Volume 2 – Arco 11
Capítulo 211: Três Aberrações
Uma noite antes de Jonas encontrar o País dos Anões:
"Aurora?"
"Isso! Isso!"
"O que foi?"
Anna franziu o cenho ao ver Nino tão quieto.
"Não está falando com a vagaba, né?" Começou a encará-lo de lado, Nhami-Nhami-Nhami! enquanto devorava pãezinhos doces com suco.
"Papai conversou com o rei de Van-Sirieri e me disse que um exército de monstros tá... tá se preparando pra atacar eles!"
"Como assim?"
"Ele pediu para eu te pedir para você ir para o Reino dos Monstros e ver se é verdade esse ru... ru... rumor! É assim que fala, né?"
Nino bufou, entediado.
"A-a moça de preto e a tia Natay foram para Dirpu, e o papai pediu para eu te pedir que você vá para o Reino dos Mon... Já falei isso?!"
"Só o dos monstros, o de Nina é novo."
"Isso! Ele pediu para você ir no nor... nordeste do continente! E, se conhecer alguém forte, ele pediu para você mandar para Van-Sirieri ajudar por lá!"
"Entendi... Vou ver isso aí", respondeu, seu olhar bem entediado de escutar aquela criança falando.
"Tá! Vou falar com o papai!"
Tap!
Anna encostou no ombro do namorado — Nino virou-se e presenciou tal sorriso forçado, um dos olhos da garota dando tiques nervosos.
— Posso saber por que o senhorzinho está em silêncio?! — murmurou quase rosnando.
"Que medo..." — Aurora me chamou.
— A princesa? — perguntou, cruzando os braços.
— Sim. Disse que minha irmã foi até um lugar chamado Dirpu e que tem um rumor de um exército de monstros indo atacar um lugar chamado Van-Sirieri. O rei de Alberg me pediu para verificar no tal Reino dos Monstros se isso é verdade. Também pediu para eu mandar alguém forte até Van-Sirieri, caso precisem de ajuda em uma possível batalha.
— Entendi. Eu posso ir. — Seus tiques pararam, e sua voz saiu mais serena.
— Mas... E a vila?
— Clarah agora é uma Primordial; ela cuidará bem da vila.
Os dois olharam para Clarah... esta respondeu com um sorriso largo e dois joinhas subindo lentamente até o rosto. Nino piscou duas vezes, incrédulo com a decisão, no entanto virou-se de volta para Anna, assim como ela para ele.
— ...Beleza, então.
Terminaram o café naquele início de noite e saíram de casa para resolver as coisas.
Os últimos raios solares tingiam o céu em tons quentes, um espetáculo gracioso onde o rosa e vermelho davam lugar ao azul e roxo, numa transição delicada de tão suave. Nino saiu e observou o estrago que ele mesmo havia causado.
— Harrffff...
Suspirou, visivelmente desanimado, todavia, ao erguer a mão, um sorrisinho travesso surgiu em seu rosto — lembrou-se do poder que havia tomado da Garota Palhaço.
Movendo o indicador, fez todos os troncos ao redor emanarem uma luz lilás brilhante.
Conforme movia o dedo, todos os troncos respondiam à ordem imediata.
Por um momento, brincou com eles feito um maestro, movendo os braços com a graça de uma orquestra.
Foi quando olhou para trás e encontrou o olhar de Anna... que o observava em silêncio feito a morte. O Tesouro de Bruxa brilhando, as estrelas, mundos e universo se movendo lentamente... Imediatamente, parou a brincadeira, ajeitando os troncos cortados pela Purgatório de volta aos tocos com magia da natureza, vedando o caminho da vasta área destruída que levava diretamente à vila.
Pouco depois, aproximou-se da casa.
Clarah abriu a porta e saiu, despedindo-se com um sorriso sereno:
— Tchau para vocês, então... Não vão demorar, né?
— Não pretendo — respondeu Nino.
— Até logo, Clarah.
Anna se agachou e começou a desenhar um círculo mágico no chão usando o indicador direito, lembrando-se de algo que sua mãe havia lhe ensinado no passado.
