Volume 2 – Arco 7
Capítulo 181: Cicatrizes da Alma
— QUE RIDÍCULO! Como pode fazer uma acusação dessas contra o nosso general?! Majestade, faça alguma coisa! — Matilda olhou para Morf enquanto falava e depois tentou controlar suas palavras...
Mas o rei lutou contra o controle novamente, conseguindo segurar seu corpo para não falar. Com toda sua força, sentia como se sua carne rasgasse, suas mandíbulas se quebrassem, mas não abriu a boca. Com isso, a dor que sentia era tanta que seu corpo começou a tremer, mesmo sem demonstrar qualquer expressão.
"Como esse desgraçado está fazendo isso?!" rosnou Matilda, visivelmente frustrada. Olhou na direção da filha, Aurora olhando-a com medo. — Prendam a princesa, AGORA! — ordenou em grito.
Alguns oficiais ficaram imóveis, acreditando na princesa, enquanto outros, conhecidos ou levemente próximos de Grimore, se viraram para Aurora.
A menina fechou os olhos, chorando de medo, mas quando os abriu, viu Nathaly à sua frente com a Hero queimando em suas mãos, Liza com uma espada que oscilava entre cores de diversos elementos, e Jonas ao seu lado, girando o braço como se estivesse se preparando para mais um treino de Drevien.
Grimore, com as pernas quebradas, não conseguiu se levantar, mas ainda assim tentou se defender:
— Rainha, essa criança é uma mentirosa. Eu jamais faria isso... Apenas ofereci ajuda e ela ficou com medo sem razão — murmurou o mais alto que conseguiu, sentia-se sem ar, fraco, cansado.
Os soldados de Grimore presentes começaram a cochichar:
— A princesa é uma mentirosa.
— Muito mimada.
— Merece ser presa por difamar o general. Vai defendê-la, Heroína? De que lado você está? — Não queriam perder as regalias da vida fácil que o general corrupto lhes proporcionava. Salários inflados, títulos conquistados sem honra e bravura.
Aurora olhou para o seu pai, percebendo o quanto ele parecia mal, e ficou profundamente triste. Seu rosto abaixou novamente, enquanto aqueles "homens" tentavam descredibilizá-la de todas as formas verbais.
— Nino... — lágrimas escorriam pelo seu rosto desolado — Por favor... me ajuda!
Nino sentiu o segundo chamado e, surpreso, murmurou:
— Já volto.
Nesse momento, trocou de lugar com sua sombra, que apareceu para continuar guiando o cavalo ao lado das carroças sendo guiadas pelas mais velhas. As meninas não ouviram ele falar, apenas continuaram seguindo em direção ao reino — as muralhas cada vez mais próximas, embora o calor colidindo em seus corpos trouxesse uma ilusão vendo-as sambarem, moles ao céu, pelo calor abundante.
— CALA B...
Enquanto Nathaly respondia ao soldado, Nino surgiu no meio de todos.
No instante em que trocou com a sombra, tudo o que ela havia visto e ouvido foi instantaneamente transferido para a mente dele. Com a cabeça abaixada, todos na sala, exceto Nathaly e Aurora, ficaram paralisados de medo devido à presença que ele emitia.
Levantando a cabeça e olhando fixamente para os tronos, questionou:
— A filha de vocês disse que tentaram abusá-la... A filha de vocês... A FILHA DE VOCÊS! Pais deveriam zelar pelos seus filhos! Que tipo de pais vocês são?! COMO PODEM NÃO ACREDITAR NA PRÓPRIA FILHA?!
As palavras de Nino atingiram Nathaly com força. Os olhos da jovem se abriram e um filme passava naquelas íris douradas. Um longo filme de terror baseado em fatos reais. Sua vida, seu passado, seus traumas, sua luta vivida retornou como um grito estridente, sombrio.
[ Ano 2013.
Aquelas pessoas... Não era possível dizer que eram sua família. Aqueles dois eram extremamente problemáticos e no meio da desgraça, Nathaly nascera.
