Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 11

Capítulo 212: Bruxa dos Vampiros

Rag observou Lycoris descer lentamente até o mar carmesim.

Pluc!

No instante em que a Bruxa tocou a superfície ondulante do sangue, Fu... Ragnarok disparou.

Sua movimentação foi quase instantânea, surgindo bem diante dela em um movimento brutal, desferindo um corte em cruz com ambas as espadas, mirando o tórax e o coração.

Fush!

Seu ataque encontrou o vazio... Lycoris havia desaparecido.

Fluuuasshh!

As espadas rasgaram o mar de sangue, fazendo uma torre carmesim jorrar para o alto feito uma fonte macabra, espalhando-se por toda a dimensão criada.

Enquanto procurava-a freneticamente à esquerda, sentiu algo frio e inesperado: uma mão tocando suavemente seu peito. Seu olhar se virou bruscamente, e lá estava Lycoris, encarando-o com uma calma predatória.

Antes que pudesse reagir, a Bruxa apontou o dedo indicador e, Tic com um simples toque, FRRUUUUSHH! Rag foi lançado violentamente para o lado, como se um furacão tivesse o puxado... a pele do rosto se distorcendo. As roupas se agitando com brutalidade.

PA-PAH-PAH!

Capotando descontroladamente sobre o sangue pulsante mais parecendo concreto reforçado fingindo ser líquido, o Ragnarok tentava se estabilizar, porém lanças feitas do próprio sangue carmesim emergiram da superfície em sua trajetória.

Pl-Pl-Ploch!

As lanças perfuraram seu corpo em vários pontos, fragmentando-se sob o impacto de sua força. Tu-Tu-Tu-TuTuTu! O som das armas quebrando e a carne sendo atravessada ecoava em todas as direções.

Depois de alguns segundos sendo jogado de um lado para o outro, a velocidade do arremesso finalmente diminuiu. Rag girou no ar uma última vez, usando o movimento para aterrissar em um rolamento controlado.

Erguendo-se com ferocidade, seu olhar queimava em chamas escuras enquanto procurava Lycoris.

Ploch!

...Antes que pudesse encontrá-la, uma lâmina carmesim perfurou seu peito. Lycoris surgiu atrás dele, silenciosa como um fantasma, empunhando uma espada reluzente que atravessou seu coração.


Foram sete dias viajando com o mapa invisível ganhando tempo... Não que Nathaly se importasse em passar mais algumas noites na estrada... Porém finalmente chegaram a Dirpu — um reino imensamente maior que Alberg. 

Diferente de Alberg, que tinha um formato circular, Dirpu era um quadrado perfeito, protegido por muralhas exuberantes e imponentes. Não havia fosso ao redor, contudo quatro grandes estradas convergiam para os portões localizados em cada lado da muralha.

Apesar das diferenças arquitetônicas, uma semelhança com Alberg era a rígida divisão social: o Norte pertencia à elite, o Oeste à nobreza, o Sul abrigava a área comum, e o Leste era reservado à população mais pobre.

Ainda assim, a miséria de Dirpu não chegava a ser tão extrema quanto a de Alberg, onde os demônios e a degradação reinavam.

Em Dirpu, mesmo as áreas humildes eram organizadas e habitadas por diversas raças, exceto os demônios, que preferiam as regiões centrais e mais quentes, o que os fazia ocasionalmente vagar próximos a Alberg.

Nas zonas mais simples, as casas seguiam um padrão uniforme: mesmas cores, tamanhos idênticos e ruas quase indistinguíveis. Já nas áreas nobres, cada residência tinha sua própria personalidade, com designs únicos e ruas adornadas por lojas luxuosas.

O uso dos portões era estritamente regulado.

O Leste era o único acessível à população pobre, enquanto o portão Sul servia à área comum. Já os portões do Oeste e do Norte eram exclusivos para a nobreza e a elite, garantindo que essas classes não precisassem se misturar com aqueles que consideravam inferiores.

Dentro das muralhas, Dirpu não possuía plantações. As terras agrícolas estavam localizadas em postos avançados ao Sul, protegidos por tropas militares.

Devido ao clima frio do Norte, a variedade de alimentos era mais limitada em comparação aos Reinos ao Sul — como Alberg.

