Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 5

Capítulo 159: Uniformizada

Quando o sol começou a iluminar os quartos pelas frestas das janelas protegidas com telas e algumas barricadas na manhã seguinte, Minty acordou e foi esquentar a sopa para o café da manhã. Vestiu seu uniforme para voltar à escola e, depois de comerem, saíram.

Assim como no Brasil não era comum usar meia-calça, neste mundo também não era. Apenas humanos das famílias de elite de cada reino e empregadas dos Palácios Reais tinham esse "direito", mas como essa escola era de um Primordial, fazia como desejasse. 

As garotas eram obrigadas a usar saia de pregas, meia-calça, uma blusa e um blazer. Os garotos usavam calça, uma blusa e um blazer. Quase como um terno comum, mas com um pouco mais de fru-fru. A ordem das cores não importava, mas só eram permitidos branco, tons de verde e tons de marrom, com os detalhes da escola sendo em ouro.

Muitos dos alunos não moravam naquela vila, e sim em vilas bem mais distantes, escondidas ou somente muito distantes de lá, mas como a vida sem a "proteção" de alguma ordem de Imperador ou Rei dentro de suas muralhas era muito difícil, a lei do mundo era baseada no poder e força.

Quanto mais poderoso, mais seguro.

Demônios são mais fortes que humanos, mas diante de monstros, feras mágicas — principalmente Feras Lendárias — eles não eram nada. Era mais que um abismo a diferença de um demônio normal para um Primordial.

Os mais fortes dessas vilas tinham o trabalho de proteger os moradores mais fracos — velhos, bebês/crianças e mulheres. Mas ainda sim, era muito difícil saber que a qualquer momento um homem mau, poderoso, poderia chegar e o que era uma vila pacífica se tornar uma pintura de destruição com detalhes de sangue coloridos pelo chão.

Com isso, mesmo temendo que Verde fosse um desgraçado, mandaram seus filhos como uma promessa de proteção futura. O ensino que conseguiriam dar a eles não se comparava ao que imaginavam, caso fosse realmente um Primordial ensinando magia, então os enviavam para lá, para que voltassem mais fortes e conseguissem proteger os homens fracos, velhos, mulheres e bebês dos homens maus que poderiam surgir a qualquer momento.

No caminho, Nina viu uma garota usando meia-calça em um tom de marrom muito escuro até a coxa, saia e blusa verde em um tom muito escuro, com um blazer branco e detalhes da escola em ouro.

Copiou o visual, alterando sua roupa de sangue e continuou andando ao lado de Minty.

"Primordiais são bizarros..." pensou, admirando a Imperatriz de sua linhagem, mesmo com o cabelo verde e não aquele preto absoluto.

Nina não quis mudar suas íris, ainda eram roxas como os da mãe... Isso era perigoso, mas Verde era um medroso, e não viu o olho daquela mulher, no dia que o mundo deixaria de ser o mesmo.

Nina olhava de canto, era estranho. Uma vila tão silenciosa e assustada de repente cheia de adolescentes passando entre as casas e subindo na direção da escola. Uma caminhada morta, como se fossem zumbis indo na direção de um humano com ferimento exposto, no chão, ensanguentado.

Ninguém conversava.

Só andavam como membros de uma seita, um culto macabro.

Passaram pela estátua. Nina reparou que o rosto era idêntico ao seu pai, e de fato era. Só mudava o sangue, a cor do cabelo e olhos. Eram como gêmeos, iguais, mas Blacko odiava isso desde o momento que nasceu e negou suas roupas extravagantes, joias ou qualquer coisa que o fizesse se parecer com os insetos fracos que era obrigado a chamar de irmãos.

Nina reparou na Marca Primordial. Logo desviou os olhos.

Subiram as escadas de ouro, todos os alunos que ainda vinham entraram... e o silêncio desapareceu. Conversas paralelas surgiram, sorrisos, gargalhadas em reencontros com amigos. Nina olhava para os lados com estranheza, atordoada pela dúvida.

Havia alguns corredores, como o que levava até a arena. Todos faziam parecer que estavam dentro de uma floresta ou, no caso, de uma árvore gigante. Tudo era decorado dessa forma, com uma rica vegetação, até mesmo em estátuas de armas, armaduras, joias e escrituras exaltando o Primordial Verde.

As paredes eram vivas.

Aquela escola era viva, era um ser vivo, embora não pensante.

O ar era o mais puro que já respirara... anos em São Paulo, mas nem o do interior de Minas era assim.

