Volume 2 – Arco 5
Capítulo 160: Só Homens
O sol nasceu.
Raios atravessavam a janela do quarto e Nina abriu lentamente os olhos. Do outro lado, de frente para o armário, Clarah olhava-a envergonhada, querendo colocar o uniforme. Nina piscou duas vezes e virou-se para deixá-la à vontade.
Instantes depois, todos os alunos aguardavam a professora sentados em seus lugares... Rose estava demorando um pouco. Conversas paralelas aconteciam. Com o "grupo" de Nina não foi diferente.
Permanecia entediada, derretida na cadeira de raízes brutas, ornamentadas em ouro e rochas planas, quando balbuciou:
— Onde eu posso me inscrever pro torneio que você disse, Minty?
— Não sei se já abriram isso — respondeu incomodado por não saber e ajudá-la com isso.
Um garoto que caminhava pela sala riu de Nina.
— Isso é coisa de homem — respondeu em tom soberbo, sua voz era masculina, mas bem forçada a um tom mais fino... feminino.
Nina o olhou.
— Você é homem? Se não fosse essa sua voz horrorosa, eu nunca ia saber com esse seu cabelo de princesinha — zombou, ainda derretida de preguiça em sua cadeira com o rosto na mesa.
Todos na sala riram do garoto.
— Estou neste torneio e irei vencer! — Jogou seu longo e hidratado cabelo amarelo para trás. — Jamais perderia para uma garota sem charme como você...
Nina sentou-se direito na cadeira, olhando-o fixamente.
— Olha aqui, menine, vamos fazer o seguinte. — Já estressada, apontou o indicador para a janela na direção do pátio. — Eu contra você no intervalo.
— Mulheres têm utilidades melhores qu...
Bam!
Com o rosto empinado enquanto falava, Nina o socou fraco — matá-lo daria muita merda —, Pahr!... fazendo-o sangrar e cair no chão como um atum retirado da água para um barco, com o nariz quebrado.
— Desgraçada... EU VOU FALAR PRO DIRETOR SU...!
Enquanto gritava, Rose chegou.
— Vai o quê? Vamos... ouse repetir. Escutei tudo que disse. Fala mais uma palavra e eu mesma te expulso da escola — repreendeu-o firmemente.
— Descul...
— Calado. Vá para a enfermaria tratar desse nariz. É melhor dizer que caiu de rosto no chão. Se eu for lá e me contarem que disse que Nina o bateu, você será expulso. Escutou?
Ele concordou com a cabeça, segurando o nariz sangrando, e saiu correndo pela porta como uma criança chorona.
— Minty.
— Sim, professora — Minty se levantou da cadeira ao ser convocado.
— Já estão aceitando os desafiantes. Leve-a até a sala de inscrição. É a mesma do ano passado. Será interessante ter uma mulher participando pela primeira vez. — Rose abriu um sorriso, mas Nina percebeu que, apesar do sorriso, Rose parecia perdida e com medo de algo.
A Primordial se perdeu, tentando entender o que estava acontecendo. Rosto um tanto tombado para o lado. O som ambiente bem abafado. Turvo, embaçado. Só Rose lhe olhando. Só aquele olhar... estranho.
— Nina... Nina! — Minty a chamava várias vezes, e ela voltou, depois de alguns segundos... Todos olhavam-na sem entender.
— Oi, oi? — respondeu-o, olhando-o no rosto meio perdida.
— Vamos logo.
— Ata. Foi mal.
Saíram da sala.
No corredor, Minty começou a bronca:
— Você é maluca? Socar o Eliot?
— Já matei por menos.
— ... — Olhou-a de perfil, meio assustado. — Que bom que a professora te defendeu, ela é legal — tentou esquecer o que ouvira.
— Ela é meio estranha.
— Oi? — olhou-a novamente.
Nina acabou pensando alto.
— Nada não... Só tava pensando um pouco.
"'Ela é estranha'? Escutei certo?"
Chegando lá, Nina escreveu seu nome entre os outros alunos. Após escrever, Minty tirou o lápis mágico de sua mão e escreveu o nome dele.
— Vai ir mesmo?
— Sim. Quero mostrar que sou forte também! — sorriu — Espero não enfrentar você logo de cara! Haha... — riu, mas um riso meio forçado. Nina olhava-o sem interesse nenhum. Puro tédio. Olhos mortos, entreabertos.
— Você nem consegue usar seu sangue.
— Acho que consigo fazer garras verdes, só que menores, mas acredito que consigo.
Nina manteve o olhar entediado... não bufou como queria, isso destruiria a cabeça do menino, mas mudou de assunto, não queria diminuí-lo de graça:
— Espero que seu plano dê certo. Ganhar o torneio e fazer com que escutem meu nome por aí.
— Tamb...
— Não perguntei, vamos pra sala logo — interrompeu-o já saindo da sala vazia, só com um altar, um caderno e um lápis mágico. Diferentemente da inscrição do lado de fora da escola, que era um papel com um recipiente para ninguém ver quem se registrou.
Voltaram e pegaram a aula em andamento. Mas diferente de todos, Nina não conseguiu prestar atenção nos ensinamentos, embora fosse algo tão simples que seu sangue aprendia por ela sem a menina precisar fazer nada. Sua atenção voltava inteiramente à mulher em frente ao quadro — literalmente — mágico.
