Volume 2 – Arco 12
Capítulo 218: Cinco Minutos
Anna andava tranquilamente por uma floresta muito fria, embora a neve ainda não tivesse chegado naquela área devido à estação do ano presente. O ambiente era comum, como qualquer outra floresta simples, tendo uma vegetação mais composta por árvores do que mato, raízes espalhadas e arbustos rasos. Não havia nada de marcante, algo único ou especial, apenas árvores de tom marrom e folhas verdes-escuras, semi-congeladas.

Caminhando em seu ritmo, avistou as muralhas de Van-Sirieri ao longe... muito longe. Uma área sem árvores a deixou deslumbrada pela grandiosidade das muralhas daquele lugar — o reino humano mais ao Norte do continente.
Olhando atráves do Norte do reino, via imensas montanhas congeladas cruzando os céus... neve abundante cobrindo tudo feito uma tempestade eterna. Ficou admirada de certo modo, analisando aquelas muralhas imensas, porém não entendia o que eram aquelas vinhas e vegetação que as cobriam.
Eram plantas venenosas.
Não havia fosso como em Alberg, ou uma escola de magia para proteger o reino como em Dirpu... Lá, essas plantas cobriam toda a parede externa das longas muralhas de Van-Sirieri. Uma bela e mortal defesa... porém não matavam instantaneamente.
Não funcionavam assim.
Ao entrar em contato, mesmo sendo um mínimo encostar de pele, o corpo paralisava e a planta começava a consumir a pessoa por dentro, controlando o corpo e devorando-o aos poucos sem pena alguma ao causar sua dor mais que aguda.
Uma vez que a pessoa encostasse e não decepasse a mão imediatamente, seria condenada. Mas o pior era que ela teria que observar sua própria morte, agonizando, sem poder fazer nada, por um longo tempo, até não aguentar mais.
Não adiantava tentar remover a pessoa das plantas; já havia sido consumida. Não bastava arrancar ou cortar o membro infectado... só causaria mais dor ao coitado. No mais, o único lugar que possuía o antídoto para aquelas vinhas em geral era Van-Sirieri.
Principalmente os médicos do exército, que lidavam com a recorrente necessidade de cortar as plantas que se espalhavam pelas passagens da muralha, causando infecções nos soldados quase todos os dias.
Criaram a doença e a cura.
Vinhas modificadas para uma defesa impecável... só não sabiam se funcionariam em qualquer espécie agressiva invasora.
Outro lugar que possuía o antídoto era o País dos Híbridos. Lá, não só havia a cura para o veneno derivado criado pelos humanos de Van-Sirieri, mas também para todas as doenças e enfermidades que poderiam afetar alguém. Nenhum ser era mais inteligente nesse quesito do que a Bruxa Híbrida.
Fu...

Anna saltou sobre o reino e o observou de cima. Aquele lugar era muito maior que Dirpu, quase tão grande quanto Alberg e Dirpu juntos. O reino mais próspero... o reino que mais exportava produtos para outros continentes.
Analisando-o de cima, era muito diferente dos outros reinos. Tendo formato de pentágono, Van-Sirieri não tinha área pobre. Não porque não houvesse pobres, mas porque os pobres eram tratados como se não existissem.
Somente a elite dominava todo o Norte, junto do Palácio Real, que não ficava no centro do reino e nem próximo das outras áreas, assim nos outros reinos. Aqui, a nobreza era vista como inferior, e quem não tinha sobrenome não era digno de pisar nas terras da elite.
No máximo do máximo, um comum ou nobre só poderia entrar no Palácio Real se se tornasse o novo general ou fosse um soldado muito importante do exército.
Seguindo o padrão dos outros reinos, o Palácio Real era branco por fora, porém duas vezes maior que os outros Palácios Reais humanos. A bandeira que balançava mostrava o brasão da família Van-Sirieri: azul, envolvendo o monstro, verde em sua carne, vermelho em seus olhos, e detalhes em dourado nas extremidades e separações das partes da Fera Lendária cheia de tentáculos... Cthulhu.

Anna observava a divisão visível das áreas, a diferença de vestimentas, a limpeza das ruas e até mesmo a vegetação mais colorida no lado Oeste. O Leste inteiro era formado pelos "escravos de alma", ou seja, a área comum.
As ruas estavam repletas de pessoas secas e enfraquecidas, que mal tinham forças para se manterem de pé. Enquanto em outros reinos esses humanos teriam direito a uma área de moradia, deixando somente uma pequena parcela não conseguindo acesso a uma casa minimamente digna, ali não eram... nada. Eram menos que nada.