Minty guiou a caminhada. Pareciam porcos seguindo o caminho imposto até o abatedouro. Todos seguindo na mesma direção, um corredor que levava até o grande mural revelando o nome de cada aluno e suas respectivas salas do ano.

Verde era um merda como seus irmãos, mas levava a sério seu cantinho. Não ligava para ninguém... nenhum dos alunos, tudo era uma faz de conta, uma brincadeira que gostava de brincar sendo o mestre e controlando todas as peças sozinho.

As salas eram divididas aleatoriamente, não havia meritocracia dos melhores ficar em uma ou algo seguindo as idades, poderia ter um aluno com 20 e uma sala com outros de 10, não dava a mínima. Não era importante, só queria passear pelo lugar e ver a ordem de sua casa sendo imposta.

Enquanto Minty procurava seu nome, dois amigos se aproximaram: o primeiro era um garoto alto igual Minty, com cabelo amarelo e olhos completamente amarelos, sua pele era bem mais clara que Minty.

A outra era uma menina de cabelo curto, não passava do pescoço. Pontas onduladas. Branquinho, algo que não era visto em suas íris. Estas eram rosa-claro, mas um claro tão claro que era óbvio uma mistura de linhagens. Branco com Rosa. Sua pele não era como a do menino, mas assim como todos os demônios, ainda era pálida, embora com tons mais rosados, as vezes até avermelhados.

1,67 m de altura.

Quando viu Minty ao lado de uma garota mais alta, ficou um pouco incomodada, mas não demonstrou nada. Não sabia o gosto do amigo, mas nunca o vira com alguma menina tão perto, a não ser ela mesma.

Se aproximaram.

— E aí? — Tap! O garoto fez um toque de mão com ele.

— Tranquilo?

— Mais ou menos.

Os olhos se desprenderam do amigo e foram ao rosto da amiga:

— Bom dia, Clarah — cumprimentou com um sorriso.

— Bom dia... — respondeu, fazendo um aceno de mão.

— Quem é essa garota? — perguntou o amigo.

Minty, sem saber o que responder, inventou uma mentira na hora:

— O nome dela é Nina. É uma amiga de infância que foi morar em uma vila longe, voltou esses dias e entrou na escola.

"Esse cara não sabe inventar uma mentira." Nina desdenhou.

— Sério? Que legal!

"Nem fodendo." Nina, desacreditada que a mentira tinha dado certo, ficou com um sorriso falso no rosto.

— Ficamos na mesma sala esse ano — comentou Minty.

— Sim, eu vi ali. Vai sentar no fundo de novo?

— Se vocês estudarem mais ao invés de cochichar a aula inteira, eu topo — reclamou Clarah.

— Você que é muito certinha.

— Se você é muito burro, a culpa não é minha.

— EU NÃO SOU BURRO!

— Só pessoas burras tentam provar que não são burras.

— Você que é burra.

Nina e Minty permaneceram encarando os dois.

— Como deu para ver, esse é o meu melhor amigo, o Jaan, e ele é muito, muito burro, e ela é a Clarah, minha melhor amiga — Clarah ouviu e ficou feliz, mesmo que fosse um sentimento estranho, mas não demonstrou nada — seis vezes mais inteligente que eu e o Jaan juntos.

— Como se fosse difícil ser mais inteligente que você — desdenhou Nina.

— Vai me humilhar também? — olhou-a desolado.

— Você já se humilha sozinho. — Minty choramingou com as palavras de Nina, e Clarah e Jaan riram dele.

— Mas em que sala você está, Nina? — perguntou Jaan.

— Na mesma sala que vocês — pensou e respondeu rápido.

— Não vi seu nome na lista.

Nina, com um sorriso no rosto e os olhos fechados, respondeu calmamente, embora quisesse cometer um assassinato:

— Entrei hoje, ainda não atualizaram as minhas informações. Hihi...

Ah...

— ...

— ...

— ...

— ...Vamos pra sala então? Já de...

Aham — Nina interrompeu Minty e virou-se... mas não sabia onde era e virou-se novamente. — Onde fica?

— Por aqui — respondeu Minty e saiu na frente.

Os quatro foram para a aula, mas não houve a primeira aula; o período inicial foi dedicado para os alunos se enturmarem — caso não se conhecessem — e para a apresentação da professora que iria ficar com eles o ano inteiro, Rose.

