Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 4

Capítulo 154: Onde Estou?

Ano 120. 

O grito de Nino ecoou por muitos cantos da imensa floresta. Pássaros maiores que o Herdeiro se assustaram e fugiram das redondezas. Insetos e pequenos animais se esconderam em tocas e onde seus corpos pudessem caber.

Quando Nino entrou em contato com o ar do mundo que lhe pertencia, o corpo, o sangue foi fortalecido.

Não havia mais a limitação que fora imposta a seu pai e que, consequentemente, o enfraquecia. Tornou-se mais forte, mais poderoso. Sua presença era descuidada, alta. Atraía. Os seres ali presentes se esconderam de medo do Primordial Preto.

Mas... com o grito, duas raças escutaram e se interessaram...

A primeira...?

Uma demônio.

Uma garota de 1,67 m de altura, com longos cabelos brancos, franja, olhos azuis e pele clara, se alimentava de uma fruta roxa em sua casa de barro naquela tarde. Solidão. Silêncio. Seu aniversário de 20 anos fora um dia atrás... assim como o centésimo vigésimo aniversário do mundo em que vivia.

Sua casa era minúscula, com apenas dois cômodos.

Em um deles, havia uma cama de madeira com um colchão de penas; ao lado, uma janela; e, à frente da cama, uma pequena mesa com dois assentos de chão, também de madeira. O segundo cômodo era um espaço pequeno onde armazenava alimentos congelados em um bloco de gelo maciço.

— NINAAAA!!!

Ao escutar o grito, afastou o alimento da boca e olhou pela janela, vendo pássaros imensos voando assustados da direção de onde o som viera.

Entre as árvores daquela floresta densa, sombras pretas passaram "voando" rapidamente de árvore em árvore, dirigindo-se ao local do grito. Mesmo de longe, mesmo a metros de distância de onde aquelas coisas saltavam de árvore em árvore na direção, animais, pequenos monstros, feras mágicas, pássaros — toda a vida que habitava ali — continuavam se afastando, assustados não das sombras, mas de Nino.

As sombras não sentiam o mesmo medo.

O medo delas fora moldado ao que não conseguiam ver ou sentir. Sentir aquela presença só lhes gerava fome e curiosidade... mas ainda eram estrategistas. Assim como os gêmeos atacavam em uma distração, como um piscar de olhos, elas aproveitavam a cor de seus corpos.

Testa na terra... lágrimas de ódio.

— Rag... — murmurou... e Rag surgiu diante dele. — Onde ela está?

Raaag...

— Onde ela está?

Raaag...

— ONDE ELA ESTÁÁÁ?! — Nino ficou furioso e ergueu a cabeça, olhando-o. — SERÁ QUE VOCÊ CONSEGUE SER ÚTIL APENAS UMA VEZ NESSA PORRA DE VIDA?! CADÊ ELA, PORRA?! RESPONDE LOGO, CARALHO!

Rag continuava apenas olhando-o... mas, ao ser ofendido, acabou desviando o olhar um pouco para o lado. Não era por mal. Era uma limitação do seu ser. Rag sempre fora o melhor amigo de Blacko. Nunca o trairia, mesmo se isso não fosse imposto a ele por quem o criara.

Mesmo os gêmeos sendo o mesmo ser, ainda eram dois, que tinham pensamentos diferentes, alguns gostos diferentes, sentimentos diferentes... Não conseguia "dedurá-la", não conseguia nem podia dizer onde Nina se encontrava. Mas Nino não sabia e muito menos entendia a linguagem daquele ser primordial. 

Nino bufou e desviou o rosto da direção dele.

— Desculpa... Pode voltar — ordenou, e Rag voltou para dentro de sua alma.

Ergueu-se.

Rosto tentando buscar paciência.

Olhava ao redor; sabia muito bem que aquilo não era São Paulo.

— Onde estou?

Começou a andar. Burn! Explodiu as roupas humanas e criou roupas de sangue. O rosto aliviou um pouco. Era mais confortável. Um tempo passou, e não encontrou absolutamente nada além de mato, árvores e um pequeno riacho com árvores dentro da água, desafiando o ditado da água mole e pedra dura.

A tarde deu lugar à noite, e o lugar foi ficando cada vez mais escuro.

À sua frente, havia uma árvore com raízes expostas. Creck! Nino a chutou, e, enquanto um pedaço da raiz voava, segurou-a. Brn... A ponta começou a queimar como uma tocha, emitindo uma chama escura. Sem perder tempo fazendo uma fogueira para passar a noite, continuou a caminhar naquele novo lugar.

A noite caiu completamente; mudou a chama do seu poder para uma mais clara.

Entretanto, mesmo com uma chama vermelha, não conseguia ver nada. A tocha iluminava muito mal. O escuro da floresta era mais denso que as árvores de dia. Era fora do normal. Nem mágico, algo quase macabro.

De repente, frihri... ouviu um pequeno som. Com receio e uma tremelicada forte, temendo que fosse uma aranha, virou o corpo, apontando a tocha para o lugar de onde o som viera... mas não havia nada. 

