Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 5

Capítulo 166: Invicta

Roberto sugeriu o "projeto pecuária" e Nino foi atrás dos animais descritos pelo amigo. Conseguir um Primata vivo era certamente impossível — exigia uma delicadeza absurda para transportá-lo sem que o mesmo explodisse, e não havia como ficar alimentando-o com árvores inteiras dentro de um estábulo, ou galpão.

Logo, seu foco foi ir atrás das espécies de porco e vacas descritas pelo homem.

Afastou-se bastante da vila. A noite chegou, mas não iria embora sem os animais. Afastou-se o bastante para executar o que queria além do projeto, sabia que era seguido pelo menino. Minty o seguia tentando criar coragem para pedir o que queria, mas não conseguia.

Parou. Ficou estático, de costas para o mais velho escondido entre árvores.

— O que você quer? — rosnou, e Minty tremeu, mas apareceu e respondeu:

— Nino... Você poderia me treinar para que eu fique mais forte e consiga proteger a Nina? — Minty foi se aproximando pelas costas do Herdeiro... mas as palavras utilizadas não foram as melhores.

— Eu... Eu não devo ter ouvido direito. Pode repetir? — Nino virou-se meio lento, olhando diretamente nos olhos de Minty.

— Eu quero que você me trei...

BAAM!

Antes que Minty terminasse, o Primordial lhe deu um leve soco na barriga — não queria matá-lo tão rápido — arremessando-o para longe. Antes de ser lançado, Bleearg! banhou o braço de Nino com seu sangue.

Burn!

Nino usou uma explosão escura no braço, limpando o sangue preto "sujo" de estar em contato com sua blusa pura. Minty caiu no chão, apoiado com as mãos e os joelhos, tentando se erguer, mas era difícil. Vomitava ainda mais sangue, seu interior foi esmagado.

— Olha a merda que me fez escutar. Você não passa de um peso morto em todos os sentidos — rosnou.

— Menti...! — Minty protestou... o que só piorou tudo.

BA-CRECK!

Nino não gostou da falta de respeito. Acertou um soco no queixo, destruindo-o, deixando-o mole. Minty gemeu, mas sem a parte de baixo da boca, não conseguia produzir palavras entendíveis.

SCREESCH!

RRRrrRRhR!

Nino segurou o braço esquerdo do descendente e o arrancou.

Pahf...

Minty no chão, gemendo sem conseguir erguer-se de dor.

— Se é mentira, levanta. Vamos, me mostre.

Através da deformação que as lágrimas faziam em sua visão, olhava para Nino em pé, diante do seu corpo. Tentou erguer-se ao ser provocado, mas era impossível, algo o forçava para baixo.

— O que você acha que é? Vai proteger a minha irmã? Veio aqui para isso? Pedir para morrer? — Nino riu, Pm... agarrou o pescoço do descendente no chão e o ergueu um pouco. Com a outra mão, forçou-o a ingerir seu sangue, assim, controlando o corpo de Minty, forçou-o a regenerar-se sentindo ainda mais dor.

O braço, a mandíbula voltaram... mas a dor se intensificou.

Pahff...

Caiu mais forte no chão, quando Nino o soltou.

De quatro, ficou.

Olhava para o chão, respirando pesado, buscando apoio, mas o pouco apoio que tinha... foi roubado.

PHAAM!

Um novo golpe, agora um chute no meio do corpo, lançando o demônio para longe... caiu e assim ficou no chão — um animal indefeso, sem armas ou poder para conseguir se defender. Nino aproximou-se lentamente, olhando-o com nojo.

C-cof-cof-c-fc-... — Minty tossia violentamente, sangue escorrendo dos lábios.

PHAAM!

Nino o presenteou com mais um chute na barriga.

Sccrrrchh...

Minty capotou no ar e, por falta de sorte, caíra em pé. Sem sustento, sem entender, mas o corpo caíra em pé... Nino entendeu como uma provocação.

Uuuh... Aguenta mais um? — sorriu, sua Marca brilhando em um preto absoluto, em meio ao absurdo escuro daquela floresta sombria.

BAAM!

Incapaz de se mover, Minty levou mais um soco na barriga, PAHFT! que o lançou contra uma árvore. Pássaros que dormiam acordaram com o "terremoto", o som agressivo do desespero em meio ao bater de asas sendo escutado pelo menino ferido.

