Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 4

Capítulo 156: Raça Fraca

Seguiram correndo na direção em meio à floresta. Não era inteiramente densa. Quanto mais próximo das extremidades, menos ficava. Morros e pequenos desvios; as árvores imensas eram o obstáculo mais irritante de precisar desviar.

Um imenso rio passava pela tão temida floresta, dividindo-se em diversos caminhos com riachos mais intimistas. Nenhuma construção. Nenhuma anormalidade que remetesse a vida inteligente morando por lá.

Chegaram.

Nino era mais rápido no quesito velocidade de corrida, mas seguiu o ritmo de Anna e, em menos de cinco minutos correndo, chegaram na saída do lado leste da imensa floresta... onde, de cima de duas diferentes árvores, observaram uma caravana aproveitando as sombras que as árvores criavam para se esconder do sol.

Eram comerciantes e subordinados demônios da linhagem verde, transportando tecidos, água, frutas e outras mercadorias, mas havia três carroças grandes cobertas, conectadas uma à outra com correntes de metal pesado. Anna conseguia sentir o que tinha atrás dos panos que as cobriam, enquanto Nino não.

Cr-r-r-unch!

Não viu quando Anna desceu, mas, quando viu-a dizimar aquelas pessoas, desceu querendo mostrar serviço. Matou os homens que guiavam os cavalos escoltando as carroças cobertas. Não houve tempo de gritar ou se assustar. Nino os matou antes mesmo que pudessem notar alguém por lá.

Depois de cortar os três subordinados e dois outros que seguiam em pé, olhou para a esquerda, lançando o rosto como se tivesse cabelo grande, fazendo um carão na direção de Anna. Anna tinha sua foice na mão direita, corpo ereto, cabeça baixa, observando com calma o último comerciante agonizando, parecendo um quebra-cabeça sem pernas e braços no chão.

Crunch!

Pisou com o pé direito e esmagou o crânio, matando-o. Nino encarava-a como um bobo.

"Minha vez! Minha vez!" quase vocalizou para que ela esmagasse a sua cabeça também.

Anna ergueu o rosto, olhando para as carroças tampadas, viu Nino e desviou o olhar; não notando de imediato, mas logo voltou a encará-lo e sua feição logo assumiu uma expressão irritada.

Nino então ouviu um sussurro vindo da carroça coberta ao seu lado. Quase um choro contido, mas não era adulto. Olhou. Fush... e puxou o tecido. Os comerciantes levavam as mercadorias para vender, já os subordinados estavam levando diversos escravos humanos para outro lugar.

Não eram só homens para servir de mão de obra. Eram mulheres, suas esposas, para servirem de prostitutas e seus filhos, crianças, meninos e meninas cheios de medo se mantendo atrás de suas mães ou, se tivessem sorte, de seu pai ainda estar vivo e presente para tentar protegê-los do mal mais um dia.

Seu olhar mudou, a ordem de Alissa apitou.

CRAASH!

As jaulas foram destruídas sem que Nino se movesse; foi tão rápido que os humanos nem perceberam seu movimento... Assustados, crianças começaram a chorar e os homens daquela jaula apertada se colocaram na frente das mulheres... mas Nino murmurou, tentando não parecer uma ameaça:

— ...Vocês estão livres, podem ir embora.

Todos permaneciam assustados. As mulheres agachadas, tentando ser um escudo enquanto protegiam os pequenos, seus e de suas amigas que acabaram morrendo por desleixo de quem as abusava.

A Marca de Nino ficou visível em seu momento de raiva. Aqueles escravos, assim como quase 99% dos humanos, não sabiam detectar presenças. Tudo era questão de ser visível. Sabiam daquela Marca, sabiam que ele era outro Primordial e, assim, sentiam uma espécie de presença diferente, um medo interno maior do que sentir que há algum monstro por perto.

Mesmo assim, um homem um pouco curvado ao lado dos outros, fazendo uma segunda barreira para proteger as crianças e mulheres, perguntou, tentando ser o mais respeitoso possível para não provocar uma reação de fúria:

— Senhor, não temos para onde ir — assumiu... Tinham muito medo. Não sabiam onde estavam e muito menos se havia alguma vila humana ou reino por perto. Entre serem de fato libertados e morrerem de fome ou por algum monstro que surgisse... preferiam: — Não teria um lugar ou um trabalho para nós?

A Marca foi reprimida conforme a raiva esvaía. Nino ergueu uma sobrancelha, um rosto levemente enojado se formando. Olhou para a esquerda quando ouviu Anna se aproximar.

