Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 12

Capítulo 214: Um Sonho?

Passos intermináveis...

O forte branco reforçado por magia de luz fazendo-a quase se sentir no meio do nada... um nada branco e infinito. Que corredor era esse que começava pelo meio e não tinha início ou fim? Que corredor era esse iluminado sem que precisasse de lâmpadas ou tochas?

Nina seguia pelo caminho no tempo que Nathaly... bem... seguia pelo lado oposto.

Era impossível vê-la olhando para trás, mas era impossível ver qualquer coisa além do cenário branco quase opressor... Nina piscou... e não reparou. Bem adiante no corredor, este chegava ao fim, revelando uma porta dupla se abrindo lentamente em drama, embora tentasse assustar a Herdeira da Linhagem Preta.

Nina não notou a mudança de cenário; em sua cabeça, aquela porta sempre estivera ali, porém fechada... Parou. Os polegares para dentro do bolso do short, o restante dos dedos para fora, despreocupados. Sua feição lembrando o pai e o irmão entediados.

Era estranho, todavia não era como se tivesse opção de onde ir.

Olhou-a meio desconfiada e logo voltou a seguir. Ritmo tranquilo, olhar sempre atento, preciso. Chegou diante da porta. O interior era o mesmo branco de fora. Curvou o corpo e colocou o rosto dentro, olhou para os dois lados e só via branco e mais branco... porém outra porta dupla, esta fechada, se encontrava bem do outro lado da pequena sala quadrada.

Entediou o olhar, bufou para cima e sua franja recebeu o sopro tedioso.

Deu um passo adentro... e seu corpo se congelou inteiro.

Pahf...

Desabou... para frente, caindo lentamente no chão enquanto a porta pela qual havia entrado, Tlec... se fechava escondendo seu corpo inconsciente lá dentro...


Ou... Ou... OU!!Frschshsch! Nino sacudia Nina na cama, contudo ela permanecia dormindo profundamente, feito uma pedra, sem o menor desejo de acordar. — Acorda logo, estamos atrasados, cara! 

Humnm...?

Nina se sentou na cama, os olhos entreabertos, completamente sonolenta. Bocejou fortemente enquanto esticava os braços para o alto num quase riso eufórico devido ao prazer engraçado de esticar os músculos logo cedo.

Fuuush... Nino jogou o sobretudo dela sobre seu rosto. Após a colisão, Fufih o sobretudo caiu sobre seu colo, e ela olhou para ele com um desdém claro.

— Vamos! — Nino se virou e saiu do quarto.

Nina abaixou os braços, levantou-se preguiçosamente e arrumou o cabelo usando as mãos, manipulando seu sangue para deixá-lo como gostava, assim como seu macaquinho, esquecendo-se completamente de que não podia usá-los. Vestiu o sobretudo prateado e seguiu Nino pela cozinha do apartamento até a porta.

Contudo... algo a fez parar por um momentinho.

"Ele está mais alto?" — OaaaAAHH... — pensou e resmungou, todavia a sonolência a fez bocejar com força e esquecer do que pensara.

Saíram e entraram no elevador — Nino apertou o botão da recepção, do outro lado, Nina apertou o andar de Nathaly. Quando o elevador parou no terceiro andar, Nathaly não estava lá, e isso deixou Nina estranha, mas devido ao atraso... ignorou.

"Ela já deve ter ido."

(Tira o Já... mermão...)

Chegaram à escola, e logo se separaram. Nino seguiu para o escritório de Alissa, enquanto Nina procurava por Nathaly em todos os lugares... não a encontrou. Revisitou os lugares e novamente não a viu, ouviu ou sentiu o cheiro da namorada.

Comportamento inquietante. Paranoia. Olhava cada canto enquanto retornava ao corredor de sua sala de aula. Nino vinha em sua reta — Nina parou-o com uma certa pressa:

— Viu a Nathaly por aí?

Hãm? Quem é essa?

A irmã o olhou cheia de estranheza e confusão.

— O-o quê? Tá brincando comigo?

— Não sei quem é. Será que foi algum sonho seu?

— Como assim sonho, velho?! É a Nathaly, caralho. 