Bateu as costas com força. Sangrando, abaixou a cabeça antes mesmo da gravidade fazer seu trabalho, descendo-o até o chão, para focar sentado — jogado, acabado — no pé daquela árvore grossa e alta.

Nino se aproximou lentamente, mais uma vez. Mãos nos bolsos. Olhava-o de cima. Observava a respiração dolorida e escutava, enquanto o sangue escorria da boca. Sangue, seu sangue, sangue da sua linhagem... pesou na decisão.

— Levanta e vai embora — com desprezo, rosnou e se virou, começando a se afastar.

Depois de alguns segundos, Minty se levantou cambaleante, atrás de Nino. Cabeça baixa, mas era nítido sua raiva acumulada naquela humilhação. Corpo se movendo em cada respiração. Olhou na direção de Nino, olhou para as costas desdenhosas lhe oprimindo silenciosamente.

Olho direito fechado, machucado. Olhar esquerdo furioso, cravado.

Colou as palmas, viradas para baixo, tocando com todos os dedos, os pulsos dobrados de ambos os braços em um Selo de Mãos. Brilhou. Uma luz branca foi corrompida pela magia escura. Com uma aura roxa emanando do Selo, Minty rosnou em pensamentos, se preparando para atacá-lo:

"Vou te mostrar quem é fraco!"

Mas... quando deu o primeiro passo do avanço, um grande olho surgiu diante dele, encarando-o. Rasgou o escuro. Rasgou o ar, o espaço. Rag surgiu, olhando-o diretamente, no fundo dos olhos, rasgando-os e penetrando na alma. Sua ordem existencial, seu aviso foi cravado na mente do descendente — "se mova e morra".

Minty paralisou de medo... nenhum músculo, nenhum pensamento ousou passar naquela cabeça transtornada. O corpo travou, mover-se era morrer. Não se moveu, mas ainda era presa fácil se fosse de fato um inimigo.

— Já foi ou quer apanhar mais? — Nino rosnou, dando-lhe uma segunda chance. Não virou-se, continuara de costas, distante, despreocupado, desdenhoso. Seu rosnado saiu de cena junto com Rag, que sumira sem Minty perceber.

Tomado pelo medo, cancelou o Selo, e olhando para Nino de costas, naquela escuridão macabra da floresta tão temida por diversas raças... virou-se obediente e foi embora, correndo, com o rabinho entre as pernas.

Nino olhou para trás de canto de olho, suas íris quase iluminavam o ambiente. Voltou-se à frente e foi realizar o pedido de Roberto.


Minty chegou à vila depois de um tempo, e entrou na casa de Anna, onde todos estavam à mesa, comendo e conversando. Assim que o viram entrar, destruído e mancando, Clarah se levantou rapidamente e foi até ele.

— O que aconteceu?! — perguntou, visivelmente preocupada.

Minty pensou... mas ainda com rancor de Nino, revelou:

— Pedi ao Nino que me treinasse, mas ele só me xingou enquanto me torturava, perguntando se eu aguentava mais daquilo — seu tom vitimista quase teatral.

— Como assim?

— Arrancou o meu braço. Me fez regenerar com o sangue dele e ficou me espancando. Parecia se divertir com aquilo — continuou... Clarah ficou aterrorizada, Jaan preocupado com a segurança de fato naquela vila.

Nina esperava algo pior... e para Anna aquilo era de fato um treinamento. Fizera coisas piores com Nino.

— E você simplesmente desistiu e veio embora? — perguntou Anna, bebendo do seu suco preferido, sem olhar para o menino.

— Sim... 

— Então você falhou no teste — respondeu, virando lentamente o rosto para Minty com um olhar apático e desinteressado. "Nino tentou te matar, mas por quê?" — Ele iria te treinar se você tivesse resistido e dito que aguentava, mas desistiu depois de alguns golpes. Perdeu um braço e voltou chorando com essa cara de vítima? Ele ainda te regenerou. Poderia ter deixado-o sem. Quantos anos você tem? 12? Cresce, já passou da hora — desdenhou, virando o rosto, voltando o foco para o suco.

Com sua narrativa de que era um treino, os pensamentos de Clarah e Jaan deram uma pequena acalmada.

— Mas ele não disse nada!