— Podem acampar perto da minha casa — respondeu Anna... e Nino lançou um olhar rápido na direção dela. Olhou para os escravos; todos, exceto as crianças, demonstravam um olhar um tanto mais esperançoso, embora não felizes de fato.

— Só um minutinho — pediu Nino, com um sorriso forçado. Segurou o braço de Anna e a puxou até uma carroça distante para murmurar meio irritado: — O que você tá fazendo? São só humanos de merda. Só libertá-los já é o bastante!

— "Humanos de merda"? O que eles fizeram? Tem crianças ali. Pessoas que só querem sobreviver. Não parecem pessoas ruins. As pessoas ruins foram as que fizeram eles estarem ali. Eu vou falar isso só mais uma vez: se você é como os desgraçados dos outros Primordiais, some daqui. Desapareça, vai encontrar os merdas da sua família e finja que nunca nos conhecemos — rosnou e apontou com o indicador para o lado oposto da floresta. 

Nino mantinha o rosto fechado, mas não conseguia encará-la, mesmo a garota sendo mais baixa.

— Desculpa — pediu.

Anna abaixou o braço lentamente. Olhar ainda fixo nele. Desviou-o, fechou os olhos e começou a voltar na direção dos agora ex-escravos. Quando abriu os olhos, Nino já ajudava os humanos das outras duas jaulas a saírem em segurança... Anna aborreceu levemente o olhar, mas chegou e escutou:

— Vocês sabem construir? — perguntou Nino.

— Não somos muito bons nisso. Um grande amigo nosso, que nos ensinava, não está mais conosco, mas faremos o nosso melhor, a suas ordens, senhor. — O homem abaixou a cabeça e se ajoelhou; atrás dele, todos os outros escravos fizeram o mesmo.

Nino gostou... mas não queria passar nenhuma imagem errada para Anna, que o encarava a todo momento:

— Se levantem, não precisa disso. Não é para mim que construirão, é para vocês. Vou ajudar na construção e transporte de materiais. Não sou lá um engenheiro, mas tenho conhecimento de interiores. Acho que consigo ajudá-los na construção de suas casas com tranquilidade.

— Claro, senhor!

Nino olhou para todos e ordenou:

— Vamos levar essas carroças e cavalos. Vi que há comida e alguns recursos interessantes que vão ajudar na criação dessa vila. Quero um homem guiando cada cavalo, vamos levar tudo. As mulheres vão sentadas com as crianças, entendido?

— Sim, senhor!

— Vamos.


Seis horas... Seis inteiras horas de viagem. 

O início foi tranquilo, árvores levemente mais espaçadas, caminhos que era possível percorrer com tranquilidade, mas quanto mais iam para dentro, pior ficava. Conseguiram chegar em segurança. Anna observou bastante Nino durante todo o trajeto. O jovem adulto mudou completamente o que demonstrara ao xingar os ex-escravos de graça.

Conversava, interagia e até brincava com as crianças, carregando duas, três e até quatro em seus ombros enquanto os guiava até o lugar... era como se agora Nino fosse outra pessoa. Isso deixou-a com um sentimento estranho, mas era um misto.

Isso era bom ou mau?

Tentando sair desses pensamentos, se afastou deles, indo buscar a carne do primata que mataram mais cedo. Encontrou alguns periquitos saboreando da carne; como eram amigos, com todos já acostumados com ela, deixou alguns pedaços para eles e levou mais de 500 quilos envoltos em sua magia de água, onde limpou-as das impurezas que poderiam ter absorvido do chão sujo pelas boas horas paradas.

Quando chegou em casa, viu um cenário de obras.

Nino derrubou algumas grandes árvores, replantou algumas mudinhas e fez tábuas para que os moradores pudessem começar a construção. Materiais e ferramentas foram encontrados em uma das carroças, embora não precisasse, já que Nino, com magia de pedra, confeccionou pregos e algumas ferramentas necessárias.

Trabalharam por algumas poucas horas. Não iniciaram de fato as construções. Com Nino e Anna demonstrando-se serem boas pessoas, o medo e receio quanto a estarem na presença de outro Primordial foi se esvaindo.

Iniciaram só uma organização de materiais. Deixando só o projeto — como o tamanho, a fundação e a estrutura que seguraria tudo — para no dia seguinte, quando estivessem descansados dos longos dias em pé viajando naquela jaula, pudessem iniciar.

