Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 5

Capítulo 161: Sacrifício

Naturalidade.

Sorriso. Postura. Didática. Sons codificados, odores direcionados e Nina ainda tentando entender o que era o sentimento estranho sobrevoando sua atenção. Não os liberou mais cedo, foi aprisionada e não restava nada além de tentar ser a professora exemplar que sempre fora.

Chegou o início da noite, liberou os alunos e seu corpo movia-se quase que sozinho, seguindo a direção de uma das portas guardadas para o subsolo. Nina olhou-a dobrar o corredor, Clarah ao seu lado não entendendo muito aquele olhar estranho.

Foram aos dormitórios.

Em meio aos alunos indo e voltando, Minty se perdeu de Jaan. Acreditando que o amigo seguiu até o quarto, apressou o passo. Chegou. Abriu. Entrou. Não o encontrou. Toc, toc... alguém batia na porta. Virou-se... abriu.


Olhar caído. Cabeça meio baixa. Jaan entrou no escritório do Primordial, e Verde ergueu-se do quase trono, atrás de uma mesa rústica e ostentadora. Caminhou até o jovem adulto. Jaan parou no meio da sala, em meio a um tapete luxuoso. 

— Mandou me chamar?

Verde se aproximou muito, quase o tocava, enquanto respondeu:

— Fiquei chateado... Me ignorou ontem de tarde, e sinto o cheiro de outro em você. Quer mesmo que eu salve sua irmã? Por que está fazendo isso escondido com outro? — Segurou o queixo do menino, erguendo aquele olhar torto para o lado. Jaan não queria olhá-lo, uma parte de si já havia desistido da promessa lhe posta.

— Desculpa — sussurrou... e sentiu Verde alisando seus lábios com o polegar.

— Tem uma pessoa vindo. Esconda-se atrás da estante de livros — ordenou.

Jaan não respondeu, somente obedeceu veementemente.

Verde sentou-se novamente e Minty entrou no escritório:

— Mandou me chamar, diretor? — apresentou-se posturado como sempre fora instruído.

Jaan travou quando ouviu a voz do melhor amigo... sentiu medo, sentiu seu estômago embrulhar. Não sabia o que Verde iria fazer, mas tentava criar coragem de sair dali de trás e defendê-lo... Não conseguia criar coragem para se defender, mas sacrificaria sua vida por ele?

— Sim, aproxime-se mais — ordenou, e Minty chegou próximo da mesa.

Desconforto. Tentava manter o máximo de concentração para manter o interior da boca em verde. Um descuido e seu disfarce iria acabar. Anos e anos sem nunca trocar mais do que um cumprimento com o diretor nos corredores, agora diante dele...

"Deu merda... Deu merda... Tenho certeza que deu merda..."

— Minty, certo?

— Sim, senhor.

Verde saiu de sua postura firme, afastando um pouco a poltrona para trás. Tap, tap... deu dois tapinhas em seu colo.

— Sente-se aqui, meu filho — sorriu ao ordenar.

Minty sentiu-se ainda mais acuado, mas não tinha como desobedecê-lo.

— Sim, senhor.

Passou pela mesa, e sentou-se no colo do Primordial. Seu olhar aflito, medroso. Costas para o diretor. Verde começou a passar os dedos pelo cabelo, alisava-o pelo corpo superficialmente enquanto soltava pequenos sons estranhos.

— Não me chame de "senhor", me chame de papai. Você é da minha linhagem, não é?

— S-sim...

— Então eu sou seu papai. Seus cabelos são tão lindos... quantos anos você tem, meu filho querido?

— Vi-vinte...

— Não respondeu direito.

— Vi-vinte, papai...

Minty sentia muito medo. Não entendia o que estava acontecendo e Jaan continuava travado, observando de uma fresta, vendo que provavelmente o culpado de Minty estar sendo um alvo foi ele ter ignorado o diretor.

Aah... 20 aninhos? Não chegou na idade certa ainda, uma pena — respondeu com um tom levemente enojado, os toques se cessaram. Segurou a cintura de Minty e ajudou-o a ficar de pé. — Você é um rapaz muito bonito, Minty.

— O-obrigado, papai...

— Venha, me dê um beijo na bochecha de despedida e pode ir — ordenou, virando o rosto... e Minty, aflito, se aproximou. Mw... encostou seus lábios na bochecha do diretor e afastou-se quase tremendo. O Primordial virou o rosto na direção dele, sorria, mas aquele sorriso era muito esquisito.

Com o rosto, deu uma leve jogada indicando que o menino podia sair.

Minty curvou o corpo e virou-se, tentando não parecer afobado na saída, mas assim que saiu, seu pensamento foi a milhão... uma preocupação absurda surgiu para com Clarah, e o menino correu com todas as forças, lacrimejando na direção dos dormitórios femininos.


— Saia — ordenou.

Jaan saiu de onde se escondia e se posicionou em pé, diante da mesa.

— Eu sempre soube que aquele menino fingia ser da minha linhagem...