A mulher era diferente: seus cabelos eram de duas cores, a metade superior era verde e da metade até as pontas, rosa, era curto, mas não a ponto de Alissa ou Clarah, o dela passava um pouco dos ombros. Usava franja. Seus olhos eram marrons com um toque de verde. Pele pálida e seu vestido era igual aos das outras mulheres que "trabalhavam" na escola, um vestido estilo canelado vertical, bem elegante, que cobria toda a perna esquerda, mas havia uma fenda na perna direita, descendo do início da coxa até o pé.

Uma meia-calça presa no meio da coxa, permitindo a pele ser vista, além do ar sexy do conjunto. Um decote extremamente generoso nos seios fartos, não havia sutiã ali. Mas diferentes das outras, Rose usava um colar com o símbolo da Marca Primordial Verde.

Seu vestido era verde-escuro, bordas da área superior em ouro, na borda da fenda da perna, subindo até a cintura, mais ouro. Na perna coberta também erguia-se um desenho aleatório em ouro. Não havia padrão, só ostentação. Um anel de braço em cada um, igualmente de ouro. Assim como os uniformes dos alunos, ela poderia ir com qualquer cor das permitidas, mas aquele vestido, exatamente daquela forma era obrigatório para todas as professoras... Não existia professor naquela escola.

Os únicos homens que por ali passavam eram soldados, guardas subordinados de Verde. O restante dos funcionários eram mulheres jovens, sempre tendo entre 22-33 anos pela fixação que aquele ser tinha por essa idade.

Rose se apresentou rapidamente, sem exigir muita atenção, pois era uma aula vaga e ela sabia disso. Seu rosto meio com preguiça, braços cruzados e olhos fechados na primeira interação. Depois que saiu da sala, Nina e os outros ficaram no fundo conversando sobre assuntos variados.

No segundo horário, voltou para a sala, que se encontrava em silêncio reverente, aguardando os primeiros ensinamentos do ano. Muito dedicada, planejou todo o material que iria passar durante cada um dos meses, e naquele, tentaria ensinar a cada um cada uma das magias elementais de cada linhagem.

Passou um bom tempo comentando sobre a peculiaridade de cada elemento... mas cortou o escuro, e Nina não gostou muito ao perceber que também faltava o oitavo, que Minty comentara. Seu desinteresse visível no rosto. O sangue trabalhando sozinho, adquirindo as informações e jogando nas memórias dela. Ela mesma não queria escutar por si só, nada daquilo.

Sendo descendente mista das linhagens Rosa e Verde, demonstrou um exemplo de mesclagem de poderes após um tempo: criou raízes e adicionou o poder do sangue rosa, que produziu um aroma agradável e fez lindas flores desabrocharem nas raízes que criou. Rosas que tinham o poder de seduzir pessoas — homens ou mulheres, independentes de sua raça —, se bem quisesse... mas claro, quanto mais fraco, mais fácil de ser subjugado, mas quanto mais forte, mais difícil seria.

— Demônios mestiços como eu, que possuem dois tipos de sangue, têm mais facilidade em mesclar magias — explicou, manipulando os galhos que continuavam se expandindo com graça e beleza, as flores desabrochando, o pólen sendo jogado, os raios solares passando pelas janelas e dando àquela demonstração belíssima de magia ainda mais beleza.

— Apenas quem possui dois tipos de sangue consegue? — perguntou Clarah, estendendo o braço ao teto como sempre era necessário ao questionar as professoras. Sentada em sua carteira, aquilo era um tronco maciço. Uma peça linda esculpida para cada aluno. Cada canto daquela escola era cheio de verde, cheio de vida, cheio de plantas e matos belos... uma imagem longe do que era o criador daquilo.

— Não. Só é mais fácil. Vocês também podem aprender outras magias que não são da sua descendência. Por exemplo: água — criou uma bola de água em sua mão e, enquanto movia a mão, a água deixou um rastro no ar — fogo — Clap! bateu uma palma na água e, ao separar as mãos, criou fogo — todas as magias são possíveis de aprender, só é necessário tempo de estudo.

— E magia escura? — Todos olharam para trás, em direção a Nina... quase deitada na cadeira. Preguiçosa, sem ânimo. Não erguia o braço. Cheia de preguiça de precisar ficar em mais um teatro escolar, agora por 25 dias até o tal torneio que Minty prometera.

"O que você tá fazendo?" Minty olhou para ela com os olhos bem abertos. 