"Claro que não, ele queria te matar." — Era um teste. Se ele tivesse te avisado, talvez você só aguentasse porque sabia que ele iria te treinar. "É uma mentira ridícula, mas por que ele te deixaria vivo se quisesse te matar? Não faz sentido..." Anna ficou cheia de dúvidas sobre as intenções de Nino.

— Você também é forte... Poderia m...

— Não.

— Por favor.

— Se você não aguentou alguns golpes que ele provavelmente segurou, treinando comigo você provavelmente morreria — rosnou friamente.

— ...

— O único que treinei foi o Nino. Não quero treinar mais ninguém.

— E quem venceu a maioria? — perguntou Nina, curiosa.

— Eu venci todas as vezes — respondeu, olhando-a de canto, sobre o copo em mais um gole.

— Isso é impossível.

Anna apoiou o copo sobre a mesa, antes de responder:

— Mas ontem, no último dia de treino antes de irmos resgatar os escravos, deixei ele ganhar para que ficasse motivado e confiante para enfrentar o Primordial Verde — revelou em tom normal.

— É impossível que meu irmão não tenha vencido nenhuma vez — protestou... Defenderia o irmão assim na frente dele?


Nino voltou à vila trazendo consigo doze cabeças de gado que encontrou. Achou ser o suficiente para o início. Eram animais gordos, fartos. Levou até o celeiro que durante o fim de tarde Nina havia ajudado na construção. Roberto se encontrava nele, naquele momento, preparando o espaço para os animais que Nino trouxesse. 

Depois de uma curta conversa, despediram-se e Nino retornou à casa de Anna, ouvindo a conversa que se mostrava cada vez mais acalorada:

— Bora um duelo, Anna. Só assim vou acreditar nisso.

— Nina?

Nina virou-se à porta, vendo-o entrar, confuso.

— Oi. Já chegou?

— Não, não. Tá me vendo aqui, não, animal?

O encarou com um rosto antipático.

— Por que tá desafiando ela pra um duelo? Quer morrer?

Anna riu de canto de boca, soltando um leve barulhinho. Nina olhou-a antes de voltar o olhar ao irmão:

— Ela disse que ganhou de você em todos os treinos.

— Aí, mentiu! Eu ganhei o último! — "desmentiu", orgulhoso, olhos fechados, indicador ao lado do rosto como quem teve uma ideia.

[ — Mas ontem, no último dia de treino antes de irmos resgatar os escravos, deixei ele ganhar para que ficasse motivado e confiante para enfrentar o Primordial Verde — revelou em tom normal. ]

As palavras de Anna voltaram à mente de Nina.

— ...É só um duelo rápido, não é pra matar ninguém — continuou.

— Você que sabe — Nino respondeu, dando de ombros.

— Bora então, Anna? Um duelo apenas. Rapidinho — propôs novamente, olhando para Anna.

Anna esticou os braços para cima, espreguiçando-se na cadeira.

— Tá bom.


Sob a iluminação da lua, e tochas de chamas escuras, se encontravam agora onde Nino treinara com Anna, próximo de uma das repartições do grande rio. Frente a frente, se encaravam. 

— Com ou sem arma? — provocou Nina, acreditando que Anna não tinha tanto controle do próprio sangue.

— Tanto faz. Nino, você quer ir com ela? — provocou.

— Tô de boa... Tá, vou contar. Três... dois... um... Comecem!

Vu!

Nina surgiu diante de Anna. Uma espada de sangue acabando de se formar, avançando um corte horizontal na altura do pescoço. Um treino só era um treino se fosse realmente querendo matar... Srh... sua lâmina parou.

Da mesma forma que surgira diante de Anna, o braço esquerdo dela surgira esticado, parando a lâmina com a palma da mão.

Nina ficou assustada, e pensamentos passaram rapidamente por sua cabeça:

"Hã?!" A mão de Anna sangrava levemente, com um tom de azul-claro. "Sangue azul-claro...? Mas seu cabelo é branco!"

Anna, com um olhar entediado, a observava nos poucos centésimos em que Nina se encontrava perdida em seus pensamentos.

Crash!

Anna apertou a espada, destruindo-a, e Nina deu um passo à frente, perdendo o equilíbrio.