A riqueza de Dirpu vinha de suas minas. O reino era famoso pelos depósitos de amalíta, rezeríta e plumaríta, além de platina e outros metais raros usados principalmente em joias e artigos de luxo.

Os metais "íta" eram extremamente valiosos pela sua resistência e versatilidade únicas, sendo os preferidos para a fabricação de ferramentas e armas. Era como se o metal viesse com um encantamento embutido — e isso crescia os olhos de qualquer um.

Nas áreas comuns, algumas ruas se destacavam por suas construções desproporcionalmente grandes. As construções ali tinham portas de quatro metros de altura, e tudo era muito exagerado para o padrão humano.

No extremo Noroeste, erguia-se um castelo monumental, visível tanto das áreas nobres quanto da elite. Ali funcionava a prestigiada escola de magia do reino. Com suas torres altas e arquitetura rica em detalhes, a escola era mais que um centro de aprendizado: era uma linha de defesa.

Seus muitos andares refletiam o símbolo do poder de Dirpu. Sua existência justificava a ausência de um fosso defensivo: em caso de ataque, os melhores alunos eram convocados para reforçar o exército, juntamente com uma força secreta que operava em meio às sombras dentro da escola.

O Palácio de Dirpu, embora semelhante ao de Alberg, era maior e mais impressionante.

Seus interiores ostentavam as cores da bandeira do reino: branco, cinza, dourado, vermelho e um verde-esmeralda, que adornava os olhos da Fera Lendária, Jormungand — uma serpente colossal que simbolizava Dirpu.

As ruas de Dirpu eram mais planas e bem planejadas.

Em uma delas, na área comum próxima à entrada nobre, destacava-se a Catedral da Igreja da Deusa do Sol. Muito maior e mais bela que a de Alberg... e era para lá que Nina e Nathaly seguiam.

Entrando discretamente no reino, Nina fitou uma das mulheres presentes e assumiu sua aparência. Com um pouco de sangue, criou uma túnica marrom com capuz para disfarçar Nathaly, garantindo que ninguém a reconhecesse como a Grande Heroína.

Enquanto buscavam a igreja naquele vasto reino, evitavam multidões, sempre passando por becos e caminhos menos movimentados.

Chegando mais ao Norte, cruzavam mais um beco estreito... quando Nina parou subitamente. Sangue começou a escorrer de seus lábios até o queixo, e seus olhos se arregalaram em terror.

O disfarce desapareceu.

— N-Nino? — Sua voz trêmula era abafada pelo pavor que transparecia em seus olhos.

Apertou a mão contra o peito, ofegante, enquanto uma tontura a fazia se apoiar na parede. Nathaly, alarmada, correu até ela, notando o sangue e a súbita fragilidade.

— Nina? O que foi?! — A preocupação em sua voz era palpável.

Nina não respondeu. Seus olhos estavam fixos em um ponto à frente.

"Nino... O que está acontecendo, porra!?", pensou, lutando contra a dor que a consumia.


Shircr!

Lycoris retirou a espada do coração de Nino no instante em que sentiu sua presença desaparecer. Assim que a lâmina foi removida, o coração se regenerou instantaneamente, e Rag não perdeu seu tempo.

PLOCH!

Todavia mal se virou para atacá-la e uma lança massiva de sangue carmesim emergiu do mar pulsante, atravessando o coração e o tombando mais uma vez.

O corpo tremulou... inerte por um momento.


— Bleergh! 

Nina vomitou violentamente, uma das mãos pressionando o peito enquanto tossia sangue preto no chão. Ao lado, Nathaly segurou sua testa, tomada pelo desespero procurando respostas para inúmeras perguntas silenciosas.

— Nina, o que foi?! — perguntou, quase gritando.

— O... o Nino... — murmurou, com dificuldade. — Eu sinto que ele... ele não está mais aqui...

Seus olhos, frágeis e exaustos, carregavam o reflexo de uma dor intensa, enquanto sua regeneração não surtia efeito pela continuidade do sofrimento. Ragnarok, indiferente à dor, não a sentia. Mas Nina experimentava cada segundo da agonia que Nino deveria estar sentindo.

— O quê?!


Lycoris observou o corpo de Nino, imóvel porém ainda em pé, com a lança cravada no peito. Apesar disso, uma mão segurava a Demonic e a outra a Purgatório. As lâminas tremiam levemente, oscilando feito uma gangorra sob o peso da inércia.