— Não entendi, jovem. Pode repetir? — Rose parou a demonstração e cruzou os braços novamente, apoiando-se um pouco. Era desconfortável usar aquilo. Não sentia olhares maliciosos, mas não era o tipo de roupa que usaria se não fosse obrigada.

— Magia escura. Tem como aprender? — resmungou novamente.

— Isso... Isso é proibido. O uso dessa magia pode... pode levar à morte — comentou com receio visível em seu rosto.

"Mente mais que tá pouco." — Entendi. Obrigada por tirar minha dúvida — deu um sorriso em resposta e revirou os olhos.

— Claro, sem problemas, mas... por que o interesse?

— Sei várias magias, mas não consegui encontrar estudos sobre magia escura.

— Sabe várias? Teria como mostrar algu...

Nina apareceu atrás da professora, costas nas costas.

— Como qual? — resmungou, mas para Rose foi quase um rugido ameaçador que sua mente captou.

Rose virou-se lentamente e olhou para Nina.

"Quê?"

A sala ficou em silêncio, todos observando tal cena.

"Não consegue ficar quieta, não, garota?!" pensou Minty, já quase ficando careca de preocupação.

— Qual magia você quer ver?

— Nã-não é mais necessário. Pode voltar ao seu lu... — Nina desapareceu e apareceu sentada em sua cadeira no fundo da sala com seus colegas, apoiando a cabeça para trás, na cadeira, com uma expressão entediada.

"Preguiça de escutar mais blá-blá-blá de magia fraca..." resmungou em sua mente.

A turma percebeu que ela tinha desaparecido e olhou para trás. Quando todos a viram, Ding... Dong... o sino mágico tocou, anunciando o segundo intervalo — o do café da manhã —, e todos se levantaram imediatamente. A professora, confusa e ainda assustada, olhou para Nina e saiu da sala junto com os alunos.

— Gente, vocês poderiam me esperar no refeitório?

— Não vai vir junto não?

— Preciso falar algo com a Nina... 

Aah... Entendi. — Jaan e Clarah saíram na frente.

"O que ele quer falar com ela?" Clarah, cheia de dúvidas, pensou... Percebera que Minty olhava de uma forma diferente para Nina, o que a deixava muito insegura. 

A sala ficou vazia.

— Você é retardada? — Minty cochichou gritando, gesticulando com as mãos, olhando para Nina, que permanecia com uma expressão despreocupada e um pedaço da língua no canto da boca, zoando com ele.

Ficou sério.

— Tô zoando... Ah... Que fome, vamos comer logo! — Rrrromm! Nina colocou a mão na barriga, que roncou, e olhou para o teto com a boca aberta. Não parecia ela, parecia outra pessoa. Outra personalidade. Não o ameaçava, agora só enchia o saco como uma menina mimada.

— Você não pode chamar tanta atenção assim — repreendeu-a em tom baixo.

— Tá, tá, seu chatão. Vamos logo. Onde fica a comida?

Minty encarou-a notando que a Imperatriz não estava levando aquilo nem um pouquinho a sério. Indo para o refeitório, deram de cara com uma mulher, a principal administradora da escola. 

Seus cabelos e íris eram inteiramente rosas. Era bem mais baixa que Nina, tinha 1,56 m além de ser bastante gorda, parecendo um barril amassado. Assim como Rose, usava um vestido igual, embora verde-claro, mas nela aquela peça bonita e bem sexy parecia uma roupa feita para deixar o sacrifício que ofereceriam mais apresentável a algum Deus que gostasse de leitão bem alimentado.

"Não é possível..." Minty, nervoso, começou a suar frio.

— Garota, você é nova aqui? — o leit... a mulher que não reconheceu o rosto da Primordial, perguntou confusa.

— Sou.

"Respondeu a verdade ainda?!" Minty tentou manter uma expressão normal. Aquele sorriso era claramente o mais falso e medroso que já fizera.

— Não lembro de ter aceitado sua matrícula. Poderia me seguir até minha sala?

— Claro! — Nina deu um sorriso e a seguiu.

A administradora entrou em sua sala, depois de guiá-los até uma área pouco movimentada da escola. No fim desse corredor, não havia outros. Só havia uma porta única, sendo guardada por dois guardas. Era distante, não era possível ouvi-los daquela distância, mas Nina acompanhou a mulher e entrou na sala... já Minty, Pahf... desabou.

A alma quase saindo de seu corpo de tanta preocupação.

Os guardas ao longe não entenderam, se entreolharam rapidamente, mas não saíram de suas posições. Mantiveram-se em pé, em silêncio e com seus escudos na mão esquerda e suas lanças na direita, prontos para um confronto — algo que nunca acontecera.


