Volume 2 – Arco 11
Capítulo 210: País dos Elfos
Se passaram dois tranquilos dias de viagem desde que deixaram o País dos Anões para trás.
Mesmo com o avanço de dias entregue de presente pela Bruxa, o País dos Híbridos se encontrava bem distante — viajar a cavalo não era um dos melhores meios de transporte... bem, era o que os humanos tinham... Ao menos não estavam queimando seus pés, desgastando seus calçados ou cansando suas pernas.
Passaram toda uma madrugada adentrando um deserto que mais parecia infinito.
O calor absurdo fazia com que nenhum ser, nenhuma vida fosse capaz de viver naquele lugar. Nenhuma planta morta, carcaça... nada.
Era igual a entrar em uma Dimensão Invisível, porém, sem entrar.
Assim que viajantes atravessavam a fronteira, era como entrar em um forno abafado.
Sem litros e litros de água, morriam em minutos.
Logo, ao receber uma demonstração do inferno, voltavam e contornavam tal ambiente extremo.
Todavia, isso fazia com que a viagem se tornasse maior e mais demorada.
Os contrabandistas que sequestraram Aurora optaram por arriscar suas vidas atravessando a Floresta do Desespero a ter que contorná-la e levar mais meses para chegar no continente Oeste.
Lógico, morreram antes de tentarem a sorte, mas ali, neste deserto, não eram aventureiros ou viajantes, eram pessoas sendo guiadas por dois humanos experientes... e sendo protegidos pelo Rei dos céus.
As lamparinas iluminando o suor dos corpos de cada um sobre os cavalos sendo protegidos pela magia anã em seus cascos tocando a areia...
Um breu quase macabro.
Litros de água sendo ingeridos, jarras vazias — os cavalos carregando menos peso a cada minuto.
Areias normais... cor, normal... Cadê o sol? Por que tanto calor ainda em meio ao escuro? Não fazia sentido aquilo queimar mais que fogo.
Algumas nuvens douradas no céu pareciam escondê-lo, todavia nem era hora para que este nascesse em mais um dia.
Jonas puxava a gola de sua camisa, sacudindo-a sempre em busca de se refrescar — racionava a água, pois sabia que iria precisar.
A quantidade não seria suficiente para atravessar o deserto, e nem precisava. Só precisava ser suficiente para chegar até um certo lugar.
Liza sentia todo o peso da mesma forma, ao menos tinha a vantagem de usar short e mesmo sua blusa sendo de manga longa, ainda era fina e leve.
Constantemente usava magia de água em si, no noivo e nos soldados escolhidos por Jonas, dando-lhes sustento na viagem.
Tariki no entanto não sentia nada. Se mostrava tranquilo e nem suava. Olhava para o ambiente e era como estar em casa... Por outro lado, Silvia e Frederica se refugiaram dentro de suas carruagens com mantimentos.
Liza criou um mantra internamente em cada, uma camada de gelo para melhor conforto, todavia isso não supria tudo.
A sensação térmica era diminuída, porém o corpo ainda sentia necessidade de repor líquidos — isso não tinha como controlar.
Tariki assumiu as rédeas do cavalo de Frederica. Jonas o de Silvia, deixando-as se esconderem do que prometia surgir no céu e cozinhá-las logo menos.
Dentro da carruagem principal sobre o controle de Jonas, as crianças híbridas dormiam por falta de energia.
Uma espécie de hibernação emergente.
Akli se mantinha acordada, embora meio zonza, e além dela... a elfa diferente de todos, chorava.
Sentia um peso, sentia a dor de ser observada dentro de sua alma.
Suas lágrimas silenciosas e escondidas se transformaram em um choro baixo.
Akli tentava relaxar com a espécie de ar-condicionado no meio do inferno fornecido por Liza, quando reparou e logo se desesperou.
Ergueu-se, Thuf e abraçou a pequena elfa, no tempo que outro braço limpava as lágrimas da menina:
— O-o que foi? — perguntou em tom suave.
Liza olhou de canto para dentro da carruagem.
— Estou com medo... — respondeu a elfa, visivelmente tremendo.
— Medo de quê? — indagou Akli, um tom de preocupação bem evidente.
— Não precisa se preocupar. Estamos chegando na Floresta dos Elfos — ponderou Liza, tentando tranquilizá-la.
— M-mas é disso que tenho medo... De Freyen não me deixar voltar e me exilar.