Era só uma árvore seca, miúda em comparação às imensas que vira pelo caminho.

Quando voltou a tocha para a frente, Fuuuu! uma sombra soprou sobre ela, apagando-a completamente.

Nino se assustou e, sob seus pés... abriu-se um buraco. Thun-Thnf! Duas sombras o seguraram pelas pernas, puxando-o para uma dimensão onde a gravidade era zero. Shrk-Shrk! Nino flutuava, como se estivesse no espaço, mas ao mesmo tempo se afogava como se estivesse em um riacho, sendo espancado e cortado por lâminas de sete sombras iguais, mas diferentes.

A cada corte que sofria, regenerava-se; não sentia dor... apenas raiva.

A Marca Primordial surgiu no pescoço, e, mesmo que no lugar para onde fora puxado tudo fosse preto, aquele símbolo se destacava no absoluto.

Uma das sombras percebeu enquanto ia atacá-lo. Hesitou... O modus operandi da raça era outro, mas mudou de plano ao ver que estavam fazendo uma merda fodida. Não iriam mais capturá-lo com vida; precisavam matá-lo rápido. Avançou com sua espada para perfurar o coração do Primordial.

Mas... não funcionou.

As sombras tinham exatos dois metros de altura. Corpo magro, pernas e braços mais longos que os de um humanoide ou humano normal. Corpo e carne inteiramente de cor preta. O sangue era vermelho, o que realçava sua boca. Não havia olhos ou nariz. Sua cabeça era redonda e sem cabelo. Mas onde seria o rosto, havia uma marca triangular, de onde sua boca se abria.

Três triângulos de dentes e um interior vermelho que deixaria qualquer pessoa assustada... menos Nino. Mesmo sem olhos, havia uma espécie de guelras no pescoço, bem fininhas e quase imperceptíveis, que funcionavam como olhos e nariz.

Tudo que aquilo sentia no ar projetava uma imagem na mente da criatura, mostrando como era seu inimigo e onde estavam. Era um quase literal olho, já que conseguia identificar qualquer coisa e mostrá-la em uma representação na mente.

A sombra avançava em meio ao seu domínio para executá-lo... mas o rosto de Nino surgiu em sua mente virado na sua direção... Os olhos bem abertos o encarando se aproximar... O corpo se encheu de medo; não sabia que era um Primordial. "Nunca" haviam tido contato com um Primordial antes; não sabiam como era a presença de um.

Nino sorriu para a sombra, e, mesmo assim, aquela tentou empalá-lo. CRECK! Segurou o braço e o quebrou, puxou a sombra para si e, CRUNCH! mordeu seu pescoço, quase arrancando-o completamente do corpo.

O coração principal da raça ficava no pescoço, no exato lugar onde Nino destruíra... e tomou posse dos poderes.

Invertendo a situação, controlando a dimensão... Nino a destruiu.

Não houve som... a dimensão criada apenas desapareceu.

As outras seis sombras que estavam o atacando reapareceram ao seu redor na floresta. Frurururmnm... Nino girou em 360°, lançando fogo escuro que queimava em chamas roxas para todos os lados, e finalmente pôde ver; dentro daquele círculo de fogo, podia ver quem estava enchendo seu saco.

Sua Marca começou a escorrer sangue, brilhando intensamente com um preto absoluto.

Nino deu um passo à frente, com um sorriso aterrorizante no rosto, e as seis sombras avançaram, sabendo que não podiam dar espaço. Uma delas atacou, mas Nino desapareceu, usando a dimensão. Surgiu logo em seguida, rindo como seu pai, pulando de um buraco sob a sombra que o atacara.

Shkrunch!

Cortando-a ao meio.

Ploch!

Ainda no ar, arremessou uma espada de sangue conectada a uma corrente na cabeça de outra sombra. Com o impacto, a cabeça foi atravessada, mas Nino transformou a espada em um gancho de escalada, Cri-Cri-Cri-Crrirrq... cujas quatro lâminas se cravaram atrás da cabeça deformada.

A sombra começou a queimar em chamas escuras enquanto permanecia em pé, sendo controlada pelo sangue de Nino que adentrava seu corpo, correndo por cada entranha.

Atacado por trás, Nino desviou das duas espadas e prendeu os braços das sombras simultaneamente, segurando-os como se não fossem nada. Logo enrolou os corpos na corrente que criara.

Outra sombra o atacou, Trinrrrn... e ele usou a corrente para bloquear; encarando aquela face plana e preta, Nino a derrubou com uma rasteira. Cr-Crunch! A corrente então se transformou em uma grande lâmina, cortando ao meio as sombras presas a ela e atacando a que acabara de derrubar.

Enquanto caía, a sombra via a lâmina descendo em sua direção.