O pai a abandonou quando ela ainda era muito pequena, depois que percebeu que a mulher que engravidara era viciada e só gastava dinheiro com drogas. Fora embora tão cedo que Nathaly achava que seu padrasto era seu pai. Este bebia muito e frequentemente agredia a mãe... mas era o preço para continuar usando. O preço para continuar tendo dinheiro para comprar suas drogas.
Em várias ocasiões, tentara passar a mão em Nathaly, tocá-la, mas a menina era ágil, sempre conseguia correr e escapar pela janela do seu quarto, que ficava no segundo andar da casa caindo aos pedaços. Sempre com muito medo, nunca permanecia em casa, exceto aos sábados, pois sabia que seu padrasto trabalhava longe.
Mesmo contando para a sua mãe o que ele tentava fazer, ela sempre estava sob efeito de alguma droga e a ignorava ou defendia o homem, mesmo estando alterada. Sempre colocava a menina como errada, mas Nathaly sabia que não, que não era ela a errada, que aquilo não estava certo.
Chorava muitas vezes em becos e ruas, com medo de voltar para casa e, ao mesmo tempo, com medo das ruas. Diversas vezes, escalou o muro, conseguindo entrar em seu quarto pela janela à noite. Sem exceção, todas as vezes que voltava tarde, ouvia seu padrasto agredindo sua mãe.
Ouvia-a pedindo para que ele parasse, mas o que se seguia era ainda mais golpes altos. Ainda mais humilhações, ainda mais o homem colocando-a no estado de submissão forçada. Dizendo que tudo que ela tinha, consumia e comia era ele quem dava, e era verdade... não tinha como discordar.
A menina se escondia debaixo da cama, colocando objetos à sua frente para não ser encontrada... Não era sempre que isso funcionava; outras vezes, dormira dentro de um armário ou sob uma caixa. Dormir sempre no mesmo lugar era perigoso.
Nathaly trancava a porta para ter tempo de fugir pela janela caso ele tentasse abrir.
Mas, numa fatídica quinta-feira, Traclrek! o "homem" arrombou a porta, e ela não ouviu por estar muito cansada, dormindo sob uma lona suja no canto do seu quarto, que se tornara um depósito de lixo deixado pelo padrasto.
Quando percebeu, ele tentou segurá-la. Assustada, Pah se jogou para o lado, caiu no chão e rapidamente correu, Vul saltando pela janela em mais uma tentativa de escapar. O padrasto correu na direção da janela e olhou para baixo, suas mãos apoiadas em um móvel.
Nathaly, assim como qualquer humano terráqueo com magia, era mais resistente naturalmente. Se machucou, caiu e ficou um pouco atordoada no chão, mas quando olhou para sua janela e viu seu pai olhando-a com um semblante extremamente furioso, se levantou e saiu correndo daquele lugar.
— Vagabunda — rosnou ele.
Um pouco mais tarde, policiais bateram à porta da casa, e sua mãe atendeu.
— Recebemos ligações denunciando gritos vindos desta casa... A senhora está sendo vítima de algum tipo de abuso? — perguntou tranquilamente, mão sempre posicionada em seu coldre, olhar explorando o que era possível ver dentro da casa pela porta entreaberta.
— Não... Não. Não é aqui — tentou mentir, sua voz vacilando. "Aquela piranha tá espalhando isso?"
— Já recebemos diversas ligações deste endereço, senho...
— Tá errado! Tá errado, senhor policial. Isso não é aqui. Talvez sejam os filmes de terror que meu marido assiste... — inventou uma mentira e continuou: — ...ele é meio surdo e acaba tendo que aumentar bastante o volume.
— Hum... Mas e...
— Eu já disse que não é aqui, certo? Está tudo bem, podem me dar licença. — Clarc! Fechou a porta na cara dos policiais... que entreolharam-se.
Toc, toc...
A mulher abriu a porta novamente.
— Eu j...