Nino a observou, franzindo o cenho:
— O que é isso?
Anna levantou-se, Paf-paf! limpando as mãos e lançando um olhar casual para ele:
— Não vou andar até lá. Isso é para eu me teletransportar.
Os olhos do namorado se arregalaram, surpresos e animados:
— ME ENSINA!
Anna o encarou com uma expressão séria, um olho semicerrado e os lábios entreabertos, deixando claro o desinteresse:
— Pede pra sua amiguinha Morte te ensinar. — Com um sorrisinho de deboche, mostrou a língua para ele e completou num tom atrevido: — Tchauzinho... — desapareceu, deixando apenas o brilho do círculo mágico se desfazendo em fumaça azul-clara.
Nesse momento, a risada que Nino mais odiava ecoou em sua mente.
"AAAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!"
O garoto fechou parcialmente os olhos, assumindo um semblante irritado e sério.
— Sério isso? — murmurou para si mesmo.
Anna se teletransportou... mas não para Van-Sirieri, e sim para uma montanha um pouco ao norte da Floresta do Desespero.
O lugar mais ao norte que já pisara naquele lugar colossal.
— Quem eu quero enganar? Nunca fui a Van-Sirieri para conseguir me teletransportar para lá... Apesar de que... — Olhou para a lua, porém virou o rosto, descartando usar seu terceiro olho para teletransporte.
Sentindo alguns seres próximos, decidiu aproveitar a viagem e fazer mais uma limpeza.
CR-R-R-R-RUNCHH!!
Com um único passo adiante, o ar ao seu redor cortou como lâminas invisíveis, e os homens-sombra que se escondiam nas proximidades foram dizimados instantaneamente.
Morreram sem nem tempo para compreender o que os atingiu.
Mantendo um semblante preguiçoso, continuou andando sem pressa.
Seu lindo vestido brilhando e destacando-se em azul na floresta escura... embora ninguém pudesse vê-la, muito menos senti-la.
Seguiu viagem para Van-Sirieri, explodindo em cortes todos os seus "queridos" amigos conforme avançava para o norte.
Sendo mortos um a um, a Bruxa dos Homens-Sombra sussurrou nitidamente em suas mentes:
"Morram, não mostrem a ela o ninho..."
Nino começou sua caminhada para o nordeste, em direção ao Reino dos Monstros.
Cheio de preguiça, avançava tranquilamente, sem se preocupar com o tempo que levaria para chegar lá.
Era quase o mesmo cenário anterior com o encosto em sua cabeça. Tinha uma direção e tinha que só segui-la até o fim do mundo.
Corria e andava ao seu próprio ritmo, sempre com a preguiça estampada no rosto e as mãos nos bolsos.
Foi um pouco mais rápido do que quando seguiu o caminho de Morte... nem por querer, e sim por estar mais forte.
Não reparava, todavia era o que Morte jogou em sua cara.
Qualquer coisa que matasse, acumulava poder e força. Matou um Primordial e uma garota estranha com um poder exótico... era óbvio que coisas simples como correr, ficaria mais rápido.
Depois de dois dias e meio atravessando cenários diferentes, entretanto, sempre parecendo ser uma tela pintada por um Primordial, chegou a um lugar peculiar — havia passado por florestas densas e locais estranhos, porém nada se comparava ao ambiente sombrio que se estendia à sua frente.
A Floresta do Desespero tinha um imponente nome, mas diante de só olhar para dentro daquela floresta à sua frente... sua humilde e enorme moradia parecia uma casinha de fadas alegres.
A vegetação e o ambiente eram completamente feitos para causar medo. Se uma floresta à noite já era algo inquietante, aquela floresta, que era escura mesmo durante o dia, tinha uma vibe ainda mais desagradável.
Rodeada por montanhas colossais e um silêncio absoluto, encontrava-se o Reino dos Monstros — nome dado pelos humanos.
O sol alcançava o lugar... muito, muito pouco; apenas um ponto era minimamente iluminado, e Nino ainda não havia chegado até lá.
Passava por árvores tortas, de cores desbotadas... estavam mortas... corrompidas.