Essas pessoas pediam comida... ninguém, ninguém nem olhava para elas; eram tratadas feito lixo, criadas pelos discursos do rei para servirem aos ricos sem perceberem isso.
Havia um riacho correndo pelas duas áreas... pontes sobre cada.
Do lado nobre, pontes lindas, água limpa, e ninguém tocava nelas. Do lado comum? Pontes descuidadas, água suja, e era a única fonte de água para aquelas pessoas.
Quem morasse na área comum mais ao Norte conseguiria água mais limpa, pois a nascente vinha do extremo Norte, direto das montanhas congeladas, chegando ao reino após quilômetros e passando por toda a área antes de ser tratada nos esgotos para o saneamento básico.
Se não morasse lá, provavelmente a água que beberia teria sido usada por crianças brincando ou por um morador de rua para se banhar. Dentre essas ruas, Anna viu uma criança olhando para ela no céu... Uma criança pura que conseguiu vê-la em meio ao invisível de sua presença.
O garoto apontou o dedo indicador esquerdo para ela e gritou:
— Mamãe, olha!
O pequeno olhou para sua mãe, e, juntamente dela, todas as pessoas que escutaram olharam na direção para a qual ele apontava... Saiu como mentiroso: Anna já não estava mais lá.
— Não tem nada ali. Pare de gritar na rua — repreendeu-o, seu semblante severo.
— Mas eu vi!
— Chega! Não tem ninguém ali!
O garoto, ainda confuso, abaixou a cabeça, emburrado enquanto sua mãe voltava a conversar, mantendo um sorriso forçado pelo constrangimento passado.
Anna surgiu diante das grandes portas do palácio. Ao vê-las, Tlhon... as abriu e começou a andar tranquilamente. Sua Detecção Atômica sempre ativa — cinco vezes mais potente que a de Nina, sem contar o poder de olhar através do Olho da Lua, que mostrava o caminho até o salão do trono lhe "aguardando".
Passou ao lado de diversas servas e funcionários do palácio... não a viram. Sua presença era imperceptível; Anna era praticamente invisível aos olhos de qualquer ser. Porém, se alguém olhasse diretamente para ela, seria possível vê-la. Contudo, devido ao vestido que usava, só seria visível se ela quisesse isso.
...Essa era razão de tantas tentativas de infartar Nina, só por descer as escadas.
Passou um tempinho caminhando por longos corredores, até finalmente chegar diante de grandes portas ornamentadas por joias — um luxo que só conheceu quando entrou na dimensão de Emília e encontrou pilhas e pilhas de joias roubadas.
Dois guardas se encontravam posicionados diante das portas, vestidos por armaduras de rezeríta, imponentes e robustas no metal azul-escuraço, assim como suas espadas e escudos chamativos e entalhados.
Anna tocou suavemente as portas, e antes de empurrá-las, ouviu a conversa do outro lado, ecoando claramente em seus ouvidos atentos:
— A Princesa Aurora me avisou que não consegue conversar com o Primordial Preto. Tentou chamá-lo, mas sentiu a presença da Vampira Anciã e, com medo, desistiu — comentou o rei, sua voz carregada de preocupação.
— Será que ele se aliou a ela, meu rei? — perguntou o general, em tom grave.
— Não tem como saber. Ele não deve estar morto, já que a princesa consegue chamá-lo, porém ela não consegue conversar com ele, e isso é estranho, muito estranho — murmurou notoriamente confuso.
Anna franziu o cenho ao ouvir aquilo e se tornou visível aos olhos humanos.
Os dois guardas olharam para ela e, ao verem as Marcas brilhando em seu pescoço, se assustaram, P-PRAKCS!! fazendo um barulho estrondoso ao cair para trás junto de suas armaduras e armas.
Anna olhou de canto para o soldado à sua direita, irritada pelo som, e o coitado se mijou nas calças achando que morreria naquele belo dia.
Thoom...
Ignorou-o, empurrou as portas e entrou... O coitado deitado chorando baixinho.
— Está me dizendo que Preto me traiu? — rosnou, sua voz gélida, a irritação transbordando no tempo que as portas atrás se fechavam dramáticas.
O general, surpreso pela audácia de uma jovem perante ao rei dos reis, o rei "mais" importante dentre os reis humanos, avançou na direção dela, indignado:
— Como ousa entrar no salão do trono e não se ajoelhar perante o rei!?
Se aproximava e Anna o observava em desdém e silêncio, sem mover um músculo sequer.
— NÃ... — o rei tentou alertar o general, porém o príncipe, ao ver a situação daquela moça, acreditou que era necessário intervir.