No refeitório, Clarah ficava olhando para a entrada principal — o corredor onde o "casalzinho" fora interceptado —, mas os dois não apareciam. Com sua mente trabalhando contra o time, imaginou os dois se beijando no fundo da sala e sacudiu a cabeça rapidamente em resposta. 

"Não! Não! Óbvio que não!" tentou negar.

Jaan olhou de canto.

— Será que estão se pegando no chão da sala uma hora dessas? — soltou.

OE! OE! — Clarah olhou para o amigo com um olhar ameaçador.

— Foi mal...!

O jovem olhou para a comida dela, Vap e deu uma colherada.

— Já que não vai comer, eu como! Nhami! — e comeu.

Clarah se irritou.

— Vou quebrar tua cara! — Pafth! pulou nele, o enforcando no chão — Não roube minha comida, seu merda!

Os alunos ao redor começaram a gritar, vendo a menina por cima do menino, estrangulando-o sem pena.

— Briga! Briga! Briga!

— 90 moedas de bronze na doidinha de cabelo branco, hein. Quem dá mais?


Nina saiu da sala da administradora andando normalmente, mas com um rosto muito abatido... Minty ainda no chão, mas agora desmaiado, com a alma quase saindo pela boca arreganhada. 

?

Minty escutou a voz dela, Cshuuuuu... engoliu a alma e se levantou rapidamente.

— O-o que aconteceu? — gaguejou muito preocupado.


[ — Por que está fingindo estudar aqui? — perguntou em tom agressivo, testando Nina. 

— Queria muito entrar nessa escola, mas como as aulas já voltaram, fiquei com medo de não me aceitarem... — Nina fez um rosto fofo, com seus olhos arregalados, pidões. Usou de fofura e vitimismo, tentando mudar aquele semblante rígido que o olhava. Um tom quase infantil.

"Ain, que fofinha!" — Não se preocupe, mocinha, vou fazer sua inscrição agora mesmo! — A administradora mudou de feição imediatamente. Não aguentou a fofura e quase destruiu a cadeira ao se movimentar com pressa atrás de uma ficha para que Nina pudesse ser oficializada Propriedade do Primordial Verde.

Depois de preencher a idade e algumas informações, Nina finalmente foi liberada para sair... Não notou as entrelinhas, não deu a mínima, mas deu sorte. Tudo era um faz de contas, aquilo não era um pacto, um ritual ou um contrato mágico. Era só um papel na brincadeira que Verde gostava. Tendo todas aquelas crianças, adolescentes e mulheres sendo sua propriedade pessoal. Uma espécie de consenso para fazer o que quisesse.

Pactos assim eram conhecimentos mágicos de Bruxas... Verde era burro demais a ponto de saber da existência disso.

Antes de sair... virou-se rapidamente jogando o cabelo, olhando-a, fez um coração com as mãos, uma pose fofa, Mwah! e mandou um beijinho para a administradora, PÁHF! que caiu para trás, regaçando as banhas e quase rachando o chão de madeira maciça, encantada com a fofura.

"Que otária." desdenhou e saiu.  ]


— Fui expulsa — respondeu com uma expressão séria e triste. 

Pahf...

Minty caiu de joelhos, e sua alma começou a sair novamente.

— Tô zoando. Fui matriculada e agora posso ficar tranquila.

Cshuuuu... respirou aliviado e sua alma voltou para dentro.

— SÉRIO?! Pensei que tivessem descob...

Nina colocou um dedo nos lábios dele, Pha... o empurrando e pressionando contra a parede.

Shhh. Para de gritar, ainda mais isso. Aqueles dois podem escutar — sussurrou baixinho, evitando olhar até de canto para os guardas ao longe para não estranharem nada.

Rrrromm!

Seu estômago roncou e ela tirou o dedo dos lábios dele.

Aah... Que fome, vamo comer logo. Onde é o refeitório desse lugar?

— O-o quê? — Minty não escutou direito, se perdeu na beleza dela quando foi feito de "moça". 

— Tá surdo? Tô com fome, vamos lo...

Ding... Dong...

Aaaaaah, que merda! — colocou as mãos nos ombros dele e o sacudiu frustrada. — Tô com fooOooOOOome!

Depois de ser balançado até ficar tonto, respondeu tentando fazê-la parar:

— Calma! Deve ter sobrado algo no refeitório.