Nino tampou todos os recortes, troncos, ferramentas e tábuas com uma camada de pedra para que, se chovesse, ficasse tudo intacto. Assim como criou um abrigo de pedra provisório, para que pudessem passar a noite deitados sem medo de também pegarem chuva.

Conforme a noite começava a cair, Anna cutucou a cintura de Nino do nada, enquanto o mesmo conversava um pouco com alguns homens sobre as casas. Dava ideia de como poderia ser e os homens só iam pensando em como iriam executar tudo com a ajuda do mesmo.

Nino olhou-a meio curioso.

— Prepara a carne como fez hoje cedo — pediu normalmente, rosto neutro... mas Nino abriu um sorrisão e quase começou a rir como um bobo... Anna aborreceu o olhar e o sentimento ainda era estranho. "Uma hora parece ser como eles... outra hora parece ser só uma criança bobona." pensou, olhando-o todo animado procurar pelos temperos naturais como vegetais aleatórios e cogumelos que encontrou em árvores próximas da casa.

Nino preparou a carne de primata para todos, e todos comeram em clima de festa... menos Anna, que não era muito acostumada com barulho e foi dormir mais cedo. Depois de se fartarem, os humanos decidiram que também iriam dormir, para acordarem cedinho e dispostos para começarem os trabalhos.

Nino deixou-os e seguiu até a casa de Anna.

Deitada, cobria-se com sua coberta bem mal confeccionada. Virada para a janela, na ponta da cama... Nino deitou-se na ponta oposta, de costas para ela. Sabia que Anna não estava dormindo. Observara-a o dia inteiro passado, memorizara o baixo som de respiração tranquila.

— Você sabe quantos Primordiais existem? — perguntou baixinho, quebrando o silêncio.

Depois de três segundos, Anna respondeu:

— ...Oito. Água, fogo, natureza, luz, escura, sentimentos e sol. 

— Mas isso dá sete. Qual é o último?

— Minha mãe só me disse esses — Anna lembrou-se que não permitira que o mesmo se deitasse ali. Ergueu-se, sentando-se na cama, olhando-o de costas. — E o que você está fazendo aqui? Sai da minha cama — rosnou, balançando a mão como se estivesse espantando um cachorro. — Sai, sai, sai.

Nino se sentou também, olhando para ela.

— Vou ajudar os moradores nos próximos dias e, quando as casas estiverem prontas, vou fazer um quarto pra mim.

— ...

— Por favor, deixa eu dormir aqui — pediu com o rosto mais sincero que o mesmo demonstrara até então. Não havia brincadeira, pegadinha ou nada... Só um jovem olhando-a normalmente e pedindo algo como se fosse uma desculpa pelo que fizera mais cedo.

Anna o encarou por um tempo sem dizer nada, depois simplesmente se deitou de costas para ele. Nino ficou olhando-a. Desviou o olhar, olhar triste. Visivelmente queria ligar para Alissa. Conversar com Alissa. Pedir ajuda para sua mãe. Receber um abraço e confessar que fizera merda de novo.

— Ei...

Silêncio.

— Como você os vê?

Silêncio... mas Anna ergueu-se e se sentou quatro segundos depois, olhando-o diretamente.

— Eu já disse como os vejo.

Nino piscou enquanto olhava-a e abaixou o olhar. Engatinhou sobre a cama, chegando próximo dela. Sen, Pah... tou. Não lembrava do vão entre a janela e ficou preso, com as pernas para cima em contato com o peitoral... seu rosto era aborrecido, olhando para frente com tédio.

Anna estremeceu os lábios, era uma nítida risada sincera presa ali... mas Nino olhou-a imediatamente quando notou aquilo e, com sua cara de bobão repentina, olhando-a, Anna que assumiu o semblante passado dele.

Ajudou-o a sair de lá, Rrn... e arredou a cama para eliminar o vão.

Nino sentou-se, apoiando as costas na parede com a janela aberta. Anna sentou-se da mesma forma, à sua direita. Não a olhou. Manteve-se olhando ao infinito em sua frente. Olhando para um ponto onde tentou se entender, se encontrar para poder dizer e revelar tudo que podia e sabia sobre si, para aquela garota que despertara um desejo dentro de si, um sentimento que sentia que chegava nas províncias do que Nina sentia por Nathaly.