O protagonista interrompeu seu pai e correu pelo salão em direção ao general.
— Perdoe-a! Esta jovem faz parte do meu harém! Não sei o que está fazendo aqui...
O general olhou para o príncipe transbordando desprezo, contudo logo se afastou, permitindo que o infeliz em palavras se aproximasse de Anna. Neste momento, algo anormal aconteceu, algo que o filho nunca imaginara ouvir — seu pai preocupado consigo, seu pai o alertando do perigo.
O rei se ergueu do trono... sua feição se contorcendo mais e mais em desespero conforme a mão do príncipe se aproximava de Anna.
— NÃO FAÇA ISSO!
No entanto, seu filho não deu ouvidos... Por que daria ouvidos para alguém que lhe odiava?
A mão chegou próxima demais...
Era tarde.
Ninguém ouviu o som do corte quando a lâmina da foice de Anna dividiu seu braço em dois, criando uma linha que quase cortou o palácio ao meio — o corte propagado no ar passou a milímetros do rei, arrancando parte de sua orelha esquerda, coroa e até seu trono.
Anna evitou que o corte atingisse o rei diretamente, pois este ainda tinha utilidade para ela — um morto não poderia responder suas perguntas... CRRAAASHH!! O fino corte alastrou-se criando enormes buracos no chão. O teto e as paredes se racharam, e a estrutura do palácio ameaçava desabar pelo meio.
— AaaAAAAaargghh!
Pahrf!
O príncipe caiu de joelhos... o rosto contorcido pressionado contra o chão. Segurava o braço cortado, e o membro não parava de sangrar um único momento. Chorava muito, parecia um recém-nascido enquanto Anna o olhava de cima cheia de arrogância e desprezo.
Não era menino novo. Não era jovem e muito menos um jovem adulto. Era um adulto formado... ao menos de corpo. Aparência elegante, jovial e bonita... embora tivesse seus 43 anos — elite e sua genética de envelhecimento reduzida... Falta de trabalho braçal? Não ficar embaixo de sol o dia inteiro com certeza ajudava.
Estúpido... sempre agindo sem pensar.
O rei continuava travado — olhos arregalados... o sangue de sua orelha escorrendo pelo pescoço. Panff... Jogou-se de joelhos, sua cabeça agora tocava o tapete no chão.
— Perdoe! Perdoe meu filho Joseph! Ele não sabe o que faz! Ele... ele é um idiota irresponsável! — o rei soluçava implorando.
"Essas lágrimas são de verdade... Pai?" Mesmo deitado no chão, sentindo uma dor insuportável, Joseph não conseguia entender o motivo pelo qual seu pai chorava.
Anna rosnou sua pergunta fria:
— O que aconteceu com o Primordial Preto? — Sua voz ecoou, penetrante, nos ouvidos dos três presentes, feito uma lâmina áspera que cortava lentamente seus tímpanos.
Tremendo de medo devido à sensação que Anna transmitia em suas palavras, o rei juntou toda a sua coragem na tentativa de formular uma resposta que poderia lhe custar a vida:
— Aurora... Aurora me disse que não está conseguindo se comunicar com ele. Ela... Ela disse que ele está vivo, contudo em um sono profundo. Tentou chamá-lo várias vezes, mas sempre sentia a presença da Vampira, e isso a deixou aterrorizada. Ela... ela me avisou que alguém viria até aqui... Por favor, perdoe meu filho, eu não contei nada a ninguém sobre isso...
A raiva de Anna aumentou, a frustração tomando conta. Olhou novamente para Joseph, que continuava ali, no chão, feito um animal indefeso, ferido, tentando controlar o choro para não incomodá-la.
Shblmnshs...
Água começou a sair do corte no chão, levantando o braço decepado e encaixando-o de volta no lugar. Anna o curou, todavia não eliminou a dor; apenas fez com que o membro decepado voltasse a funcionar em seu corpo. Joseph ainda sentia uma dor extrema, mas agora conseguia mover o braço e em agradecimento tentou sorrir pela piedade.
...Isso não ajudou muito; Anna ficou mais irritada.
— Deveria te matar por suas palavras, seu verme.
Joseph abaixou a cabeça ainda mais, pressionando o rosto contra o chão, assim como seu pai e o general, submissos e temerosos.
— Desc...
— Cala a boca.
Calou a boca imediatamente.
Anna caminhou na direção do rei curvado e rosnou:
— Onde está a Vampira? — Sua voz cortou o silêncio, fazendo o rei sentir como se estilhaços de vidro congelados o atravessassem, cortando-o internamente da cabeça até os dedos dos pés.