Tudo nela, cada movimento, cada gesto, cada sílaba que saía daquela boca parecia uma forma codificada de tentar se comunicar diretamente com Nina. Como um pedido de socorro escondido. Era estranho. Aquele sentimento esquisito reverberava pelo sangue da Primordial, que olhava hipnotizada aquela mulher jovem e bonita, impecavelmente precisa nas palavras e em sua oratória diante da sala.
"O que tá acontecendo?" Nina pensou. Rose tentava usando magia da linhagem Rosa, comunicar-se com Nina, mas era muito difícil. Era como um hacker novato enfrentar uma segurança muito forte. Rose era fraca perante Nina. Seduzi-la, não no âmbito sexual, mas sim para conseguir conversar com ela através do odor que liberaria do próprio sangue guiado para ela, era quase impossível.
Pedir ajuda verbalmente era quase suicídio.
Não queria confiar em ninguém além naquela menina que de alguma forma, ela sabia que era uma Primordial... Passou um tempo, seu estado mental estava dilacerado do que passara na noite passada. Foi forte, era uma mulher forte, aguentou o tranco naquele novo dia, mas sentia que desabaria a qualquer segundo.
Precisava de mais tempo.
Precisava do tempo que ganhou liberando-os das aulas mais cedo.
Seu olhar mudou por um único momentinho quando saiu da sala primeiro. O sereno, tranquilo deu lugar a um olhar de quem segurava o choro... Só Nina percebeu. Só Nina via aquilo? Os outros eram cegos ou só não se importavam?
Ficou perdida na dúvida.
Olhava na direção da porta, mesmo olhando reto para ela, não viu quando alunos começaram a atravessá-la, indo embora... Quando acordou do seu estado inerte, Minty e os outros haviam decidido fazer um piquenique fora da escola, aproveitando a liberação ainda de tarde.
Foi o que fizeram.
Não era proibido sair. Só não era comum.
Próximo da grande parede da escola, uma árvore se erguia. Nina não queria sentar-se no chão, logo criou uma mesa de piquenique com bancos, feitos de pedra... Seus "amigos" olharam-na surpresos, não era lá algo comum ver uma precisão tão grande na confecção de algo assim.
Dispuseram todos os alimentos que conseguiram pedindo com jeitinho às cantineiras e, mal viram o tempo passar, enquanto se deliciavam de iguarias diferentes... ao menos Nina, que nunca havia visto 99% do que tinha ali. 1% era a fruta que comera ontem.
Durante a primeira parte do plano: conseguir comida, uma coisa aconteceu:
[ Quando as cantineiras entregaram alguns pães, sucos, carnes, frutas e todos saíam de lá... Verde passava pelo exato corredor por onde decidiram ir. Minty ficou receoso com Nina, mas Nina não fez nada além de um pequeno sorriso atuando como uma aluna normal.
— Diretor — Minty abaixou a cabeça em cumprimento... Clarah e Nina fizeram o mesmo. Jaan... não. Verde fez o mesmo movimento. Passaram e não olharam para trás... mas Verde olhou, e logo virou-se seguindo na direção, agora, do refeitório.
Nina achou estranho, muito estranho. Tanto o cheiro da professora quanto o do Primordial eram parecidos. Mas não em um sentido comum, como o mesmo perfume ou sabonete. Não era hora. Não queria arriscar, mas ficava mais curiosa para entender o que estava acontecendo. O que aquele ser poderia estar fazendo com Rose?
De canto, enquanto viravam em mais um corredor, olhou na direção dele e o viu de costas, despreocupado:
"Se você estiver encostando um único dedo que seja nela, sem ela querer isso, eu juro que vou dilacerar esse seu corpo antes de matá-lo, seu filha da puta." rosnou em sua mente, mas continuou tranquila por fora, mantendo o ar agradável que "seu" grupo estava.
Verde sentiu um olhar forte rasgando suas costas, virou o rosto e olhou de canto, mas Nina já havia sumido na dobra do corredor. O Primordial abriu um pequeno sorriso curioso e voltou a olhar para frente, novamente. ]
Com o céu em um tom dourado, conversavam e brincavam em um momento agradável:
— Juro, juro. Já matei um dragão com uma colher — comentou em tom confiante.
— Aham... Com esse braço musculoso seu aí? — Clarah zoou Jaan, e os outros riram.
— Tô te falando! E ainda bati em uma Harpia Lendária — respondeu e colocou os braços na cintura, se achando.
— Até chegar no dragão eu acreditei, mas ganhar do Rei é impossível — retrucou Minty, com deboche.
— Eu quebrei a Harpia na porrada, peguei ela pelo pescoço... — Grhm! pulou em Minty e iniciou um mata-leão — Aí enchi ela de soco... — começou a fazer cócegas no amigo, que se estressou tentando se soltar.
Clarah riu bobamente e Nina continuou comendo tudo da mesa.
Minty se soltou e Jaan correu para longe da mesa.
Olhou para Jaan um pouco afastado, e os dois fizeram um sinal de trégua.
Minty voltou para a mesa e perguntou:
— Se inscreveu no torneio?
— Achei melhor não. — Jaan se sentou ao lado de Minty novamente.
— Não matou um dragão com uma colher? Bebeu toda a água do mar para matar o Leviatã?
— Isso é meu passado, cara. Sou uma nova pessoa — deu um sorrisinho se gabando.