O Herdeiro caminhava calmamente, absorvendo a paisagem enquanto os poucos raios de luz cortavam o ar em feixes estreitos.
Sentia as presenças dos monstros ao seu redor, porém, diferentemente de Nina, que aprendeu a ver tudo em meio à Detecção Atômica, Nino só percebia simples pontos de presença ao usar a sua.
Não conseguia ver como eram as coisas ao seu redor, pois nunca nem tentou dizer "Atômica" após usar sua Detecção... Ninguém sussurrou em seus ouvidos esse ensinamento preciso.
Não fazia nada além de andar e esperar que os monstros o atacassem. Queria brincar um pouco, todavia não queria iniciar o jogo.
No entanto, nenhum monstro se atrevia a atacá-lo; somente o espreitavam em meio ao escuro ou se escondiam completamente conforme seguia.
Entediado, viu que no chão à sua frente havia um ponto de presença... e seguiu adiante.
Ao passar por cima, o monstro não reagiu por medo — era uma aranha gigante, com uma pelagem espessa e um corpo distorcido, resultado das inúmeras criaturas que havia consumido.
A cauda de escorpião necrosada e as patas de lacraia-vulcânica misturadas a suas pernas a tornavam uma aberração, uma verdadeira monstruosidade do pé a cabeça.
Sorte de Nino que a aranha não sabia da sua própria força apenas por existir; o medo a fez subestimar o próprio tamanho e poder, levando-a a desistir sem sequer tentar.
"De novo isso?" Ficou irritado por não ser atacado, ignorou e continuou seguindo atrás de seu objetivo.
Pouco tempo depois encontrou uma vila escura, completamente destruída e abandonada... bem, ao menos parecia abandonada.
Em meio às ruínas, havia centenas de presenças — vampiros que temiam sair de suas casas, cientes de que se fizessem isso, se tornariam alimento para um monstro em busca de poder.
— Se querem me atacar, venham logo. Não gosto de perder meu tempo — rosnou todo prepotente.
Os vampiros o observavam pelas frestas das paredes semidestruídas de suas casas.
Uma criança espiava pela janela, Tuf porém sua mãe rapidamente a puxou, bloqueando a visão e abraçando-a no chão para não chamar a atenção.
Seus rostos estavam marcados pelo pavor... pela fome, vivendo num lugar onde a esperança era algo distante, mesmo com a saída da floresta não sendo tão longe da vila.
Assim como Nino havia passado por centenas de monstros, aqueles vampiros também precisariam fazer o mesmo... Nino passou por ser Nino. Os vampiros não passariam nem correndo o máximo que podiam.
Nino percebeu quando a criança olhou para ele e foi puxada pela vampira. Simplesmente ignorou, virando o rosto para frente.
"Não me importo com vocês..."
Raça inimiga... Aqueles seres mereciam a morte por uma guerra que nem foram eles que iniciaram? O povo de um reino em guerra merecia pagar pela decisão do rei que nenhum deles elegeu?
Continuou seu caminho em direção ao local mais iluminado.
Foram boas horas caminhando pela floresta, até finalmente chegar ao topo de uma colina íngreme e imensa.
Ao olhar para baixo, seus olhos se fixaram em um castelo colossal, gótico e quase invisível, camuflado na escuridão que o cercava.
Montanhas cercavam o lugar, mas um ponto no céu, um buraco que não as fechava deixava a luz passar. Um ponto sujo de cinza, todavia aquilo iluminava um castelo imenso e imponente.
Tal construção se erguia à frente dos olhos do Herdeiro, e seu jardim em ruínas se fundindo com a vegetação densa quase o deixava excitado.
Na parte de trás do castelo, uma cascata caía sem som, desaguando em um lago de sangue espesso e carmesim.
O líquido, em constante movimento, pulsava feito um coração, como se algo estivesse vivo ali, alimentando a terra com a morte de milhares de seres.
— Nossa... Que lugar lindo — murmurou ele, deslumbrado com a vista.
— Vista bonita, né?
— Muito bonita... "Hãm?!"