Liza franziu o cenho, surpresa.
— Como assim?
— Ela não deixa ninguém sair da floresta, e eu a desobedeci. Fui sequestrada e levada para o seu país. Fui obrigada a fazer coisas com humanos... Freyen proíbe que elfos se relacionem com outras raças, apenas elfos com elfos... Mas... Mas eu estou cheirando a humano. Esse odor está me enojando de tão forte, e da mesma forma que sinto, os outros também irão sentir... E-eles não vão me aceitar de volta. — Sua voz desmoronou em um choro ainda mais intenso.
— Vamos tentar conversar com ela... Freyen é a Bruxa dos Elfos?
"Ela não vai ouvir outra raça...", pensou a elfa... e não respondeu.
Segundos de silêncio até Liza se virar para frente, passando a manga da blusa na testa brilhando de suor.
Ignorou a ausência de respostas e avistou à frente... nada além de areia. Todavia sentia esse nada em alguns passos.
— Vamos entrar na Floresta dos Elfos em alguns instantes, pessoal — avisou Liza.
Frederica e Silvia saíram de suas carroças e assentiram.
Caminharam até seus cavalos enquanto Jonas e Tariki soltavam as rédeas para que elas assumissem o comando.
As crianças despertaram do sono lúcido — escutaram tudo, e ao se levantarem, se juntaram ao abraço na elfa.
Não adiantou muito, só ficaram mais quentes no abafado ar noturno.
O aperto no coração da elfa persistia, firme como uma âncora de amalíta.
Pouco tempo depois, o calor opressivo do deserto deu lugar a um ar puro e fresco, que relaxava seus corpos enquanto avançavam para o País dos Elfos.
Um contraste abrupto, uma mudança tão repentina que Silvia, os soldados e a família rica quase desmaiaram em um choque térmico.
No entanto... relaxaram instantaneamente.
A Dimensão Invisível era diferente da criada pela Bruxa dos Anões, assemelhando-se mais àquela que Nino havia explorado.
Todavia, possuía uma peculiaridade: permitia entrada e saída por qualquer lado.
Não havia estradas no local, somente uma infinidade de árvores colossais, tão altas que seus topos permaneciam invisíveis, mesmo ao erguer os olhos para o céu.
Dentre aquele cenário encantador, o sol nascia.
Seus raios atravessavam as frestas entre os troncos gigantes, iluminando o ambiente de forma mágica. Era possível notar as divisões claras dos feixes de luz, e isso criava um clima extremamente agradável.
Entretanto não era só a luz solar que adornava o lugar — pequenos brilhos flutuavam e dançavam no ar.
Eram fadas minúsculas, acompanhadas por outras maiores, que chegavam a ter o tamanho de elfos. Suas aparências lembravam as dos elfos, especialmente pelas orelhas pontudas.
Diferentemente das Dríades, essas fadas não possuíam o vínculo direto com as árvores, mas ainda assim carregavam certa semelhança, como suas lindas asas, que na maioria das vezes eram duas vezes maiores que seus próprios corpos, cintilando em diversas cores como um véu de luz em movimento.
Todas voavam na mesma direção. Não era um voo qualquer, tampouco uma brincadeira ou uma corrida; naquele momento, fugiam, aterrorizadas pelo cheiro que emanava de uma das carruagens.
Quando as fadas alcançaram um ponto seguro, muito acima, a tensão aumentou.
Das árvores ao redor, centenas de elfos emergiram, materializando pontes que conectavam algumas das colossais árvores, já que, naquela área, não havia casas nos troncos.
Todos estavam armados, cada um empunhando um arco. Em sincronia perfeita, apontaram suas flechas em direção ao grupo.
Embora parecessem flechas simples, começaram a brilhar em tons de verde, emanando uma magia singular de cor branca — mas que não era de luz.
— E-ei, general... O que está acontecendo? — Tariki perguntou, visivelmente receoso.
— Pessoal... Não façam nada — pediu Jonas.
Dentre os diversos elfos, um jovem de pele escura e cabelos azuis apareceu sobre uma das pontes, e Jonas o reconheceu imediatamente.
— Rimuru?! É você?
— Jonas?!
Rimuru abriu um sorriso largo e saltou animado, caindo em direção à carruagem de Jonas.
Puff!
No ar, deu um pequeno salto com o vento, antes de aterrissar suavemente no veículo.