— Você disse sobre natureza. Sobre a mentira ser algo enraizado na linhagem de demônios rosa... Eu tenho minha natureza também. Não sei de fato. Nunca tive com quem conversar isso de fato. Ao menos para conseguir entender quem eu sou. Eu sinto raiva e ódio de quase tudo. Tudo que é vivo e eu vejo na minha frente, eu me imagino matando ou torturando lentamente. Isso me excita. É como se eu tivesse fome disso. Como se eu precisasse fazer isso para ser quem eu sou.

Anna se manteve em silêncio, somente escutando.

— Eu e minha irmã fomos criados por uma humana. Tudo o que ela não gostava e dizia ser errado era o que eu sentia que era o certo. Matar... ela odiava isso. Mas eu, eu amo... Mas eu também a amo, e por isso eu não matava. Não sei o que é o certo e o errado. Acho que isso é relativo das duas perspectivas. Em uma guerra entre dois povos, quem é o certo e o errado? Os dois querem exterminar o lado oposto. Então, quem é o certo e quem é o errado? Entre as pessoas de ambos os lados, eles estão certos e o oposto que está errado.

— O certo e o errado...? Bem. Você matava por precisar matar ou matava por gostar?

— ...Por prazer.

— Você sorriu, brincou e conversou durante o dia inteiro com esses humanos. Você realmente escondeu a vontade de querer matá-los?

— Não.

Anna olhou de lado.

— Como não?

— Porque pode parecer estranho. Mas eu me importo pra caralho com você — Nino respondeu, virando o rosto na direção dela, agora encarando-se. — Minha mãe adotiva uma vez mandou que eu nunca mais matasse uma pessoa de bem. E ainda especificou em dizer "humanos". Minha avó uma vez disse para eu cuidar e proteger meus amigos, as pessoas próximas a mim. Esses humanos entraram nessa lista. Não sinto vontade de matá-los. Mas não sinto nada por eles de fato. 

Nino desviou o rosto, voltando a olhar para frente.

— É tudo meio estranho. O sofrimento me atrai. A dor me atrai. Me expondo mais que ficar pelado aqui agora, eu digo na minha mais sincera essência: não me importo se existem pessoas de bem morrendo nesse exato momento; não estando próximas a mim, eu não ligo que morram. Mas caso eu esteja no lugar ou próximo, eu salvaria. Não sou uma boa pessoa ou um herói. Sinto que estou traindo a mim mesmo sendo assim. Mas entre trair a mim mesmo e trair minha mãe e minha avó... eu prefiro morrer do que fazer isso.

Anna continuava olhando o perfil do Herdeiro.

— Não sei o que é amor, mas tenho certeza que é essa coisa estranha que sinto quando lembro das duas. — Nino enfiou a mão no sangue do peito e retirou a foto de Alice com Blacko, estendendo para Anna, sem olhá-la. — Você não deve saber o que é uma foto, mas pense que é uma magia que captura o que você está vendo em algo físico. Essa é minha mãe humana e esse é o meu pai.

Anna olhou Blacko, depois olhou para Nino.

— Você é uma versão mais jovem do seu pai.

— Nina é uma versão mais jovem da minha mãe, então.

Anna estendeu a foto para ele. Nino a guardou de volta.

— Não tenho algo assim para mostrar você a minha mãe — comentou, vendo que o olhar de Nino era de quase choro.

— Não tem problema. Eu só queria te mostrar isso e me abrir um pouco. Sinto que não confia em mim e o que eu mais quero é provar que não sou como eles. Se o que você disse em relação à linhagem rosa for verdade, todas as linhagens possuem uma natureza diferente. Se for o caso, ao menos eu sei que das piores, talvez seja eu.

— Se das piores for você, acho que deixou de ser então.

Nino virou o rosto lentamente na direção dela. Anna o olhava, olhos grandes, azul perfeito. Nino abaixou o olhar. A roupa mais leve de dormir parecia um desleixo. Por um momento, pensou em se aproximar para tentar um beijo... parecia o momento perfeito, mas ela era especial demais para colocar tudo a perder de repente. Encarou novamente a sua frente.

— Você acha? — respondeu em murmúrio.

— Ninguém é perfeito. Não adianta eu virar e julgar seus pecados, sendo que eu não conseguiria matar o Primordial Vermelho não sendo por pura vingança. Não consigo perdoá-lo. É isso que uma pessoa boa tem que fazer? Perdoar seus inimigos? Mas perdoar é deixá-los vivos depois de tudo que fizeram? Eu não consigo. Não sinto necessidade de matar, mas com ele... é como se fosse minha única vontade da vida.

Nino só escutava. Anna olhando na mesma e distante reta.