— O que você é? — perguntou Lycoris, enquanto o circulava lentamente, ondinhas de sangue sendo criadas com o passar de seus pés descalços em meio à dimensão. — É só um Ragnarok mesmo?

Rriisk... Usando suas unhas afiadas, traçou uma linha leve pelo pescoço e o rosto dele, a voz escorrendo em sarcasmo:

— Erga-se. Sei que você não está morto.

CRAASH!!

O coração de Nino se regenerou com um vigor explosivo, destruindo a lança que o atravessava. Seu corpo se reergueu com força brutal, e seus olhos voltaram-se diretamente para Lycoris.

Ela, inabalável, o encarou de volta com uma intensidade esmagadora. FRUUUSSSHH!! Só o peso de sua presença empurrou Ragnarok violentamente para longe, lançando-o como uma flecha de magia escura abrindo o mar, literalmente, vermelho.


Nina sentiu de novo a presença de seu irmão.

— O que está acontecendo...? — Sem a continuidade da dor intensa, sua regeneração reverteu a debilitação, fazendo-a voltar ao normal.

— O quê?... O que você tá falando? Não tô entendendo!

— E-eu... Eu sinto uma dor... Como se Nino estivesse morrendo e morrendo, várias e várias vezes... Nathaly... Isso dói pra caralho.

Nina olhou para Nathaly, sua expressão deformada pela angústia. A outra, tomada pelo instinto, Thumpf! envolveu-a num abraço apertado, tentando confortá-la no pequeno beco.

— Ele está bem... Calma, ele vai ficar bem... — murmurou.


Enquanto voava pelo impacto do empurrão, Rag desfez a Demonic em pleno ar e girou o corpo. Fruususususu... Aterrissou deslizando pelo sangue carmesim, até parar cheio de um estilo não planejado. Estendendo a mão esquerda à frente... uma gota escorreu de sua palma. 

Poc!

Ao tocar o mar pulsante, o sangue ao redor reagiu violentamente.

Uma vasta área foi tomada pelo poder de Ragnarok, e no centro daquele caos carmesim, uma floresta nascia. As árvores, pretas e grotescas, erguiam-se feito espinhos de sangue preto, espalhando-se rapidamente.

No coração da floresta, uma lagoa tranquila começou a borbulhar e estremecer.

GRRRRAAAHHH!!

Das profundezas, um Leviatã inteiramente preto emergiu, subindo aos céus e crescendo descontroladamente à medida que se adaptava à presença da Bruxa. A criatura, colossal, rugiu para o céu antes de fixar seus olhos nela.

Lycoris observava a cena com um sorriso frio, e os três Ragnaroks avançaram em sua direção.

— Um Ragnarok usando outros...? Interessante... — murmurou, com a confiança de quem tinha o controle absoluto.

Enquanto a Floresta Viva continuava a crescer, expandindo-se em direção a ela, tomando o controle de seu sangue carmesim, Lycoris não demonstrava preocupação.

Árvores imensas moviam-se feito soldados suicidas, tentando distraí-la.

Rag avançou ao lado do Leviatã... o enorme Ragnarok deslizando pelo ar carregando um ataque de magia escura em sua boca. Rag o acompanhando após um rápido salto... a Purgatório em sua mão desejando a alma de seu alvo... todavia, ao cruzar o olhar com o rosto de Lycoris, tudo mudou.

Lycoris ergueu a mão direita, seus dedos curvados em um gesto delicado. Com um pequeno giro de pulso...

Reverse.

Tudo ao redor foi subitamente dominado por sua vontade.

As árvores da floresta explodiram em sangue carmesim, crescendo exponencialmente, agora nutridas pelo próprio mar. O Leviatã, que segundos antes rugia em direção a Lycoris, se virou no ar, voltando-se contra o Ragnarok em uma velocidade quase explosiva.

Rag, atônito, só teve tempo de encarar o feixe carmesim rugindo em sua direção.

RAAAARRH-BRAAUUMM!!

A explosão o atingiu em cheio.

Usou a Purgatório e conseguiu bloquear o impacto, porém a força o lançou como um meteoro na direção do mar de sangue. FRUUSUSUSUSSSHH!! Ao cair, fez um rolamento habilidoso, desviando cheio de agilidade dos galhos das árvores vivas que o atacavam incessantemente.

Shk-Shk!