Quando os elfos viram Rimuru se aproximar, cessaram o ataque, embora continuassem observando, prontos para agir se fosse necessário.
Os arqueiros espreitavam pelas árvores espaçadas, que a própria Bruxa havia deixado propositalmente para permitir que as carruagens passassem.
— E aí, cara! — Tap! Rimuru fez um toque de mão com Jonas. — Tá mais velho, hein!
— E você não mudou muito. Faz o quê, uns 20 anos desde a última vez?
— Que nada. Parece que foi ontem que você esteve aqui. — Rimuru colocou a mão atrás da nuca, escondendo parcialmente uma de suas grandes orelhas. — Foi mal por isso... É que tem um cheiro muito forte vindo dessa direção, e achamos que eram sequestradores.
"A garota está certa... Mas... Eles não podem fazer isso com ela."
— Sniff-sniff...
Rimuru começou a farejar e olhou para a carruagem.
— E-Emira... O que aconteceu com você? Esse cheiro... P-por que está chorando? — perguntou, visivelmente preocupado.
— Rimuru... Freyen não vai me aceitar de volta, não é? — perguntou, os olhos cheios de lágrimas, voz trêmula.
— ...Emira. — Rimuru a encarou, aproximando-se da carruagem e segurando suas mãos com firmeza. — Eu vou te defender!
Liza e Jonas estavam tão focados na cena dentro da carruagem que não perceberam a mudança abrupta no ambiente.
De repente, todos se viram em pé, diante de uma grande cama circular, com uma pequena mesa de madeira à frente.
Estavam em um quarto simples, porém repleto de luxos discretos. Sobre a cama, olhando-os, estava a Bruxa dos Elfos.
Ao lado da cama, seis elfos permaneciam ajoelhados, como estátuas — três de cada lado, em uma postura submissa.
Sua pele era clara, e seus olhos, de um azul cristalino, beiravam a perfeição. Freyen usava um vestido com várias camadas de tecido branco, algumas delas translúcidas.
Ao contrário da elfa que passeava pelo continente Leste, seu vestido era mais ousado, revelando os braços e um pouco da coxa na fenda lateral.
Os detalhes em verde-claro e dourado se mesclavam harmoniosamente com seus longos cabelos brancos.
Seu rosto, seu corpo, seu olhar, seu sorriso — tudo nela era igual à outra em aparência, contudo... era diferente em essência.
Assim como a outra elfa, todas as Bruxas mulheres e as Primordiais, exceto as raças minúsculas como os anões, Freyen tinha 1,90 m de altura.
PÁH!
Jonas, Liza, Rimuru e Emira caíram no chão, curvando-se profundamente, forçando as cabeças contra a superfície fria, tomados pelo medo instantâneo em suas almas.
Quando surgiram naquele lugar, todos os seres da floresta caíram em um sono profundo.
Elfos pendurados nas árvores, elfos observando-os das pontes, fadas voando sem sequer perceber o que acontecia, e elfos nas cidades espalhadas pela floresta colossal desabaram de onde estavam, caindo de grandes alturas.
Dentre todos os seres, apenas um se recusou a ser controlado por Freyen: um ser cuja Bruxa criadora cravou em sua alma que nada poderia controlá-lo.
— KRAAAAAAH!! — o Rei gritou desesperadamente por Jonas, enquanto disparava pela floresta, procurando-o freneticamente.
— Por que saiu da floresta? — A voz de Freyen reverberava como um trovão, explodindo nos ouvidos dos quatro e fazendo seus ossos vibrarem, cada palavra uma lâmina cortando o silêncio.
A sensação era de que o ar estava sendo espremido em seus pulmões. O sangue de cada um se convidava a surgir umedecendo seus lábios.
Thum! Thum! Thum!
O coração de Jonas e Liza estava prestes a saltar de seus peitos, cada batimento um martelo de dor e tormento.
O medo asfixiante os fazia tremer como folhas ao vento, e até o menor movimento provocava a fúria da presença opressiva de Freyen.
Ajoelhados diante da Bruxa, seus corpos não respondiam — tinham medo até de respirar e acabarem por irritá-la.
— D-desculpa. Desculpa, mamã! — As palavras de Emira saíram quebradas. A cabeça colada ao chão... o choro descontrolado tornava a atmosfera ainda mais densa, como se sua dor estivesse sufocando os outros.