Estressada, Thumb... passou por Nino colidindo os ombros e se dirigiu à sala de aula — Nino a seguindo sem entender nada. Chegaram, entraram e viram o professor Natanael instalando um projetor para a aula de Alissa. Nina viu a professora e foi até esta, que esperava a instalação encostada, meio sentada em sua mesa.

— Alissa, a Nathaly não vem hoje?

Visivelmente confusa, a professora olhou para sua aluna.

— Não conheço nenhuma moça com esse nome.

— O... Quê? — Nina ficou sem reação diante da resposta.

— Senta lá rapidinho, vou passar a aula para liberar vocês mais cedo hoje.

Sem dizer mais nada, Nina se virou e foi se sentar ao lado de seu esquadrão. 

"Um sonho? Foi tudo um sonho?!" Se sentou, a cabeça abaixada, ombros na mesa e as mãos sustentando o rosto tentando processar a confusão.

Nino percebeu seu estado e perguntou:

— Tá tudo bem? Você tá estranha desde cedo.

— Est...

Já irritada com Nino, Alissa gritou:

— NINO! Não me faça pegar você pela orelha! Fica quieto aí!

Nino olhou-a e não perdeu tempo:

— Desculpa, coroa...

HAHAHAHA!

Uma alta explosão de risadas se seguiu, "todos" riram, até mesmo Natanael. Alissa cerrou os punhos, corcunda. Seu olhar afiado, seu semblante fechado ao tempo que Nina olhava para os lados sem entender o silêncio que escutava em meio a tantas gargalhadas.

"Que vazio é esse?" Olhou para o rosto de seu irmão, algo parecia... diferente. "Você me deixaria e viria sozinho só para zoar com a minha cara chegando tarde... Nino, é você mesmo dentro deste corpo?"

Natanael saiu e a aula finalmente começou.

Uma reunião tranquila: Alissa apresentou algumas anomalias Classificação Calamidade fugitivas no projetor, além de discutir e comentar mais sobre anomalias que eram falsos Errantes e Calamidades que se disfarçavam. Entre as anomalias mencionadas, a mais forte comentou sobre a "Fênix".

O olhar de Nina parecia turvo. Sua audição parecia no modo silencioso.

As informações conflitavam com algo. Tudo que escutava não parecia ser algo novo.

No exato instante em que a professora trocou a imagem no projetor para uma representação feita em CGI, pois não havia foto ou vídeo da criatura, além das outras duas anomalias terem virado simples papéis de carne devido a brincadeira sadia de quando Alissa ainda era pequena, um barulho inesperado ecoou pela sala.

BOOM!

Alissa olhou rapidamente para o terceiro esquadrão e ordenou friamente:

— Venham comigo!

Vush!

Não hesitaram. 

Se levantaram quase em saltos rápidos, pegaram as armas descansando em suas mesas e seguiram a professora até o campo da escola... Chegaram... Scrsrcss... Nina avançou até a entrada em uma rasteira baixa lançando a mão direita até o ombro, pronta para puxar sua lâmina... porém cruzou os olhos com os da Fênix ainda em forma de pássaro e congelou. Seu corpo simplesmente travou — embora fosse notório o tremor, o estremecer que não sentia em sua forma.

Uma visão repentina a invadiu.

"Isso... Isso já aconteceu?!" 

Viu Nino à frente da Fênix morta... viu seu irmão banhado pelo sangue da criatura, agora viva, em sua frente. Piscou... A luta terminou. Quando finalmente se desvencilhou de tal visão, percebeu Alissa visivelmente furiosa de rosto se aproximando. Atrás...? Nino posava com Thales ao lado da Calamidade morta, no tempo que Samanta metralhava-os de flashes feito uma paparazzi.

— Estava com medo? Por que não ajudou seu esquadrão?! — rosnou Alissa, braços cruzados.

— N-não sei o que aconteceu. Desculpa — Nina respondeu e abaixou um pouco a cabeça.

A mais forte relaxou um pouco e sua expressão se suavizou. 

— ...Tem a ver com a pergunta mais cedo? Olha... Me desculpe mesmo, mas eu não me lembro de uma Nathaly na escola. Talvez eu tenha esquecido, mas realmente, eu não me lembro — respondeu em tom calmo.

Nina, mantendo o semblante desanimado, ergueu o olhar.

— Entendi. Relaxa. Talvez tenha sido apenas um sonho.