Nino virou o rosto à direita e nem conseguiu escutar o som do golpe cortando o ar. Um bastão se encontrava prestes a arrebentar a sua cara... não deu outra, tentou erguer o braço... não foi o suficiente tal movimento assustado.
BAAM!
O impacto foi tão forte que o arremessou colina abaixo — indo direto em direção ao castelo mal-assombrado. PM... No ar, assim que sua cabeça se regenerou da explosão, outro ser apareceu segurando seu pé. Vulvul! Girou-o no ar e o arremessou de volta na direção do vampiro usando o bastão.
BAAM!
O segundo impacto fez o Primordial descer ainda mais rápido tal colina quilométrica.
Girou no ar — o segundo impacto não pareceu o afetar.
Uma rápida adaptação física... automática. (Que falta fazia seu pai lhe dar algumas aulas...)
Sccrrrchh... Aterrissou suavemente, arrastando terra morta ao redor de seus tênis. Seu rosto indiferente, tentando visualizar melhor os seres com quem iria se divertir profundamente... Bem, não eram só dois.
O Herdeiro sentiu uma terceira presença à sua esquerda, e quando virou o rosto soberbo para olhá-la... viu tal aberração grotesca sorrir animado. Sua cabeça começou a girar feito um parafuso, feito um número de cadeado ou jogo de caça-níquel.
Trocava entre seus rostos deformados e visivelmente dolorosos, torturados... até que se estabilizou em uma face de olhos esbugalhados e a boca forçadamente fechada. Nino o olhava em silêncio, mãos nos bolsos, preguiçoso.
...O silêncio reinou.
Nino olhou para os lados, procurando os outros dois e não os via e nem sentia-os próximos usando a Detecção.
Voltou o olhar ao estranho cabeçudo e este continuava parado, estático em completo silêncio mantendo seus olhos esbugalhados.
O mineirinho se aborreceu.
Fu
Surgiu descendo um corte de espada de sangue no terceiro ser, indo eliminá-lo de uma só vez... foi então que o viu se mexer... e este conseguiu atacá-lo antes de sua espada o cortá-lo ao meio.
— WAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!
Nino travou diante da criatura... O som era tão forte e agudo que criou um escudo, além do tom adentrar seu sangue e fazê-lo oscilar violentamente.
Dor... Sua roupa e corpo estremeceram em meio à dor pontiaguda corroendo-o em cada gota de seu sangue preto.
— AAAAAAAAAAAAARGHHH!
A lâmina criada se desfez caindo no chão vibrando desorientada sem conseguir achar o caminho de sua casa... sem conseguir nem mesmo ser absorvida de volta ao corpo do Primordial.
Nino lançou as mãos nos ouvidos... não adiantava.
O som reverberava em sua cabeça e o rasgava de dentro para fora.
Plusrhsh...
Seus tímpanos explodiram... Fu... Com sangue escorrendo de suas orelhas, passando por sua pele pálida sem conseguir ser absorvido, Nino surgiu mais afastado, com sua cabeça tombada para o lado, seu rosto estático e seus olhos arregalados na direção do ser barulhento.
Seu corpo não reagia mais ao grito "infinito"... Seu sangue parou de oscilar e o ser cheio de rostos parou de gritar quando seus outros dois colegas se juntaram ao seu lado.
Do outro lado, Nino continuava olhando no tempo que a Marca sangrava como nunca... e o olho de Rag surgia rasgando-a, dilatando-se antes de sua íris preta se estreitar feito o buraco de uma agulha.
Levantou o braço direito com calma, fechou a mão e segurou o cabo da Purgatório, Tchin... puxando a lâmina lentamente para fora da bainha.
Olhando-os, abriu um sorriso quase rasgando os limites de seu rosto... aquilo não era nada humano e, ao mesmo tempo, nada demônio.
— Aaaaah... Por que você não quer escutar minha voz? Eu sou tão legal... — lamentou o gritinho fino, mantendo um rosto com um sorriso costurado, todavia logo mudou para um rosto exibindo uma expressão desinteressada.
O ser com o bastão, o mais humanoide entre os três, possuía a aparência de um vampiro comum, porém isso era meramente uma fachada.
