Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 6

Capítulo 170: Recompensa

O som vinha da porta.

Olhou-a.

Era mórbido.

Frio.

Um silêncio agressivo desde que ouviu as batidas. 

"Eu realmente não estou bem..." bocejou, piscando lentamente, e foi até lá. Trnn... Tirou o pedaço de metal, Trc-thon... destrancou e abriu.

— Bom dia, Grande Heroína! O rei está chamando você no salão do trono — anunciou com o mesmo sorriso sem dentes de sempre.

Aham... Já vou, avisa ele lá — antipática, olhos preguiçosos, Tham... fechou a porta na cara da serva. Esperou três segundos, Tlc-thon... e a abriu novamente.

A serva permanecera lá, sorrindo. Nathaly a encarou com um semblante sério e sobrancelhas levantadas.

— Vamos?

...Aham.

Foi guiada até a porta do salão.

"Não dormi direito..." Se espreguiçou com mais um bocejo, braços para cima. 

Os guardas abriram a porta e ela entrou sozinha.

Feliz com sua presença, o rei ergueu-se do trono.

— Grande Heroína, sei que deve estar muito ocupada, mas gostaria de lhe oferecer um quarto no palácio para que fique o tempo que precisar. Acredito que tenha viagens em mente, mas seria uma honra que passasse um tempo em nosso reino.

Chegando próxima ao trono, não se ajoelhou.

— Obrigada. Isso vai ajudar bastante.

— Aliás, a guilda já deve ter terminado a contagem dos monstros que você matou. Vou pedir a uma serva que a leve até lá.

— "Guilda"?

— Um funcionário da guilda pode explicar melhor do que eu. Por favor, leve nossa Grande Heroína até lá.

— Sim, majestade — respondeu uma serva ao lado de Nathaly.

Nathaly virou o rosto lentamente para o lado.

"Olha a mágica aí, gente, caramba, hein?"


Momentos depois, seguiam a pé pelas ruas do reino. O clima fresco, ventos tranquilos. Mais de uma hora caminhando pelas pedrinhas — a preguiça estampada no rosto, uma fome estranha; sentia a barriga vazia, resmungando. Colocou as mãos; nem no banheiro fora. Onde foi parar a comida do dia anterior? 

Enfim entraram na rua certa. Pank... Tlink... os sons dos ferreiros trabalhando ecoando pelas esquinas. Oficinas e mais oficinas, slogans repetidos — todos diziam ser o melhor ferreiro da região e até do mundo... mas seus metais eram baratos; suas lâminas quebrariam com o vento.

Não era fácil uma leva de minérios bons; eram muito caros, e ninguém queria juntar anos de trabalho para comprar uma única espada. Deveriam. Entre morrer por conta do fio falhar, gastar algumas reservas seria mais vantajoso.

— Está vendo aquela espada grande lá na frente? — apontou.

— Estou.

— É lá que fica a guilda, minha senhora.

— Entendi. E quando eu virar meu rosto... Tcharam! — a serva desapareceu. — Que novidade... Só gente estranha nessa merda. Puta que pariu — resmungou, indignada.

Enquanto caminhava até o local, começou a refletir sobre as informações que juntara:

"Bom, se os Primordiais estão brigados com os humanos, os dois não vão estar aqui... É só isso que tenho..? Tô ferrada..." Entrou sem atenção alguma. Inerte em pensamentos que não levavam a lugar nenhum, Nathaly nem percebeu as pessoas dentro cochichando sobre ela: 

— Ela é a Grande Heroína?

— Ela matou quase todos os monstros sozinha? Mas nem está usando uma espada — uma mulher com um machado na mesa comentou em murmúrio para sua amiga com um arco grande nas costas.

Embora a construção da guilda não fosse muito grande, era bem visível, principalmente por causa de sua placa, que na verdade era uma espada imensa de um gigante morto. Esta era o ponto de referência do lugar.

A guilda também funcionava como uma taverna, mas esse não era o foco principal; lá serviam apenas dois pratos e duas bebidas. Algo que se tornou tradicional, cultural. Uma popularidade tão grande que outros bares e tavernas tiveram que acrescentar os pratos no cardápio, mas era unânime — o da guilda era o melhor de todos.

Um dos pratos consistia em bolinhos de carne frita bem temperada com alho, cebola, ervas finas, sal, pimenta-do-reino e um toque de mel para adocicar e dar crocância ao final da fritura, acompanhados de anéis de cebola crocantes. Uma porção bem generosa, para deixar os aventureiros bem fartos e fortes. O outro prato era uma porção de torresmos frescos fritos com um limão fresquinho cortado ao meio. 

As bebidas incluíam o vinho da casa, um vinho artesanal produzido pela própria guilda de Alberg — receita secreta; perguntar era quase crime de guerra —, e uma cerveja artesanal, também produzida por eles. Se alguém quisesse suco, poderiam prepará-lo mediante a oferta das frutas e o pagamento de um valor específico, dependendo da fruta escolhida.