Não viram nem os mais atrasados voltando para suas salas. Todos eram bem pontuais. Disciplina com horários e obedeciam muito seus superiores. Não havia desrespeito, eram muito educados quanto aos funcionários. Chegando lá, a moça permitiu que eles pegassem uma fruta e os mandou embora... mas o tom era apressado. Aquele olhar era estranho, Nina sentiu que a mulher sentia medo... mas do quê?

Ficou olhando de canto um tempo para uma das cantineiras, tentando entender. Era estranho todas as mulheres usando roupas assim. Era algo sexy demais para ser o uniforme de funcionárias de uma escola. Qual o sentido? Depois que chegaram no corredor, olhou para a fruta com nojo, Nhac mas a comeu mesmo assim.

"Aparência horrível, mas não é tão ruim."

Chegaram bem atrasados na sala... e o pior para Clarah aconteceu. Todos por um momento começaram cochichar e brincar que os dois haviam chegado juntos. Isso alimentou as inseguranças da melhor amiga. Rose logo assumiu o controle da aula, Minty e Nina sentaram-se e Nina viu um olhar rápido que a professora jogou em seu rosto, antes de removê-lo... foi estranho, mas a aula continuou como se os eventos antes do intervalo não tivessem acontecido.

O tédio voltou, a dúvida exalava... mas ainda sim, Nina não havia visto seu tio em momento algum... e isso a preocupava.

"Cadê esse tarado filha da puta?" Embora não tivesse interesse de lutar inicialmente, queria entender se Verde era amigo ou inimigo. Descobrir se era uma pessoa decente ou não. Mas vendo a escola, sua concepção pelo tio era que não passava de um tarado, podendo ser coisas ainda piores que isso. 


Após as aulas, já era bem tarde e a noite caía. 

Nina se dirigia até os dormitórios femininos que Minty lhe indicara quando Clarah a chamou:

— Nina?

— Oi, Clarah — respondeu com o corpo meio de lado, olhando para trás.

— Você já tem parceira de quarto?

— Não tenho não. Nem sabia que tinha isso.

— Eu não tenho uma dupla, quer ficar no mesmo quarto? 

— Pode ser — respondeu e abriu um sorriso.

Chegando no quarto, Nina arrumou sua cama e se deitou. Clarah não entendeu muito bem. Ficou olhando-a enquanto trocava suas roupas por outras mais confortáveis de dormir, em seu armário.

"Vai dormir de uniforme?" pensou, mas não perguntou. 

Era pequeno, com uma cama de solteiro em cada lado, um pequeno criado-mudo ao lado com um abajur diferente feito de metal simulando uma planta. Entre os criados-mudos, havia uma janela. E como toda a escola, raízes e plantas eram intensamente presentes na decoração e paredes.

Não demorou muito... foram pouquíssimos minutos das duas deitadas em suas respectivas camas, e Clarah murmurou para Nina:

— Nina... Você gosta do Minty?

Nina abriu os olhos tediosos.

"Sabia." — Não. Ele é só um amigo e eu já tenho namorada.

Clarah se sentou na cama, seu abajur acendeu e o olhar surpreso se fixou na garota deitada.

— NAMORADA?! — exclamou espantada.

Nina se sentou também, olhando-a de volta.

— Sim. Mas não sei onde ela está ou se está bem.

— Faz tempo que não a vê? 

— Desde que vim para cá — respondeu e deitou-se novamente, agora olhando para o teto.

— Entendi... Você vai se reencontrar com ela! Talvez em umas férias você possa viajar até onde ela mora! — comentou tentando animá-la.

— É... Talvez. Mas por que a pergunta se eu gosto do Minty? Você gosta dele? — olhou-a de canto.

— Sim. Desde que o encontrei na escola pela primeira vez e ele veio conversar comigo.

"Sem rodeio?! Milagre isso..." — Mas por que não diz a ele?

— Porque acho que ele não gosta de mim dessa forma e me declarar pode ser ruim pra nossa amizade — respondeu meio sem jeito, tom abatido.

Nina lembrou-se de Nino falando para ela contar a Nathaly.

"Sou uma hipócrita..." — Eu te entendo perfeitamente. Um dia você vai conseguir dizer a ele, e espero que ele aceite o seu pedido — falou de forma suave.

— Talvez sim... Mas ter ele como meu melhor amigo está sendo o suficiente para mim... — Escorou-se sentada na cabeceira, braços baixos.