Um buraco surgiu abaixo dela, e ela entrou na dimensão escura (enfraquecida) — que a Bruxa de sua raça cedera para seus filhos — antes mesmo de atingir o chão. Dentro da dimensão, a sombra começou a correr, tentando modificá-la — diminuindo a distância do ponto inicial até o de saída — para sair em um ponto distante da floresta... Queria voltar para o ninho.

Mas Nino apareceu à sua frente; a sombra se assustou, mas não conseguiu voltar. Bm! E Nino a segurou pelo pescoço... Se debatia, tentando se libertar, emitindo um grito estridente de sua boca, mas apenas seres da própria raça podiam ouvi-lo.

Tsssssss!

Seu pedido de socorro era agonizante enquanto sua carne era carbonizada pela raiva do Herdeiro, manifestada em uma mistura de fogo e sua magia escura. Não via nada. Seus olhos foram forçados a carbonizar. Havia somente dor, mas, quando eram elas que sentiam, não era algo divertido... Ninguém viria salvá-la; ninguém queria ir e ser torturado pelo Primordial Preto.

Nino soltou o pescoço da sombra e encostou um dedo no peito.

BOOM!

A arremessou com magia escura dentro da dimensão; apenas uma parte do torso restou, mas a sombra ainda permanecia viva.

Aquela raça possuía mais de um coração, e o último, ainda pulsante, era o principal e ficava na garganta.

BAM!

Enquanto o resto do corpo rodopiava pela dimensão escura, Nino surgiu abaixo dela e a chutou para cima, abrindo uma saída.

Shkrunch!

Voltou para a floresta, e o demônio apareceu no ar atrás dela, cortando-a com sua lâmina fina.

Assim que a matou, olhando de cima, viu a última sombra correndo, tentando fugir.

Estendeu o braço direito na direção dela, puxou o outro para trás e criou uma flecha de magia escura. Sil! Iluminando aquela parte sombria da floresta com tons de roxo e preto intensos.

BRRRAAUMM!!

A flecha foi disparada, obliterando tudo em seu caminho até atingir a sombra, que encontrou o mesmo fim.

Prushh...

Aterrissou de pé, ao lado dos restos da sombra que acabara de dividir ao meio.

— O que é... is...s...

Pah...

Sentiu-se tonto e caiu de cara no chão.

Nino encontrara a segunda raça que se interessara pelo grito... A primeira sempre estivera lá. Chegara muito antes das sombras e ainda de dia... sempre estivera lá, rondando e observando-o, cogitando se queria matá-lo ou não.

Não o via como uma ameaça, só ficara curiosa com um demônio de cabelo preto, com os olhos roxos e o interior da boca vermelho... não fazia sentido algum. Continuou observando-o até que a noite caiu e assistiu-o lutar contra as sombras. Como Nino saíra vitorioso, a menina achou-o minimamente interessante e decidiu ajudá-lo.

Surgiu diante do Herdeiro caído no chão e o ergueu como se fosse um saco de batatas vazio. Colocou-o em suas costas e foi carregando-o na direção de sua casa... então, Rag se assustou. Não via e muito menos sentia aquela garota. Só foi enxergá-la quando Nino começou a flutuar do nada... mas, ainda assim, mesmo com um sentimento estranho, não interveio.

Não sentia que aquela garota era um risco, mas também estava a um movimento estranho que ela fizesse de assumir o corpo do Primordial para tentar defendê-lo enquanto este dormia.

Nino não estava com a Marca à mostra.

Acostumado a mantê-la escondida enquanto dormia, escondera-a antes de desmaiar.


De pé em meio ao branco... surgiu. 

Encontrava-se em um quarto que mais parecia um lugar infinito, completamente branco. Lá, viu novamente a mulher vestida de preto. Desta vez, ela estava mais próxima, e ele pôde notar mais detalhes: era um pouco mais baixa que ele, mesma altura de Nina; era tudo muito parecido com Nina, mas, desta vez, ela não estava sobre uma espada preta; estava dançando sozinha.

O cabelo igual... mas em um tom de agressividade intrigante... Movimentos suaves como alguém que passara anos sozinha dançando enquanto esperava alguém. Em um giro suave, abriu os olhos lentamente, olhando para o jovem em pé, tentando entendê-la:

— Venha dançar comigo — "convidou". 

O som da voz o fazia estremecer. Medo, curiosidade, admiração... era estranho. Era como estar morto e vivo, uma montanha-russa que o levava a dois extremos ao mesmo tempo... As íris roxas daquela mulher eram iguais às suas, o tom de pele, tudo...

Não controlou; foi controlado.

O corpo do menino andou sozinho, e, quando foi perceber, depois de sair da droga do paraíso de tormenta que fora colocado olhando para o inferno maravilhoso banhado na cor roxa que aqueles olhos lhe levaram, viu-se de mãos dadas com a mulher, enquanto seguia os movimentos de dança que lhe eram estabelecidos na raiz de sua alma.

Sabia os movimentos sem nunca ter praticado; só encarava o olhar e os membros faziam o resto. Os olhos dela se fecharam, e Nino saiu do transe, não entendendo como fora parar ali, enquanto a mulher cantarolava no ritmo da dança que lhe fora ensinada 20 anos atrás.

