Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 12

Capítulo 217: Só mais um

Sol caminhava pelo palácio, Jeane lhe seguindo e escutando tamanha risada eufórica ecoando pelos corredores. Finalmente chegaram no destino — à sala dos tesouros... e o Primordial viu a fumaça de Rosa se materializando, agora em sangue, Slblublulush... caindo diretamente dentro do Cálice do Santo Graal.

O cálice brilhou... iluminava-se de mais uma das Marcas Primordiais.

Sol encarou o cálice, analisando as seis Marcas brilhando intensamente. 

Faltava um... Faltava o sangue da Linhagem Preta. Blacko não morrera naquele mundo. Seu sangue não jorrou dentro do cálice como o de Lua... Eram oito, todavia era necessário sete mortos, pois no momento em que o último Primordial bebesse do cálice, seu sangue entraria em contato com os demais, unindo o Poder dos Oito Elementos Primordiais.

— Só mais um — murmurou, acariciando o cálice usando a mão direita.

— O que isso faz, majestade? — perguntou Jeane, curiosa.

— Ao ingerir o Santo Graal completo, você recebe o poder de todos os Primordiais juntos e tem o direito a um pedido à Deusa do Sol. Um pedido que pode ser o que eu quiser — sussurrou sua resposta de forma distante, de forma sonhadora.

— E... E o que minha majestade irá pedir? — perguntou mantendo uma expressão cautelosa... ao menos Sol não se encontrava sem paciência. Ignorou-a e nem foi por querer, somente se perdeu em pensamentos e sonhos... o desejo de ter uma coisa de volta.

Seu sorriso crescia de acordo com o tempo que se perdia encarando aquele cálice sussurrando promessas em seus ouvidos. Aquela voz era muito doce... era veneno... um veneno que qualquer pessoa cairia. Beberia sem hesitar. A realização do seu maior sonho, quem não iria matar para tê-lo?

Seus olhos brilhavam de desejo, sua Marca refletindo tamanho anseio... Jeane curvou a cabeça e se manteve em silêncio — seus braços baixos e juntos, sem querer atrapalhá-lo em seu precioso momento.


O que era um pontinho preto no meio de um quarto infinito branco...? Não era Nino ainda pendurado com Morte lhe olhando sem paciência, era Nina revoltada de volta ao ponto zero. 

Olhou para trás, identificou na base do ódio a porta dupla que entrou naquele lugar maldito e seguiu pela porta dupla no lado oposto... Assim como em seu sonho, os corredores que seguiu eram iguais. As mesmas curvas. As mesmas distâncias. O eco... O branco insuportável.

No mais, ao chegar no mesmo corredor mais largo, viu a mesma porta dupla mágica... Marcha. Chegou e continuava andando "tranquilamente", porém desta vez a porta não se abriu sozinha. Impedindo-a de passar, Nina olhava fixamente para frente em silêncio e estática...

— Qual é a senha? — uma voz questionou... retirando Nina do seu estado de raiva controlada.

A jovem adulta deu um único tremelique de rosto — seu queixo subindo lentamente para encarar melhor seu obstáculo à frente.

BRUUUMM!

— Essa é a senha!

O estrondo foi tão forte e alto que a vibração fez Nathaly se sobressaltar brevemente. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, a porta foi arremessada para trás devido ao impacto monstruoso. CRRAAHSH! Não restou muito. Se estilhaçou quase inteira antes mesmo de tocar a parede oposta do laboratório.

Nina entrou no local, desfazendo a marreta gigante em um movimento suave. Seu olhar implacável fixo à frente encontrou dezenas de corpos de túnicas queimados e cortados, estavam espalhados por todo o lado e alguns ainda pegavam fogo.

Nathaly continuava dentro de um escritório, quando seus olhos encontraram Nina confusa.

— Nina! — exclamou, surpresa.

Os olhos de Nina brilharam ao lançar o rosto na direção e vê-la. Não perdeu tempo e correu em direção a Nathaly quase perdendo o equilíbrio de tanta emoção. Suas pernas bambeando. Quando finalmente a alcançou, Thumpf... Nina a envolveu em um abraço avassalador — contudo cuidadosamente controlado, para não matá-la — enquanto lutava para conter o turbilhão de sentimentos dentro de si.

Seus colares se juntaram, e as pernas de Nina fraquejaram.

Sem forças, Paff se deixou cair no chão, enquanto Nathaly, muito surpresa, a segurava cheia de carinho, olhando-a cheia de preocupação.

— O que foi?! Sentiu dor de novo?!

Nina não respondia, somente chorava feito uma criança assustada.

— Amor!? O que aconteceu?! — perguntou, seus olhos refletindo toda a preocupação.

Nina, ainda tendo os olhos lacrimejando, a olhou, e então a dor tomou conta de suas palavras:

— E-eu te matei... — sua voz falhou, e as lágrimas continuaram caindo.

Hm? — Nathaly franziu a testa, realizando um movimento abrupto de cabeça, confusa.