Pm
Os policiais seguraram a porta e invadiram a casa sem mais nem menos.
— O QUE V...
— Onde ele está?! — um dos policiais a interrompeu... e a mulher ficou visivelmente assustada.
O padrasto escutou os policiais invadindo e se escondeu sob as tralhas deixadas no quarto de Nathaly, temendo ser encontrado... a mulher não respondera o policial, e a busca se iniciou pelo lugar.
Ao adentrar a casa, depararam-se com uma escada de madeira que se curvava para a direita após alguns degraus, levando ao segundo andar. À esquerda, ficava a sala, completamente desarrumada e suja.
Havia um sofá verde, rasgado e encardido, voltado para uma televisão velha, e em frente a ele, uma mesa de madeira branca, também desgastada, com a cor original da madeira à mostra, coberta de cigarros usados e latas de cerveja amassadas, algumas com líquido derramado.
Ainda à esquerda, atrás da sala, ficava a cozinha, bem simples, com um fogão de quatro bocas preto, acumulado de óleo. Os armários brancos que o pai biológico de Nathaly comprou estavam manchados de tanto tempo sem serem limpos. A geladeira era difícil de abrir, e o cheiro que exalava dela era nauseante.
À direita, ao entrar na casa, havia um corredor que levava a uma porta, onde ficava o banheiro do primeiro andar, com o piso em cerâmica marrom-avermelhada. As paredes eram revestidas com azulejos floridos, igualmente mal cuidados.
O box era quebrado, com um buraco que fora tampado com fita adesiva. O espelho acima da pia lutava para se manter inteiro. Subindo para o segundo andar, havia dois quartos e um segundo banheiro.
Os quartos ficavam um em frente ao outro, e o banheiro no final do corredor era igual ao de baixo, mas sem box e sem cortina para evitar que a água se espalhasse. Roupas sujas compunham o cenário de sujeira no quarto de seus pais, enquanto o quarto de Nathaly, embora tivesse se tornado um depósito de lixo, ainda era mais limpo do que o resto da casa... embora o mais fedido, isso era incomparável.
Os policiais abriram peça em cada cômodo, escada ou curva, procurando pelo homem da denúncia, mas não o encontraram. Chegaram a entrar no quarto da menina, mas olharam somente por cima, movendo algumas coisas, mas o homem se manteve estático e não fora visto. O cheiro era horrível, e o policial olhou a janela aberta... acreditou ter entendido.
Correu até ela, olhou para baixo e não via nenhuma alma andando por aquela rua esquisita.
Desceu e encontrou seu parceiro tentando tirar algo daquela mulher, mas a mãe não falava nada. Negava todas as denúncias e o defendia sem parar.
— Onde ele está?
— Trabalhando, como os senhores.
— Onde ele trabalha.
— ...
— Onde ele trabalha?!
— Fábrica tijolos! Trabalha em uma fábrica que fica algumas horas daqui.
Os policiais se entreolharam, tentando lembrar-se de fábricas, mas nada viera à mente.
— Tem filhos?
— Sim, senhor.
— Quantos?
— Uma.
— Onde ela está?
— Já é adulta e mora sozinha, senhor — não conseguia manter contato visual, seu tom e sua forma de se comportar deixava claro que mentia.
— Você usa drogas?
— Não, senhor.
— Tem drogas em casa?
— Não uso drogas, senhor.
O interrogador começava a perder a paciência.
— Cadê sua identidade?
— E-eu... eu não sei. Tá muita bagunça, vou demorar a encontrar — olhou para os lados, perdida, e respondeu em tom trêmulo.
— Snifff... Harrff... Qual o seu nome?
— Marcela.
— Qual o nome do seu marido?
— Jhonatam.
— Que horas ele volta do trabalho?
— Geralmente de madrugada, mas só segunda, terça e quarta. Nos outros dias ele fica por lá.
— E onde é esse "lá"?
— Eu não sei.
— É casada com ele e não sabe onde ele trabalha?
— Eu nunca perguntei.