O frio daquela pele... o sangue daquele ser era mais sombrio que o seu.

Olhando-a como se fosse Alice e Nina ao mesmo tempo... murmurou:

— Quem é você?

Os olhos dela surgiram abertos; no fundo dos seus, sentia ser violado.

— Eu... sou a Morte.

Gritos de dor, agonia e desespero começaram a invadir sua mente, como se incontáveis pessoas clamassem por piedade ao mesmo tempo. Era um prazer insano ao mesmo tempo que um pavor quase absoluto. Nino tentou soltar as mãos dela, mas era impossível. Não tinha força nem em pensamentos para se mover do segurar de mãos. Olhou para baixo, sentindo como se seu corpo estivesse derretendo, e, ao erguer o olhar novamente:

Fuuu!

— AAAAAAAHH!


Na cama da garota, acordou sentando-se com um berro... Já era dia; o sol era filtrado pelas árvores fora da casinha. 

Ela, ao seu lado, bebia um suco na mesinha.

O grito a assustou, fazendo com que derrubasse um pouco do suco feito de sua fruta preferida.

— Quer me matar do coração, desgraça?! Tá doido?! — repreendeu-o.

— D-desculpa...?

Ela o encarou, emburrada.

"Foi uma pergunta?" pensou.

— ...E-eu tô no Brasil?

— O que é isso?

Hãm? — O Herdeiro fez uma careta, sem entender, piscando duas vezes e inclinando um pouco o rosto. — Que planeta é esse?

— O que é planeta?

Olhava-a com uma expressão extremamente confusa.

— Achei que os demônios pretos tinham sido exterminados.

— Pera. Como sabe o que eu sou? 

— Você bateu a cabeça, é? Gulp... — deu um gole no seu suco em um copo de madeira.

— Eu sou filho do Blacko. Sabe qu...

— Pfffft!

A garota cuspiu o suco no rosto dele, rindo.

— Filho do Blacko? O Primordial? — riu mais ainda. — Melhor não falar isso por aí, vão querer te matar.

— Eu sou filho dele. — Nino ficou meio emburrado... e todo molhado.

— Prove.

Ativou sua Marca e virou o corpo para mostrá-la.

— ...Você realmente é filho do Primordial? Mas como, se ele foi mandado para outro mundo?

— Planeta você não sabe o que é, mas mundo você sabe, é? — provocou.

— Pelo que sei, as Marcas são dos dois lados. Por que só tem de um?

— Tenho uma irmã gêmea; ela tem a Marca do outro lado.

"Isso é possível?" — Uhum... Mas isso não explica ele ter ido para outro mundo e você estar aqui.

— Eu vim do mundo em que ele estava. Fui teletransportado pra cá.

Uhum...

— Eu sou um demônio preto, assim como você disse. Mas e você, o que é?

A jovem adulta nitidamente não acreditava nas palavras de Nino, mas, quando perguntada, parou um instante, perdeu-se no tempo e falou mais do que imaginava:

— Sei lá... Sou um demônio também, nasci numa vila pequena e, desde criança, estou sozinha por aí. Mas minha mãe sabia magia de água e me ensinou. Ela gostava de me chamar de Lua... — Enquanto falava, a voz foi ficando cada vez mais baixa, e ela abaixou a cabeça, visivelmente triste ao se lembrar do passado.

— Aconteceu algo?

Ergueu o rosto:

— Não é da sua conta. Não vai sair da minha cama, não? — reclamou.

— Tá, tá... — Nino se levantou. — Tem como me contar algo sobre meu pai? Tudo é uma incógnita pra mim.

— Não.

— Por favor... — implorou, depois de agachar e segurar as mãos dela, aproximando seus rostos.

— Eu nem sei se você está mentindo.

— Quê? Eu mostrei a Marca.

A menina criou uma Marca igual à de Nino no pescoço, mostrou-a e depois retirou-a.

— Fazer isso não prova que você é o "tão grande e exilado Primordial Preto". 

— ...Como eu posso provar? — soltou as mãos e se sentou à mesa com ela.

A jovem pegou o copo de madeira em silêncio, deu mais um gole calmo enquanto Nino a observava, esperando a resposta e tentando entendê-la. Colocou o copo com calma sobre a mesa e murmurou:

— Assim.

PLOCH!

Penetrou com a mão o peito de Nino, rasgando a carne e segurando o coração. Nino se assustou; nem vira quando ela se movera. Sentiu dor e a viu segurando o membro preto pulsando fora do corpo... Não reagiu. Seus olhos se mantiveram arregalados, mas era quase um estado de obediência em que permanecia.

Algo naquela menina o atraía e ele confiava que não iria fazer nada.

Depois de analisar o coração escuro em sua mão, voltou-o para dentro do corpo dele com calma, agora olhando-o nos olhos, quase o colocando em estado de transe sem nem ter nada a ver com isso diretamente. Quando voltou o coração e retirou a mão, o peito se regenerou e todo o sangue voltou para o corpo do menino...