Tentou socar o rosto da adversária, mas, com a mesma mão que havia sido cortada e já curada, Anna segurou o punho de Nina. BAAMM! com a direita, acertou um soco na barriga da cunhada, lançando-a para trás com tamanha violência.

CRUNCH!

O braço de Nina foi arrancado e, ao ser descartado no chão, virou fumaça preta.

Anna criou uma foice de água e saltou, dando uma pirueta no ar enquanto desferia um corte no vento em direção a Nina.

— Lua Nova — murmurou.

Nina se regenerou enquanto voava, Srchc... fez um rolamento no chão e se virou para encarar Anna... Ao abrir os olhos, ficou assustada ao ver um corte absurdo sendo propagado pelo ar como uma reação em cadeia, a centímetros de seu rosto.

SKRUNCH!

Se jogou rapidamente para a direita, mas, mesmo assim, sua mão esquerda e parte de sua perna foram decepadas. Regenerou-se instantaneamente, mas ainda agachada no chão, sentiu algo gelado pairar levemente em seu pescoço.

Anna surgiu atrás dela, em pé, segurando o cabo da foice de maneira descuidada, apenas com dois dedos, deixando-a "solta". A lâmina raspava levemente o pescoço de Nina, que olhou para cima e encontrou os olhos de Anna, encarando-a.

— Acabou — anunciou, antes de desfazer sua foice.

Minty, Jaan, Clarah e Nina ficaram assustados, mas Nino, deitado no chão, apoiando o rosto nas mãos, ficou todo felizinho, com um sorriso apaixonado, balançando as pernas para trás e para frente.

— Minha! Minha mulher... 

Os três, sentados ao lado de Nino, viraram lentamente a cabeça para olhá-lo, todo bobo, enquanto ele encarava Anna, depois de uma clara tentativa de assassinato.


— É... eu perdi.

Anna estendeu a mão, e Nina a segurou. Após ser ajudada a se levantar, Nina elogiou:

— Você é muito forte, Anna.

— Talvez não seja o suficiente — murmurou baixinho, e Nina não ouviu claramente.

— Não entendi.

— Seus amigos estão vindo.

Nina se virou e viu Minty, Jaan e Clarah correndo em sua direção.

Quando olhou de volta para Anna, ela havia desaparecido. Olhou à frente e viu Anna ao lado de Nino, conversando.

— Você está bem? — perguntou Clarah, preocupada.

— Ela é muito forte... Mas estou sim. — Nina riu e disse: — Vamos pra casa.

Jaan e Clarah concordaram com o rosto, e seguiram-na, mas depois de se distanciarem do local, Clarah percebeu que Minty não fora com eles. Voltou até o local do duelo e o encontrou ao lado do rio. Em meio ao escuro, sentado, sozinho.

— Não vai ir embora? — murmurou.

Minty virou-se lentamente com o rosto. Olhou-a, deu um pequeno sorriso e desviou o rosto, voltando sua atenção ao reflexo da lua na água.

— Se eles não querem me treinar, eu vou treinar e ficar forte sozinho — respondeu em tom baixo.

Ah... Tudo bem. — Clarah saiu um pouco desanimada com a resposta de Minty. Não sabia o que responder, então deixou por isso. Deixou-o lá, sozinho, mesmo querendo ajudá-lo de alguma forma a sair daquele estado de tristeza visível em seus olhos.


Voltou para casa. 

— Clarah, o Minty não está com você? — Jaan perguntou-a assim que Clarah entrou pela porta.

— Não. Ele disse que iria treinar sozinho, e ficou lá.

— ...Ele é assim mesmo. Logo ele volta ao normal — tentou ser positivo.

— Acho que não. Dessa vez ele está diferente. Por algum motivo, ele quer ficar mais forte — ponderou, cabeça um tanto baixa enquanto murmurava.

Nino, sem se importar com a conversa, se virou e subiu as escadas.

— Estou indo dormir. Boa noite a todos.

Anna o seguiu.

Nina olhou para Clarah e Jaan, e falou:

— Estou indo também. Boa noite, gente. Amanhã ele deve estar mais tranquilo. Só foi uma quebra de expectativa. Não esperava que meu irmão ia fazer aquilo e ficou aborrecido.

— Não sei, Nina. Espero que sim — Clarah respondeu.

— Se eu tivesse moedas comigo, apostaria com você.

— Pobre...