— A-a... A Primordial Rosa me colocou em um pesadelo, onde ela estava abusando de você, e... e eu não conseguia te salvar — gaguejou, tentando explicar. — Quando finalmente a matei e te salvei, era mentira... Eu estava em outro pesadelo. Ela fingiu ser você, e quando percebi que você não estava com nosso colar, pensei que não era você de verdade... E-eu não queria acreditar que não era você... Mas quando ela se abaixou... e... e foi diferente de como você faz... sua bunda estava maior... e eu... eu simplesmente a matei... — Nina continuava a chorar, suas palavras saindo de forma entrecortada.

Nathaly a olhava, tentando entender o turbilhão de emoções, porém não pôde evitar uma reação descontraída:

— Tá falando que minha bunda é pequena? — brincou, levantando as sobrancelhas.

— Não! Não, eu amo ela! — Nina tentou limpar as lágrimas, rapidamente usando os braços, para não ser mal interpretada.

Nathaly deu uma gargalhada brincalhona, achando a reação de Nina fofa. Depois sorriu, ainda com um toque de preocupação.

— Tô brincando, boba... Me desculpa, tá? Eu deveria ter ido com você; se eu estivesse lá, ia dar um cacete nessa vagabunda! — Fez uma careta brincalhona, mantendo o punho erguido, o que fez Nina sorrir através das lágrimas.

— Como você disse, foi só um pesadelo. Nada aconteceu comigo. Não precisa chorar.

Em um gesto suave, enxugou as lágrimas de Nina, passando os dedos ao longo de seu rosto... Nina perdida olhando-a completamente apaixonada.

— Eu te amo! — disse a Primordial, sem poder segurar suas palavras.

Nathaly sorriu ao ouvir isso... e deslizou os dedos para acariciar a bochecha, descendo até o pescoço.

Mwah!

A puxou para um beijo, suave e cheio de ternura.

Depois de um tempo, pararam, encostando as testas, respirando e mantendo lábios próximos. Nina respirava de forma entrecortada por conta do choro, enquanto Nathaly, suave, sentia o calor de Nina — seu toque trazendo calma.

— Eu te amo mais! — Nathaly respondeu suavemente.

— Me promete... Me promete que nunca vai me deixar... — sussurrou... um tom explícito de vulnerabilidade.

Nathaly soltou uma risadinha suave, tocada pela sinceridade de Nina, que agia feito uma criança medrosa.

— Prometo que nunca vou te deixar. Mwaah! — beijou Nina novamente, e esta já não chorava mais de medo ou ódio, mas de alegria.

Suas cabeças não dançavam como de costume, suas línguas não se entrelaçavam em uma batalha de desejo. Era apenas um selinho leve, contudo carregado de cuidado. Porém, Nathaly interrompeu o momento com um sorriso travesso, erguendo-se. Tlec! O som dos colares se dividindo novamente ecoou no ar.

De pé, estendeu as mãos para Nina, que segurou com força e se ergueu. Agora, Nina olhava Nathaly de cima, mantendo um sorriso tímido, todavia cheio de afeto. Em um impulso, Thumpf... Nina a abraçou novamente, envolvendo seus braços ao redor da cabeça e puxando-a para si.

Nathaly se entregou ao abraço, deixando-se ser pressionada contra o corpo da amada. A sensação de conforto era imensa, e ambas permaneceram assim por um tempo, compartilhando o calor um do outro, como se aquele abraço fosse o remédio que Nina precisava para acalmar sua mente e coração.

Mantendo os olhos fechados, Nina se permitiu relaxar até sentir o ar quente saindo da boca de sua mulher, pressionada contra seus seios, acompanhada de uma voz abafada:

— Tá querendo me matar sem ar usando seus peitos, é?

Nina soltou uma risada leve, afastando-se um pouco, ainda a segurando. Desta forma viu o olhar levemente entediado dela, fazendo um biquinho no canto da boca, destacando sua linda cicatriz.

— Desculpa, tava quentinho...

— Depois eu chupo eles, novinha — brincou, com um carão sedutor.

— Garota... 

Nathaly não aguentou e riu, interrompendo Nina antes que a sequência de provocações começasse.

— PAREI!! — ela gritou, ainda sorrindo de forma envergonhada, o rosto corado levemente.

Uhum...

— Bora logo. — A Heroína se soltou dela e virou-se em direção ao escritório. — Tenho que te mostrar algumas coisas. 

Nina a observou caminhar de costas, distraída, se deixando levar pelo movimento do shortinho se ajustando ao corpo, destacando a curva das coxas bem definidas. A bunda se moldando a cada passo, especialmente a coxa direita, pressionada pelo suspensório do antigo coldre, criando curvaturas que não passavam despercebidas.

Quase babando, Nina permitiu que a tensão do momento se transformasse em um leve tesão, e a seguiu... Esquecendo-se do pavor que sentiu ao olhar para sua mulher e perceber que aquilo era uma cópia tentando se passar por alguém que tanto amava.