— Você realmente é um — murmurou estranhamente e pegou novamente o copo de suco, para saborear mais um gole calmo.

Nino continuou em silêncio, olhando-a agora de perfil.

Piscou duas vezes, saindo daquele transe, e quase gaguejou:

— O que foi isso?!

— Só Primordiais se regeneram — respondeu sem olhá-lo.

— ...Você não se regenera?

— Demônios normais se regeneram, mas demora anos, dependendo do membro perdido. Se for um dedo, talvez uns quatro meses.

— ...

Nino ficou sem palavras; não sabia como continuar.

— O problema de falar sobre o seu pai é que eu não sei a verdade. Só sei que, quando ele foi expulso, uma Deusa também foi selada neste mundo. Dizem que ela foi presa numa espada com a palavra "Purgatório" gravada na lâmina. Provavelmente isso tem a ver com ele ter sido expulso do mundo. Todos que foram atrás dessa espada nunca voltaram, segundo a lenda. Minha mãe me contou isso quando eu tinha uns dois anos. E, pra completar, todos os descendentes da linhagem preta foram mortos por ordem do Primordial do Sol. Não todos, já que você está vivo.

— Só sabe isso? — perguntou meio frustrado.

— Como assim "só sei isso"? — olhou-o com um olhar sério. 

— Sua mãe não disse mais nada?

— Você que deveria saber dele, não minha mãe.

— Ele morreu no dia em que eu nasci.

— Problema é seu, eu hein — resmungou e voltou o rosto à frente.

— Por favor. Se sua mãe disse isso, você deve saber mais alguma coisa.

— Sua voz é irritante. Vou falar só uma vez e é tudo que eu sei sobre isso, escutou?

O jeito autoritário o atraía demais...

Uhum! Uhum!

Aquela reação felizinha a irritou, mas a jovem continuou:

— O dia em que ele foi expulso foi o mesmo em que eu nasci. Minha mãe não me contava muito; geralmente começava a falar algo e depois parava. Principalmente sobre um livro que ela tinha. Depois que eu disse que conseguia ler, ela nunca mais deixou eu chegar perto dele.

— ...Não entendi, sua mãe era... ruim? — tentou perguntar de forma suave.

— Longe disso, só queria me proteger de algo relacionado àquele livro, mas sei lá. Tanto faz.

— Dois anos...? Quantos anos você tem?

— Sei lá — desdenhou e continuou focada no saboreio da bebida.

— Como assim "sei lá"? 

Olhou-o.

— Por que o interesse? Não consegue ficar em silêncio por um único minuto que seja?

— Todos.

— "Todos" o quê?

— ...Sei lá.

— ...Tô começando a cogitar matar você — ameaçou, irritada, acreditando que ele estava zombando dela.

— ...Poderia falar isso de novo? — pediu com um rosto pidão... A menina virou o rosto sem entender como aquela coisa viva ao seu lado funcionava.

— Some.

Hãm? Por quê?

— Cansei. Você destrói o meu silêncio. Desaparece, some, vaza logo — gesticulou com a mão, expulsando-o de lá.

— ...Me responde algumas coisas antes, então?

Olhou-o com uma ameaça mais que clara. (Apaixonante.)

— Seja rápido.

— Quando fui teletransportado pra cá, minha irmã estava muito machucada. Eu sinto que ela está viva, mas não sei se está bem. Preciso achar ela.

— Não vi ninguém lá fora além de você. E vocês se regeneram. Se você sabe que ela está viva, com certeza ela está bem.

— ...Me aju...

— Não.

Cortou-o e Nino engoliu em seco.

— ...O que eram aquelas coisas ontem?

— Eu as chamo de homens-sombra. Geralmente matam quem passa pela floresta ou por perto.

— E onde estamos?

— Na Floresta do Desespero. É um lugar seguro, já que muitos têm medo de vir até aqui, então ninguém me incomoda... Bem, não até hoje — reclamou e ergueu o copo novamente.

— Mas... por que morar aqui? E essas sombras?

— ...Não sei. Me escondendo de algo, talvez. Já essas sombras, elas têm medo e nem chegam perto de mim.

— Elas têm medo de você e de mim não? — perguntou, meio desanimado.

— Você é fraco.

Nino a encarou com uma expressão séria, levantando as sobrancelhas.

— Eles usam uma espécie de veneno que faz a presa desmaiar. Não tinha como você saber. Não sei ao certo o que são, mas sei que sentem prazer em devorar a presa ainda viva. Já ouvi gritos à noite enquanto riam e matavam alguém. Então decidi caçar todos. Pelo visto, não exterminei essa praga por completo, mas fazia muito tempo que não via nenhum.

— Você viu pessoas morrerem assim?

— Sim, assisti um pouco.

Hãm?

— Pessoas que traem merecem.

Hãm?

A menina suspirou fundo.