— Minha mãe tinha minha idade na última vez em que nos vimos. Ele tirou isso tudo de mim. Tudo...

— Sua mãe te teve com 15? — Nino olhou-a meio assustado.

— Acho que sim.

— Isso não é um pouco cedo demais, não?

Anna olhou-o meio séria.

— Por que, algum problema? — perguntou em um pequeno tom ameaçador.

— Não... é que... Dependendo da idade do parceiro dela, ele não seria um pedó?

— Minha mãe não tinha parceiro.

Nino olhou-a ainda mais estranho.

— Quê? Tipo... Você nasc...

— Minha mãe disse que não tinha parceiro — rosnou.

"...Você foi adotada então?" Olhava-a e aquele rosto de gatinho raivoso era mais ameaçador do que fofo. Sabia que Anna não gostava de entrar em assuntos referentes à mãe dela. Mas era muito estranho todas as informações que recolhera. — Desculpa, não vou mais falar disso.

Anna desviou o olhar.

— Quantos anos você tem?

— Quê? Eu?

Anna olhou-o seriamente.

— Tá vendo outra pessoa aqui?

— ...18 — respondeu depois de um segundo atordoado pela grosseria.

Hum? Você é mais novo que eu?

— Não sabe fazer conta, não? — devolveu na mesma medida... e Anna semicerrou os olhos.

— Eu sei muito bem fazer conta, só falei sem pensar. Hmph — soltou um sonzinho irritado, virando o rosto de olhos fechados para o lado. Quase cruzou os braços.

— ...Você já me vê como seu amigo?

— Continua sendo um animal — respondeu, virando-se para ele, empurrando-o do canto. Nino saiu daquele lado e Anna deitou-se de costas. — Agora me deixe dormir em paz, antes que te coloque no cantinho do chão outra vez.

Obedeceu.

— Tá bom.

— Não mandei responder.

— Desculpa.

— Muito menos se desculpar.

— ...

— Agora sim.


Com a ajuda de Nino, as casas ficaram prontas muito rapidamente. 

Durante toda a primeira semana, continuou tratando das grandes árvores derrubadas, lindas tábuas e paredes de madeira. Assim como árvores menores tiveram seus troncos brutos para outras finalidades, como estética e sustentação. Acelerando tudo com magia, criou pequenos caminhos de pedras entre as casas.

As crianças finalmente brincavam sem medo de serem espancadas por seus antigos donos, e os moradores tinham casa e comida, vivendo uma vida digna enquanto trabalhavam para o crescimento da nova vila... Morte em vida. O fim precoce de uma infância e inocência prometida. Um tremendo trauma no corpo e na alma.

Crianças que passaram por coisas terríveis. Coisas que nem sabiam o que eram. Mães que imploraram para que fizessem as atrocidades com elas, e não com os pequenos seres que saíram de seus úteros. Não havia como esquecer o passado. Era um fardo e um peso psicológico gigante que tinham que carregar se quisessem continuar vivos.

Mas agora tinham uma chance de ver o outro lado do mundo. Um mundo perigoso. Leis só dentro de reinos e impérios. Fora deles, era cada um por si. Não existiam leis ou regras. Cada um fazia o que quisesse, e era bom você saber se proteger contra essas pessoas.

Em meio ao caos, o mundo era lindo, cheio de vida e belezas naturais. O mundo não era perigoso, o mundo não era mau... os seres que o habitavam é que eram. O mundo não disse para fazerem isso, foram os mesmos que começaram tudo isso.

Era possível uma infância de abusos ser curada? As crianças que passaram por isso um dia iriam conseguir sorrir de verdade? As que não passaram tentavam ajudar sem nem saber. Puxavam-nas para brincar, e se viam todas juntas em brincadeiras leves e divertidas.

Mães chorando de felicidade por não precisarem escutar o grito de seus companheiros enquanto elas mesmas eram forçadas a coisas na frente de todos. Homens finalmente usando sua força e suor dos corpos para construir algo para si e suas famílias... O mais revoltante era que, no início de tudo, foram os próprios humanos que começaram isso tudo.

"Amigos" que fizeram um contrato com demônios em troca de ouro... O ouro por um tempo foi importante para os demônios, mas com o tempo perdeu completamente o valor. Mas o valor ainda era grande para os humanos, então a venda de escravos era muito comum.

Uma promessa de um emprego incrível que pagava muito... Puff... caiu no conto, acordou com uma coleira e demônios de alguma linhagem escoltando-os até um lugar onde seriam usados até a morte.