— Fracote.
— VOCÊ QUE É!! — Jaan deu um pulo e gritou, olhando para Clarah.
— Ele me disse a verdade. Não se inscreveu por medo depois do soco que Nina deu em Eliot na sala — riu depois de falar.
— Cagueta... Não falo mais nada com você também, sua falsa. — Cruzou os braços e virou o rosto para o lado, irritado.
— Quem é o durão agora? — Minty riu de Jaan.
— E você, senhorita certinha? Por que não se inscreveu?
— Nunca teve uma menina no torneio. Prefiro ficar na minha, sem chamar atenção.
— Medros... — Grhm! Minty devolveu o mata-leão em Jaan, não deixando-o terminar de falar.
— É bom, né? Seu merda. — Tap, tap, tap... o amigo deu tapinhas no braço dele, e ele o soltou depois de alguns segundos.
Riram bastante, enquanto Nina continuava mandando toda a comida para dentro.
— Não quero que isso acabe nunca... — Clarah murmurou, e Nina olhou para ela, vendo-a sorrindo e rindo com os meninos.
— Você é bem forte, Nina. Treina há muito tempo? — Jaan perguntou.
— Glub! — acabou de engolir um pedaço gigante de carne e respondeu: — Desde criança eu brincava de lutinha com meu irmão.
— Que legal! Você tem um irmão! Eu tenho uma irmã... Mas o seu irmão não está aqui? — começou a falar meio animado, mais alto, mas por fim abaixou o tom, embora não mostrasse uma tristeza como aparentou.
— Não. Faz um bom tempo que não o vejo. Ele saiu em uma viagem com meu pai há algum tempo, e agora que fui mandada para essa escola, acho bem difícil vê-lo tão cedo.
— Eu também não vejo minha irmã há um tempo... Alguns anos, na verdade. Mas não se preocupe, assim como eu espero vê-la novamente um dia, você vai conseguir ver seu irmão de novo — sorriu timidamente.
— Tem razão. Só espero que não demore muito — respondeu com sinceridade.
Minty olhou para Nina com um olhar apaixonado.
— Posso matar essas carnes...?
A expressão de Minty mudou imediatamente.
— Já comeu quase tudo, acabe de uma vez — permitiu, olhando desanimado para ela.
— Hihi — deu uma risadinha falsa e continuou comendo.
O tão lindo e dourado tardar desapareceu e a noite chegou.
Pouco tempo depois estavam em seus respectivos quartos, preparando-se para dormirem. Clarah trocou de roupa. Nina havia deitado-se com o uniforme mais uma vez. Clarah tinha o costume de tomar banho de três em três dias. Os dormitórios femininos e masculinos não ficavam próximos, era basicamente um em cada lado extremo da escola.
Era apenas um banheiro, com uma grande banheira natural com água corrente e parada em um dos lados, onde era mais morna por ser aquecida naturalmente pela terra. Assim como toda a escola, aquele lugar era lindo, era como banhar-se em um lago em meio a um bosque encantado sendo observada por pequenos pássaros cantarolando e os raios solares lhe dando um brilho mágico... mesmo que não fosse aberto ao céu.
Clarah, assim como muitas garotas iriam se banhar no dia seguinte. Era como o rodízio de veículos em São Paulo capital. Dias ímpares era o dia de algumas e pares de outras, mas Clarah mesmo assim gostava de ir só de três em três dias. Assim, conseguia ir em momentos mais vazios. Não gostava de ser observada.
Entretanto, se já se sentia um pouco suada, mesmo trocando sempre para roupas leves antes de dormir, não entendia como Nina sempre estava impecável, dormindo de uniforme, e o mesmo nem mesmo amassado ficava.
Depois de se trocar, sentou na cama, olhando para a cama da Primordial... passou um tempo encarando-a deitada, de olhos fechados, mas Nina sentia-a olhando-a sem desviar um único segundo. Ficou incomodada, sabia que a garota queria falar algo, mas não criava coragem para desembuchar.
Nina abriu os olhos e sentou-se na cama, fingindo sonolência:
— Quer me falar algo?
Clarah ficou meio tímida, mas ainda sim balançou a cabeça confirmando rapidinho.
— Pode falar.
— Sabe... Eu não sabia que você tinha um irmão. Eu também tinha um, mas ela... — Clarah não conseguiu continuar e começou a chorar, com a cabeça abaixada. Nina levantou-se e foi até ela, sentando ao seu lado e a abraçando.
— Ei, ei. Calma. Não precisa contar se não quiser — tentou confortá-la.
— Eu... eu confio em você. Por favor, não conte aos outros sobre isso.
— Não se preocupe.
— ...Minha irmã mais velha foi levada durante um ataque à nossa vila natal. Ela me escondeu em um alçapão embaixo da nossa casa, que levava a um lugar onde meus pais guardavam algumas coisas. Lembro de ouvir algo quebrando depois, quando os moradores me encontraram e me tiraram de lá, ela tinha quebrado um vaso de planta que tínhamos. Mais tarde, eu entendi por que ela o quebrou, o cheiro da planta escondeu meu cheiro do monstro.
— "Monstro"?