— Esquece. Some daqui — irritou-se mais uma vez.

Nino... gostou.

— Ei? Antes de eu ir... eu poderia saber seu nome?

Olhou-o e respondeu:

— Anna.

Os olhos dele brilharam enquanto olhava as íris azuis dela... Levantou-se sem dizer nada a princípio.

— Obrigado — respondeu em tom calmo e virou-se para sair da casa.

Três passos de distância.

— Não vai dizer o seu?

Um sorriso involuntário surgiu nos lábios do Primordial de costas... Virou-se como um tornado e surgiu sentado ao lado dela novamente. Anna virou lentamente o rosto na direção do dele... Visivelmente parecia arrependida de ter perguntado aquilo. Aquele rosto de bobão era bem socável.

— O meu é Nino! E o da minha irmã é Ni...

— Nina.

Ficou curioso. Cabeça tombada.

— Sis-sim...? Como sabe?

— Talvez porque você deu um BERRO ontem à tarde — reclamou.

Ah. Deu pra escutar, é? — tentou aliviar.

— Você é meio burro, né?

— Tô começando a achar. Minha irmã diz isso toda hora e agora você, que eu nem conheço, também diz.

— Sua irmã sumiu. Acha mesmo que sair gritando o nome dela por aí vai ajudar a encontrá-la? Você nem tem ideia de onde ela esteja. Capaz dela começar a procurar você, e vocês irem para lados opostos, como dois perdidos.

— O que você sugere?

— Sei lá — resmungou e ergueu-se da mesinha. — Vou arrumar meu cabelo.

— Pra quê?

— Vamos dar uma volt...

— Está tão lindo assim.

Anna não esperava isso e ficou sem reação por um momento. Rosto sério... enquanto ele mantinha o de bobão. Virou-se sem dizer nada e foi até a porta da casa. Antes de abri-la e passar, passou a mão no cabelo, um pouco bagunçando, e arrumou seus longos fios brancos com magia.

Passou pela porta e a fechou... No tempo em que o menino não tinha visão, mudou as roupas de sangue que usava para dormir. Um pijama mais fino, mais leve. Alterou para o que gostava de usar no dia a dia. A blusa branca de manga longa e o shortinho azul-clarinho se transformaram em um vestidinho azul-clarinho, da mesma cor do seu sangue.

O shortinho tornou-se outro, um visivelmente mais grosso de tecido e de cor branca. O vestidinho chegava próximo de cobri-lo inteiro. Mas qualquer movimento o revelava. Nos pés usava uma bota que era bem parecida com o tênis de cano alto que Nino usava.

Aquela roupa era uma homenagem... era a roupa que via sua mãe usando em todos os poucos dias que puderam passar juntas... O cabelo longo sendo movido pelo vento, a franja deixando-a ainda mais parecida com Alissa.

Nino saiu da casa e a viu de costas. Quando ela se virou, seus cabelos brancos brilhavam ao sol, e seus lindos olhos azuis o encaravam com um sorriso. Nino ficou encantado, mas logo percebeu que aquele sorriso estava apenas em sua mente.

— Que que você tá olhando? — resmungou.

Olhando-a, viu sua expressão real: um olhar levemente para cima, com os olhos semicerrados... mas preferiu ficar na versão anterior.

— ...Q-qual é o seu nome?

— ...Você é retardado?

Nino se perdeu na beleza, esqueceu-se do que era dia e noite, de como andava ou pensava.

— "Anna"? Que nome bonito... 

Anna olhou-o com uma careta de nojo e começou a andar... Nino ficou parado, observando-a ir... Segundos depois ela olhou-o e resmungou:

— Não consegue pensar sozinho?

Nino continuava olhando-a sob os raios de sol da área mais planificada que a menina abrira ao lado de casa... Irritou-se com ele mais uma vez:

— ANDA LOGO!

Nino acordou e correu para alcançá-la. Chegou e começou a caminhar ao lado dela.

— Por que sua língua e boca são vermelhas?

— Quer que eu troque?! Tá feio?

Anna olhou-o desconfiada.

— Você é feio como um todo, seu anormal.

Nino não levou a ofensa a sério. Continuava olhando-a e buscando uma forma de mantê-la perto, uma forma de agradá-la. Se interessara demais e queria tê-la. Queria conquistá-la.

— Por que são vermelhas? Não deveria ser pretas como o seu sangue?

— Me acostumei a deixar assim. De onde eu vim só existiam humanos e uma pessoa que eu amo pediu pra que eu fizesse isso.

— O que é amar?

— ...Não sei.

— Então como pode dizer que ama essa pessoa?

— Porque eu sei que sim, mas não sei explicar.

— Como não sabe explicar?

— Eu te acho linda, mas não sei explicar ou colocar em palavras — respondeu colocando 100% no ataque.

Anna nem reagiu ao elogio. Nada. Nenhum movimento. Uma respiração diferente. Nada.

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Você amava sua mãe?

Anna irritou-se e deu dois passos na direção dele com os punhos cerrados. Nino recuou.