Sua pele pálida e seus olhos vazios eram um contraste grotesco entre a elegância que sua figura tentava transmitir.
Seu cabelo era um rosa-claro, e vestia um terno preto impecável, exibindo uma abertura no peito, revelando as cores intensas e carmesins da roupa de sua rainha.
O tecido, apesar de bem cortado, estava deslocado, uma tentativa forçada de manter uma aparência de nobreza em meio àquela monstruosidade.
Ele respondeu ironicamente:
— Ibarada, de legal em você é só quando não preciso olhar para os seus rostos medonhos.
— Assim você me magoa, Dreik — respondeu Ibarada.
Ibarada era imenso, uma monstruosidade formada por uma cabeça composta por várias faces fundidas em uma só, com olhos e bocas que se entrelaçavam em um caos grotesco.
Seus braços e pernas eram finos, quase esqueléticos, desproporcionais à massa do corpo que se expandia no peito, um reservatório bizarro de fôlego preparado para gritar sem parar.
Dreik, visivelmente incomodado, encarou Ibarada, sua expressão fechada:
— É DREIKONIC PARA VOCÊ!
— Mas esse nome é tão feio... — resmungou em provocação, usando um rosto e tom quase infantil.
A situação ficou ainda mais estranha com a chegada do terceiro ser.
Ele era uma figura ainda mais distorcida. Suas pernas longas, descomunais, davam a impressão de que poderiam quebrar a qualquer momento, enquanto os braços maiores, quase arrastando pelo chão, pareciam não pertencer ao corpo.
Era corcunda, com uma cabeça quadrada e um rosto torto, como se tivesse sido moldado apressadamente.
Sua boca, minúscula e pontuda, era desproporcional ao tamanho do rosto, enquanto um único olho enorme, esbugalhado, ocupava o centro de sua testa.
Um segundo olho, ainda menor e deslocado, ficava perto da boca, criando uma assimetria ainda mais perturbadora.
Envergonhado de sua aparência, escondia o rosto. Usava um saco preso à sua pele com pregos grandes e profundos, garantindo que não caísse.
No saco, estavam desenhados dois grandes olhos e uma boca curva, tentando criar uma ilusão de normalidade — o rosto que tanto desejava ter um dia.
— Pluuuup!
— Lá vem o esquisitão.
— Pluuup... — murmurou, cabisbaixo.
Dreik olhou fixamente para Nino, que sorria de forma cruel ainda encarando-os da mesma forma.
— Tá olhando o quê? — Começou a caminhar em direção ao Primordial, Vulvulvul... girando o bastão entre os dedos em uma ameaça clara. — Vou te ensinar bons modos.
Fu
Dreikonic avançou em direção a Nino com uma rapidez inesperada... O bastão foi levantado... o golpe foi devastador.
BAAAM! Atingiu Nino com toda a promessa aplicada... Todavia, em vez do menino ser lançado para o lado ou quebrado ao meio, como seria de se esperar, ele permaneceu imóvel, sem nem tremer a pele.
Seu braço esquerdo, erguido com calma, bloqueou o ataque sem Dreik nem reparar.
O som do impacto reverberou pela área, porém Nino continuava mantendo o olhar fixo em Dreik, um sorriso perturbador em seu rosto não saía e nem oscilava.
Desejava. Desejava a morte, o caos. Não havia dor visível, nem sequer um tremor. Não foi... tocado.
Dreik, surpreso com a resistência, não perdeu tempo e imediatamente após o golpe, girou seu corpo em um movimento fluido.
O bastão desceu de novo, agora vindo de outro ângulo, e Nino permaneceu imóvel, esperando o impacto.
Quando o golpe desceu com força, Nino aceitou o ataque sem reação.
Fulphf!
O bastão atravessou seu corpo, mas, ao invés de cortar a carne ou dilacerá-lo, Nino se transformou em uma névoa densa e escura.
A ponta do bastão passou por ele, atravessando a fumaça como se fosse o ar... e era.
Não havia sangue, não havia carne, apenas uma densa névoa onde deveria estar o corpo do Primordial.