Alissa colocou as mãos nos ombros dela e sorriu, tentando transmitir um pouco de conforto. Nina olhando-a no olho.

— A aula acabou... Pode ir para casa desestressar a mente e relaxar um pouco. Amanhã nos vemos de novo.

Aham... Vou fazer isso — respondeu, porém sua expressão permanecia fria e distante no tempo que se afastava. As mãos de Alissa se retiraram lentamente de seus ombros, enquanto a mineirinha caminhava em direção à saída da escola.

Nino a observou de longe e, após um instante de hesitação, seguiu-a até o apartamento.

Sem trocar palavras no caminho, a irmã observava atentamente tudo ao seu redor. Os rostos das pessoas, o ambiente em que se encontravam, até mesmo uma discussão de trânsito que captou de canto de olho. Cada expressão, cada xingamento, cada movimento no cenário... mas nada parecia fora do comum.

Chegaram... moravam basicamente do lado do trabalho.

Ao entrarem no apartamento, Nino quebrou o silêncio:

— Vai tomar banho ou posso ir?

— Vou tomar primeiro — respondeu, sem sequer olhar para ele.

Em passos preguiçosos, caminhou até o banheiro, retirando o sobretudo, Fsh antes de soltá-lo no sofá de forma displicente. Tuc... Bateu na porta do banheiro com um leve toque do calcanhar, deixando-a entreaberta... porém queria fechar.

Nina não se permitiu olhar no espelho imediatamente. Mantendo as mãos firmes sobre a pia, abaixou a cabeça e fechou os olhos.

Haarrrff...

Um suspiro pesado escapou de seus lábios, carregado de frustração. Então, em um movimento brusco, ergueu o rosto e o corpo, confrontando sua própria imagem cansada do dia que mal havia começado.

Sem hesitar, abriu a torneira, Shhhhii... blululbu... a água correu fria, acumulando-se em suas mãos.

Splash!

Molhou o rosto, tentando dissipar algo que ardia por dentro.

Contudo, ao encarar o espelho novamente, algo capturou seu olhar: um brilho peculiar sobre seus seios. Era a metade de um coração — o colar que dividia com Nathaly.

Seus olhos se estreitaram, e Tssssss! a água em sua pele evaporou em pequenas chamas escuras. O ódio crescia dentro dela, vivo, pulsante, alimentando-se do próprio silêncio.

"Que porra de lugar é esse?!", exclamou mentalmente, girando a cabeça para a porta.

O banheiro, antes comum, agora parecia algo saído de um filme de terror. Apesar da claridade intensa do ambiente e do dia ensolarado, a porta entreaberta parecia carregar algo opressivo. Uma presença invisível, ameaçadora, como se, a qualquer momento, algo pudesse emergir dali e atacá-la.

Com o tempo — e os sustos que Anna lhe causava sem intenção, por nunca deixar sua presença perceptível — Nina havia aprendido a manter sua Detecção Atômica sempre ativa. Pelo menos quando sua mente permanecia no lugar, longe das profundezas de sentimentos intensos.

E o que sentia agora a incomodava.

Todo o ambiente ao seu redor parecia moldado, confinado aos exatos 200 metros que seu poder podia alcançar. Tudo parecia artificial, uma réplica meticulosamente criada do que um dia vivera e agora via e sentia nessa réplica não exata deixando-a nauseada mentalmente.

Passar por onde sempre passou, caminhar e olhar para onde sempre olhou e por mais que parecesse ser exatamente como era, não era. Por mais que na sua cabeça fosse assim, sentia que não era. Sentia que algo estava fora do lugar. Sentia que algo estava diferente, mas estava tão igual que não conseguia dizer exatamente como cada coisinha ao seu redor era.

Uma cópia perfeita... porém era uma cópia... e cópias nunca conseguiram e nunca conseguirão ser algo original. Sendo um xerox ou não. Quem tocou. Quem teve em mãos. Quem viu e viveu algo real saberia dizer que aquilo não era original. Que aquilo não estava normal.

Nada era real.

O vazio que crescia dentro dela era tão opressivo quanto a sensação de falsidade ao redor. Concentrando-se mais, Nina ampliou sua atenção. Mesmo dentro do alcance da Detecção, embora pudesse sentir o movimento das pessoas nos andares abaixo, notou algo estranho: eram apenas cascas.

