Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 7

Capítulo 185: Tarde Demais

Em uma cama luxuosa em um quarto completamente branco, uma jovem mulher permanecia sentada, vestindo um deslumbrante vestido branco de Imperatriz, um dos milhares já feitos e destruídos pelo Imperador da sua Linhagem.

Seus olhos eram de um tom rosa-claro, quase branco, e seus cabelos, igualmente brancos, combinavam com sua pele clara, pálida como a morte. Do seu lado, um homem alto, sentado, se ergueu. Diante de si, as pernas cobriam-na com a sombra do corpo. O Primordial Branco curvou-se levemente à sua frente, tentando fazê-la comer:

— Abre a boquinha — pediu, aproximando uma colher da boca. — Aaaaah.

A linda mulher não abriu e continuou olhando fixamente para frente... seu olhar sempre morto.

— MANDEI ABRIR A BOCA! — Pá! — Olha o que está me obrigando a fazer! Só abre a merda da boca!

Após o formigamento tomar sua face, voltou o rosto lentamente para frente, ainda o encarando com aquele olhar sem vida.

— Vai acabar morrendo se não comer.

"Se eu morrer, ele vai maltratar outra criança..." abriu a boca, permitindo que ele colocasse a colher com comida. Fechou-a e mastigou com quase preguiça.

— Estou fazendo isso para o seu bem, você não consegue entender?

— ...

— Não me obrigue a te bater mais, Caroline... Desde que te vi criança, eu já sabia que você seria minha esposa... Vamos logo, aceite meu pedido — murmurou em tom doce. Uma expressão calma, quase alegre e gentil, mas Caroline continuava encarando-o, sem reação, em completo silêncio.

Branco se irritou.

Pá!

— Todo dia é isso... não fala, não come, NÃO FAZ NADA! SÓ FICA COM ESSE SEU ROSTO QUE ME ENCHE DE ÓDIO E... e... e me dá tesão!

Caroline permaneceu com o rosto virado, ligeiramente inclinado. Bm-tink O som da colher de prata caindo no piso de quartzo ecoou. Branco avançou com as mãos furiosas, começou a enforcá-la, Rrrssgg arrancando suas roupas à força para mais uma vez abusá-la.

— Você me obriga a fazer isso... É só dizer "sim"!

Caroline, em silêncio, sem resistir, continuou a olhá-lo. Sentia falta de ar. Morrer não era opção. Seria substituída por outra, e outra sofreria, mas ao mesmo tempo via como uma saída. Lacrimejo. Os olhos reagiam por ela, que se mantinha neutra, sem expressões vendo-o e sentindo-o nitidamente com vontade de quebrar seu pescoço frágil.

Fufufufu...

Nesse momento, as lamparinas do quarto e de todo o palácio se apagaram.

Branco parou de enforcá-la e se levantou... espantado — olhos bem abertos.

— Vermelho?! — murmurou em angústia. Foi baixo, mas com urgência, com ênfase e dúvida.

Thom!

Saiu apressado do quarto... e no mesmo instante Caroline sentou-se na cama. As mãos foram ao pescoço, roxo, com as marcas da mão do ser que lhe sequestrou. Sentia dor, tentava aliviá-la. Olhou as vestes. Mais um vestido rasgado. Olhou para a porta... e percebeu que ele esquecera aberta.

Suas íris foram tingidas. Receberam cores, uma esperança de vida. Ergueu-se o mais silenciosamente possível e caminhou. Quando chegou, olhou para os dois lados do corredor. Ninguém. O coração se encheu de medo e coragem. Um sanduíche amargo, mas agridoce.

Thum! Thum! Thum!...

Tentou fugir. 

Correu pelos corredores — o coração a mil.

Cada curva o acelerando. Cada curva lhe trazendo um aumento de esperança em seu peito... Quase. Quase lá. Um corredor. Só um corredor... mas quando o virou. Quando chegou na porta principal, a única na qual conhecia o caminho após tantas tentativas de fugir... deu de cara com uma criação de Branco.

Uma Besta.

Sua adrenalina. Sua ansiedade para sair de lá se transformou em frustração, medo de mais uma punição. Tremia olhando-a se aproximar. Aquela coisa lhe olhava com raiva, com vontades claras de lhe matar.

— Volte para o quarto. Garrrr... — rosnou cada palavra.

Caroline se virou em uma tentativa de fugir e encontrar outro caminho, BM mas a Besta era muito mais rápida, e agarrou seu braço, quase rasgando-o com a brutalidade e garras. Srcrcsc... arrastada pelos corredores, foi. Até seu quarto, foi puxada com força. Dor. O membro parecia que iria se partir.