O policial que fazia as perguntas coçou o nariz, fungando sem paciência.
— ...Então, Marcela... Vou perguntar só mais uma vez, antes de irmos. Você sofre algum tipo de violência doméstica?
— Não. Não, senhor.
Os policiais olhavam-na com descrença, balançando levemente os rostos em negação. Saíram andando até a porta, e nela, viraram-se antes de irem embora:
— Vamos procurar por um Jhonatam em todas as fábricas de tijolos pela região usando de base essas "horas" de distância que citou. Durante essa semana, vamos bater nesta porta mais uma vez. Espero que não tenha mentido, pois se tiver e não encontrarmos este homem, você será presa junto dele.
Marcela concordou com um movimento de cabeça, antes de fechar a porta.
Os policiais voltaram à viatura, onde ligaram para a delegacia.
— Ela estava com hematomas de agressão no rosto, pescoço e braços. Provavelmente por baixo das roupas há mais marcas. Além de tudo, está cheirando muito, muito mal e mesmo assim negou todas as denúncias. Entramos mas não localizamos o sujeito. A casa fede drogas, cerveja e cigarros. Um lixão completo. São basicamente moradores de rua com uma casa. Há um quarto que virou um depósito de lixo, parece muito com um quarto infantil, mas a mulher disse que sua filha já é adulta e não mora mais aqui... Não acredito em nenhuma palavra dela. Não sabia onde estava a identidade e disse que o nome era Marcela. Encontre o endereço de cada fábrica de tijolos em um raio de mais ou menos três horas e me envie. Vamos fazer uma visitinha em cada uma ao decorrer da semana, atrás do sujeito — pediu um dos PMs.
— Entendido. Providenciarei agora mesmo.
— ...Entendido.
Naquela quinta-feira, Nathaly passara o dia todo na rua e, no começo da tarde, encontrou um cachorrinho que se apegara a ela, em um beco deserto, cheio de lixo e móveis abandonados.
Passou a tarde brincando com o cachorrinho caramelo e, ao anoitecer, não quis deixá-lo sozinho. Não queria que ele sentisse o medo que ela sentia todos os dias da solidão em um lugar completamente escuro.
Aos oito anos, já sabia manipular fogo, mas muito mal. Usando pedaços de um sofá descartado naquele beco, estendeu as mãos, tentando concentrar seu poder, Brsrsn... e conseguiu. Suas mechas brilharam em laranja, o rosto se contorcendo na concentração. Acendeu uma fogueira e passaram a noite juntos, um ao lado do outro, esquentando um ao outro.
Em casa, sua mãe era agredida mais uma vez... Agora? Por deixar os policiais entrarem e quase o encontrarem escondido. Calada, apanhava sendo arrastada pelos cabelos no chão. Completamente alterado o padrasto continuou-a socando mesmo depois da mulher desmaiar.
Na manhã de sexta-feira, Nathaly acordou com muita fome, e percebeu que precisava voltar para casa. Olhou seu amiguinho e o avisou do plano: ir até em casa, pegar algo para comer e voltar correndo para dividir com ele... Diante de casa, a menina pegou uma chave que havia roubado há um bom tempo do chaveiro do pai. Trc-clk... e entrou tentando ser o mais silenciosa possível.
Percebendo que sua mãe não estava deitada no sofá da sala como de costume, entrou com ainda mais cautela, em direção à cozinha, onde pegou um pedacinho de pão sobre uma mesa de plástico. No entanto, notou uma carteira ao lado, pertencente ao padrasto.
Sem pensar, pegou uma nota de 10 reais e segurou-a firmemente.
— Hihihinhihnin...
Nesse momento, assustou-se ao ouvir uma risada feminina vinda do banheiro do primeiro andar.
Caminhando em passos hesitantes, chegou até a porta.
Sua mãe ria descontroladamente, com uma seringa de heroína enfiada em um braço. O rosto da mulher todo roxo, o pescoço, os machucados, mas nada importava, estava louca, alucinada no seu vício cada vez mais intenso.