Freyen fitou Emira com uma expressão de repulsa, o olhar frio cortando feito lâminas de galhos afiadas.
— Você está fedendo.
A voz de Freyen, agora carregada de desgosto, fez as palavras saírem como uma condenação.
— Todos os elfos sentiram esse cheiro horrível vindo de você! — A simples menção daquele "cheiro" foi como um golpe físico.
Emira sentiu sua garganta apertar, Bleargh... o gosto de ferro enferrujado em sua boca antes de cuspir sangue no chão de madeira.
— Me desobedeceu e agora volta como se nada tivesse acontecido?
Cada palavra de Freyen queimava a alma da menina, e seu corpo tremia ainda mais violentamente... parecia estar à beira do colapso.
— Eu sinto nojo de você...
A frase veio como um veneno, e Emira, já à beira do desespero, se afundou ainda mais na dor da própria humilhação.
— Por que não ficou lá vendendo esse seu corpo nojento!?
Jonas, incapaz de suportar mais o que ouvia, engoliu o medo que quase o engolia, e se ergueu, desafiando a pressão da presença de Freyen.
Liza, percebendo a ação do noivo, o seguiu com a mesma determinação.
Mesmo que isso custasse suas vidas, estavam prontos para enfrentar a Bruxa.
— Não fal...
...Antes de Jonas terminar uma segunda palavra, Freyen desviou seu olhar gelado, e foi o suficiente.
Sem nenhum movimento físico, as almas de Jonas e Liza se desprenderam de seus corpos.
Pa-pah...
Um estrondo silencioso.
Seus corpos caíram pesadamente no chão, paralisados, enquanto suas consciências flutuavam impotentes, forçadas a assistir à dor da cena sem poder fazer nada.
Warp sentiu o que havia ocorrido... todavia não sabia de onde vinha.
Freyen tentou novamente dominá-lo, e, por um momento, ele perdeu o controle.
Seus olhos se fecharam, Fuuuuuuu... e a força da presença dela o forçou a cair, a pressão esmagadora puxando-o para o abismo.
Mas, logo, uma onda de raiva indomável queimou em seu peito, um fogo que nenhum controle poderia extinguir.
Abriu os olhos e, com um grito silencioso de pura fúria, FUSH! recuperou o controle de seu corpo.
Rasgando entre as árvores, voou para o mais alto que conseguia em uma velocidade absurda, ultrapassando as copas das árvores colossais até acabar saindo da Dimensão Invisível, retornando ao deserto.
Preocupado e temendo pelo seu amigo, Vush voltou à dimensão e berrou o nome de Jonas... fazendo seu quase rugido ecoar, vibrar, quase destruir centenas de árvores por todo o país:
— KRRAAAAAAAHH!!! — ...foi em vão; Jonas não conseguia ouvi-lo.
— Por favor... Não machuque meus amigos — implorou Rimuru, levantando levemente a cabeça, seu olhar marcado pelo desespero.
— Calado.
PÁH!
A cabeça de Rimuru colidiu contra o chão de forma brutal — o impacto ressoando no ambiente... quase um buraco se formou... seu crânio rachou, a dor... a dor gritou, o sangue vazou e ainda assim, seu coração continuava gritando, bombeando sangue e o mantendo vidrado como um drogado.
— Como ousa voltar? Vai me dizer que não gostou? Sua prostituta barata.
— Mamã, eu não queria, mamã... — A voz de Emira falhava, entrecortada por seus soluços.
Freyen observou-a com desprezo, os olhos gelados.
— Seu exílio é para o bem dos elfos, para que entendam o preço de desobedecer e sair da floresta. Você sabia, desde o início, que ao sair debaixo das minhas asas, perderia minha proteção. Não teria mais direito de me chamar de mamã, nem de clamar por mim. Você quis sair da floresta... achou mesmo que o mundo lá fora seria igual à sua casa? Valeu a pena desobedecer sua mamã e confiar em seres estranhos? Aquele humano... era mais importante para você? Você sabia que não havia volta ao sair, afinal, ficou presa por meses naquela cela e, mesmo assim, não teve a ousadia de sequer pensar no meu nome.
— Me desculpa... Me desculpa, por favor, mamã... — Emira continuava a chorar, o rosto encharcado, suas palavras se desvanecendo em dor.
— Desculpas vão mudar alguma coisa? Desculpas vão fazer as coisas se consertarem?