— Eu não conseguiria ver a Nathaly com outra pessoa, seria doloroso para mim — comentou com o olhar perdido fixo no teto.

— "Nathaly"?

— Sim. Minha namorada se chama Nathaly — virou o rosto na direção de Clarah e a menina ficou embaraçada. Teve uma reação de vergonha, ficou toda torta, corpo levemente para trás, e ergueu o braço esquerdo coberto por uma blusinha comprida, até atrás da cabeça. Rosto e olhar nitidamente envergonhado com o tema "namorada" no ar.

Era impressionante o equilíbrio, não caiu para trás mesmo com o corpo nitidamente sem apoio. Cada gota de sangue se aqueceu.

"Que símbolo é esse? Tá tentando sensualizar?" Nina não entendeu muito aquela reação. Do nada um carão envergonhado, o número quatro feito com dedos mais estranho que já presenciara. — Não sou um perigo, relaxa. Não vou comer você — brincou, o que piorou o rosto da jovem, que ficou ainda mais rosado pelo sangue rosa-claro. 

— V-v-v-você... Como soube que gostava de garotas? Qual sua idade?

Nina desviou o rosto, voltando o olhar para o teto.

— Tenho 18. Descobri no momento que olhei para ela. No instante que meus olhos caíram nela, eu sabia que era ela que eu queria do meu lado para o resto da vida.

...Ah. Tenho 18 também.

Uhum. Imagino que com Minty foi a mesma coisa.

— ...Sim. Ele me ajudou a subir as escadas lá de fora e se apresentou pra mim. Achei ele muito bonito... — comentou ficando corada. Juntou as pernas e as abraçou, escondendo o rosto como uma típica garota apaixonada.

— Gosto horrível — brincou.

— Ei! — repreendeu em brincadeira.

Nina soltou uma risada leve e Clarah ficou mais tranquila em relação a ela. Saber que ela não tinha interesse em Minty deixava-a feliz, embora isso não mudasse seu medo de se declarar.

— As aulas de amanhã são no mesmo horário de hoje?

— Sim... assim que o sol nasce começam.

— Tá bom... boa noite então.

Uhum! Boa noite, Nina — respondeu em tom suave.

Paff...

Clarah se deitou feliz... Já Nina ficou um tempo olhando para o teto, pensando em reencontrar seu amor e também seu estresse. Com Nino e Nathaly em mente, fechou os olhos e virou-se para o lado tentando dormir.


Enquanto toda a escola começava a dormir, Rose descia as escadas protegidas por guardas no corredor sem saída da sala da administradora que fez a ficha de Nina. Chegou no subterrâneo. Duas portas — uma à esquerda e outra à direita. À direita, seu quarto. À esquerda...? 

Entretanto, em frente ao seu quarto, o Primordial Verde, Tic, Tic, Tic... batia levemente a unha do indicador direito. Suas camadas e mais camadas de roupas de sangue. Joias e a roupa mais extravagante que conseguia imaginar para criar e enfeitar-se.

Não usava detecção de presença. Não sentia medo e nem sentia necessidade disso. Mas quando Rose olhou para suas costas, era impossível não sentir-se ser observado. Olhou na direção dela. Um sorriso gentil surgindo em seu rosto. Um olhar amoroso para com sua filha.

Rose caminhou rapidamente na direção dele. Era notório uma pressa para falar algo importante:

— Papai, uma al...

O Primordial Verde ignorou sua filha, deu um passo ficando mais próximo. Os Primordiais, mesmo podendo assumir a aparência, forma e altura que quisessem, tinham um padrão: os homens sempre mantinham 2,10 m e as mulheres 1,90 m... Rose tinha 1,70 m. Somente sua altura era necessária para reprimir uma pessoa. Pousou a mão direita sobre a cabeça, Rose calou-se.

Deslizou os dedos pelas mechas... Rose abaixou a cabeça de forma instintiva. Algo voltava, um medo voltava, um medo que escondeu, que forçou-se a esquecer. Seu pai segurou seu queixo e forçou-a a erguer o rosto. Agora acariciava os lábios da menina recobrando as memórias e quase começando a chorar de medo.

Shh... Silêncio. Faz tempo que você não me visita. Era tão obediente quando mais nova.

O efeito da droga estava passando, Rose cada vez sentia-se com mais medo. Cada segundo que aquele toque continuava as memórias antigas dos outros abusos voltavam como flashes em sua cabeça... Doía, doía e doía... mais drogas, mais drogas iria precisar mais uma vez... para esquecer aquilo mais uma vez.