Dreik, ainda em movimento, parou de repente, os olhos arregalados, olhando ao redor, procurando a sua presa.
Mas então, no último momento, o sorriso de Nino reapareceu atrás dele feito um pesadelo.
O Herdeiro materializou-se de volta, Trisccs... o som da Purgatório novamente, agora sendo retirada lentamente da bainha foi como um sussurro afiado, uma promessa de destruição planetária.
Dreik se virou, tentando bloquear com o bastão... era tarde demais.
Shk!
O som do corte foi quase inaudível... o ar nem foi perturbado.
A Purgatório cortou o bastão de Dreik e seu braço com uma precisão mais que cirúrgica.
O sangue carmesim jorrou em um jato, e Dreik gritou de dor — o som de sua agonia ecoando e gerando prazer para o Primordial ficando cada vez mais excitado.
Nino, sem hesitar, virou a lâmina, preparando-se para desferir mais um golpe naquela presa patética diante de si.
Avançou com a Purgatório em direção ao pescoço de Dreik — queria picotar toda a sua alma antes do gran finale — contudo, nesse momento, o vampiro estava completamente paralisado.
A dor que atravessava sua alma era avassaladora, uma dor que não podia ser expressa em palavras.
Mesmo que não fosse um braço e fosse só um dedo... um corte na alma não era minimamente parecido com um corte em carne.
Só podia assistir, impotente, enquanto a lâmina se aproximava com uma calma assustadora.
No mesmo instante, Pluup, que observava à distância, percebeu que Dreik havia falhado e avançou em alta velocidade.
Suas pernas longas se moviam rapidamente, enquanto os braços balançavam soltos para trás. Seu corpo, dobrado quase ao meio, avançava de forma esquisita feito um bonecão de posto.
Pluup juntou suas mãos, criando sua "montante" — uma espada gigantesca de três metros de comprimento e um metro de largura. Sem hesitar, PLOCH! desferiu um forte golpe, mirando as costas de Nino.
A lâmina cravou-se profundamente no garoto, fazendo-o ser empurrado violentamente contra o chão.
BAAM! O impacto levantou uma nuvem de poeira ao redor. No entanto, para a surpresa de Pluup, uma risada suave escapou dos lábios do Primordial, ecoando de maneira quase macabra.
O que parecia ser um golpe certeiro logo se revelou inútil. O ponto onde Nino havia sido atingido começava a se dissipar em fumaça.
Confiante de que havia incapacitado-o, Pluup se curvou levemente para olhar mais de perto, espiando por entre os buracos do saco que cobria seu rosto.
Nisso, Nino reapareceu, de pé, na ponta da espada.
Em um movimento rápido, Fu avançou pela lâmina, Shk! desferindo um golpe na altura do coração da aberração...
Errou.
Pluup, reagindo instintivamente, manipulou seu corpo grotesco, encolhendo o peitoral e a cabeça de uma maneira impossível, fazendo com que o corte passasse a poucos centímetros de sua pele.
A agilidade de Nino, no entanto, não diminuiu.
O mineirinho não perdeu tempo. Após o golpe falhado, saltou, girando no ar em um mortal ágil, e desceu com um novo ataque.
A lâmina brilhava em preto, mirando diretamente Pluup, que arregalou seus olhos bizarros sob o saco.
O terror era evidente em seu olhar: ele via a própria morte se aproximando e não conseguiria escapar.
Mas... quem disse que estava sozinho?
Ibarada, observando a situação desde que notou Dreik incapacitado sem reação ao perder o braço, respirava fundo, o mais fundo que conseguia.
Seu peito se expandia desproporcionalmente, parecia um balão de carne pálida e estranha pronto para estourar, e então... finalmente liberou seu ataque:
— KYAAAA!!
BUUMMM!!
O som do grito sônico foi um estrondo ensurdecedor, e Nino foi atingido em cheio.
Não usou-o continuamente, usou todo o poder acumulado de uma vez em um só ataque, atingindo o corpo do Primordial como uma porrada, CRAASSH! lançando-o na direção do colossal castelo preto.
Nino atravessou várias e várias paredes do castelo com a própria cara... até que aterrissou de pé, caindo pesadamente sobre o tapete do salão do trono.