— E-e-eu a desobedeci. Sim, eu estava curiosa sobre o mundo além da floresta. Não sabia que tudo aquilo iria acontecer. Eu só queria ver outros lugares... Só queria ver se o mundo lá fora era tão bonito quanto aqui... Eu... Eu me arrependo, mamã... Eu me arrependo de corpo e alma, por favor... Mamã, eu me arrependo de corpo e alma, MAMÃ! — Emira gritou, a voz partida pelo choro.
— Hãm...? Acha que tem mais utilidade do que isso? — Freyen abriu um sorriso sádico, a voz mais baixa, como se saboreasse a dor da filha.
Para quem julgava tanto Blacko, sua atitude não chegava a ser tão cruel quanto ele em seu cotidiano, porém seu sorriso lembrava o daquele homem vestido todo de preto que passou por esta cama.
— Você é nojenta. Seu cheiro, seu rosto, sua voz... Deve ter sido um bom brinquedinho sexual para esses humanos de merda.
Emira abaixou o olhar, o peso das palavras de Freyen esmagando sua alma, enquanto relembrava todas as vezes em que tentou fugir e as agressões que sofreu ao tentar sair daquele lugar.
— Que cara é essa? Mostre quem você realmente é. Sorria e diga: "Eu sou apenas uma vadia que vende o corpo por prazer".
Jonas... Liza... ambos destruídos... desolados, ouvindo aquelas palavras; o desespero deles só aumentava a cada instante.
Só queriam poder acabar com aquilo. Cuidar de Emira. Fazer o que sua mãe deveria fazer... Emira, por sua vez, só conseguia repetir duas palavras... sem parar:
— Me desculpa... Me desculpa... Me desculpa...
— Hãm? Tsc... — Freyen olhava para a pequena elfa com um profundo desdém. — Com esse cheiro, os elfos nunca mais te aceitarão. Você viverá isolada, num canto da floresta, longe de todos, sem sequer ter um marido. Sozinha, repudiada, sem ninguém ousando se aproximar desse cheiro repugnante.
— E-eu...
— Hãm?! — Freyen olhou para Rimuru, que, apesar do medo, levantou a cabeça sangrando, encarando a Bruxa.
— SE É ESSE O PROBLEMA, EU ME CASO COM ELA!! — exclamou, a vergonha tingindo suas palavras, porém sua determinação era clara. — Eu me caso com ela se a senhora a perdoar e permitir que ela fique na floresta...
Emira lançou um olhar profundo para Rimuru, no entanto... ele não olhou para ela. Mantinha o olhar fixo em Freyen, travado como se fosse uma obrigação. Tremendo como se fosse seu maior medo. Sentindo dor... sentia que ficaria cego.
— NÃO, RIMURU!
— Os elfos o rejeitarão também. — Freyen o olhou diretamente nos olhos, e ele continuou sem desviar o olhar, mesmo que a força da presença de Freyen o deixasse tonto.
— Eu não me importo, mamã...
— O que você está dizendo, Rimuru? Eu errei, a culpa é minha! Não há por que fazer isso por mim...
Rimuru manteve o olhar fixo, encarando a frieza de Freyen. Seu rosto pesava mais que tudo, os olhos lutando para se manterem abertos na presença daquele ser.
A dor como se estivesse sendo pisoteado por gigantes em sua alma... sangue escorrendo de sua boca quase de forma profusa...
Desviou... Pah...
Caiu sem forças, completamente mole.
Não suportou o olhar.
Emira o observava no momento que o amigo caiu. Os olhos arregalados e trêmulos vendo-o despencar lentamente.
O baque abafado, surdo, surdo como o Piiiiiii profundo dominando sua mente. O som ambiente desaparecendo com o terror presenciado sendo ordenado pelo ser que sempre prometeu protegê-la...
(Escolhas?)
— Emira!
A voz de Freyen ecoou dentro da mente da menina. Sangue rasgou sua garganta subindo e querendo sair como uma nascente de sua boca.
Segurou... Sua mente foi dominada e logo se viu sem nem entender ou mover a cabeça, olhando diretamente para sua "Deusa".
Olhos nos olhos... tonta, ficava.
— S-sim, mamã.
— Quer ser exilada da floresta, ou prefere que Rimuru viva isolado com você?