— CALA A BOCA, GAROTA, VOCÊ TAMBÉM NÃO TEM! — Jaan encarou Clarah com raiva.

— Vocês dois não param, né?

— Pessoas burras me irritam — respondeu de olhos fechados, ignorando o amigo.

— Boa noite. Não estou afim de conversar com gente burra. — Jaan fez o mesmo, mas subiu as escadas logo em seguida, apressado.

— EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ, VOLTE AQUI!

PHAA!

Clarah subiu as escadas atrás dele, chegou no corredor e correu na direção, mas Jaan bateu a porta e trancou na cara dela.

— SEU MOLEQUE!...

Do outro lado da porta, o menino respondeu:

— Só pessoas burras discutem por trás de uma porta.

— E o que você acha que está fazendo, seu imbecil?!

Jaan assumiu uma expressão travada ao perceber que a amiga tinha razão.

— ...Mas eu não te perguntei!

Nina, agora no corredor, soltou uma pequena risada enquanto abria a porta do seu quarto.

— Boa noite, Clarah — desejou e fechou a porta, rindo.

— Boa noite — deu um tchauzinho, também rindo.

Depois entrou em seu quarto, o primeiro ao subir a escada, à direita. Jaan ficou com o do meio e Minty no último, embora nem tivesse escolhido. Nina ficou no antigo quarto de Nino, o do meio no lado esquerdo, mas como este agora dormia com Anna, Nina tomou o quarto mais próximo do irmão para si.

Embora ainda risse um pouco, sua expressão logo se tornou mais abatida enquanto se dirigia para a cama. Do outro lado, Jaan, na mesma situação, permaneceu sentado no chão, encostado na cama e olhando para a mesinha à sua frente. Ambos pensando em Minty, não da mesma forma, mas no mesmo contexto.


Deitados, Anna questionou Nino: 

— Você hesitou na hora de matá-lo? — murmurou baixinho, enquanto era abraçada de costas.

— Aquele inseto disse que queria proteger a Nina.

Anna não conseguiu se conter e começou a rir. Saiu do abraço, virando-se de frente para ele. Seus rostos próximos. Nino viu-a sorridente e acompanhou um pouco o riso baixo. Olhos brilhantes, azul congelante, olhando-o sem piscar, visivelmente apaixonada.

— ...Ficou com ciúmes e bateu nele depois?

— Só existe uma pessoa que eu quero ao lado da minha irmã.

— Quem?

— Você ainda vai conhecer ela.

— "Ela"?

— Sim. Minha irmã gosta de uma menina. O nome dela é Nathaly. O problema é que ela usava minha aparência pra ficar com ela e ainda não contou a verdade pra Nathaly.

— Você já fez algo com essa garota?

— Ela já me roubou um beijo... — Fu! — Anna?

Anna se virou para o outro lado da cama, surgindo na outra ponta, bem distante de Nino.

— Não fala mais comigo por uma semana — rosnou arisca.

— Amor... Você é a única mulher por quem eu já me apaixonei na vida.

— Você é um safado!

Nino se arrastou na cama, e a abraçou por trás, Mwah!-Mua-Mumumwah! dando beijinhos em seu pescoço, quase mamando-o. Anna se perdeu no prazer e esqueceu o que ele falou, mas logo se lembrou. Arregalou os olhos e o empurrou.

— TIRA AS MÃOS DE MIM!

— Amor... — resmungou com um pequeno risinho audível.

Irritada, se sentou na cama e o encarou.

— Tá rindo do quê?! — questionou, com uma expressão fofa e brava, enquanto Nino a olhava.

— Te amo.

...Corada, se virou e se deitou novamente na cama, com raiva, mas também com um leve sorriso ao ouvir aquilo.


Minty continuou lá fora... focado, fazendo repetidas flexões. 

— 92, 93, 94.


...Dias se passaram.

Clarah, Minty e Jaan haviam deixado de usar o uniforme da escola. Uma moradora da vila fizera novas roupas para eles, conforme solicitado.

Clarah escolheu um shortinho semelhante ao que Nina usava, mas na cor branca. Gostava da roupa da escola, mas fizera alterações. Não queria mais o blazer, o descartou. Fora a primeira que os moradores viram ouro, mesmo que não fosse moedas, ainda era feito de ouro todos aqueles detalhes.