Jaan sentiu aquilo. Seu corpo não mentia que ficou desconfortável, e Verde amou isso. Sorria enquanto continuava, falando e vendo-o de cabeça baixa, em uma tentativa patética de esconder qualquer lágrima que se criava sem controle:

— Eu nunca senti ódio, raiva ou vontade de matá-lo pelo que meu irmão fez. Sinceramente, eu nem ligo para o meu querido irmão. Com o tempo comecei a entendê-lo, toda aquela raiva... Só que ainda não consigo entender o porquê ele era assim desde o primeiro dia que nascemos. O porquê aquele merda sentia tanta vontade de nos matar... mas enfim — terminou sem o sorriso, um sentimento de angústia para com Blacko roubando sua excitação em provocar aquele menino.

"Talvez ele soubesse desde o início que vocês seriam um bando de desgrRAÇADOS FILHOS DA PUTA!!" Jaan rosnou em sua mente... começou baixo, mas explodiu. O corpo tremeu em ódio... mas não tinha coragem de verbalizar tudo aquilo. 

Verde pousou a mão direita no ombro dele, segurando e apertando de forma maliciosa.

— Acho que você já entendeu onde vai chegar — rosnou.

— O-o quê? — Jaan ergueu o rosto, olhando assustado para cima, diretamente no rosto daquele ser... que desceu fechando os olhos. Mwah... Jaan queria recusar o beijo, queria se desprender, queria parar de sentir aquela língua invadindo e tocando na sua... mas não podia. O Primordial parou o beijo segundos depois, e o menino desceu o rosto, com medo de deixá-lo para cima de novo.

Verde segurou o queixo e o subiu novamente.

— Quero você aqui... todas as noites depois das aulas. Vamos nos divertir muito, e se você faltar um único dia, vou me divertir bastante com Minty... antes dele quebrar... e eu o matar na sua frente — ameaçou com um sorriso sádico.

O rosto de Jaan não conseguiu segurar as contrações das lágrimas impiedosas querendo se formar. Queria chorar, pequenos lacrimejos sendo reprimidos se formavam... e Jaan quase choramingou:

— Vo-você é um mentiroso...

— "Mentiroso"? — perguntou debochadamente.

— Vo-v-você diz que vai salvar a minha irmã há quatro anos... Você não vai ir salvá-la, não é?

Ooh garoto... foi perceber isso só agora? — Verde soltou uma gargalhada vendo aquele rosto todo molhado de lágrimas... Jaan tentando segurá-las, tentando ser forte apertando os punhos a ponto de quase sangrarem.

— Mentiroso... seu mentiroso desgraçado...

Verde o olhou seriamente, bem no fundo dos olhos:

— Fala assim mais uma vez e eu vou até lá agora e eu mesmo a mato.

Jaan soluçava tentando segurar tudo... e Verde fez uma expressão de dó, acariciando o rosto choroso do menino fragilizado.

— Entendeu? Não fique zangado comigo. Eu poderia ter feito Minty me beijar na boca, ter mandado me chupar. Mas eu respeitei você e só pedi um beijo na bochecha. Não fica feliz por isso? — sussurrou carinhosamente, enquanto acariciava os lábios. Jaan afirmou com o rosto, embora com a alma negasse. Fizera um pacto com o capeta e não havia mais como voltar atrás... não mais. — Eu gosto muito de você, Jaan. Não quero vê-lo mal... Só queria que olhasse para mim como eu gostaria. Você é tão lindo... nem na idade certa chegou e eu já te acho tão lindo... Queria muito que você fosse meu filho. Queria muito que você fosse o herdeiro do meu poder, meu querido.

Mesmo sendo um doente... não havia mentiras naquelas palavras.

— Se eu fosse seu filho... me obrigaria a tudo isso? — tentou encontrar uma saída.

— Claro que sim, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Jaan, Jaan... isso era o meu sonho. Era o meu sonho que você tivesse o meu sangue. Que você fosse meu filho querido. O meu favorito... o meu único menino. Eu ia te ensinar tudo que sei, iríamos brincar, lutar. Eu iria usar seu corpo inteiro. Mostrar como fazer tudo, depois tudo em mim. Quando você finalmente chegasse nos 100 aninhos, eu iria me suicidar para que você pudesse herdar o poder do seu papai.

Jaan ficou horrorizado escutando aquilo. Vendo aquele sorriso. Aquele ânimo. Aquela entonação doentia. Sua irmã poderia estar sofrendo. Poderia estar morta, não sabia. Sua única esperança era conseguir ajuda de um ser forte, mas confiou nos seres mais mentirosos existentes... Um único erro o colocou em uma nova chantagem.

Desceu o rosto, Verde o forçou a erguê-lo novamente.

— Me diz! Me diz se isso não é um sonho?! — perguntou muito animado. Um sorriso, olhos largos, segurando o rosto do menino com as duas mãos na direção do seu rosto.

— Sim...

Verde sorriu muito feliz. Ssrcc... raízes bloquearam a porta por dentro. Não precisou olhar para saber. Quando Verde soltou seu rosto já sabia o que iria vir... Fush... os tecidos inferiores caíram ao chão... não olhou. Seu olhar morto era inerte à frente. Verde ergueu-o mais uma vez. Mwah... o beijou e o menino sentiu uma mão sobre a cabeça, empurrando-o para baixo.