Cada vez que cortava um, outro brotava imediatamente... Eram infinitos.

O Leviatã, por sua vez, mergulhou do céu, abrindo sua gigantesca boca na tentativa de abocanhá-lo. Ragnarok, com a velocidade maior que diversos relâmpagos somados, saltou altíssimo, desviando do monstro que antes era seu amigo.

CRUNK!

O Leviatã passou por baixo e quebrou todos os dentes — não esperava errar, mas se regenerou rapidamente. Se ergueu novamente, e agora voava ao encontro dele. No ar, a enorme boca do monstro se aproximava, carregando um ataque carmesim devastador.

Shk!

Ragnarok, em um movimento rápido, desferiu um corte vertical no vento. O golpe foi tão limpo, tão perfeito, que cortou tanto o Leviatã quanto a Floresta Viva ao redor em uma única passada da Purgatório — um rastro "semelhante" à Lua Nova de Anna e Emília...

O som foi quase inexistente, uma linha afiada rasgando o espaço. O vento cortava suavemente enquanto os dois Ragnaroks simplesmente desapareciam no ar, dissolvendo-se à medida que se propagavam na direção do golpe.

Ainda suspenso no ar, distraído pelo impacto de seu próprio ataque, não percebeu e nem sentiu a aproximação de Lycoris... Quando percebeu, era tarde. PHAAMM! O chute vertical da Bruxa o arremessou de volta ao mar, sua força provocando uma explosão de água ao redor.

BRAAUUusususu!!

Ragnarok caiu pesadamente, fazendo outro rolamento para tentar absorver o impacto.

O sangue erguido ao céu caía lentamente — gotas suaves deixando o que via ainda mais lindo... Precisava daquele sangue... Precisava tomar Posse.

Vendo-a avançar em meio às paredes abertas, uma decisão crucial foi tomada.

Rag não hesitou: deixou seu corpo físico para trás, abandonando Nino.

Enquanto o corpo de Nino caía lentamente no mar, Ragnarok abriu seu grande olho atrás dele, tentando forçar Lycoris a parar... mas ela não parou.

SHKR-R-RR-R-K-SHK-UNCHH!!

O corpo da Bruxa se despedaçou, desintegrando-se em infinitos pedaços, dilacerados por cortes impiedosos, reduzindo a carne a nada. Uma exclusão da realidade física... Porém, de todo o corpo, restou apenas uma gota de sangue.

Poc!

Ao tocar o mar, foi como um pesadelo renascente; Lycoris emergiu dessa gota, sua presença agora ainda mais ameaçadora... Seus olhos fixos em Nino, agora a vampira empunhava uma foice de sangue.

Ragnarok sentiu um arrepio de impotência percorrer sua essência, contudo logo recobrou a compostura e retornou ao corpo do seu "protegido". Shk! Desviou por pouco do golpe da foice... esta quase atingiu seu coração outra vez.

BAAM!

Sem tempo para formular um ataque preciso, disparou um soco com a mão esquerda diretamente no rosto da Bruxa, fazendo a cabeça girar violentamente para o lado... A reação foi instantânea e apenas o suficiente para desestabilizá-la momentaneamente, mas... não o suficiente para o que queria.

CRE-E-E-ECK!

O pescoço de Lycoris se torceu e estalou várias vezes, em um movimento doentio, até girar 360° e retornar à sua posição inicial. Ela sorriu, porém não era um sorriso de prazer. Era um sorriso que refletia uma série de sentimentos reprimidos em toda uma vida, tensos e sombrios.

BAAUUUMM!!

Lycoris, sem hesitar, desfez sua foice e desferiu um soco brutal com a mão esquerda, uma onda de magia carmesim se concentrando em seu punho. O soco atingiu diretamente o peito de Nino, destruindo tudo dos joelhos para cima... restando duas partes de pernas voando, a Purgatório e sua bainha.

Pela alma, Ragnarok regenerou o coração instantaneamente, e a Purgatório flutuava ao seu lado mais uma vez... Bm empunhou-a o mais rapidamente que conseguiu — seus olhos arregalados, sabia da dor que suas mortes estavam causando em Nina... não podia perder. Não podia continuar com aquilo.

O tempo se esgotava.

Ragnarok apertou a espada com toda a força que tinha e, assim que tocou seus pés no mar de sangue, FRUUUSSHH! avançou... com uma força avassaladora.