Tremores em sua cabeça, tiques estranhos, virou seu rosto para o lado feito um animal ao sentir uma outra presença.
Despreocupada no trono, estava Lycoris, mas ao ver a espada que Nino empunhava, sentiu um calafrio percorrendo sua espinha.
Seus olhos se arregalaram, e o medo tomou conta dela, fazendo seu corpo vibrar sentindo a presença da Deusa da Morte.
Fu
Shk!
No instante que Nino virou o rosto e a viu... desapareceu e surgiu descendo um corte com a Purgatório na garota... que desapareceu, esquivando-se do golpe que atravessou o trono e quase todo o castelo.
O corte foi tão limpo que parecia não ter cortado absolutamente nada.
PHUUMM!
Lycoris reapareceu instantaneamente nas costas dele, acertando um chute lateral no meio da coluna, destruindo-a e dobrando-o em sua perna antes de o arremessar na direção de onde o corte havia sido feito... O olhar dele para ela nesse meio tempo era... era íntimo, era divertido... era uma ameaça de morte.
CR-R-RAASSHHH...!
Tudo que havia sido cortado, após o impacto do corpo de Nino na primeira parede, desabou sobre ele. Restando agora metade do castelo de pé... (Pecado... era tão lindo.)
Lycoris olhou, ainda assustada, para a direita, e viu seus subordinados se aproximando pelo salão. Ao perceber Dreik sem um braço, um pânico profundo a tomou.
— D-Dreik... E-e... Ele te cortou com aquela espada? — Sua voz falhava, e o pavor era evidente em seus olhos.
O medo era tão palpável que parecia preencher todo o espaço ao redor dela.
"Que medo é esse que você está sentindo?" — Sim, minha rainha... Me cortou — Dreik respondeu... sua voz cheia de dor.
De repente, uma voz doce, madura, sedutora e vaidosa ecoou na mente de Lycoris:
"Vai deixá-los morrer de novo?"
Lycoris sentiu um formigamento em sua cabeça, sua mente começava a ser tomada por essa voz misteriosa.
O pavor continuou a crescer dentro dela, a esmagar sua consciência. A trazê-la de volta ao inferno.
"Você não é real." Lycoris se sentiu tonta... tudo rodava.
"Vai deixar todos morrerem?"
"SAI DA MINHA CABEÇA!" Começou a agir de forma estranha, colocando as mãos na cabeça enquanto cambaleava para os lados, tentando se livrar dessa presença que a atormentava. Que a assombrava.
Seus subordinados, percebendo seu estado de pânico, se aproximaram dela com cautela.
— Rainha! Você está b...
— SAIAM DAQUI! AGOOORA!! — Lycoris levantou o rosto, seus olhos fixos nos deles.
Nesse instante, Tchin... Nino apareceu no meio dos três subordinados rindo de forma sádica. Vul Logo girou a Purgatório, mirando os pescoços de Dreik e dos outros dois.
Lycoris não hesitou. Em um movimento rápido, Thumpf! bloqueou o golpe, posicionando-se à frente de Nino e segurando o braço da espada.
Usando o impacto, Nino aproveitou para soltar a espada... que voou.
BRUNCH!
Explodiu seu próprio braço, e assim conseguiu se livrar do aperto de Lycoris.
Regenerou-o rapidamente, girou o corpo e, no movimento, Bm agarrou a espada outra vez, Sh tentando finalizar o golpe em Dreik quase estático, se movendo o mais rápido que conseguia e esse rápido era nem o mínimo que Nino agora alcançava.
"VAI DEIXAR ELES MORREREM DE NOVO?!"
"CALAA A BOOCA!!", Lycoris gritou mentalmente, enquanto sua atenção se dividia entre salvá-los e a tortura psicológica... Conseguiu um dos dois. Sua intervenção permitiu Dreik sonhar com a vida.
O vampiro conseguiu se esquivar do golpe, rolando para trás a tempo de evitar o ataque fatal.
Nesse momento, Nino desapareceu de perto de Lycoris e reapareceu atrás de Pluup, com a lâmina apontada diretamente para seu coração.