Ajoelhou-se, e começou seu novo contrato.


Toc, toc, toc...

— Clarah! Clarah!

Bateu e nem esperou. Soltava gritos na fresta da porta desesperado com sua amiga... Clarah abriu, Thumpf! Minty se jogou dentro do quarto, abraçando-a com muita força e medo. Clarah vestia sua roupa leve de dormir. Ficou meio envergonhada sentindo aquele aperto, aquela pressão dos peitos dele em seus seios.

Nina, deitada sob cobertores, deu um sorrisinho de canto, uma sobrancelha erguida.

— O-o que foi?! — perguntou Clarah, extremamente confusa, o rosto cada vez mais rosa.

Minty fechou a porta, e virou-se novamente na direção dela.

— Vo-você já foi chamada na sala do diretor? — perguntou muito afobado.

Não entendeu, mas respondeu movendo o rosto em negação.

— O que aconteceu naquele dia que nos conhecemos e a administradora te levou até aquela sala? — perguntou mais afobado ainda.

— Ela me registrou e colocou o uniforme em mim.

— Colocou o uniforme em você?! Ela fez algo estranho enquanto colocava?! — quase explodia, seu coração batendo com força.

— Acho que não. Eu me lembraria, eu acho — continuava meio confusa. Olhar levemente perdido em meio ao assunto.

— O que aconteceu? — Nina entrou na conversa.

Minty olhou-a.

Sentia-se aliviado, era visivelmente explícito isso. Sua preocupação com Clarah ter passado por algo diminuía e o relaxava.

— O diretor me chamou até o escritório dele. Foi muito estranho. Senti muito medo. Me senti vulnerável, sei lá. Me mandou sentar no colo dele. Ficou me alisando. Me elogiando, falando que eu era filho dele, que eu era da linhagem dele e tinha que chamá-lo de papai. Mandou eu beijar a bochecha dele... sei lá. Foi muito aterrorizante. Parecia um pesadelo. Ele parecia que iria me matar. Parecia que sabia que eu não sou da linhagem dele... mas deixou eu sair.

Clarah escutou tudo, mas ainda sentia-se dividida pelo sentimento que sentia por ele e o que o abraço inesperado gerou em seu corpo. Era um momento difícil, Minty passou por um abuso, foi assediado e se sentia muito mal, mas era difícil para ela dividir os sentimentos.

— Tá me dizendo que ele é gay? — perguntou Nina.

— O que é "gay"? — Minty perguntou de volta.

Nina ergueu uma sobrancelha e relevou.

— Você tá bem? — perguntou Clarah.

Minty olhou-a.

— Sim. Foi estranho, mas estou sim. Não aconteceu nada além disso. Eu disse que tinha 20 anos e ele disse que eu não estava na idade ainda, não entendi. Mas depois disso ele me soltou.

"Ué?" Nina bugou.

— Fiquei muito preocupado com você. Se ele fez isso com um menino, acho que com uma menina deve fazer também. Que bom que nada assim aconteceu com você. — Minty sorriu. — Me deixa mais tranquilo... mas é bom evitar passar por onde ele passa. Sei lá, né? Acho melhor.

— Cadê o Jaan?

— Não sei. Deve estar no quarto... Eeeh... Vou ir lá, então... Até amanhã — respondeu meio tímido. Não tinha mais assunto. Na presença de Nina sentia-se meio perdido. Clarah, com as mãos juntas, braços esticados para baixo, curvou um pouco a cabeça, respondendo:

— Até amanhã — sorriu.

— Pera — Nina chamou, e Minty que virava-se, olhou-a. — De mais um abraço nela, eu hein. São melhor amigos e se despedem como dois desconhecidos? Anda logo.

Clarah ficou muito envergonhada, mas...

"OBRIGADA!" berrou em sua mente, vendo Minty vir com os braços. Abraçou-a pela cintura. Clarah abraçando-o o mais alto que podia. Seus corpos se tocando, mesmo com as roupas por cima.

O abraço veio a acabar, Minty olhou para Nina como quem queria lhe abraçar antes de ir, mas a Imperatriz olhou-o como gelo e fúria, movendo a mão o expulsando dali, sem quebrar o momento feliz que Clarah olhava-o sair dali.

Fechou a porta.

Clarah olhou sua amiga deitada imediatamente... e curvou-se ajoelhada no chão, testa colada, braços retos em súplica.

— Sou sua serva, ordene qualquer coisa e sempre irei lhe obedecer — disse com tom reverente.

— Deixe de bobeira. Vai deitar.

— Sim, senhora!

Clarah deitou-se instantaneamente.

Nina olhou-a de canto.

"Menina besta..." Apagou as chamas iluminando o quarto com magia de vento e manteve os olhos um pouco abertos, ainda pensando um pouco: "'Idade certa'? Rose parece ser jovem. O que seria essa idade? Ela é jovem mas com certeza é mais velha que eu. 20 anos Minty foi negado pelo Esquisitão Verde. O que esse cara tá fazendo?"

— Nina...

Hum?

— Obrigada de novo...

Uhum.

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