— Achei esses mapas e também esses papéis. Estavam na mão de um cara que matei. Não sei ler, mas tem vários círculos que parecem com aquele de Alberg do Semi-Deus lá — ponderou analisando os círculos.

— Deixa eu ver.

Nina pegou os papéis e os colocou sobre a mesa, examinando-os cuidadosamente.

— Está escrito que tem três círculos mágicos, um embaixo de cada reino humano deste continente. Mas não diz o que esses círculos fazem. Porém, diz a localização de onde o ritual vai começar: um desfiladeiro entre o Reino dos Monstros e aqui em Dirpu. Não fala sobre datas, apenas que o ritual vai começar nesse desfiladeiro bem aqui — Nina comentou, Tc-Tc... dando dois toques de unha no ponto marcado no mapa.

— Um círculo mágico parecido com aquele...? Um embaixo de cada reino? — Nathaly se questionava, seu rosto contraído mostrando a força em que estava usando para pensar. — No outro laboratório, você leu que precisavam de mais cobaias pro ritual do Semi-Deus funcionar, não é?

— Sim... Então... acha que eles querem usar todos esses humanos em um ritual?

Se olharam em silêncio, o peso da situação pairando no ar.

— Não sei. Mas é melhor irmos até lá.

Nina olhou-a de forma diferente... o receio de não ser capaz de protegê-la novamente ecoou em sua mente feito um pesadelo acordado. Contudo, sem pensar duas vezes, ignorou seus medos.

— Vamos.

Saíram rapidamente dos laboratórios e não perceberam que o ambiente, antes em branco intenso, havia dado lugar a terra e passagens subterrâneas feias e um tanto agressivas... Simplesmente não enxergavam a realidade ao redor.

Chegaram ao salão da igreja, e, sem paciência para lidar com o rei, Nathaly usou de seu Fogo Sagrado para incendiar lentamente o salão.

O fogo queimava mantendo uma intensidade controlada — criando uma desculpa perfeita para quando encontrassem os corpos carbonizados dos túnicas espalhados.

Sabendo que a magia era presente no reino, a Heroína não se preocupou com o fogo se espalhando. Quando os nobres percebessem o incêndio, algum deles usaria magia de água para controlar a situação... ou então alunos do Castelo de Dirpu entrariam em ação.

Sem serem vistas, saíram do local e subiram nas muralhas do Leste, na reta certeira da direção do desfiladeiro indicado no mapa todo rasurado nas mãos de Nina. No entanto, ao olharem para baixo, viram o exército de Dirpu se reunindo na entrada do portão, com inúmeras carruagens e cavalos preparados.

— Acha melhor vermos o que está acontecendo? — Nina perguntou, olhando para Nathaly, que a observou de volta.

— Talvez tenha relação com o que vimos lá embaixo — respondeu, mantendo um tom submisso ao que Nina decidisse.

— Tá... Bora lá então — decidiu, tentando manter a confiança em seu olhar, apesar da dúvida e do receio que ainda sentia profundamente em seu ser.

Fu...

Nathaly saltou primeiro, Fu... e Nina seguiu atrás. Assim que aterrissaram diante do exército, Schbrmn... todos reconheceram Nathaly imediatamente e se curvaram diante da Grande Heroína, formando uma linha de milhares de homens armadurados, cada um reverente à presença delas.

Sentiam algo conflitante: a presença macabra de Nina, por estar tão perto, os atingia — mesmo sem saberem ou usarem Detecção. Eram soldados. Só humanos comuns. Dificilmente um nobre que estudou no Castelo aceitaria tamanha posição "inferior" na sociedade. Contudo, o cuidado e o sentimento de segurança que a Grande Heroína emanava também colidiam diante disso, criando uma harmonia estranha.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Nathaly, um pouco envergonhada devido à reação dos soldados.

O general, também curvado, respondeu em reverência:

— Há um exército de monstros vindo em nossa direção, minha senhora.

— De onde? "Senhora? SENHORA?! Tenho cara de velha, agora?!", reclamou em pensamentos... todavia não vocalizou.

— Eles estão vindo do Reino dos Monstros. A Vampira Anciã está liderando o ataque — respondeu sem sair da posição.

Nina olhou para Nathaly, que a olhou de volta tendo o mesmo olhar.

— Nos guiem até o campo de batalha. Vamos ajudar vocês — ordenou Nathaly, cheia de confiança, voltando o olhar para o horizonte que seguiriam.

AAAEEE!!

RRAAAAAAHH!!

As palavras da Grande Heroína fizeram todos os soldados se agitarem, levantando-se em um grito de euforia quase sincronizado... Em meio aos berros contentes, o general agradeceu, exibindo uma expressão de gratidão em quase choro por receber uma maior chance de voltar para sua família depois de cumprir seu dever:

— Obrigado... Obrigado, Grande Heroína!

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