Sem desviar o olhar, sem piscar, chorando incontrolavelmente, mantendo os olhos fixos e arregalados... respondeu imediatamente:
— Me exile, mamã.
Jonas e Liza observavam, impotentes, seus rostos marcados pela preocupação e pela dor.
Não podiam fazer nada... Nem em suas mentes conseguiam ajudá-la.
"O quê?", pensou Jonas, seu coração apertado, sentindo-se completamente inútil.
"Emira...", pensou Liza, compartilhando o mesmo vazio, a mesma sensação de fraqueza.
— E por que prefere isso? Ele está se oferecendo por livre e espontânea vontade — rosnou com quase erotismo.
— Eu cometi o erro... Ele não merece sofrer por minha causa. Por favor, mamã, me exile e o deixe em paz.
— Tsc... — Com uma risadinha sarcástica, Freyen colocou a mão direita, levemente curvada como garras, próxima à boca. — A partir de hoje, você nunca mais pisará nesta terra. Sua impura.
— S-sim, m-mamã... Obrig...
Pah...
Emira desmaiou, Pahpapapapapa... caindo no chão junto dos seis elfos presentes, todos desabando feito marionetes sem cordas, ou... "sem almas".
Tlec!
Freyen estalou os dedos, e, num piscar de olhos, Liza e Jonas se viram em um local completamente diferente. Embora o cenário tivesse um ar familiar, algo ali era estranhamente singular.
O chão era feito de madeira clara, lisa e bem cuidada, todavia, em um ponto específico, pedras com relevos intricados formavam uma área ao redor de uma grande piscina natural.
Vegetação exuberante se espalhava entre árvores de altura média, e a luz do sol filtrava-se gentilmente pelas folhas, iluminando o ambiente com um brilho dourado suave.
Atrás deles, uma imensa porta dupla de madeira brilhava com entalhes delicados, evocando o luxo modesto do quarto de Freyen.
O espaço era uma fusão harmoniosa: de um lado, o esplendor de um palácio com enormes janelas que deixavam entrar a luz do dia; do outro, o encanto rústico de uma floresta encantada.
Tudo estava contido dentro de uma colossal árvore oca, cujo teto parecia infinito, decorado com folhas que dançavam à brisa leve.
Flores flutuavam na superfície da piscina natural e na cascata próxima. Suas cores — verde, dourado, lilás e preto — contrastavam com o brilho translúcido da água.
Era um espetáculo visual, tão surreal que parecia tirado de um sonho.
As pétalas das flores pareciam irradiar um leve brilho próprio, reforçando a magia do lugar.
Fluuouush...
Freyen surgiu descalça e de pé dentro da água — as bainhas de seu vestido levemente molhadas, enquanto segurava Emira desmaiada em seus braços.
Liza e Jonas estavam atordoados, a beleza e a peculiaridade do local os envolvendo com um sussurro místico.
A confusão deles era evidente; o cenário era ao mesmo tempo simples e complexo, uma mistura de contrastes que parecia desafiar o tempo e o espaço.
Freyen devolveu as almas para seus corpos antes de falarem:
— O que você fez? — perguntou Liza, hesitante... porém firme.
Freyen, sem alterar sua expressão rigorosa, respondeu:
— Não sou um monstro. Eu só queria confirmar se ela estava realmente arrependida de corpo e alma, como alegou. Ao aceitar o exílio enquanto olhava diretamente em meus olhos, provou isso.
— E agora? — perguntou Jonas, a preocupação evidente em sua voz.
— Vou purificá-la para remover o cheiro. Também apaguei a memória de todos na floresta e coloquei seus amigos para dormir. Não há com o que se preocupar. Quando voltarem às carruagens, após algumas horas fora da minha floresta, despertarão normalmente.
— Entendi...
Freyen fez uma breve pausa antes de continuar, sua voz carregando um tom mais suave. Não havia um sorriso em seu rosto, mas suas palavras eram mais que sinceras:
— Obrigada por trazerem minha filha de volta.
Jonas e Liza curvaram a cabeça em respeito, surpresos com as palavras da Bruxa.
— Agradecemos por aceitá-la de volta — disse Liza, com humildade.
— Ah, e diga ao seu amigo, o rei, que não lhe fiz mal. Apesar de ser incapaz disso, ele parece querer me matar. Admito que sua bravura, ao perceber que vocês haviam desaparecido, me admirou.