— D-deve estar junto de seu exército, se preparando para atacar os reinos.
— Por onde irão passar? — questionou, seu tom impaciente.
— A rota mais rápida, saindo do Reino dos Monstros, seria atacar Dirpu primeiro, passando pelo Grande Desfiladeiro.
— Então vamos logo. Me guiem até lá.
O general, interrompendo a conversa, tentou alertá-la:
— Para chegar até lá, a travessia não será fácil. A região é repleta de feras muito fortes.
Anna o olhou, sua paciência no limite... (Ops... transbordou.)
— Cala a porra da tua boca... — grunhiu, sem sequer desviar o olhar. O general, apavorado, abaixou a cabeça até tocar o chão outra vez, sentindo um frio cortante nas ossadas. — Mandem seus homens se prepararem. Vocês têm dez minutos. Em nove, quero todos prontos. Em dez, estamos saindo daqui.
— Mas... Mas isso é pouco tempo...
— Agora têm cinco. E se reclamarem novamente, eu garanto que não conseguirão reclamar nunca mais.
Desesperado devido ao terror que rasgava profundamente em sua alma, o rei berrou:
— S-sim... Sim. Nos perdoe... GENERAL! AGRUPE O EXÉRCITO AGORA NO PORTÃO PRINCIPAL DO REINO!
— S-sim, majestade! — O general se levantou rapidamente... quase caiu para dentro da fenda no chão. Anna o olhando sem paciência. O general olhando-a achando que seria sua sentença. Não houve resposta ou som, virou-se e saiu correndo para cumprir a ordem proferida.
Anna manteve seus intensos olhos fixados na cena, observando-o sair apressado. Sua Marca brilhava, cintilando em ciano e azul-escuro, visível nas gotas da lua crescente molhada que caíam sobre ela.
Se virou e caminhou em direção à porta, deixando para trás o caos que havia causado e que o rei e o príncipe teriam que arrumar. Toda a estrutura do palácio estava afetada; poderia desabar a qualquer momento matando todos os presentes naquele lugar.
"Qual será minha punição por essa destruição?" Joseph, sem ousar levantar o olhar, sentia o peso da culpa sobre seus ombros, enquanto segurava seu braço recém-curado e ouvia os passos de Anna se afastando.
No caminho, atravessando uma floresta que começava a ser engolida pela neve, Anna se acomodava sozinha em uma carruagem real luxuosa. Seu rosto não escondia... Cada vez mais se mostrava impaciente pela lentidão da viagem... e ainda mais por causa de Nino em algum lugar com a tal Vampira.
"Enforcamento? Hm... Correntes e afogá-lo num rio? Hm... Uma piscina de aranhas? Hm... Tacar num vulcão? Hm... Guilhotina?", ponderava sobre a maneira de como iria matá-lo, caso encontrasse um único vestígio no corpo dele que indicasse que este tivesse se assanhado para Lycoris.
Crmnm...
De repente... a terra tremeu.
Antes que qualquer som fosse ouvido, uma bizarra mistura monstruosa surgiu. Uma cruza entre duas raças distintas criou seres colossais e poderosos. Serpentes subterrâneas + morcegos da neve, cobronas com cara de morcego e asas se emergiram violentamente do solo.

O exército entrou em alerta imediato... Shk! ...à toa.
Assim que os seres surgiram do solo, foram imediatamente destruídos por cortes precisos.
As criaturas realmente voaram... mas não usando suas grandes asas.
P-P-PAH...
Em vez disso, seus corpos se partiram, criando imensas rodelas de carne e asas que subiram e caíram sobre o solo, cobertas por falhas de neve.
O exército se assustou ao ver aquelas centenas de pedaços enormes caindo. Ao olharem para o chão, perceberam o primeiro corte, que deixava mais da metade dos corpos das serpentes enterrados no profundo da terra.
Sua carne, seus ossos... tudo extremamente liso, em um único corte milimétrico.
Todos sabiam exatamente quem havia matado aqueles seres.
O general, montado em seu cavalo marrom armadurado pelas cores da bandeira do seu reino, aproximou-se da carruagem de Anna, enquanto ainda observando os pedaços espalhados pelo campo. Sua feição surpresa... tentando se manter normal.
Virou o rosto para a janela da carruagem e tentou expressar gratidão:
— Obri...
— Cala a boca.
...Sentindo o peso da resposta seca, abaixou a cabeça imediatamente e se afastou, chorando baixinho enquanto cavalgava lentinho reduzindo a velocidade de seu amigo de quatro patas.
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