Gostava do blazer cobrir seus braços, mas não gostava dele em si. Então pediu para que fizessem uma blusa também igual à comprida de Nina, mas da cor branca. Nina costumava deixar o sangue que usava de roupa mais na forma do macaquinho, entretanto, quando usava na forma de short, parecia que deixava a blusa para dentro.

Com isso, Clarah deixava-a para dentro do short, fazendo com que parecesse um shortinho de cintura alta. Ainda permanecera usando meia-calça — branca — que ia até um pouco acima dos joelhos. Tendo uma influência grande e bem clara vinda de Nina, pediu que confeccionassem um par de tênis iguais ao dela, entretanto, de cor branca.

Minty, por outro lado, não se importava muito com roupas, apenas queria treinar. No entanto, como suas roupas da escola já estavam sujas e fedendo, optou por duas mudas de roupas simples: uma calça preta e uma blusa cinza-escuro.

Assim, enquanto uma secava após a lavagem na própria repartição do rio onde não saía e não parava de treinar, podia treinar com a outra.

Jaan também não ligava muito para roupas, mas pediu uma que não tivesse a cor da sua linhagem. Escolheu uma calça marrom e uma blusa de manga comprida em tom de cinza bem simples.

Em uma tarde, Clarah decidiu ir até Minty. As poucas vezes que este comeu algo fora porque Clarah levou comida. Não saía daquela área por nada. Era possível ver um pouco da área através do segundo andar da casa de Anna: a visão de onde o menino treinava era melhor do próprio quarto e do de Jaan, mas ainda sim, sempre que Clarah olhava pela própria, via-o de relance em meio às folhas de árvores mais baixas.

— Você já está há uns sete dias fazendo isso. Dá um tempo. Vá fazer outra coisa, descansar, sei lá — reclamou, incomodada.

Minty, enquanto se exercitava, respondeu:

— Não dá. Estou treinando.

Clarah ficou um pouco irritada.

— Quero um duelo. Se eu ganhar, você para com esse treinamento suicida por uns dias. E se você ganhar, eu não encho mais seu saco. Continuo trazendo água e comida, mas não vou mais pedir para parar.

Minty saiu das abdominais e ergueu-se. Todo suado, sem camisa. Ambas secando no varal improvisado.

— Pode ser. É bom para ver se estou melhor. Vale tudo? — perguntou, dando dois pulinhos e movendo os braços.

— Vale tudo — respondeu com firmeza.

Os dois se posicionaram a uma certa distância um do outro. Minty criou garras nas duas mãos, e Clarah criou uma adaga de sangue, mas adicionou magia de luz e deixou-a bem brilhante.

Minty jogou uma pedra para cima.

Concentrados, olhando-se nos olhos enquanto esta caía.

Pf-Pf...

Clarah avançou, saltou e fingiu atacá-lo com a adaga, desferindo um corte de direita, aéreo.

PHAM-PHAM!

Minty tentou bloquear, mas ela ignorou a gravidade, surgindo em uma esgueirada, virando um chute surpresa na lateral esquerda completamente desprotegida. O impacto o fez dobrar um pouco o corpo, mas Clarah virou-se de novo, voltando mais um chute, agora na lateral direita.

PHAAMM!

Em seguida, saltou, acertando uma voadora com os dois pés no meio do peito do amigo, arremessando-o para trás com bastante força. Metros percorridos em meio à dor dos golpes velozes.

Nina passava pelo local, voltando para a casa depois de um passeio pela floresta, quando reparou a luta e observou um pouco.

Clarah recriou sua adaga antes de acabar seu mortal aéreo, Fu! e a arremessou, logo aterrissando agachada, olhando bem concentrada na direção da sua arma.

Kop... — A adaga rasgou o ar em direção a Minty. Scrsch... com um rolamento, Minty se ergueu, mesmo com dor no corpo. Viu a adaga chegando. Iria errá-lo. Iria passar ao lado do seu corpo. Sorriu e tentou segurá-la para arremessá-la de volta em Clarah... mas, prestes a pegá-la — Tu! — Clarah concluiu sua magia e se teletransportou para a adaga.

PHAM!

Surgiu em pé sobre o braço de Minty, e o chutou no rosto, PAHF! arremessando-o com força para o chão, onde caiu de barriga para baixo. Puf... em seguida, Clarah aterrissou em pé sobre ele e se sentou em suas costas sujas e bem suadas.