Ao ver Nathaly, a encarou, e Nathaly, assustada, saiu correndo daquele lugar.
Ao chegar à porta, seu padrasto descia as escadas e a viu. A menina olhou para ele e correu para fora, Prak! lançando a porta para fechá-la. O padrasto correu, Trlak! abriu-a furioso e olhou-a correndo o mais rápido que conseguia para o mais longe daquela rua.
"Eu vou pegar você, desgraçada..." rosnou em pensamentos, seus dentes rangendo.
Nathaly correu o mais longe que pôde, até que avistou uma casa de ração.
Após parar, descansar e se acalmar um pouco, forçou um sorriso e se dirigiu até lá. Mesmo traumatizada com inúmeras coisas, e perdida na vida, suportou toda a dor e não deixou transparecer nada ao vendedor. Com um sorriso gentil estampado no rosto, chegou no balcão.
— Bom dia. Como posso ajudá-la, garotinha? — o velhinho lhe recebeu da mesma forma, mas a menina estava suada, olheiras visíveis de cansaço, de falta de sono.
— Me dá 10 reais de ração pra cachorro, por favor — mas continuava bem educada, com uma voz doce e sem nada que remetesse que estivesse passando por algo tão difícil. Sua mãe não acreditar nela fizera isso. Não conseguia confiar em contar para outra pessoa, depois que a própria mãe brigava com ela sempre que dizia o que o "pai" tentava.
— Qual porte?
— ...
O vendedor percebeu que ela não havia entendido e tentou explicar de uma forma mais clara:
— Qual o tamanho dele: pequeno, médio ou grande?
— Pequeno.
Depois de entregar a ração, Nathaly pagou com a nota de 10 reais e saiu alegremente, correndo até o beco onde deixou o cachorrinho. O pão já se encontrava dentro do seu estômago, mas não matara sua fome, só sustentara por mais um tempinho.
Chegando lá... não encontrou o cachorrinho.
O procurou pelas ruas e por outros pequenos becos, mas não conseguiu encontrá-lo.
Desolada... voltou ao beco onde havia feito a fogueira e se sentou ao lado, encostada na parede. Seus olhos, incapazes de conter a dor, começaram a transbordar em lágrimas. Veio tudo de uma vez. Todas as dores de uma vez e não aguentara.
Entre o choro e os soluços, ouviu um som familiar:
Au! Au!
Olhou para frente e viu que o cachorrinho havia retornado. Nathaly se alegrou instantaneamente e o abraçou, colocando a sacola com ração no chão e observando atentamente enquanto ele comia.
Passou mais uma noite na rua com seu novo amiguinho.
Na manhã seguinte, um sábado comum, Rrrrrooom... acordou com a barriga roncando e decidiu ir até sua casa para comer algo mais uma vez. Apesar de ser sábado, todo cuidado era pouco. Ainda mais depois do dia anterior, que o "pai" estava de dia em casa. Entrou silenciosamente pela porta e encontrou sua mãe desmaiada no sofá, com manchas roxas ainda mais fortes do que no dia anterior, no rosto.
Pegou alguns biscoitos na cozinha e comeu enquanto caminhava de volta para o beco, evitando fazer qualquer barulho em casa. Quando chegou lá, ao virar no fundo de sua nova "casa", para encontrar seu amiguinho... paralisou ao ver a cena diante dela.
O corpo do cachorro foi brutalmente dividido em dois — uma poça de sangue banhando a pelugem.
Desesperada, Pahf... caiu para trás, chorando e gritando enquanto corria de volta para casa.
Não sabia o que fazer, o que aconteceu ou no que pensar. As ruas nunca foram seguras, ainda mais para uma menina tão jovem... mas sua casa também não. Mas em meio ao medo, correu e entrou na esperança de conseguir se proteger do mau que matou seu amigo.