— Nossa vila foi atacada pelo Primordial Branco. Ele levou minha irmã. Os moradores que me resgataram nunca me contaram direito o que aconteceu, ou por que ele atacou nossa vila. Ele é o início da nossa linhagem, por que derramaria sangue branco? Eu me culpo por não ter conseguido ajudar minha família. Minha irmã me salvou, mas isso custou sua vida... — Nina puxou a cabeça de Clarah para seu peito, a abraçando com carinho.
— Shh, shh, shh... Calma. Calma — tentou confortá-la, lembrando-se das palavras de Minty sobre os Primordiais serem covardes.
Clarah continuou chorando, apoiada em Nina.
— Ei... Sabe, eu também tenho um segredo. Eu não sou descendente do Verde. — Clarah olhou com lágrimas nos olhos quando Nina mudou o cabelo para preto e revelou a Marca à esquerda de seu pescoço. Sua roupa preta.
Se assustou.
Foi arriscado, mas Nina decidiu arriscar. Caso Clarah se mostrasse ser uma traidora, mataria Verde e ela. Acreditava que dava conta de matá-lo, só não queria ir por esse caminho até então. Queria jogar no seguro, mas ainda sim tinha o sangue do pai fluindo em seu corpo, uma briga com algo que sentia dúvidas se vencia ou não era interessante, só não era interessante morrer e deixar seu irmão e Nathaly para trás.
— Volta, volta! Eles podem ver isso! — Clarah ficou desesperada, mas Nina a segurou.
— Calma. Está tudo bem.
— Mas por que você está aqui?! Se o Verde descobrir, ele vai querer te mat...
Pousou o indicador direito nos lábios dela, depois o curvou como um gancho, acariciando suas bochechas e limpando as lágrimas. A reação da garota foi engraçada, por um momento se divertia e entendia o poder que Nino tinha sobre Nathaly, quando provocava-a com coisas assim. Mesmo não sentindo que Clarah tinha algum sentimento sendo alimentado por ela, fazê-la sentir vergonha e acuada por uma "canibal" era bem divertido.
— Shhh... Relaxa. — Clarah ficou envergonhada, encarando-a. O corpo suando, estático, mas o olhar arregalado sem reação. — Eu não tenho para onde ir. Estou tentando encontrar meu irmão e decidir o que fazer depois disso. Me inscrevi no torneio para isso, tentar fazer meu nome viajar pelas bocas das pessoas e talvez chegar até ele.
Thumpf! Clarah se jogou em Nina, a abraçando.
A Herdeira, inicialmente sem reação, retribuiu o abraço com carinho.
— Não precisa chorar, você é minha amiga, certo?
Clarah se afastou, olhando-a nos olhos e sorrindo entre lágrimas. Sua cabeça balançava suavemente em concordância.
Nina colocou a mão na cabeça dela, fazendo carinho como se fosse um cachorro, ou só uma criança chorona.
— Sua irmã pode estar viva. Você tem certeza que ela morreu?
— N-não... Ma...
Colocou o dedo nos lábios dela novamente.
— Não se preocupe tanto. Assim como vou encontrar meu irmão, nós vamos encontrar sua irmã. Você não sabe se ela morreu ou não, mas tem uma pessoa que sabe a resposta: o próprio filha da puta do Primordial Branco. Que tal pegarmos esse arrombado pelo pescoço e esganá-lo até ele contar tudo que sabe? — brincou... mas com um pingo de vontade.
— Você é meio doida — deu uma risada leve. Olhos fechados, rosto sereno.
— Que nada... — Nina se levantou. — Agora vá dormir, infelizmente pro meu plano começar ainda vai demorar algumas semanas. — Refez o uniforme e sentou-se na cama.
— Uhum... — murmurou quase em dengo. Bochechas meio cheinhas, seu olhar, suas íris rosa-clarinho travados na direção dela.
Nina deitou-se, puxando o cobertor quando Clarah quebrou o silêncio mais uma vez:
— Não é ruim dormir com isso?
Nina virou-se na cama, olhando-a.
— Tem roupa no armário, mas você consegue mudar roupa com magia, então por que não faz algo mais confortável?
— Não é magia. É o meu sangue. Mas por que quer ver mais da minha pele? — provocou.
Clarah ficou embaraçada, deitou-se e virou-se para o outro lado imediatamente.
— Não foi is...!
— Eu sei, eu sei... só tô brincando. As roupas não me incomodam, se não eu já teria arrumado uma forma de trocar sem você ver. Mas como agora sabe quem sou eu, fica mais fácil eu fazer isso. Não vou ficar pelada do nada, relaxa.
Clarah assumiu um rosto quase em rosa-choque. Fingiu que não ouviu aquilo e foi dormir... Nina riu um pouco, sua risada provocando ainda mais... mas não disse mais nada, nem mesmo um "boa noite", somente fechou os olhos e Nathaly fixou-se em sua mente. O abraço de Clarah foi macio, foi fofo, mas sentir a pele de Nathaly era mágico, não era algo real, era único, fatal.
Minty e Jaan também dividiam o mesmo quarto.
Não havia o mesmo embaraço que no das amigas, Jaan e Minty não se importavam de se trocar e ficarem nus um na frente do outro, mas uma coisa foi diferente naquela noite, algo que Jaan nunca havia visto Minty fazer.
Ambos estavam acordados.
Lamparinas apagadas, mas um roçar de pele em roupa vinha da cama de Minty.