"DEIXOU ELES MORREREM NA SUA FRENTE!..."
"CALAA AA POORRA DA BOOCA!!"
"...SEM FAZER NADA! ELES MORRERAM NA SUA FRENTE E O QUE VOCÊ FEEEZ?!! O QUE VOCÊÊ FEEEEEZZ?!!"
Tudo começou a voltar à mente de Lycoris:
Deitada no chão, sentia a Purgatório cravada em sua barriga, deixando-a completamente imobilizada devido à dor em sua alma.
Não conseguia se mover ou dizer absolutamente nada. Só era permitida olhar para um lado... só conseguia manter o rosto voltado para o lado, onde assistia a Deusa da Morte torturando seus filhos, cortando-os e fazendo-os agonizar de dor, implorando para serem mortos logo... o que não receberam mesmo depois de tanto clamor.
Morte os matou lentamente, mostrando a Lycoris cada detalhe... cada mínimo detalhe.
Nino impulsionou seu corpo para frente, Shirr... a lâmina cortando a roupa de Pluup e avançando em direção ao coração.
Ninguém tinha velocidade suficiente para impedir, exceto a própria Rainha dos Vampiros, que lutava contra sua própria mente.
"VAI DEIXAR SEUS AMIGOS SEREM TORTURADOS DE NOVO?!!"
"NÃÃÃÃO!!"
BRUNCH!!
Lycoris apareceu ao lado de Nino — só com sua presença desintegrou os braços do demônio em uma violência mais que silenciosa.
Quando os braços de Nino explodiram, o menino rapidamente os regenerou, mas, dessa vez, segurou a Purgatório com mais força, fixando seus olhos nos de Lycoris enquanto seu sorriso esquisito permanecia no rosto.
Lycoris usou seu sangue carmesim e envolveu seus três subordinados.
CR-R-RAAASSH!!
Arremessou-os contra as paredes do castelo, muito longe, em uma tentativa desesperada de afastá-los de lá enquanto ainda tinha tempo.
"ELIMINE-O...! Sétima Bruxa."
Nino firmou as mãos na espada e a girou, Sh! cortando o ar em direção ao tórax de Lycoris.
A Bruxa o encarou fixamente enquanto estendia a mão esquerda para frente, fazendo seu Livro Sagrado vermelho brilhar e se materializar.
Mantendo o olhar fixo, Nino avançava, saltando levemente, enquanto Lycoris recuava em uma esquiva, mantendo o braço esticado em direção ao livro.
O corte, emanando uma aura preta misturada com roxa, colidiu contra o carmesim radiante que fluía do livro de páginas douradas.
Lycoris gritou firmemente, sem desviar o olhar de Nino, que a encarava com a mesma intensidade:
— SEJA BEM-VINDO À MINHA DIMENSÃO!
O castelo desapareceu, sumindo instantaneamente, assim como Lycoris se desvaneceu diante de Nino.
Não havia mais nada, apenas um infinito branco.
De repente, FLUUUULULUASSHHH!! o chão se transformou em sangue, fluindo como ondas por toda parte, iluminado por uma lua carmesim no céu.
O sangue se estendia por todo o horizonte, sem fim à vista, enquanto Nino olhava para o vazio, sem conseguir entender os limites daquele lugar.
Lycoris surgiu, pairando no céu, com a lua atrás de si, seus olhos fixos em Nino.
— O que você está fazendo controlando este hospedeiro?... Hein...! RAGNAROK!
Ragnarok olhou para ela mantendo um sorriso sinistro, seus olhos brilhando cheios de malícia. Com um leve movimento, fez o sangue de Nino se transformar em uma nova espada.
Mais escura que o próprio sangue, a lâmina surgiu, com a palavra "Demonic" gravada em sua superfície, irradiando uma aura ameaçadora de tom cinza — uma espada criada por Blacko, o exato oposto da Hero.
"Isso tem dedo seu... Blacko?", Morte pensou enquanto observava tudo aquilo, tendo a companhia do corpo de Nino desmaiado ao seu lado, estirado no chão do quarto branco.
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