teto e nas paredes, embora representassem todos os Primordiais, foram pintados em sangue amarelo. Todos os detalhes eram sem exceção em amarelo-claro e quartzo branco.

A única cor que se diferenciava era a mulher presente de pé ao lado do trono; seu vestido simples era em azul-claro e seu cabelo era branco com duas mechas em ciano. Embora seus olhos fossem amarelo-claro, assim como os de Sol.

Sol olhou para o pássaro, estendendo um dedo. O pássaro pousou nele. Assim que retirou a carta, o pássaro se desmaterializou e Sol começou a ler para si em silêncio.

— O que é isso, meu senhor?

— Uma carta de Jaan.

— O que está escrito, meu senhor?

— Algo que não te interessa, Jeane — repreendeu-a com grosseria. 

Jeane abaixou a cabeça ao lado do trono. Mãos juntas à frente em uma posição submissa, como se pedisse desculpa pelo erro de abrir a boca:

— Desculpe — sussurrou.

"Isso pode ser interessante... Enquanto ele luta com o Azul, eu envio o Vermelho para exterminar o resto da escória nessa floresta. Ao voltar e ver tudo destruído, ele vai caçar o Vermelho, matando ou morrendo; é apenas vantagem, só facilita as coisas." Sol começou a rir, sua Marca brilhando mais que o comum. 

Jeane olhou de canto de olho para ele.

"Só não machuque mais meus filhos... por favor." implorou, com um profundo medo das risadas ecoando pelo salão vazio. 

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