O jovem adulto se masturbava naquela noite pela primeira vez em sua vida com tamanha vontade. Nunca havia sentido atração sexual até então, mas a cada dia em contato com Nina, nutria esse sentimento. Nutria esse romance proibido de um "plebe" com sua rainha, sua Imperatriz.
Já fizera isso antes, mas justamente para tentar sentir algo. Não conseguia sentir nada pelas meninas que via, logo se achava estranho, diferente, e em seu quarto, tentava conseguir mudar essa narrativa, todas as férias.
Em sua mente, só era Nina, o irmão dela e ele mesmo, os últimos demônios pretos vivos... estava certo, e isso ajudava-o a criar uma fantasia dos dois. Dos dois fazendo essa linhagem ser revivida, dos dois fazendo novas crianças puras da Linhagem Preta.
Ofegava enquanto imaginava-se tendo uma relação íntima com ela.
Não sabia posições, não sabia como era, o prazer, como fazer, só sabia que queria, e sabia onde enfiar. Sua mão apertando seu pênis com rigidez, pré-gozo melando os dedos. Ofegava baixinho, seu rosto encharcado de suor. O cabelo já molhado, os olhos fortemente fechados, criando rugas pelo rosto.
Inerte na fantasia, seus sons aumentaram um pouco.
— Você tá bem?
Minty se assustou levemente e tirou a mão do pinto.
— S-sim — respondeu afobadamente, seu amigo.
Jaan se sentou na borda da cama e, usando magia do sol, acendeu suavemente o abajur. Ergueu-se. Usava uma camisa simples, assim como uma calça igualmente simples. Poucos passos depois, sentou-se na cama do melhor amigo, olhando-o com um olhar diferente do comum.
Minty se encontrava completamente envergonhado. Fingia normalidade, mas com um travesseiro suado daquela forma, e seu olhar assustado como quem cometeu um crime e não sabia como esconder, não ajudavam muito.
Foi quando Jaan sussurrou:
— Posso ajudar?
— O-o quê? — Minty travou. Não entendeu. Aquele tom foi baixo, quase um segredo perverso. Um pecado dividido. Jaan nunca mudou o tom de voz. Sempre agiu como sempre, mas sempre que via seu melhor amigo se trocar, era inevitável olhares e pensamentos pervertidos de quem sempre nutriu sentimentos "proibidos".
— Estava pensando em quem?
— Mano... V-v-você está bem? — gaguejou fortemente. Não conseguia entender. Não parecia seu melhor amigo, parecia qualquer outra coisa, menos ele.
— Estou. Somos amigos, não somos? Somos melhores amigos... né? Eu... eu gosto de homens, Minty — tentou ser firme, mas aquele olhar vindo do amigo parecia ser gelo, neve, facas. Começava a oscilar, sentir medo de ter arruinado sua parceria, seu melhor amigo, arruinar sua amizade.
— O-o... q-quê? — Seu raciocínio não conseguia acompanhar as informações sendo jogadas assim. Sua cabeça de cima já havia perdido espaço para a de baixo no tempo que ficou inerte na masturbação, e sair disso para uma revelação assim foi inesperadamente confuso.
— Olha... — uma lágrima surgiu nos olhos de Jaan enquanto ele se confessava. Gulp... engoliu seco e continuou: — Você deve achar isso estranho. Se quiser que eu pare e nunca mais fale sobre isso, eu farei. Mas, se você quiser, posso te ajudar... eu... eu posso chupar você, se quiser...
Minty o observava sem reação. Seu olhar tremia, parecia tonto.
— Não quero que sinta nada por mim. Se preferir, pode fechar os olhos e pensar na garota em que estava pensando. Eu só quero ajudar, mesmo que seja assim. Para mim, já está bom só de poder te ajudar. Eu já fiz isso antes, não se preocupe.
Minty não dizia nada. Não sabia como reagir. Como apoiar, como sair daquela situação, o que fazer diante daquilo... Travou como um computador cheio de abas abertas no navegador.
Minty permaneceu parado, a ereção ainda evidente, latejando sob o tecido fino da calça, o calor do membro irradiando através do pano úmido na cabeça, onde uma mancha escura se formava.
Jaan se ajoelhou com calma ao lado da cama. Minty estava próximo da borda. Afastou lentamente o cobertor, o tecido roçando na pele sensível da barriga de Minty, revelando a ereção ainda mais evidente agora. O pau pulsava visivelmente, a pele esticada e brilhante, o prepúcio ligeiramente retrátil, a cabeça inchada e escura pressionando contra o tecido molhado.
Segurou a borda da calça próxima da cintura e desceu devagar, o elástico roçando na base do membro, libertando-o. O pau saltou livre, pesado, quente, pulsando no ar fresco do quarto. O cheiro forte de excitação masculina se espalhou, misturado ao suor leve que cobria a pele de Minty.
Viu aquilo como um "sim" silencioso. Se fosse um "não", por que Minty o deixaria livre assim? Por que ainda estaria tão duro, tão quente, tão molhado na ponta?
Tomou a iniciativa.
Minty mantinha-se imóvel. Corpo de lado, olhava o amigo com os olhos arregalados, o peito subindo e descendo rápido, sem saber ainda o que dizer. Jaan segurou a base com firmeza. Sua mão estava quente, quase febril, os dedos envolvendo o pau grosso, sentindo cada veia pulsar sob a pele fina. Sentia vergonha também, e seu sangue esquentou ainda mais do que o normal. Rubor amarelado, descendente do Sol.