O primeiro. O segundo. O terceiro. O quarto... O quinto... Nino fazia o café da manhã de Anna todos os dias e todos os dias mantinha um sorriso no rosto falando as mesmas coisas, informando como cozinhara e preparara cada coisinha.

Vê-la fingir que não estava uma delícia era delicioso. Olhar o rostinho enquanto a mesma o olhava parecendo uma assassina irritada em ser observada enquanto comia.

— Não vai ir ajudar na construção, não? — reclamou de boca cheia.

— Come tudinho primeiro... — provocou.

Grr... — rosnou e quase mostrou as garras.

Nem adiantava ameaçar que ia espancá-lo, Nino ficava sorrindo como um bobo achando que aquilo era uma demonstração de afeto... então segurava seu pratinho e se virava de costas, comendo igual uma selvagem toda corcunda, não permitindo ele olhar para o seu rosto.

— Não vale! — protestou.

— VAI TRABALHAR E ME DEIXA EM PAZ, INFERNO! — gritou olhando-o e virou-se novamente para a parede.

Com sua ajuda, Nino percebeu que as coisas estavam indo rápido demais, e isso o incomodava profundamente. Durante toda a semana, dormira na cama de Anna. Pequenas conversas sem rumo, mas que eram importantes para ele.

— Qual a sua cor favorita...?

— Qual o seu problema?

— A minha é preto!

— ...Como sua irmã te aguenta?

— ...Não aguenta.

No oitavo dia, todas as casas estavam prontas, menos a nova de Anna... e Nino começou a construção dela. Entretanto, durante todo o dia, só construiu a base... e Anna começou a achar isso estranho.

— Eu sou legal?

— Insuportável.

Aaah... Não sou seu amigo ainda?

— Tá se tornando o meu inimigo mortal.

— Ótimo! Progresso!

GRR!

No nono dia, Anna o observou enquanto o Herdeiro trabalhava. Nino não deixou ninguém ajudá-lo e parecia se mover em câmera lenta, demorando horas para levar uma tábua de madeira de um ponto a outro, mesmo podendo facilmente levantar dezenas de árvores ao mesmo tempo.

A noite chegou e Anna já estava deitada quando Nino se deitou ao seu lado.

Então, uma voz vibrou através de todos os ossos dele:

— Dois dias e você acabou apenas o piso da casa. Tá fazendo hora?

— ...Sim — assumiu.

Anna se sentou na cama, encarando-o. Nino se levantou, olhando-a de volta.

— Você tem até amanhã para terminar essa casa. Se não acabar seu quarto, vai dormir no chão até acabar tudo.

Uhum...

Se deitou novamente, e Nino fez o mesmo, tentando dormir.

Na manhã seguinte, Nino foi trabalhar mais cedo... e Anna, acordada, seguiu-o sem que o mesmo visse... e o viu se movendo como uma lesma. Segurando com preguiça uma unidade apenas de tábua por vez.

Ao perceber que Anna o observava, acelerou o ritmo do nada... e Anna surgiu ao seu lado, quase o matando do coração:

— Você tem até eu voltar com as penas das camas para acabar essa casa — rosnou, virando-se para ir embora.

— Traz bastante.

Hum? — Olhou para ele, intrigada.

— Vou fazer seis quartos. Não sei se a Nina fez amigos como eu tenho você... — disfarçou, olhando-a de canto de olho, mas ela manteve a mesma expressão de sempre. — Traga o suficiente para fazer seis camas de casal...

Anna inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha, olhando-o com curiosidade.

— É para ter mais conforto...

Nino começou a se mover de um lado para o outro igual uma princesinha pidona, com os braços para trás tentando disfarçar seu nervosismo, mas, quando piscou, Anna havia desaparecido.

Hãm? — Mesmo confuso com os sumiços repentinos dela, voltou ao trabalho, mas desta vez com mais pressa.

Anna saiu em busca dos periquitos, grandes aves que, apesar de seu tamanho, não eram nem um pouco agressivas.

Eram uma excelente fonte de penas, mas Anna não planejava matá-las; essas aves perdiam muitas penas naturalmente, então apenas daria um banho nelas para coletar uma grande quantidade, como havia feito no passado.

Quando começou a anoitecer, retornou com uma imensa bolha de água repleta de penas. Ao chegar na nova vila, desfez a magia, deixando as penas secas no chão. A água foi usada apenas para transportá-las e purificá-las, removendo qualquer odor.