— Nunca mais fale assim!

— Assim como?!

— Eu amo minha mãe! Não fale "amava". Eu a amo! 

"...Isso é um índio? Mim ser burru, uga-uga." — Foi mal. Não sabia que ela estava viva.

Anna virou-se, mas nem ela acreditava que ainda poderia estar.

— Eu a amo — resmungou em tom baixo.

Uhum... Já entendi, mas e aí? O que é amar?

Não sabia.

— ...Não sei.

— Viu? ...Que tal aprendermos juntos? — começou provocando... e acabou atacando... mas a defesa era mais forte que seu ataque.

Silêncio... um silêncio mais que torturante.

Huhum... — coçou a garganta. — Você disse que, se descobrirem que eu sou o filho de Blacko, ou no caso, o Primordial Preto, eles vão vir atrás de mim, certo? 

— Não. Eu disse que vão querer te matar se descobrirem.

— É a mesma coisa.

— Claro, claro. Claro que é — desdenhou sem olhá-lo. Continuava caminhando sem rumo, queria achar frutas para armazenar em casa.

— Mas tipo... talvez ela também escute meu nome por aí e acabe me achando.

— Se fizer isso, todos os Primordiais vão tentar matar você, seu anormal.

— Então é melhor que eu mate eles antes — respondeu com garra, confiança.

Anna olhou para o lado e o viu animado.

— Casos de família? Vai matar seus tios por vingança? Você é meio doido da cabeça.

— Eu não sou doido! Você não está cansada de se esconder nesse lugar? Disse que aqui é seguro, então você teme algo. Eu só quero uma vida em paz, ter a liberdade de fazer o que eu quero sem ser perseguido. Já vivi no outro mundo por muito tempo escondendo quem eu sou. Não vou viver nesse escondendo mais uma vez isso. Só quero achar minha irmã. Se for necessário matar esses merdas, vou matar e foda-se. Se me encherem o saco, vou exterminá-los e foda-se.

[ — Minha Lua, corra e não olhe para trás, apenas corra o mais longe que conseguir. 

— Mas mãe... ]

O som do telhado sendo destruído, a correnteza de água que sua mãe criou para afastá-la de lá, o último sorriso de sua mãe antes de criar uma foice de água e se virar de costas. A chuva naquela noite, iluminada por uma Lua Azul que ela sabia quem havia criado.

Tudo passou pela mente de Anna em um instante, e a raiva tomou conta dela ao se lembrar do Primordial Vermelho.

— Vamos treinar — murmurou, com a cabeça baixa... tom mais que sombrio.

Nino não escutou e se virou para ela.

Hãm?

— VAMOS TREINAR, AGOORA!

Anna atacou Nino.

BAAAM!!

Mesmo bloqueando a foice de água que ela criou, o braço do Herdeiro foi quebrado com o choque, e o jovem foi arremessado para trás com uma força que nunca havia presenciado nem nos treinos mais intensos que já tivera com Nina.

BUUM! 

Colidiu com uma árvore grossa como uma parede, embora fosse rebaixada na altura como um anão. Shk! Nino afundou no tronco. Seu corpo entrou como a ponta de uma flecha naquela madeira. Preso no buraco, quase não viu Anna surgir passando a foice e cortando a árvore da raiz... conseguiu sair.

Foi um salto, bem mais alto que o salto do tronco sendo separado... mas a menina era rápida demais. Era como lutar contra a luz, lutar contra algo invisível. Mal conseguia enxergá-la. Anna surgiu embaixo do menino no ar, Shk! e passou sua foice, tentando dividi-lo ao meio... atingindo com precisão o coração... Nino desviou no ar, e Anna voltou com mais um golpe no mesmo instante.

Assustado com aquilo, Nino sumiu, saindo da sombra de uma árvore no solo.

Olhava para cima... mas Anna sumiu de lá também, surgindo com um corte daquela belíssima foice de água mais uma vez indo na direção do coração dele... Não era um treino. Era uma luta pela sobrevivência, mas, assim como enxergava Alissa no início, Nino não queria fazer nada que pudesse machucar Anna, por acreditar ser mais forte que ela...

Era...?

Nem perto.

Nos olhos de Anna, Nino assumira o corpo e rosto do Primordial Vermelho... o ódio que ela sentia a deixara cega, queria matá-lo, queria matá-lo, queria matá-lo e não ia parar de atacar até vê-lo dividido com o coração destruído no chão.

Nino era muito rápido. Mas Anna ainda assim era mais. Mas Nino possuía a Posse. Não era necessário matar para possuir algo de outro. Matando era mais fácil, mas só olhando Nino aprendia as coisas facilmente... mesmo que não entendesse como o próprio corpo funcionava, era automático.

Quanto mais tempo passasse "treinando" com Anna, mais forte ficaria.

Não conseguia espaço algum para atacar, mesmo que não quisesse de forma alguma fazer isso. Anna o pressionava constantemente, atacando de todos os lados. Cada ataque criava outro e outro e outro. Não parecia errar, parecia que só queria cansá-lo para depois eliminá-lo.