Em um único passo, rasgou o mar, desferindo um golpe direto na altura do coração de Lycoris.

Shk!

...Cortou-a ao meio.

No entanto, não por ser rápido — Lycoris não se moveu, permitindo que ele a acertasse para entender, entender perfeitamente onde foi se meter. Neste momento, Ragnarok compreendeu. Não havia como vencer. A alma de Lycoris não estava naquele corpo.

Mesmo que ela não usasse uma Dimensão Invisível para esconder e "proteger" o próprio país, como as outras Bruxas, Nino sempre esteve nas mãos dela. Principalmente agora, estando dentro de sua Dimensão Única naquele exato momento.

Não importava quantas vezes a cortasse utilizando a Purgatório; sem atingir sua alma, tudo aquilo seria em vão.

Lycoris já havia vencido antes mesmo de a luta começar.

— Não pode tentar roubar minha dimensão, não é? — A provocação de Lycoris saiu como um doce veneno, uma melodia venenosa que, ao atingir Ragnarok, não tinha antídoto. — Não quer deixar esse garoto sem proteção por tanto tempo...

Ragnarok, desesperado por uma saída, fixou seus olhos nos dela, tentando entender como poderia escapar daquela situação, enquanto se agachava, Sliiiizzz... deslizando em uma esquiva no sangue.

Não havia o que fazer. Segurava firmemente a Purgatório, mas não conseguia imaginar uma saída, e a morte de Nino cairia em suas mãos. No entanto, um ser nunca o perdoaria por isso, quando fosse contar a verdade diretamente.

Deixando transparecer seu medo enquanto pensava, de repente, FU! um puxão invisível o fez perder o equilíbrio. Foi arremessado para o lado por uma força que não conseguia ver.

O sangue ao seu redor começou a se movimentar de forma violenta, e cordas de sangue surgiram, voando em sua direção e prendendo-o cada vez mais... A pressão era imensa, porém ele resistia, cortando as cordas usando a Purgatório, um golpe após o outro.

SHKR-R-RASHH!!

Todavia as cordas eram implacáveis, se multiplicando a cada novo golpe, tornando-se mais fortes e numerosas.

Não conseguia mais se defender.

A imobilização foi total.

Forçado a ajoelhar-se como um servo obediente.

Sua face agora voltada para Lycoris, no intuito de observar, de assistir quem o mataria.

Impotente diante da mulher que o encarava mantendo um sorriso doce e letal. Cheio de dificuldade, ainda assim tentava erguer o braço direito, segurando com força a Purgatório, contudo o sangue ao seu redor o puxava, forçando sua mão a soltar a espada.

Seus músculos tremiam... Ragnarok se recusava a soltá-la.

— Vou ter que te matar usando uma coisinha... — A voz dela brincava com o corpo dele, um tom de diversão nos olhos dela enquanto observava o esforço da presa para se libertar das cordas de sangue.

Caminhou lentamente até ele — os pés claros suavemente tocando o mar agora calmo — sentindo uma espécie de pena ao ver aquele ser tentando desesperadamente se desprender.

No entanto, sua voz, agora fria e sem emoções, cortou o ar feito uma lâmina congelada e afiada:

— Entenda, Ragnarok, a Morte não veste preto... — Uma foice começou a se materializar em sua mão, uma arma que ela não usava há muito tempo... devido a um trauma, em sua alma.

Seu Tesouro de Bruxa.

— ELA SE VESTE DE VERMELHO... — A foice se completou, seu cabo preto e lâmina um vermelho intenso e vibrante, refletindo a luz ao seu redor. — UM VERMELHO CARMESIM! — Lycoris gritou, avançando no tempo que segurava firmemente sua foice, uma arma capaz de cortar almas, em direção a Ragnarok.

Mas... ao pronunciar aquelas palavras, uma divindade escutou:

"Huh?"

Extremamente entediada e irritada devido à petulância de Ragnarok, Morte os observava do quarto branco. A simples e entediante forma como olhou para Lycoris foi o suficiente para paralisá-la de puro medo.

Lycoris não a viu... só a sentiu como se sussurrasse bem baixinho em sua alma... Congelou, o terror que a invadiu era o mesmo que sentiu quando Morte surgiu no mundo pela primeira vez, deixando-a marcada para sempre.