Phah!

Jogou-a dentro, Triclek! e trancou a porta.

Encostada na cama, se sentou no chão. 

— Se eu aceitar, ele vai continuar com isso? Eu não aguento mais... — murmurou, abaixando a cabeça e a colocando sobre os joelhos dobrados, enquanto começava a chorar baixinho, sentindo uma nova dor que pioraria quando Branco voltasse.

 

Branco chegou ao salão do trono, vendo Sol sentado, questionou:

— Verde morreu dias atrás, Azul há poucos minutos, e agora Vermelho também? Quem os matou? — resmungou visivelmente aflito.

— Provavelmente, o Preto — tentou disfarçar sua naturalidade quanto àquilo.

— Blacko voltou? Então vamos matá-lo.

Sol se irritou ao ouvir Branco usar o nome dado por uma Deusa ao Primordial Preto, mas continuou a seguir seu plano, evitando pôr tudo a perder, xingando Branco por um ciúme e rancor antigo.

— Preto matou Azul perto de Alberg e Vermelho na Floresta do Desespero, isso em questão de minutos. Se quiser enfrentá-lo, pode ir, mas não recomendo — alertou como quem se importasse.

— Ir um por vez é burrice. Vamos chamar Rosa e irmos nós três — propôs de bate e volta.

— Acho que Rosa não está nem aí se precisamos dela ou não, mas tenho outra ideia. Não deve demorar muito para um novo Primordial da Água e do Fogo nascer. Talvez já exista um novo Verde e ainda não o encontramos.

— Talvez. Não sei.

— Vou enviar patrulhas para todas as vilas e cidades de demônios. Caçar em cada buraco. Cada canto. Depois de encontrarmos os Herdeiros do poder de nossos irmãos, traremos eles para cá e prepararemos uma armadilha para o Preto.

— Eles ainda seriam inexperientes em batalha.

— Sacrificar suas vidas para distrair o Preto já é o suficiente. São apenas medidas de segurança. Blacko podia roubar poderes; não sabemos se este novo Preto pode fazer o mesmo. Se ele tiver acesso aos poderes de Azul, Verde e Vermelho, seria problemático.

— Então é um novo Preto? Você deixou alguém vivo? E se ele roubou os poderes dos três, teria acesso aos Ragnaroks?

— Não tenho certeza de nada disso.

Com a resposta, Branco virou o rosto, não aceitando o que o novo Preto estava fazendo. Enquanto saía do salão, respondeu sem muita paciência para esperar o plano de Sol:

— ...Tá, tá, mande suas patrulhas. Se descobrir algo novo, me avise. Quero a cabeça desse desgraçado — resmungou.

— Claro... Pode deixar, meu irmão — respondeu olhando-o sair. Um sorriso se formou. Branco não percebeu e saiu.

Pouquíssimo tempo depois, Sol caminhou até a sala dos tesouros. Ainda não havia arrumado nada. Toda a bagunça que Emília deixara ficara por anos e anos da mesma forma, mas, quando Sol entrou. Shblblblbl... o som de um novo líquido sendo colocado no Sando Graal ecoou.

O cálice que agora era feito de ouro bem trabalhado assumia uma nova Marca Primordial brilhando na cor de seu sangue. Junto da Marca da Lua, Natureza e Água... a Marca Primordial da Linhagem Vermelha se juntou.

— Faltam três, e você é o próximo... querido irmão — murmurou ele, quase em gargalhada, pensando em Branco. Pensando no sangue de Branco se juntando ao ritual. Rindo baixo, saiu tranquilo daquele ambiente... vazio.


Instantes antes da Lua Azul trazer a noite para aquela manhã:

— Cadê as frutas? Já estamos andando há mais de três horas e nada — reclamou Nina, tendo que toda hora abrir caminho entre o mato e árvores densas, para conseguir passar com tranquilidade com os cavalos e carroças.

— Já estamos chegando! — Jaan começava a ficar nervoso e, com a ansiedade aumentando, começou a mentir mais: — Só não sei se essas carroças vão dar conta de tantas frutas.

— Sério?! — Nina estava muito curiosa e animada para ver as frutas. — É tão grande assim? Que dahora! Qualquer coisa, eu levo no braço mesmo — brincou, levantando o braço direito.

— Hehe. "Espero que dê certo... Preciso tirar ela daquele lugar... Mas será que é certo fazer isso com eles?" pensou, mas não havia como voltar atrás. Seu pai lhe respondera que o ataque seria naquela manhã. Não havia mais como evitá-lo.