— Haaarf!
Arfou na cabeça. O ar quente e úmido envolveu a glande sensível, fazendo Minty estremecer. Sentiu o prazer subir como um choque térmico, os músculos da barriga se contraindo. Fechou os olhos imediatamente, permitindo que sua mente moldasse a cena, trocando o amigo ajoelhado por Nina, lhe fazendo sentir prazer.
Jaan engoliu o membro inteiro. Nina engoliu o membro inteiro. A boca quente e úmida o envolveu completamente, a língua pressionando a parte inferior, deslizando devagar. Os cabelos pretos roçavam a barriga de Minty a cada movimento da cabeça indo e voltando. As íris roxas fixadas nos olhos dele, brilhando na penumbra.
O macaquinho preto — a cor que, na opinião extremamente parcial de quem era da linhagem "correta", todas as roupas do mundo deveriam ter — colava na pele suada.
Jaan deixou o pau extremamente babado e quente... saliva escorrendo pelos lados, pingando nas bolas, o calor da boca se misturando ao calor do membro, uma sensação molhada, apertada e viva. Não era ruim, era incrível.
O som molhado de sucção preenchia o quarto, Slurp... Gluck... Gluck...
Minty colocou a mão na cabeça dele, forçando-o com um pouco mais de intensidade. Gurg-mm-mgr... Jaan gostou do gesto, embora soubesse que nunca seria o escolhido por sua paixão, algo que sempre considerou proibido. A garganta se contraiu ao redor do pau, massageando-o ritmicamente, o calor úmido e apertado o levando à loucura.
Apoiou as mãos na cintura do amigo deitado, buscando apoio para aguentar ser forçado com aquilo inteiro na boca. Minty nunca se depilou, nem sabia que homens faziam isso. Os pelos pubianos roçavam no nariz e nos lábios de Jaan, uma moita grossa e escura, o cheiro forte de macho invadindo suas narinas. Jaan pagou o preço, mas uma moita não destruiria seu momento feliz em ter uma relação íntima com seu amor perdido.
...Perdido.
Fazia aquilo, mas ainda era Minty vendo Nina fazendo tudo. Vendo Nina apoiar as mãos na cintura em horizontal, quase de forma fofa, um olhar surpreso e safado, em meio aos sons de sucção e engasgos do pau deslizando dentro da boquinha, batendo o mais fundo que conseguia na garganta a cada forçada e movimento de cintura para frente que realizava.
Splurt!
— Glub-Gulp...
Não resistiu.
Gozou rápido e forte, o prazer explodindo em ondas. Jaan engoliu tudo que conseguiu obedientemente, a garganta se contraindo em torno do pau latejante, leite quente jorrando direto para dentro dela. Minty segurou sua cabeça com muita força, os dedos enfiados nos cabelos. Sentiu dor. Era sua primeira vez ejaculando sem apertar o membro com a mão, para aliviar a dor. Suas bolas se contraíram dolorosamente, o pau gritava a cada latejada soltando jatos grossos e quentes naquela boca ainda mais quente.
Ofegou por muitos segundos, o peito subindo e descendo rápido, o corpo ainda tremendo.
Em sua mente, Nina continuava olhando-o com um brilho travesso nos olhos, os lábios inchados e brilhantes de saliva e sêmen. Mesmo com o pau dele afundando na sua garganta, ela mantinha aquela expressão brincalhona, quase rindo. Fios grossos de leite escorriam pelo canto da boca, manchando a roupa preta, pingando devagar nas coxas pálidas que se mantinham juntas, obedientes ao trabalho oral que prestava.
A mão de Minty a segurava firme pela nuca, mantendo tudo no lugar.
— Gluck... Gluck...
Depois que abriu os olhos, Nina desapareceu e viu Jaan ajoelhado no chão, sendo preso por sua mão em seu membro ainda dentro da boca... Jaan olhava-o nos olhos. Olhou durante todo o sexo... mas Minty, ao ver aquele olhar, desviou e retirou a mão, como quem negava o que acontecera.
— Cof-Caf-...
O amigo ajoelhado tossiu ao retirar o membro, agora flácido, da garganta... sabia que havia sido apenas usado, mas foi sua escolha, foi o que pediu... mas não foi o que realmente queria. Se levantou passando o braço no queixo, limpando o que escorreu e até mesmo caiu na calça e chão.
Virou-se sem dizer nada, mas no primeiro passo se afastando da cama, Tap... Minty segurou seu pulso. Um pequeno sorriso surgiu. Imediatamente olhou para trás. Esperançoso... olhou para trás. Naquele mísero segundo, acreditou que seu amor foi aceito... mas o que viu foi Minty com uma expressão que quase se igualava a nojo do que fez, vergonha do que fez, arrependimento do que... fez... Não o olhava, olhava para o lado, cabeça inclinada:
— Por favor, não conte a ninguém... — sussurrou.
Jaan não tirou o pequeno sorriso do rosto... foi doloroso. Ficou em choque inicialmente, mas ainda era culpa inteiramente dele a frustração. Quem criou expectativa foi ele... não podia culpar o amigo por não cumpri-las.
— Tudo bem... — murmurou baixinho, enquanto Minty se virava de lado, soltando o pulso do melhor amigo.