Não havia sinal de vida nas carcaças; o ponto vital simplesmente não existia.

Corpos vazios...

...A única exceção? 

Uma única presença de vida, além da sua própria, estava na "sua" cozinha, mexendo nos "seus" armários.

Nina caminhou lentamente, deixando o banheiro e seguindo cautelosa até a cozinha. O som de Nino mexendo em potes e pegando cereais era familiar, rotineiro. Com certeza procurava pelo cereal escondido da irmã, todavia, naquele momento... tudo parecia errado.

A luz do sol invadia o apartamento, iluminando o piso branco impecável e as paredes lisas. Tudo exatamente como sempre fora: limpo, organizado, perfeito. Contudo, sob essa aparente normalidade, o instinto da Primordial gritava que algo estava fora do lugar.

Observava-o de costas enquanto ele puxava o cereal escondido do fundo do armário. Nino a ouviu se aproximar e, envergonhado, virou-se para ela. A caixa escondida em suas costas. Seu rosto tentando disfarçar ser pego no flagra... Conseguiu firmá-lo e perguntou em tom desafiante:

— Vai tomar seu banho ou não?

Nina continuou a encará-lo, desconfiada. Não parecia natural. O tom, o jeito... algo não batia. Mesmo com essa reação que ele poderia ter, Nina achava estranho, pois sabia que ele a xingaria mesmo estando errado ou não conseguiria manter a atuação por tanto tempo.

— Quando a nossa avó morreu? — Nina perguntou de repente, sua voz fria feito gelo.

Nino hesitou, surpreso.

Hãm...? Por que isso do nada? 

A Primordial deu alguns passos lentos na direção dele. Sua expressão, antes contida, agora começava a transbordar raiva:

— Quando. A. Nossa. Avó. Morreu. Porra? — Sua Marca emergiu, sangrando em sua pele. Cada palavra sendo dita de forma firme, agressiva e cadenciada.

— Você não lembra?... Foi depois de nos mudarmos para cá. Você esqueceu, irmã?

"...Você me chama de literalmente qualquer coisa, menos de irmã." Nina sorriu de forma gentil. Seu corpo tenso, sua raiva... sua fúria desapareceram de repente. — É verdade... Eu me esqueci. Haha!

— Como esquec...

BAAM!

Seu punho atingiu o estômago do irmão com força. O impacto dobrou o corpo dele e o lançou contra a parede.

BUUM!

A colisão fez a dimensão se tornar instável por alguns segundos, fazendo o apartamento perder a cor e se corromper, ficando transparente e desaparecendo aos poucos feito um bug em jogo, antes de voltar ao "normal".

— QUEM É VOCÊ?!

Nina avançou sobre ele.

O soco carregado... o soco descendo para matá-lo...

Os traços de Nino mudaram.

Sua figura distorceu-se.

Revelava outra pessoa...

Marta.

Nina arregalou os olhos e parou o soco no último instante... todavia, não teve tempo de reagir. Das paredes da dimensão, VulVulplash! sangue rosa começou a escorrer, tomando para si cada centímetro, cada objeto ou móvel. Do ambiente rosa, tentáculos viscosos envolveram seu corpo, prendendo-a de joelhos no chão.

Forçada a olhar para Marta, viu a figura dela se transformar mais uma vez.

A forma ilusória desapareceu, revelando a Primordial Rosa em sua verdadeira essência. Ela ria, eufórica, seus olhos brilhando de diversão sádica. O corpo curvado com o rosto quase colado no de Nina paralisada.

Nina não reagia nem compreendia nada, apenas observava-a rindo de sua cara.

Uma porta se abriu ao lado dela.

A Primordial risonha entrou, caminhando cheia de elegância exagerada, quase desfilando, sua vaidade transbordando a cada passo provocantemente sensual.

— QUEM É... — gritou, o olhar perdido entre a confusão e a fúria.

No centro da sala onde a mulher entrara, havia uma cama de casal bem enfeitada. Rosa subiu nela com elegância teatral, uma felina engatinhando de quatro, deitando-se ao lado de uma moça desacordada. Nina esqueceu-se de como respirar... Nina esqueceu-se de como existir... ao reconhecer... Nathaly... desmaiada ali.

— ...você...?

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