Assim que deixou as penas, as moradoras responsáveis por aquela parte da tarefa começaram a colocá-las dentro dos lençóis e fronhas que costuraram, fazendo colchões e travesseiros, assim como tinham feito para suas próprias casas anteriormente, com a ajuda da garota dos olhos azuis.

...A casa já estava pronta.

Ao entrar na nova casa, Anna olhou ao redor, admirando o trabalho de Nino... Huh?

Atravessou a porta de madeira embutida em extremidades de troncos brutos, na parede de pedra cuidadosamente trabalhada.

O primeiro cômodo que encontrou foi a sala de jantar. O primeiro andar contava com três cômodos principais: à esquerda da porta, o banheiro da casa. Como não havia encanamento ou sistema de descarga, Nino fez um buraco profundo no solo, sobre o qual criou uma privada com tampa.

Lá embaixo, usou sua magia para modificar o veneno que havia tomado posse dos homens-sombra, junto com o ácido que as anomalias de pombos cagavam e o do sapo que matara no outro mundo, transformando-o em um ácido sem cheiro, que não derretia e aprofundava ainda mais o buraco, mas extremamente poderoso.

...Testou e aprovou: a bosta desaparecia mesmo.

O banheiro ficava em uma porta sob a escada de madeira que levava ao segundo andar. Em frente à escada, uma grande mesa de tronco cortado, meio oval, mas bem retangular, cercada por várias cadeiras, ocupava a sala de jantar. No final da mesa, ficava a cozinha, que, ao contrário dos outros cômodos feitos de madeira e pedra, era completamente feita de pedra.

Nino havia criado uma cozinha com pedras lisas, mesas para cortar carnes, uma espécie de freezer para armazenar alimentos, um fogão a lenha com chaminé para a saída de fumaça, além de muitas panelas de pedra, talheres de madeira e outros utensílios que ele considerava necessários quando fosse cozinhar para "sua" dama. 

Ao entrar na casa, Nino descia as escadas e deu de cara com Anna.

— ...Oi.

— Oi.

— Trouxe as penas?

— Sim, estão com as mulheres lá fora.

— Tá, vou buscar os colchões.

Uhum.

Ficaram parados, olhando-se por três segundos, até que Anna deu uma jogada de cabeça na direção da porta e Nino saiu andando, passando por ela. Saiu pela porta e Anna subiu pelas escadas.

O segundo andar consistia em um corredor iluminado por uma janela no final.

A casa era bem iluminada, com muitas lamparinas de pedra espalhadas, conferindo-lhe um ar rústico e acolhedor.

Ao entrar em um dos quartos, notou que ele tinha apenas uma janela com cortina de tecido, uma mesinha próxima à cama e o suporte da cama encostado na parede, como na sua antiga casinha.

Nino logo voltou para a casa carregando os seis colchões, distribuindo-os em cada quarto.

Anna o observou por um momento e, após escolher seu quarto, entrou e fechou a porta. Já era noite, e Nino fez o mesmo.

O quarto que Anna escolheu ficava no final do corredor, à esquerda, enquanto Nino escolheu o quarto imediatamente ao lado, também à esquerda. Agora, eram vizinhos de parede.

Depois de dez dias dormindo juntos, esta seria a primeira noite separados. Ambos estavam deitados em suas novas camas; Anna, no início, sentia-se aliviada por não precisar mais dividir a cama.

Nino, por outro lado, estava tendo dificuldade para dormir. Se revirava na cama, incapaz de encontrar uma posição confortável, mesmo que sempre dormisse da mesma forma e para o mesmo lado. Anna, depois de poucos minutos deitada, ficou na mesma situação, sentindo que algo faltava... A encheção de saco? O silêncio sendo atormentado a cada minuto? Uma metralhadora de perguntas e um bobão ao seu lado?

Aquela cama de penas era como deitar em uma nuvem sólida e macia. Um material caro e de alta qualidade e procura em meio à burguesia humana. Um valor absurdo. Uma ave que era típica daquela floresta... Quem seria o louco que iria buscar por aquelas penas naquele lugar? Alguns... mas como a maioria morria, isso só aumentava ainda mais o valor de cada material que fosse coletado daquele lugar.

Mas o conforto físico era moldado puramente pelo mental. Psicológico. Não adiantava estar deitado na cama mais confortável do mundo. Algo faltava. Algo que sentia que "sempre" tivera mas nunca percebera. Algo que criara e nunca dera valor... só quando "perdera"... Só quando percebera a falta que aquilo fazia.