Jaan voltou para sua cama, apagou o abajur e fechou os olhos, lembrando-se do rosto de Minty se contorcendo, com os olhos fechados e a respiração entrecortada por leves gemidos enquanto ele o mamava.
Tentou esquecer o restante dos acontecimentos. Talvez ainda eram amigos. Talvez no dia seguinte tudo continuaria igual... Deixou-se se perder na fantasia, sentindo-o em sua boca, podendo olhá-lo de baixo... Era sua vez de se tocar... isso era o justo, não era?
No subsolo, o quarto de Rose ficava ainda mais zoneado.
Desde que liberou os alunos, correu na direção da biblioteca, para procurar livros com receitas, ensinamentos mágicos de remédios, drogas... eram escassos, mas tinham. Muitos já se encontravam jogados em seu quarto, lidos inteiramente, até de trás para frente, baixo para cima.
Sabia tudo, mas ainda sim era pouco.
Depois de conseguir mais livros, correu diretamente para seu quarto, passou pela porta guardada próxima da sala de sua mãe, a outra era mais próxima, mas também era mais perigosa de trombar com seu pai.
Se trancou imediatamente quando entrou... assim como tentou fazer todos os dias de sua vida... Usou suas drogas na noite passada, após os abusos... funcionou. Esqueceu-se do que aconteceu. Não entendeu seu corpo sujo, e muito menos seu vestido rasgado, restando apenas a meia-calça.
Dia seguinte, vestiu um novo, mas desde que acordou, sentia algo estranho. Sua cabeça estava estranha... quando saiu do quarto, seu olhar foi ao chão, POW! e uma memória voltou como um tiro, um estrondo.
Colocou a mão na cabeça e seguiu andando para não se atrasar, mas a cada passo uma nova memória de abuso voltava. Durante todo o dia, foi lembrando-se de uma em uma... até lembrar-se de todas.
Em meio à aula, foi difícil manter a postura... tanto que não conseguiu apresentar tudo que tinha para o dia. Sua droga já não valia mais de nada. Seu quarto e todo o subsolo eram os únicos lugares que não havia vida, havia natureza, só pedras mortas, agressivas.
Sua cama parecia que nunca havia sido lavada, fedia mais que carniça. Esperma velho e seres mortos, uma combinação horrorosa. Sua bancada mais arrumada tinha centímetros de pó, nem os pés tinham, eram livros lidos tentando dar suporte para aquela coisa se manter no enquadro.
Manchas de sangue rosa. Papéis amassados. Papéis abertos, o chão era vidros e papéis, vidros de poções quebradas e papéis de testes... Aqueles arranhões contando os dias presas naquele lugar. Centenas... milhares. Uma professora projetada, livros para ensinar quando chegasse sua hora, só foi sair daquele lugar quando atingiu o mínimo que Verde permitia.
Sua única forma de defesa era aquela droga que a mesma criou e produzia. Mas com doses cada vez maiores para surtir efeito, o efeito foi sendo menor e menor, até que percebeu que não iria mais adiantar se encher com aquilo.
A saída temporária até o próximo abuso já não existia. Não havia mais saída. Não havia... precisava de outro, precisava de outro... Tentou drogar-se mais uma vez. Tomou o dobro do que tomou na noite anterior... mas vomitou, não surtiu efeito e vomitou tudo no canto do seu quarto precário.
Chorava desesperada, não tinha tempo para nada... o medo gritava naquela mente fragilizada. Todos os sons que ouvia com os próprios passos dentro daquele ambiente não pareciam ser dela, pareciam ser alguém chegando, seu pai, sua mãe vindo para obrigá-la novamente a algo.
...Desistiu.
Sua procura agora nos livros não era para achar uma droga capaz de substituir a anterior com o mesmo efeito ou um parecido. Agora... buscava algum veneno para matá-la, sem que ela sentisse mais dor.
Encontrou... encontrou um veneno de uma história contando como um rei foi morto e ninguém descobriu... Como escreveram a história então? Durante todo o tempo que criou liberando seus alunos mais cedo, passou estudando e criando o veneno. Precisava ferver no seu pequeno caldeirão, eram muitos passos e não queria de forma alguma falhar.
Sua ansiedade e medo estavam à flor da pele, enquanto, agora, já de noite, finalizava o que iria lhe libertar... Acabou. Passou o líquido brilhante para mais um frasco de poção. Quando uma poção era feita de forma errada, o líquido não se esfriava imediatamente e uma explosão acontecia.
Não foi o caso. O líquido se esfriou em temperatura ambiente. Uma única gota era capaz de matá-la, mas Rose não sabia e não iria arriscar. Queria beber e morrer, e foi o que fez. Ergueu o frasco com sua mão tremendo absurdamente, abriu sua boca, e quando foi virar...
THAAM!
Sua mãe arrombou a porta, entrando no quarto. Mais uma das centenas de trancas que trocara foi destruída... era tarde.
— O que está fazendo, minha filha? Mamãe está preocupada com você.
Rose congelou ao escutar sua mãe... tremia e não conseguia se mover... travou de medo, travou com medo de desobedecê-la e sofrer... mesmo que sua saída estivesse um centímetro de seus lábios.
De forma instintiva, obrigada, respondeu-a cheia de medo:
— E-e-e-eu estou...