Freyen desviou o olhar e virou-se de costas, Fruashh... movendo levemente as águas enquanto ainda segurava a "filha" nos braços.
— Pode deixar! — respondeu Jonas, esboçando um sorriso.
A elfa voltou o olhar para eles.
— Tenham uma boa viagem. As crianças precisam de vocês... Ah, e se encontrarem o Denis, mandem-no ir tomar no cu! — Freyen, com um olhar entediado, moveu o dedo indicador ao pronunciar aquele nome.
Antes que pudessem responder, Liza e Jonas se viram de volta às carruagens.
Os cavalos ainda adormecidos continuavam a caminhar sob o controle de Freyen.
O cenário ao redor havia mudado... mais uma vez.
Freyen adiantou a viagem em alguns dias, conforme solicitado pela Bruxa dos Anões, garantindo que Jonas e o grupo chegassem ao País dos Híbridos no momento exato que ela havia planejado há 120 anos.
Os dois nem perceberam que não haviam surgido no deserto.
Agora, avançavam por uma paisagem de tirar o fôlego: cascatas gigantes despencavam de montanhas verdes que tocavam nuvens baixas. Árvores de folhas rosadas ladeavam o caminho, espalhando pétalas no ar.
Cada sopro de vento carregava essas pétalas, que dançavam em perfeita sincronia antes de pousar suavemente no chão ou nas águas calmas dos rios.
A carruagem cruzava uma ponte de madeira escura, coberta por raízes grossas e entrelaçadas que desciam das árvores próximas.
O rio abaixo fluía tranquilamente, sua superfície adornada por vitórias-régias gigantes com flores cor-de-rosa.
Peixes exóticos e pequenos animais saltavam entre as folhas, completando aquele quadro natural... que simplesmente ignoraram, ainda confusos com as palavras da Bruxa.
— Hã...?
— Quem é Denis?
— ...Sei lá, mas ela não parece gostar muito dele.
Do céu, Warp sentiu a presença de seu amigo e disparou, avançando os dias de atalho que Freyen lhes concedeu em pouquíssimos segundos.
FRUUUSH!
Extremamente rápido, chegou e pousou no chão, fazendo a superfície tremer devido à sua preocupação.
— GMRRRRR...!
— Calma, calma, garotão. Ficou com saudade? — Jonas riu, olhando para a enorme fera, que o observava preocupada feito uma criança.
— Poxa... — Liza cruzou os braços. — Não liga pra mim, né, Warp?
Warp voou até o lado dela e, Paf! tocou-a levemente com a asa, para assim não machucá-la.
— Gmrrr...
— Ele disse que estava preocupado com nós dois. Não precisa ter ciúmes.
— Como você entende a língua dele? — perguntou ela, ainda segurando a asa do amigo voador, enquanto ele andava devagar ao lado da carruagem.
— Não sei... Mas eu o entendo perfeitamente, e ele também nos entende; só não consegue falar a nossa língua.
— É... A mesma explicação de quando tínhamos 10 anos.
Jonas sorriu ao lembrar daquela época.
— Não sei como explicar, desculpa. É algo automático; eu só entendo.
Liza desviou o olhar e olhou para a estrada à frente.
— Que bom que deu tudo certo com a Emira.
— Sim. Fiquei aliviado que a Bruxa não a exilou. Ah, Warp, ela disse que ficou admirada com a sua bravura — Jonas sorriu ao falar sobre o amigo.
— Gmrrr... — respondeu, com um tom de desdém em seu murmúrio.
— Deixa de drama, foi só um sustinho. Estamos bem. Ela não parecia ser má, pelo menos no final... — comentou, abaixando o tom beem no finaallziiinho...
— É...
Liza olhou para Jonas, e este retribuiu o olhar.
— E agora, a próxima parada é...? — Animado, sorriu para Liza.
— O PAÍS DOS HÍBRIDOS! — Liza exclamou cheia de entusiasmo, cheia de expectativas por voltar para aquele lugar, depois de tanto tempo. Ficou em pé sobre o cavalo sonâmbulo. Mãos na cintura e olhar para frente.
— SIMBORA! — Jonas exclamou cheio de confiança, olhando para o horizonte iluminado naquela linda manhã. Os olhos firmes e determinados a completar seu objetivo. Queria por que queria, e entregaria as crianças de volta aos seus lares a qualquer custo, independentemente do que acontecesse com sua própria vida.
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