Depois de quatro horas naquela situação, sem notarem, ambos se levantaram ao mesmo tempo e abriram a porta de seus quartos. Nino virou à esquerda e agora ficaram cara a cara no corredor.

— O que você está fazendo acordada? — Nino perguntou, surpreso.

Anna franziu a testa, irritada.

— Como assim, eu? Você também está em pé. O que está fazendo?

— Não consigo dormir... Só fico pensando em você. — Puxou o pino da granada e esperava a explosão.

Anna ficou sem reação, mas dessa vez não se estressou nem o encarou. Em vez disso, ficou envergonhada com a resposta, abaixando a cabeça.

Com a voz baixa e quase trêmula, Anna murmurou:

— Quer dormir na minha cama hoje?

Nino, sem hesitar, respondeu alegremente:

— Sim!

Anna se virou em silêncio e entrou em seu quarto sem dizer mais nada naquela noite, e Nino a seguiu... Deitaram-se e cada um ficou no seu cantinho, mesmo com uma cama tão espaçosa sendo dividida. Ambos estavam sorrindo, satisfeitos. 


Na manhã seguinte, Nino acordou extremamente cedo e preparou um café da manhã para Anna na cama. Quando entrou no quarto, percebeu ela acordando como uma gata preguiçosa. Colocou a bandeja na mesinha ao lado e começou a falar sobre os ingredientes antes mesmo da menina entender que já era um novo dia. 

— Bom dia! Fiz uma carninha assada com uma salada de frutas variadas para a sobremesa. Preparei também suco da fruta da sua favorita. E...

Antes que ele pudesse terminar, Mmmwah! Anna o puxou pela blusa e lhe deu um beijo na boca. Percebeu que não conseguiria ficar longe daquele insuportável. Percebeu que não adiantava mais fingir não se importar, sendo que começara a se importar pra caralho com aquele ser irritante que não calava a boca um único instante.

Sem perder tempo, o Primordial retribuiu o beijo, envolvendo as coxas dela em seu quadril e puxando-a ainda mais perto. Enquanto seus corpos se pressionavam e se beijavam com pressa, esqueceram completamente que poderiam simplesmente desfazer suas roupas de sangue e começaram a tirá-las manualmente.

Toc, toc!

No entanto, uma das moradoras da vila bateu na porta da sala de jantar.

Como Nino havia deixado a porta entreaberta ao sair para buscar as frutas, ela entrou, consciente da importância da notícia que trazia. Rosto suado, um pouco ofegante.

Subiu as escadas à procura de Anna ou Nino e encontrou uma única porta entreaberta com a luz do corredor brilhando. Toc... Ao bater, a porta se abriu completamente, revelando a cena.

Anna e Nino, seminus, ficaram paralisados e envergonhados.

PHAA!

Anna rapidamente fechou a porta com uma magia de água, mas logo a reabriu, já vestida, com uma expressão de vergonha e pressa.

— Aconteceu algo? — tentou fingir que nada acontecera... mas suas bochechas revelando seu sangue azul-clarinho não escondiam sua vergonha direito.

— Eu sinto muito, senhorita... — a mulher abaixou a cabeça, se desculpando.

— N-não precisa disso. Pode falar o que aconteceu.

— O senhor Nino nos acompanhou por proteção enquanto ele procurava por frutas e nós por ervas e condimentos. Só que, como estava tudo tranquilo, ele nos deixou lá e voltou porque disse que tinha que fazer uma coisa muito importante. Nós continuamos coletando o que encontrávamos, mas fomos bem longe, e chegamos na área da floresta onde as árvores são mais separadas. Lá, vimos ao longe cavalos e jaulas com escravos sendo levados para algum lugar pelo mesmo caminho de onde estávamos sendo levadas.

Nino, que ainda tinha os costumes de tentar parecer um humano, saiu pela porta, com as bochechas queimando em vermelho de vergonha... Parou atrás de Anna, e das bochechas, o rosto da garota começou a assumir o tom azul-claro.

Não olharam-se... Não conseguiam.

— Mesmo caminho que vocês? Seguindo o sul pela borda da floresta?

— Isso mesmo, senhor. Corremos o mais rápido que conseguimos. Devem estar um pouco afastados, mas acho que conseguem alcançar.

— Beleza.

Tentando manter-se normal... passou pela moradora, mas até sua forma de andar mostrava sua luta contra a vergonha e como iriam se olhar novamente... Anna foi logo atrás, com um rosto e pensamentos parecidos.

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