A mãe aproximou-se e, com calma, retirou o frasco da mão dela. Rose não reagiu, tremia e a observou colocar o frasco sobre sua bancada imunda. Sentia vontade de correr, segurar aquilo e virar inteiramente dentro de sua boca... mas não conseguia. Traumatizada, sentia que iria falhar e só geraria ainda mais sofrimento.
— Mamãe está preocupada com você, ROSE! — Ao ouvir sua mãe dizer seu nome, foi como um grito dentro de sua cabeça. Ecoou, batendo em cada lado. Ficou atordoada. Sua mãe não gritou, mas escutar seu nome daquela boca era uma ordem agressiva, alta, aterrorizante.
Não conseguia fazer nada além de tremer e chorar.
— M-m-mas e-eu sou uma boa garota, mamãe... — gaguejou, abaixando a cabeça com um olhar perdido. — Por favor, não me machuque. Não me machuque de novo, por favor...
Sua mãe, com um gesto delicado, levantou seu rosto para olhá-la.
— Olhe para mim, minha garotinha. Eu sou boa para você, não sou? — Rose, em meio às lágrimas, encontrou os olhos dela.
— Si-sim, mamãe...
— Mas por que você é uma filha tão inútil?!
Pá!
Deu um tapa no rosto da filha, que, sem reação, permaneceu com o rosto virado.
— Por que está tentando se matar se eu sou uma mãe tão boa para você?! — Pahff! a mãe empurrou-a para a cama e subiu por cima dela, enforcando-a com muita força.
Rose não conseguia se mexer, nem desobedecer sua mãe em nenhum sentido da vida. Mesmo se isso envolvesse ser morta por aquelas mãos em torno do seu pescoço... mas no fim, não era isso que queria? Paralisada, sentia o corpo ficar fraco, o olhar turvo. Aceitava e clamava pela morte... mas sua mãe não iria impedi-la de se matar para dar-lhe o que queria por outras mãos.
— Arrhhf!
Parou o enforcamento... e Rose respirou muito forte, sem querer. Os sentidos voltaram. O lacrimejo nas extremidades dos olhos se mantinham. As cores voltaram pintando sua mãe sobre si e o teto escuro... nesse instante, ela abriu sua boca à força e derramou o líquido de um frasco que ela mesma trouxera.
Dentro, um veneno. O sangue rosa da própria misturado com o do Primordial.
— Glubr-Grrulp!
Obrigou-a a engolir... e todo o corpo de Rose se contraiu. Daquele momento em diante, seu corpo, que nunca fora seu, nunca seria mais. Tanto sua mãe quanto seu pai tinham controle total sobre ela. Rose não conseguia se mover, não somente pelo medo, mas por sua mãe não querer.
Não sentia o controle de nada, além das bolas que chamamos de olhos.
— Não se preocupe, minha menina — A mãe abriu um sorriso enquanto a observava. — Isso é só à noite; mamãe não pode deixar você se matar... você entende minha preocupação, não é, ROSE.
O eco foi devastador. Sua mente se fragmentando como vidro ao cair no chão... Enquanto se divertia vendo o sofrimento dela, Verde entrou no quarto, removendo peças superiores da sua roupa como se fossem de tecidos reais, e não somente sangue.
— Saia — ordenou.
A mãe obedeceu e saiu do quarto, deixando sua filha deitada na cama, incapaz de se mover.
O olhar de Rose mudou para desespero; tentava gritar e pedir ajuda, mas não conseguia emitir som algum. Tentava gritar por Nina, tentava conseguir ajuda, alguma forma de matar seu pai e sair daquele inferno... mas não conseguia atingir Nina com seu poder.
Verde abriu um sorriso amplo.
— Preparou-se para mim hoje? Quer me deixar orgulhoso... Filha?
Rose foi abusada naquela noite... mais uma vez.
Na manhã seguinte, com o mesmo sorriso, entrou em sua sala de aula tentando ser uma boa professora, cuidando de seus alunos e evitando colocar suas vidas em perigo ao revelar o monstro que seu pai era.
Dia após dia, entrava na sala, sofrendo abuso a cada noite e escondendo-o completamente durante o dia. Falar era arriscado. Mesmo tendo plena certeza que Nina era sim uma Primordial, ainda era uma menina jovem. Acreditava que Nina só venceria se o pegasse desprevenido.
Sentia que chegar em sala e revelar para sua turma era muito perigoso. A escola era viva, Verde era cada parede, cada móvel... tinha medo que o mesmo usasse as paredes como ouvidos... Usava, e usava somente a dela.
Escutou quando Nina falou sobre magia escura, riu, mas não se preocupou. Blacko nem no mundo estava. O Primordial Preto havia sido exilado. Os descendentes? Mortos. Quem sentia ódio por ele era Sol, não Verde ou qualquer outro Primordial. Verde não se importava. Não ligava, mas também não propagava nada, provocando os irmãos ensinando qualquer coisa referente à Linhagem Preta naquele lugar.
Despreocupação.
Sua única preocupação era sua brincadeira patética de manter uma escola e usá-la como cardápio para suprir sua necessidade de conseguir um filho homem, através de uma mulher que considerasse bonita. Não ligava se isso fosse vir de uma humana escrava. Também não imaginou que a mãe de Rose engordaria tanto pós-parto. Mas também não imaginou que seria outra inútil que lhe entregaria mais uma filha mulher.
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