Seu corpo bambeou, e a foice desapareceu de suas mãos trêmulas.

Com os olhos arregalados, sentiu a paralisia dominar seu corpo — sua alma aterrorizada pela lembrança do sofrimento que tentava desesperadamente evitar, e agora novamente voltava a reviver os horrores que viveu há duas décadas.

Ragnarok não entendeu o que aconteceu, porém percebeu a dimensão ficando fraca e aproveitou o tempo recebido. SHKRASH! Cortou todas as cordas que o aprisionavam e avançou imediatamente, FRUSH! determinado a não perder a oportunidade. No entanto, mesmo aterrorizada pelo leve olhar de Morte, Lycoris não cedeu.

Seus olhos arregalados revivendo o passado se moveram e o olharam... O corpo de Nino travou no ar como se tivesse colidido em uma parede invisível, FUUU! antes de ser arremessado para trás só com a presença do olhar da Bruxa.

BRAUM!

Colidiu contra o mar e novamente cordas o prenderam por completo, forçando-o a mais uma vez se apresentar de joelhos perante a Bruxa dos Vampiros... Rag negava e não desistia. Continuava tentando se soltar das cordas, mas no fim... se via impotente.

— S-se eu o matar... ela vai voltar?! — sussurrou para si, perdida em pensamentos.

A lembrança dos gritos de seus amigos, seus subordinados, seus filhos... sendo torturados pela Morte a invadiu outra vez, uma recordação que lhe causou um profundo sofrimento. O terror daquilo enfraqueceu sua dimensão outra vez, fazendo-a desistir de matá-lo.

SHKRASH!

Rag conseguiu forças devido à fraqueza dela e cortou novamente as cordas... Tap!

Selamento de sangue!

...Nem conseguiu se erguer — Lycoris surgiu em sua frente, com o rosto quase ao lado do seu, no tempo que a palma da macia mão direita dela tocava sua testa pálida.

A sensação foi imediata.

O toque suave o fez desabar, caindo em um sono profundo e instantâneo.

Nino fechou os olhos lentamente, o cansaço tomando conta de seu ser.

Caiu para a frente, seu corpo compartilhado entrando em contato com o mar de sangue, levantando-o brevemente no tempo que a dimensão de Lycoris desaparecia... Pahf... e este terminava sua queda dramática no chão do castelo erguendo uma nuvem de poeira devido aos estragos antes causados.

— Cof-C-af!

Lycoris saiu da dimensão tossindo... uma mão na boca, tentava controlar a dor e falta de ar.

Quando se sentiu melhor, olhou para sua mão e viu que havia cuspido sangue.

Tap, tap, tap...

O absorveu assim que escutou os passos de seus subordinados se aproximando.

— Minha rainha... Por que não o matou? — Dreik perguntou, mantendo uma expressão de preocupação ao ver Nino caído com uma Marca Mágica na testa.

Lycoris respirou fundo, visivelmente exausta, porém sem deixar transparecer fraqueza. Olhou para o corpo de Nino e o envolveu em seu sangue, criando um casulo carmesim. O casulo se elevou até o teto e Nino foi preso ali, inconsciente... "para sempre".

— Ele é o receptáculo da Deusa da Morte. Não sei se ela pode reencarnar, mas não vou arriscar. Prefiro deixá-lo selado do que matá-lo e trazê-la de volta ao nosso mundo — respondeu e era notório o tom de preocupação quanto a tudo aquilo.

Dreik ficou em silêncio, processando suas palavras, até que uma pergunta escapou de seus lábios:

— ...Eu vi sangue em sua mão antes de minha rainha ingeri-lo. Você está bem?

Lycoris olhou para ele, sua expressão serena.

— Não se preocupe comigo. Ee... você terá que se acostumar com um braço a menos; não há como regenerar sua alma.

— É... Eu sei... — Dreik curvou a cabeça, em respeito.

Lycoris passou por ele e pelos outros, sua presença dominante.

— Bom. Aparentemente, esse era o triunfo dos humanos, um ser meio humano, meio Primordial que não consegue sequer controlar seu próprio Ragnarok... Que piada — sorriu levemente, em um tom de deboche.

Saiu pela entrada do castelo... os três a seguindo.

Levantou a mão direita e a fechou, enquanto fechava os olhos e ordenava:

— Venham até mim, meus filhos!

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