— Papai, por fav...

O Primordial tapou a boca dela com a mão, aproximando seu rosto do dela.

— Não deixei você falar nada. Não veio me dar um presente esta noite? O que veio fazer aqui além disso?

Pmnm... — tentou falar, mas saiu abafado.

Pá! 

A marca da mão dele se tatuou no rosto dela, Pah... Rose caiu no chão. Verde a segurou com força, Rarrrrsg! e rasgou todas as camadas de tecido do vestido dela.

— Papai, não, por favor, me escuta! — A porta à esquerda daquele cômodo se abriu, e a administradora que havia dado a vaga para Nina entrou. — MÃE, SOCORRO! — Rose viu e berrou...

A mãe de Rose, ao ver a cena, abriu um sorriso.

— Deixa eu participar disso, Verde?

...Rose ficou paralisada, com uma expressão de medo, incapaz de reagir. Até então, só os abusos de Verde voltavam em sua mente. Mas quando sua mãe abriu aquele sorriso, foi como um raio caindo e mudando todos os cenários, todas as vezes que ela viu aquele sorriso, gritou por ajuda e apenas sofreu mais.

Rose permaneceu imóvel, ouvindo os sons de seu corpo sendo usado pelo seu próprio pai e pela sua mãe, assistindo, ansiosa ao lado.

Lágrimas surgiam em seus olhos, mas nenhum som de choro saía de sua boca; apenas esperava que seu pai acabasse aquilo mais uma vez. Tornou-se uma boneca sem vida, sem voz, sem expressão, sem esperança.

Depois de vários minutos, Verde terminou, mas não parou. Continuou tocando o corpo dela enquanto ela se sentia enojada e com vontade de vomitar a cada toque. Finalmente, ele se levantou, observando sua filha suja no chão.

A administradora lambia a sujeira que Verde havia deixado no corpo da jovem adulta.

Lágrimas involuntárias voltaram a surgir.

Verde a observava de cima, vendo a mulher lambendo o esperma no corpo, como uma porca gorda, se alimentando de lavagem.

— Você sabe que, se tentar sair da escola, vou matar todos os alunos que você já deu aula, não sabe? — Rose ouviu claramente aquelas palavras e apenas continuou chorando, paralisada. — Não escutei um "sim, papai".

— Si-sim, papai... — respondeu, levantando-se parcialmente do chão, machucada e abalada, enquanto sua mãe ainda a lambia, com sons horripilantes, grotescos.

— Volte para seu quarto e sonhe comigo, minha filhinha.

— Si-sim, papai... — Rose se ergueu quebrada, se virou, recolhendo suas roupas rasgadas do chão e se dirigiu ao seu quarto.

Lá, fechou a porta tentando se manter de pé, Phahf... mas caiu sentada no chão, tentando ao máximo não fazer barulho com o choro... Seu quarto era uma zona. Móveis quebrados, poções espalhadas, derramadas, quebradas no chão, livros de receitas mágicas e pó mágico espalhado para todos os lados. Arranhões agressivos de unhas nas paredes... A razão daquele caos retornou em mais uma noite dentro da sua cabeça destruída. Lembrou-se do porquê aquilo ficou assim. Do porquê fez aquilo. De como se encontrava por dentro quando destruiu seu único "porto seguro". 

Verde saiu do cômodo entrando na porta à esquerda acompanhado pela mãe de Rose. Nesta nova sala, havia material de tortura, maquinários e duas jaulas cheias de escravos, tanto mortos em pilhas cheias de larvas como vivos. Duas jaulas: crianças e mulheres humanas em uma, e os homens na outra.

Seguindo uma linha reta da porta onde entraram, havia uma escada que dava a outra porta que concebia a entrada direta até o subsolo onde estavam. Outra porta igualmente protegida por guardas o dia inteiro.

Ao verem a entrada deles, os escravos começaram a chorar e a gritar. Os homens tentavam quebrar as grades à força, mas era tudo em vão; tudo o que podiam fazer era olhar, ameaçar ou implorar:

— NÃO! POR FAVOR!

— VAI EMBORA!

— SAI DE PERTO DELAS!

— EU VOU TE MATAR! DESGRAÇADO!! 

Berravam e clamavam cada vez mais alto ao verem Verde se aproximando das celas onde suas famílias estavam... Impotência. Não tinha o que fazer senão fechar os olhos e tentar não ser quebrado pelos gemidos de dor e angústia que seriam produzidos novamente.

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