Nina virou o rosto de repente para o lado esquerdo, olhando para trás de onde vieram. Sua orelha se moveu como a de um gato atento. Seu olhar afiado. Rosto levemente tombado tentando focar e prestar mais atenção no que sentiu:

— Você ouviu isso? — Olhava na direção do baixo som captado, mas não via nada devido às grandes árvores que obstruíam completamente a visão.

— O quê? — Jaan olhou-a, tentando parecer natural.

— Pareceu uma explosão ou um rugido forte, algo assim.

— Não ouvi nada. Talvez tenha sido um primata explodindo ou derrubando uma árvore grande — tentou distrair.

— ...

Nina não disse nada. Voltou o olhar para frente, mas de repente o dia se tornou noite. Estranhou e olhou novamente para trás, muito mais desconfiada, e Jaan não tinha como inventar mais nada. Silêncio. Ambos olhando para trás, para o céu escuro, em tom azulado da Lua Azul que não conseguiam ver ao longe por conta das árvores... mas, FUUUSHH! as árvores se curvaram para um vento extremamente forte. As carroças quase se quebraram e os cavalos, Nina precisou segurar.

BOOOOOOMMMM!!

O som ensurdecedor chegou logo depois.

— É NA DIREÇÃO DA VILA! — gritou Nina, Vush! deixando os cavalos para trás, quando começou a correr de volta ao vilarejo... mas seu passo não fora absurdamente rápido. Diminuiu-o para que Jaan pudesse ao menos tentar alcançar ou saber a direção correta.

Entretanto, ao olhar para trás, viu os cavalos onde deixou e Jaan corria para o lado oposto.

— Que merda cê tá fazendo?! — murmurou para si, Vush, antes de disparar na direção dele.

Chegou quase instantaneamente. Jaan sabia que não venceria em uma luta. Desesperado. Levantou a mão direita, TAANN! e disparou uma magia do sol, criando uma explosão que deixou Nina meio atordoada pelo brilho... algo que resolveu imediatamente. Fechou os olhos e continuou correndo. O sangue regenerara, mas não os abriu.

— Detecção Atômica — murmurou.

Toda a floresta em um raio de 200 metros ao seu redor foi mapeada, e ela viu exatamente onde ele estava, mesmo com os olhos fechados, BAAMM! avançou rapidamente, acertando um soco nas costas, BUM! e mandando-o de cara contra uma árvore.

Ao bater violentamente contra o tronco, Nina manipulou a madeira, prendendo-o em uma jaula/gaiola de raízes.

— EU NÃO SEI DE NADA, EU NÃO FIZ NADA! ME SOLTA, POR FAVOR! — Jaan gritava de medo, olhando para ela se aproximar. — M-me desculpa... Me desculpa, por favor.

— Cala a boca, que merda você fez, desgraçado?! — Nina ficou furiosa, pensando no que ele poderia ter feito. Aquele rosto. Jaan saíra da lista de pessoas que a Primordial se importava. Um passo fora da linha = morte.

A Marca em seu pescoço brilhava em preto absoluto, a ponto de escorrer sangue... queria respostas, mas agora não tinha tempo para arrancá-las.

— Por fa...mMnmnm...

Criou mais raízes, tampando a boca dele e o prendendo completamente em um casulo semelhante ao do bicho-da-seda. Com uma corda de cipó, o segurou e o arrastou de volta à vila, deixando os cavalos temporariamente para trás.


Dois minutos antes da Lua Azul:

Caminhando para fora da casa, Minty encarava Lezze.

Shar

No primeiro passo afundando em pedrinhas na terra, envolveu seu corpo em magia escura e criou três clones de poder... Vu Todos avançaram na direção de Lezze ao mesmo tempo... Lezze se assustou e tentou se defender de um soco de direita, Vul... mas era um clone.

Seu corte atravessou a magia escura, BAM! e ela recebeu um soco no meio do rosto do Minty verdadeiro. A força do golpe mandando-a para trás. Sccrrrchh... Lezze rolou no chão e, ao se levantar, viu os quatro se aproximando novamente.

Observou calmamente, tentando identificar qual era o verdadeiro... uma chance de 25%.

"É esse!" achou?... Avançou na direção deles.

Certa de que havia encontrado o verdadeiro, Vul... passou sua espada e atravessou um clone. Ao se assustar com aquilo e ver outro se aproximando para acertar um soco com garras em seu peito, Fu saltou, girando o corpo e cortando-o, mas novamente era apenas um clone.

Próximos demais... Pânico.

Ainda no ar, Vam! aterrissou chutando um terceiro, mas errou novamente.