Ao entrar, viu sua mãe ainda no sofá, da mesma forma de quando saíra de lá... Mas, atrás da garota, do lado de fora da casa, havia uma silhueta masculina, um machado sendo segurado na mão direita.
Nathaly notou quando algo cobriu sua sombra no chão e olhou para trás... assustou-se mas não deu tempo de mais nada. O padrasto segurou-a pelos cabelos, THAAM! e bateu a porta atrás de si, impedindo-a de qualquer forma de sair.
— SOCORRO! — gritou, chorando desesperadamente.
Entretanto, Jhonatam não se importou, com violência, a arrastou, subindo as escadas até o quarto dela — fios do cabelo sendo arrancados pela brutalidade, a dor no couro cabeludo, do corpo batendo em cada degrau.
Phah!
Entrando no quarto, trancou a porta e arremessou Nathaly no chão.
Assim que caiu, a menina olhou para a janela... que fora trancada com corrente e cadeado. Desesperada, rastejou-se para trás, enquanto ele segurava um machado sujo de sangue.
Tac... com pressa, soltou o machado no chão e começou a desfivelar o cinto, olhando para ela a todo momento.
— PAPAI, PAPAI, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO!
Bam.
Nathaly levou um soco no rosto, e o padrasto puxou-a novamente pelos cabelos, aproximando o rosto dele ao dela.
— Tire sua roupa agora, ou vou fazer com você a mesma coisa que fiz com aquele cachorro imundo — rosnou... e naquele momento, depois que essas palavras ecoaram na mente da pré-adolescente, Nathaly entrou em um estado profundo de raiva.
Os olhos começaram a queimar em vermelho intenso, o âmbar, as mechas circulando todo o seu poder pelo corpo... Perdendo completamente o controle do poder, que mal conseguia controlar.
BOOMM!!
Uma imensa explosão aconteceu no quarto, incinerando seu padrasto instantaneamente.
Pahf...
Caiu no chão depois que o "homem" que lhe segurava virara pó, e o quarto inteiro queimava... Cr-r-rasshh! O teto desabou, levando consigo duas paredes atrás dela. Nathaly olhou para a destruição que causou, ficou assustada, Trcak! mas correu até a porta, destrancou e desceu as escadas com extrema pressa.
Foi até Marcela, e começou a balançá-la desesperadamente:
— MAMÃE! MAMÃE, ACORDA!
Sua mãe abriu um pouco os olhos, Pham e empurrou Nathaly para trás, Phah! jogando-a sobre a mesa cheia de lixo. Sujando a roupa dela de restos de cigarro e cerveja derramada.
— O que foi, garota?! Não me encha o saco logo cedo — rosnou e continuou de olhos fechados.
Nathaly bateu o braço com força, mas ignorou a dor e tentou puxar sua mãe pela perna.
— A casa, mamãe, a casa está pegando fogo!
Marcela a ignorou por um tempo, mas, muito irritada com os puxões, Pham! chutou Nathaly com força, Pahf... que caiu novamente para trás, olhando o fogo se alastrar pela casa. Consumindo as escadas, descendo como se fosse fogo vivo.
— MAMÃE, A CASA TÁ PEGANDO FOGO!
— PARA DE GRITAARR! — Marcela finalmente ergueu o rosto... o rosto visivelmente irritado com a própria filha, olhando em sua direção... mas então viu as chamas e se levantou correndo, passando por Nathaly, deixando-a para trás na casa.
Nathaly se levantou do chão e a seguiu até a rua, onde os policiais já estavam chegando após denúncias dos vizinhos sobre os gritos altos de uma criança.
— O-o que aconteceu aqui? — perguntou Marcela, para o nada, olhando sua casa em chamas.
Mas Nathaly, com um sorriso respondeu:
— Papai tentou me abusar, mamãe. Eu o matei... Ele não vai mais te bater, mam...
PÁshhccrrrk!-Phaf...
Nathaly caiu no chão, com a mão no nariz após levar um tapa de sua mãe, um tapa com aquelas unhas grandes e mal cuidadas que rasgou sua pele, deixando um corte profundo, do nariz até embaixo do olho direito.