Nina mostrava-se visivelmente curiosa, mas se virou e foi embora. 

"Poder interessante... nunca a vi nessa perspectiva. Sempre me pareceu frágil. Uma garotinha apaixonada." pensou, enquanto se afastava de volta para casa.


— Perdeu! Agora vamos embora — Clarah sorriu e comentou, com os braços na cintura, olhos fechados. 

— Está doendo.

Colocou a mão na cabeça dele e brincou:

— Cura... É. Não sei como a Anna fez aquilo.

— Por que ir embora? Você acabou de provar que eu preciso treinar mais — resmungou, com a cabeça no chão, virada um pouco para a direita. Visivelmente frustrado, olhar para baixo.

Clarah respondeu, brava:

— Não estou dizendo para parar de treinar, estou dizendo para parar de apenas treinar. Eu só te vejo se eu venho até aqui, nem sei se você volta para o quarto à noite. É capaz de passar as noites aqui fora como um animal.

Ainda deitado sob ela, perguntou:

— Então me diz... Como você é mais forte do que eu, mesmo eu nunca te vendo treinar?

Clarah mergulhou em lembranças de seu passado: chutava troncos de árvores dia e noite até sangrar, para ficar mais forte e tentar encontrar sua irmã. Mesmo com dor, fingia que estava tudo bem e voltava a chutar as árvores, buscando fortalecer ao máximo seus chutes.

Durante as férias da escola, Clarah voltava para casa e ficava sozinha, chorando todos os dias sem parar de treinar.

Sempre pensava em sua irmã, que poderia estar em algum lugar precisando de sua ajuda.

Voltava para a escola logo depois, usando meia-calça branca para esconder as cicatrizes, em sua maior parte na canela da perna direita, de Minty, com o mesmo sorriso no rosto, olhando para Minty e Jaan, escondendo esse segredo para não preocupá-los com seus problemas pessoais.

— Eu precisei aprender a ser forte... — murmurou baixinho, enquanto se levantava de cima dele e, com a cabeça baixa, começou a andar para longe — você tem razão. Me desculpa por atrapalhar seu treino.

"O que deu nela?" pensou, erguendo um pouco o rosto enquanto a via se afastar.

Enquanto Clarah caminhava de volta para casa, uma lágrima escorreu de seus olhos.

— Que hipocrisia. Xingá-lo por fazer algo que eu mesma fiz até não aguentar mais... Será que tudo que eu fiz serviu para algo, afinal?


Em uma cama luxuosa, posicionada em um quarto ainda mais luxuoso, havia uma mulher sentada, vestindo um deslumbrante vestido branco digno de uma Imperatriz. Seus olhos tinham um tom rosa-claro, quase branco, e seus cabelos eram igualmente brancos.

Ao seu lado, em pé, o Primordial Branco, com suas vestes largas feitas de seu próprio sangue, que replicavam joias brancas e o mais puro luxo, a olhava com um olhar apaixonado.

— Amor... Você precisa melhorar esse rosto se quiser comer algo. Se não me obedecer, irá apanhar novamente. Tá bom? — seu tom era quase infantil, como se estivesse tentando fazer uma criança comer vegetais se quisesse sorvete depois.

Ela virou o rosto para encará-lo, mas não respondeu nada.

Pá!

O temperamento de Branco mudara instantaneamente.

Manteve o rosto para baixo após o forte tapa, e Branco a segurou pelo pescoço, subindo em cima dela enquanto a enforcava, Rarrsg! e arrancava suas roupas com brutalidade, a ponto de rasgar as novas peças que haviam acabado de chegar.

A moça começou a chorar sem reagir.

Um olhar vazio, como se não tivesse mais forças para lutar; apenas chorava com o rosto cansado, completamente em silêncio e sem expressões. Branco rosnava. Olhava-a de forma amorosa, carinhosa, cuidadosa, com amor... mas isso tudo mudava para raiva, ódio, violência e obsessão sexual de uma hora para a outra, ao não ter o que queria, ao não escutar aquela silenciosa mulher abrir a boca em mais um dia.

Sentindo seu corpo ser violado, a moça clamou em pensamentos outra vez:

"Por favor... Alguém me salve."

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