Mas ainda assim, era um Primordial; segundos que conseguisse ficar sem ser atingido seriam suficientes para se regenerar e recompor forças. Não era uma dor contínua ou algo que provocasse um cansaço contínuo aquilo. Eram desvios, e Nino surgindo em outro ponto para tentar observá-la e entender o que a fizera ficar tão furiosa assim.

"Não consigo entender o que ela vai fazer..." pensou ao sair de uma sombra de uma nova árvore, olhando na direção de onde estivera.

PLOCH!

Depois de minutos sendo jogado para longe e desviando dos ataques, depois de um tempo conseguindo ver os movimentos de uma forma melhor, com o sangue adaptando-se ao "alvo", finalmente pensou em uma forma de parar aquilo.

Com a foice enfiada em seu peito, Nino havia retirado o coração de lá. Quando foi atingido, deu um forte passo para frente, arrastando o buraco pelo cabo da foice fria, Thumpf! e a abraçou forte, segurando-a com muita firmeza, mas ainda assim com um carinho absurdo, como seu último abraço em Alissa. 

— Não sou seu inimigo. Por favor, se acalma — pediu, com uma voz calma.

Anna era rápida e mais forte que ele... mas não conseguiu competir com o agarrão que Nino lhe deu. Não conseguiu desvencilhar-se, mas quando escutou a voz do garoto irritante saindo da boca daquele ser de cabelo e íris vermelhas, percebeu que não combinava, e voltou do seu estado de raiva.

Nino a soltou quando sentiu que ela parara de tentar afastá-lo... Olhava-a nos olhos. A foice sumiu, e Anna desviou o rosto do dele. Nino regenerou-se e escutou uma voz acanhada:

— Desculpa.

— ...Se quiser, eu não me importo de escutar tudo que aconteceu — ofereceu.

Anna olhou-o com irritação.

Nino ergueu as mãos em rendição, e a jovem não partiu para cima, só respondeu:

— Não quero falar sobre isso. Deixe o treino para outro dia. Esconda sua presença, vou te ensinar uma coisa que acho que você não sabe.

— ...Como assim, esconder?

— Não sabe esconder sua presença? — perguntou incrédula e com preguiça visual.

Nino olhou para ela com cara de bobo. Anna o encarou séria e, após quatro segundos se encarando, suspirou fundo.

— É bem fácil. Feche os olhos. — Ele obedeceu. — Imagine uma bola de magia em sua cabeça, se concentre ao máximo, colocando toda sua magia nessa bola, e diga "detecção". Se conseguir, você mapeará a área e sentirá a presença de cada ser vivo por perto. 

Nino se concentrou... criou uma bola em sua mente vazia e a injetou sua magia escura.

"Detecção."

Conseguiu.

Sentiu como se um radar emanasse de seu corpo, revelando a presença de cada criatura ao redor. Detectou alguns animais escondidos em tocas, pássaros nas copas das árvores, vários insetos estranhos, mas nada que se parecesse com uma aranha, o que o tranquilizou... Mais ou menos.

Não via a silhueta do que estava em cada lugar. Via somente o tamanho da presença que o ser emanava. Por algumas serem dentro de árvores e bem pequenas, acreditava ser insetos; por outras serem embaixo da terra, acreditava serem pequenos animais; e as nas copas das árvores, acreditava serem pássaros.

Para se manter são, preferiu acreditar que as pequenas presenças não eram aranhas, já que era outro mundo e aranhas poderiam não existir naquele mundo. Mas... no raio de 50 metros em que sentia as presenças, o Herdeiro não sentia a presença de Anna. Não havia ninguém ao seu lado.

Abriu os olhos, e Anna estava bem na sua frente o tempo todo.

— Consegui, mas eu não senti a sua — cochichou meio atordoado.

— Você não me viu porque eu escondo minha presença. É isso que você precisa saber. Pra fazer isso, é só fazer o contrário da detecção.

Nino fechou os olhos e tentou... mas não conseguia. Forçou ainda mais, sua expressão se contorcendo de tanto esforço.

Depois de alguns longos segundos, Anna, o observando, comentou:

— Abaixou um pouco.

Nino, exausto, parou de forçar.

— Puta que pariu, abaixou só um pouco? Quase botei um ovo. Era pra ser fácil? — resmungou.

— Agora voltou ao normal... Eu aprendi a esconder totalmente poucos dias antes da minha mãe comemorar meu aniversário de três anos.

— ...

Ah, deixa pra lá. Nos próximos treinos você vai tentando usar detecção de olhos abertos e diminuir sua presença. Mesmo que afaste monstros por ela ser grande, vai atrair coisas que você não vai conseguir derrotar.

— Está me chamando de fraco?

Anna, já de costas, voltando para casa, respondeu:

— Estou afirmando.

Nino fez uma careta emburrada e a seguiu, todo molenga.

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