— ERA PRA DEIXAR QUE ELE FIZESSE! — berrou completamente alterada... e avançou em Nathaly no chão.
Thump!
Mas os policiais a seguraram, enquanto aquela mulher continuava completamente descontrolada, esperneando e gritando sem parar:
— E AGORA?! COMO VAMOS COMER ALGO?! QUEM VAI SUSTENTAR A CASA?! — começou a rir de raiva. — QUE CASA NÉ?! JÁ QUE A VADIAZINHA BOTOU FOGO NELA!
Enquanto Nathaly olhava para sua mãe com um olhar desolado, parecia que um buraco imenso, completamente preto e infinito se abria sob ela, engolindo-a completamente, levando-a ao... nada. Ao vazio de sua alma.
Não conseguia se mover, apenas permaneceu parada, observando a cena, dos três policiais tentando segurar sua mãe se debatendo e agredindo-os sem parar.
Os policiais tentaram socorrê-la, observaram o machucado, o corte sangrando e sujando seu pequeno rosto, mas, em estado de choque, continuou em silêncio por um longo tempo... longo, longo tempo.
Eventualmente, fora levada para um orfanato.
As crianças, ao escutarem as conversas dos adultos sobre o motivo da sua chegada, ficaram com medo dela e evitavam se aproximar. Magia era um sonho de muitos, mas saber que uma pessoa próxima matou o próprio "pai" com magia era assustador.
Até que uma garota de mesma idade se aproximou:
— Por que você matou seu pai? Você é má. — A menina a encarava, enquanto Nathaly, incapaz de responder, parecia ter esquecido como falar. Mesma idade, mas era notório o como a voz e a forma de falar eram diferentes. Aos oito anos, Nathaly tinha que sobreviver nas ruas e na própria casa, amadurecer e entender o que sua mãe fora incapaz de lhe ensinar... o certo e errado.
Já aquela menina, mesmo órfã, não passou por nada disso. Seu tom, seu olhar, ainda era uma criança pura, uma criança que ainda não entendia que o mundo não era bom, era cruel, era aterrorizante, mesmo em meio a tantas paisagens belíssimas, quase divinas de uma natureza tão rica.
Outra criança se juntou à conversa:
— Não fale com ela... Ela é perigosa — um comentário destruidor na cabeça da menina que não conseguia mais falar nada. Toda sua vida fora silenciada, negada. Sua voz nunca fora ouvida... para que então... falaria?
A segunda criança puxou a garota de volta para seu grupinho de amigos, deixando Nathaly sozinha no cantinho que se encolheu, para ficar sozinha... mas um dia, uma adolescente extremamente rica, e que era Exterminadora de Anomalias, aparecera lá, e fora com um único objetivo: adotá-la.
Depois de todos os processos, chegou até Nathaly sozinha e se agachou de frente para a menina. Com um sorriso gentil, se apresentou em tom meigo:
— Prazer... Sou Alissa, sua nova mamãe!
Nathaly olhava-a... completamente abalada com tudo, não respondera... mas ao ver aquele sorriso... seus olhos se encheram de lágrimas, e a menina se levantou, abraçando Alissa enquanto chorava a ponto de soluçar com força.
Alissa a abraçou de volta, sem dizer uma única palavra. Sorria e sabia que seria difícil cuidar daquela menina que passara por tanta coisa tão jovem... mas assim como ela amadurecera muito cedo, sabia que o principal de tudo era deixar Nathaly ir no seu devido tempo. ]
— Como podem querer prender uma criança? Essa coisa no chão é mais importante que sua filha? Nesse caso, eu mesmo o mato — rosnou Nino, ao presenciar tamanho desleixo paterno.
Os soldados de Grimore começaram a murmurar:
— Qu...
BRU-R-RUM!
Nino explodiu em magia escura todos que abriram a boca naquele segundo, espalhando sangue e membros nos outros soldados e oficiais, que permaneceram estáticos, com os olhos arregalados e cheios de medo.
— Calem a boca.
Sua presença era como gravidade, forçando com mais intensidade todos para baixo.
Caminhou em direção a Grimore e pegou uma maça medieval de um dos soldados que havia acabado de matar.
BAM-BCRUNCH!
Com um golpe na cabeça de Grimore, abriu o crânio do homem, com o segundo, esmagou ainda mais o corpo e espalhou sangue sobre o tapete azul-escuro que adornava o chão diante do trono. Matilda, junto com todos os presentes no salão, continuou imóvel. Dominada pelo medo absoluto, se via incapaz de reagir ao que acontecia.
Grimore morreu com o primeiro golpe, e o rei, com as últimas forças, sussurrou para Nino enquanto uma lágrima solitária escorria por seu rosto:
— Obrigado...
Matilda ouviu, e seu ódio falou mais alto que o medo; rapidamente, criou uma adaga de sangue rosa e avançou contra o pescoço do rei.
Cr-runch.
Porém, Nino apareceu atrás dela, e as mãos da mulher simplesmente desgrudaram dos braços e caíram no chão.
Pa-pah...
— AAAAARGH!!
Caiu de joelhos, gritando em agonia ao ver o sangue vermelho misturado com o sangue rosa jorrando dos cortes.
Crunch.
Nino colocou a mão sobre a cabeça de Matilda e esmagou seu crânio.
Tink-tink...
A coroa amassada quicou no chão, enquanto o corpo de Matilda caía sem vida.
Morf, libertado do controle, Pahft! caiu de joelhos para frente, chorando desesperadamente.
— Por favor, me mate... ME MATE! Por favor! Por favor! Eu-e-e-eu fiz coisas horríveis... fiz, fiz coisas horríveis...
Nino olhou para baixo com desprezo e saiu andando.
— Sua filha decide se você vive ou morre. Não me interessa tal escolha. — Descendo as escadas em direção a Nathaly, todos os oficiais ainda presentes se ajoelharam enquanto ele passava, inclusive Jonas e Liza. — Vou acabar de trazer as crianças. Resolva o resto.
— Ok.
Nino trocou de lugar com sua sombra, mas desfez a magia logo após, fazendo a sombra desaparecer.
— Voltei!
— AAAH!
As meninas gritaram assustadas, depois de longos minutos de silêncio.
— Hãm...? — desviou os olhos delas e olhou em direção ao reino. — Tá pertinho já.
As pré-adolescentes quase caíram dos cavalos devido ao susto, mas se ajeitaram rapidamente e continuaram indo até o reino. Alguns minutos depois, ao entrarem na ponte e se aproximarem dos guardas do portão, os soldados sentiram a presença estranha aumentar e começaram a tremer.
— Não é o mesmo Primordial — um ponderou.
— O que eles querem de volta aqui?!
Quando chegaram mais perto, um dos guardas reconheceu sua filha e, emocionado, gritou:
— SINS?! — O homem começou a chorar, não sabia que sua filha fora levada, e isso deixou-o fraco, correndo na direção dela extremamente emocionado.
— PAPAI?! — a menina desceu do cavalo correndo, Thumpf! e o abraçou com força.
Nino desceu também.
— Vocês fazem o resto aí — resmungou.
O soldado abraçando a filha parou por um instante e se ajoelhou no chão, a menina, que outrora se demonstrara rebelde, se ajoelhou com o pai, e ele respondeu:
— S-sim, senhor!
O outro guarda temia. Não havia sentido um Primordial sair e outro voltar com as crianças... mas mesmo tomados pelo medo, confiaram nas palavras do ser que trouxe de volta todas elas, todas as crianças de tantas pessoas desesperadas em frente àquele palácio.
No momento em que o Primordial Azul morrera, Sol ordenara que Vermelho atacasse a vila na Floresta do Desespero... Enquanto Nino seguia até o palácio, nem imaginava o que se passava com seus novos amigos.
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