BAM!

Resultado?

Mais um soco do verdadeiro no meio do rosto.

— Rrgg... — rosnou. Sua visão banhada da cor vermelha. O sangue do buraco aberto sujando seu rosto inteiro... mas a lenta regeneração se iniciou mais uma vez.

Sccrrrchh...

Lezze capotou para trás, perdeu seu nariz, mas Minty agora voltava a brincar de "achou".

Sentindo a ferida se fechar, franziu a testa, muito irritada. Olhando para frente, percebeu que os quatro clones não vinham mais um de cada lado como antes; todos estavam vindo em linha reta, na horizontal, um ao lado do outro.

Rindo, todos os quatro clones disseram ao mesmo tempo:

— Quem é o verdadeiro?!

— Grrr!

Irritada com a provocação, avançou, Vul! cortando os quatro... mas errou novamente.

O uso de três clones de magia escura além do seu próprio corpo envolto sempre fora um blefe para esse momento.

— O quê?! — Lezze arregalou os olhos, surpresa... era tarde demais.

O Minty verdadeiro surgiu, Sccrrrchh... deslizando na terra pelas costas dela antes mesmo dela terminar seu movimento com a espada. Minty fez um selo com as mãos, Clap! batendo uma palma, juntando-as viradas para baixo, com os dedos tocando os pulsos dobrados de ambos os braços.

Então, separou as palmas e avançou com a mão direita nas costas de Lezze.

— Desmantelar — murmurou... e tocou nas costas dela. O poder do selo usado se revelou: o corpo de Lezze flutuou lentamente, antes de pararem no ar à frente de Minty, se dividindo em carne, esqueleto e alma.

Minty criou uma garra na mão direita, Shiirrrp e enfiou-a no peito de Lezze, Crunch! arrancando e esmagando o coração de carne. Ainda não sabia como tocar almas utilizando seu poder... mesmo que no livro que aprendera aquilo dissesse que era possível um dia fazer.

Pah...

As três repartições se juntaram e o corpo caiu sem vida no chão.

BOOOOOOMMMM!!

O jovem se assustou com a explosão e com a reação que passou por seu corpo, mudando o dia completamente, subindo uma parede de terra que quase atingiu seu olho. Depois de protegê-los com o braço na frente, olhou para o céu. Do céu aberto sobre a vila, era magnífica a visão da enorme Lua Azul, com o Leviatã Lunar descendo em um rasante ao longe.

Muito confuso, não percebeu que, à sua frente, Lezze começava a se desintegrar em fumaça, pois seu criador fora morto e não havia mais como seu coração ser recriado.

Minty desviou o olhar da lua, voltando a olhar para frente. Ao longe, viu Clarah distante, conduzindo "todos" — faltavam três — os moradores. Clarah olhou de volta para ele, e assim que Minty deu três passos para frente, iniciando uma corrida em direção... sentiu algo ao seu lado.

Virou o rosto para a esquerda lentamente, como quem viu uma assombração, e viu Ezze parado, encarando-o visivelmente alterado:

— Vo-v-você m-matou minha irmã? V-você matou minha irmã? Você matou m-minha irmã? — Ezze repetia a frase incessantemente, Scrrrrechh! coçando seu rosto com tanta força que chegou a sangrar, enquanto seu braço direito permanecia reto para baixo, com a mão calma.

Ezze deixou sua defesa aberta de propósito... e Minty não percebeu isso.

Criando novamente a garra, o jovem adulto a imbuiu com magia escura e avançou com um golpe em direção ao coração de Ezze. Mas... no momento em que o golpe tocou Ezze, este fez o selo com a mão abaixada, absorvendo todo o poder.

Naquele intervalo de dois segundos, enquanto Minty via que nada acontecera, parecia que todo o barulho do mundo havia sido consumido pelo seu medo. O cenário ao redor começou a desaparecer, mergulhando-o em um infinito buraco preto absoluto.

Sentindo um medo profundo da morte, apenas olhou para o lado. A única coisa que ele via além da mão direita de Ezze se aproximando de seu peito era Clarah ao longe, olhando-o com um rosto que mostrava mais medo que o próprio menino.

Com uma lágrima escorrendo pelo rosto e um leve sorriso de arrependimento sincero... Minty murmurou:

— Me des...

BUUMMM!!

Ezze retornou o poder amplificado para Minty, destruindo o busto e coração instantaneamente.

Pah...

Clarah, observando a cena, ficou paralisada, assistindo os restos do corpo de Minty colidirem contra o chão produzindo um som abafado que consumiu sua mente inteira.

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