O ambiente era bem aconchegante e rústico, com pedras mescladas a madeiras escuras e belas. A iluminação das tochas adicionava um charme extra ao local. Havia um painel à direita e à esquerda do ambiente, mas Nathaly os ignorou e passou pelas mesas até chegar a um balcão com uma porta única aberta atrás.

Assim que se aproximou, Nathaly cumprimentou:

— Olá, eu v...

Yahallo! — exclamou a recepcionista, pulando de forma muito alegre, erguendo o braço em um aceno extremamente exagerado.

"Ah, não. Outra maluca não!" Nathaly tentou esconder sua feição de desespero. 

— Sou a Monica! Veio buscar a sua recompensa, certo?! — um sorriso enorme estampado.

— Pra ser sincera, eu nem sei o que é esse lugar ou essa recompensa — resmungou sem muito ânimo, voz baixa.

Monica manteve sua feição alegre com os olhos fechados, mas então virou o rosto para a porta, quase quebrando o pescoço, e gritou, com um salto cerrando os punhos, como se estivesse se irritando do nada:

— MAARIO!

Sua voz saiu grave, como o rugido de um dragão.

Pah!

Ain!

Mario, que consertava um armário, bateu a cabeça de susto.

Nathaly também ficou assustada. Olhos arregalados fixados em Monica. Trocava o alvo. Monica, porta, Monica, porta.

Os funcionários da guilda não usavam roupas iguais, mas sempre tentavam seguir a linha da bandeira de Alberg, já que era um serviço público. Como era comum verem couro, usavam um estilo mais voltado aos aventureiros.

— Oi?! — respondeu Mario, colocando só metade do rosto na porta, para vê-la.

— Confere a recompensa da Grande Heroína e a traz para mim — ordenou.

Aah, ela apareceu. Vou procurar. Só um minuto! — pediu e saiu.

— Tá! — Monica voltou o rosto à frente, semblante normal, olhando-a olhá-la, curiosa, mas de forma estranha, julgadora. — Estávamos te esperando há um bom tempo. Pensei que você nem viria — comentou, cortando o pequeno silêncio criado.

Ainda com um olhar julgador, Nathaly pensou:

"Exagera mais..."

— Você disse que não sabe o que é esse lugar, certo? Quer que eu te explique sobre a guilda?

"Mais blá-blá-blá que não vou entender." — Conte-me, por gentileza... — com um sorriso forçado, respondeu Monica. 

— Bom... Aqui é o lugar onde as pessoas podem pedir serviços de caçadores e aventureiros. Por exemplo, naquele painel — Monica deu um pulinho e apontou para a esquerda de Nathaly — estão os rostos de pessoas procuradas e suas recompensas, geralmente colocadas pelo próprio exército. E aquele outro — ela deu outro pulinho, apontando alegre para a direita de Nathaly — é onde ficam as missões que a guilda recebe de pessoas comuns. Essas missões geralmente envolvem coletar carcaça, pele, carne ou outros itens específicos de monstros ou animais. Às vezes, são para coleta de ervas e plantas para médicos, mas essas missões são raras, pois são menos perigosas e mais procuradas. Os impostos já são retirados da recompensa das missões, então não se preocupe.

"Impostos aqui também? Jesus Cristo." — Como assim imposto? 

— É uma taxa que vai para o rei, para a proteção da cidade, da muralha, e pelos serviços de água, entre outros. Algumas pessoas tentam burlar o sistema e vender de forma ilegal. Se o exército pegar, elas vão presas, então não vale a pena, né? — Monica sorriu, linguinha zombeteira de fora.

"Tô vendo essa proteção aí..." pensou, meio séria e desanimada, com um olho mais aberto que o outro, olhando para Monica fazendo aquela careta infantil. — Entendi. 

— Você não precisa criar nenhuma ficha. Não se preocupe; se matar algum monstro e quiser vender, é só chegar aqui que eu cuido do resto — fez um joinha com a língua novamente de fora, mantendo o sorriso.

...Nathaly a encarava com seriedade e preguiça.

Mario estava demorando um pouco, algo que incomodou Nathaly, que não queria ficar o tempo inteiro olhando aquela garota estranha na recepção. Saiu. Andou até o painel com os rostos dos procurados, mas lá não havia palavra alguma, somente diversos símbolos, embora os números fossem bem parecidos com os terráqueos.

— Como funciona o dinheiro aqui? — perguntou; Monica, prestativa, respondeu de longe:

— Ué? Normal. Uma moeda de ouro vale cem de prata ou mil de bronze.

— Por que essa menina tem uma recompensa muito mais alta que os outros?

Vul-vul-vup!

Monica saltou como uma atleta profissional em uma olimpíada, dando piruetas pelo balcão, até aterrissar em pé ao lado da menina.

"...Essa garota é retardada?" pensou, olhando para Monica com um olhar estranho, julgando-a completamente. 

— Essa moça não é qualquer pessoa; ela é conhecida por dois nomes: a Ladra Lendária ou a Quarta Bruxa. Isso de Bruxa eu não entendi até hoje, mas essa mulher era uma ladra muito temida aqui. Roubava qualquer um que quisesse, não importava se eram ricos, pobres, demônios ou até mesmo Primordiais. Tomava tudo que era valioso em instantes e desaparecia com uma velocidade absurda. As vítimas relatavam que ouviam apenas o som de uma única gota de água, e quando se davam conta, tudo havia sumido. A única descrição que temos dela é de que é uma garota com longos cabelos brancos, vestindo um vestido preto com azul-escuro que parecia uma noite estrelada, e que manipulava uma foice de água.

Nathaly olhava-a atentamente, escutando tudinho, enquanto Monica continuava olhando para o retrato desenhado da garota no painel.

— No dia em que essa descrição foi feita, ela estava passando pelas casas de nobres aqui em Alberg. Um guarda conseguiu segurar seu vestido, mas isso resultou na morte dele e mais três companheiros, além do general do exército ficar ensanguentado, brutalmente ferido. Depois de matar os quatro e deixar o general agonizando no chão, tentaram cercá-la, mas não adiantou muito; ela se movia rapidamente, se esgueirando dos soldados enquanto roubava dinheiro e outros itens preciosos. Um soldado, que havia comprado uma espada cravejada de joias, teve a mão cortada e sua espada roubada...

Nathaly segurou uma risada ao ouvir isso.

— Depois disso, ela entrou em um beco e desapareceu completamente. Essas foram as palavras dos soldados e do general, que faleceu mais tarde naquela noite, há 23 anos. Ah, lembrei também: o general disse isso antes de morrer, "vestido estrelado preto e azul. Jovem garota dos olhos brilhantes". Ele estava em choque; só repetia e repetia essas frases até que o corpo não suportou a quantidade de sangue perdido. 

Ah.

— Algumas coisas não fazem sentido nisso. Há teorias que podem até ser chamadas de lendas.

— Como assim?

— Alguns velhos dizem que ela era um demônio da lua, mas isso nem faz sentido. Demônios da lua nem existem. Outros dizem que era um demônio da água, por causa da foice de água, mas os relatos indicam que o cabelo dela era longo e branco.

— E o que isso tem a ver?

— A cor do cabelo é a mesma cor do sangue dos demônios e de seus poderes, pelo menos até onde eu sei. Teoricamente, o poder dela deveria ser de um demônio da luz, mas não é, já que ela usava uma foice de água. Chamá-la de Quarta Bruxa é estranho, já que Bruxas também são lendas; ninguém sabe se elas realmente existem.

[ — ...a Bruxa dos Anões e a Bruxa dos Híbridos pr... ]

Nathaly se lembrou de Akli comentando sobre Bruxas.

Hmm... — Voltou a olhar os símbolos ao lado do retrato da moça. — Não sei ler. Quanto vale a recompensa pela cabeça dela?

— 100 mil moedas de ouro — Monica respondeu imediatamente; sua voz saíra da divertida anterior às histórias.

— Isso é muito?

— Muito. Os outros procurados, por exemplo, têm uma média de 40 moedas de prata a uma moeda de ouro...

— Ente...

— 100 mil por ela morta — murmurou com seriedade. Rosto sombrio voltando ao painel.

Nathaly olhou-a meio de canto, notando a mudança.

— A recompensa dela viva é de 500 mil moedas de ouro. Imaginamos que ela tenha roubado muito mais que isso, milhares de moedas, além de joias e outras coisas. Se a encontrassem viva, poderiam interrogá-la para descobrir onde está o tesouro.


— Monica! Deixei a recompensa na sua mesa! — Mario interrompeu-as com um grito. 

Monica olhou na direção.

— Vou pegar sua recompensa, já volto! — Voltou ao normal, e instantes depois, com Nathaly no outro lado do balcão, entregou. — Aqui estão, 500 moedas de ouro. As escamas, peles e carne dos monstros que você matou no ataque valem muito, realmente muito mesmo. Além de que estão explorando alguns cristais transparentes que você criou no deserto. Se conversar com o rei, acredito que pode receber mais dinheiro por esse material que estão testando as utilidades, graças a você.

— Tô de boa... Vou ter que carregar isso tudo? — resmungou, olhando cinco sacos cheios de moedas sobre o balcão.

— Deixe no banco do reino e ande com uma moeda só. Caso consiga gastar essa fortuna, só pegar mais depois.

— Onde fica isso?

— Fica na área nobre, do lado esquerdo da grande rua central.

— ...Entendi. Vou deixar lá. Obrigada — com um sorriso forçado, virou-se...

— Tchauzinhooo!

...e ouviu a voz fina exclamar em seus ouvidos. Algo dentro de si sabia que Monica estava saltitante enquanto acenava... mas não queria olhar e presenciar tal cena. Aliviada, saiu da guilda e, enquanto caminhava pela rua, seu sorriso desapareceu e sua expressão voltou ao normal.

Olhando ao redor, sussurrou para si:

— Onde caralhos esse banco está?

A informação fora bem vaga. Mesmo sabendo que era à esquerda do reino, o lugar ainda era imenso. Segurando os cinco sacos de moedas, via-se perdida em um lugar que nunca imaginara existir.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora