Volume 2 – Arco 10
Capítulo 204: um Segundo, uma Lágrima e uma Morte
Ano 105
Caroline tinha seis anos quando tudo aconteceu.
Antes daquela noite, sua vida era tranquila. Desde que Clarah nasceu, era sua melhor amiga.
Caroline sempre zelava por ela, especialmente porque Clarah sempre dava sinais de ser bem azarada. Não importava o que fizesse; se tentasse levantar um mísero travesseiro da cama, acabava se machucando. E Caroline sempre estava lá para abraçá-la.
Clarah chorava sempre que se machucava, porém o abraço da irmã mais velha fazia com que ela parasse de sentir a dor momentânea. A situação frequentemente terminava em risadas, já que Caroline não conseguia olhar para ela naquele estado sem rir, o que provocava uma gargalhada contagiante na pequena.
Na tarde do ocorrido, a pequena havia tropeçado no tapete perto da cozinha e, sem equilíbrio, colidiu com algumas jarras de água. Cr-r-rashhuuuaaash! O som das jarras caindo e quebrando ecoou pela casa. As que não quebraram derramaram toda a água.
Clarah não se machucou, porém se assustou. Caroline olhou para ela, rindo com os olhos fechados. Clarah escutou e virou o rostinho com os olhos arregalados de espanto. Ao ver a irmã, abriu um sorriso sapeca, e sua mãe apareceu na cozinha, suspirando profundamente, claramente irritada.
— Line, coloque-a para dormir. Já está anoitecendo.
— Não quer que eu limpe?
— Deixe que eu faço isso.
— Tá bom!
Line segurou a mão da irmã e a levou para o quarto, onde a colocou na cama e se deitou ao seu lado. Caroline ficou de frente para ela, com os rostos próximos, ajudando Clarah a adormecer rapidamente em meio à sua presença carinhosa.
Após alguns minutos, ouviu a respiração tranquila da irmã, agora adormecida.
Com um leve sorriso, a deixou no quarto e foi até a cozinha, onde sua mãe acabava de limpar as coisas.
— Ela dormiu?
— Sim.
— Busque água no rio para mim. Ela derramou tudo e eu queria deixar algumas coisas semiprontas para o café da manhã de amanhã.
— Tá bom!
Com um belo sorriso, pegou duas jarras de argila e saiu de casa, indo em direção ao rio que passava perto. A noite chegava, mas ela não sentia medo do escuro, pois usava uma pedrinha de magia da luz que sua mãe lhe presenteara.
Andou por alguns minutos entre as árvores até chegar à beira do rio. Shuuaabluublublu... Após recolher a água, virou-se e acelerou o passo para voltar mais rápido.
Assim que a densa vegetação terminou:
— Socorrooo!
— Arrrrrghh!
Começou a ouvir gritos.
Olhando para a vila, viu-a sendo destruída. Seus olhos tremeram ao perceber que quem causava tudo aquilo era o Imperador de sua linhagem. Tham!-tam!... A Besta apareceu de um salto, trazendo uma criança chorando para Branco. Este a segurou pelo queixo e a levantou para analisá-la. Sua expressão mudou para nojo, Crunch! e o mesmo esmagou a cabeça da criança com a mão.
Caroline, aterrorizada, não percebeu que as jarras escorregaram de suas mãos, Cra-Crashuaash! Ambas quebraram, derramando a água na terra, e ela correu para casa o mais rápido que pôde. Ao passar pela porta, Thumb! trombou com sua mãe.
— Entra... Entra! — gritou baixinho, porém sua mãe não compreendeu o desespero no tom de voz.
— Por quê?!
Caroline, apressada, passou por sua mãe e correu para o quarto onde dividia com Clarah. Sua mãe, por sua vez, decidiu sair para entender os gritos que ouvia.
Line entrou no quarto e viu Clarah em pé, passando as mãos nos olhinhos e caminhando em direção ao corredor. Thuf... A segurou pelo braço e a levou até a cozinha. Lá havia um alçapão que dava para o porão, onde seu pai guardava algumas coisas. Clkt Caroline a colocou lá dentro em silêncio, enquanto Clarah a observava com os olhinhos arregalados.
— Shhhh! — Line fez um gesto de silêncio com o dedo sobre os lábios, e a pequena mais nova confirmou com a cabeça.
Trunk!
Fechou o alçapão, Sccrrrchh... puxou um tapete para esconder as marcas da entrada e, assim que ia sair, olhou para um vaso de planta com uma flor rosa feita da magia de sentimento do seu pai. A água e o aroma forte da flor camuflavam-na perfeitamente, e Caroline percebeu isso.
Clark!
Pegou o vaso e o arremessou no tapete... o aroma se intensificando a cada segundo.
Virou-se e saiu da cozinha.
CRASH!
A Besta invadiu a casa descendo pelo telhado após um salto, destruindo parte dela e matando seu pai, que dormia na sala sem ter tempo de reagir. Assustada em meio à poeira levantada, olhou para frente e se deparou com a Besta, cara a cara. O monstro sorriu, BM! agarrou o braço dela e a levantou, levando-a rapidamente até Branco.
Tham-tam... Pahf...
Ao colocá-la no chão diante do Imperador, a menina levantou a cabeça para olhá-lo. O Primordial mostrou uma expressão curiosa. Com um simples movimento de dedo, Vrrrush... Branco desfez todas as suas criações — todas desapareceram com um brilho da magia de luz. Além dele mesmo, só restou a Besta como companhia.
Caroline desviou o olhar para a esquerda e viu diversos cadáveres espalhados pela destruição. Branco colocou a mão em seu queixo e a virou de volta para ele, alisando seu rosto enquanto ela permanecia paralisada de medo, em silêncio.
— Por favor... Não faça nada com a Caroline... P-por fa...
PRUNCH!
...Sua mãe, caída no chão à direita e muito machucada, não conseguiu terminar seu apelo. A pata da Besta esmagou seu corpo, e quando ergueu-a, deixou para trás uma poça de sangue e roupas encharcadas.
— Ma-mamãe?! — Os olhos da garotinha tremiam de medo enquanto Branco alisava o rosto e lábios.
— Não se preocupe, Caroline. Vou te tratar muito bem... Gostei do seu nome — murmurou ele, com um sorriso estranho.
Outros moradores, amedrontados, ficaram em silêncio, se escondendo parcialmente sem entender o que estava acontecendo.
Sangue saiu das sandálias luxuosas de Branco... se espalhando pelo chão em um círculo mágico composto por Oito Marcas. Assim que foram concluídas, Branco, Caroline e a Besta desapareceram instantaneamente.
Desde então, Caroline viveu o inferno dos seus seis até os vinte e um anos.
Branco desejava uma esposa bonita, capaz de lhe dar herdeiros diretos, fortes e belos, e Caroline acabou sendo a escolhida pelo Imperador da Linhagem Branca.
Todos os dias pareciam iguais. As servas eram forçadas a vesti-la com os melhores trajes: vestidos luxuosos, de noivas, imperatrizes e rainhas. Depois de ser preparada, era levada para o quarto, onde Branco a esperava, sempre com roupas que combinavam com as dela, um sorriso fixo no rosto e uma voz excessivamente doce.
Pouco tempo após o início de seus teatrinhos, a pedia em casamento. Caroline, no entanto, permanecia em silêncio, recusando-se a responder ou sequer dirigir uma única palavra a ele.
Todos os dias, o resultado era o mesmo. Branco, ao ser confrontado pelo olhar vazio e destruído dela, a agredia com tapas no rosto, descontando sua frustração, para então abusá-la sem remorso. Quando terminava, a descartava no harém, irritado e frio.
Mas logo depois, arrependia-se.
Tentava compensar o que havia feito, aproximando-se com gestos afetuosos, indo ao harém buscá-la e implorando por perdão. No entanto, ao ser recebido novamente com o silêncio de Caroline, o ciclo recomeçava — dia após dia, uma rotina sufocante.
Desde que Line entrou para o seu harém, Branco parou de se relacionar sexualmente com as outras mulheres.
Os presentes que costumava dar a elas diminuíram, assim como as roupas e joias que fornecia para que se sentissem valorizadas. Quase mais nada era oferecido a elas. Tudo passou a ser direcionado exclusivamente a Caroline, cujos vestidos e joias eram um verdadeiro luxo.
Com isso, as outras mulheres começaram a odiá-la, invejando-a cada vez mais.
Nem uma semana havia se passado desde que Line passou a se encolher no canto do harém, temendo que algum servo a arrastasse para o quarto de Branco. Desde o primeiro dia, o tratamento diferenciado que recebia fez com que as outras mulheres desejassem sua morte.
— Essa desgraçada acabou de chegar e ele só fica com ela! — Uma das mulheres criou uma lâmina de sangue branco. — Vou matar essa garota!
Avançou em direção a Line, que permaneceu imóvel, encolhida. Mas, antes que pudesse alcançar a criança, outra mulher se colocou à frente, bloqueando o caminho.
— Você está louca? Se matar a queridinha dele, ele vai nos matar depois!
Outra mulher se aproximou, observando a cena com cautela.
— Ela tem razão. Não gosto dessa criança, mas não quero morrer também.
A mulher desfez a lâmina, lançando um olhar de nojo para a pequena menina no cantinho. Logo, voltaram para as almofadas na sala, aguardando que Branco as chamasse... Não ia.
Caroline, mais uma vez, sentiu o profundo ódio das outras mulheres direcionado a ela. Quando se afastaram, seus olhos se encheram de lágrimas. Mantendo o rosto abaixado, entre as pernas dobradas, clamava em pensamento:
"Alguém me tira daqui... Por favor..."
Thoon...
A porta do harém se abriu, e Branco entrou, marchando, passando indiferente entre suas mulheres sensualizando desesperadas por sua atenção. Ignorou todas e seguiu até Caroline, Bm... agarrou o braço da jovem criança e arrastou-a para o quarto... outra vez.
Um segundo antes de Caroline ser atingida pela Besta, uma pessoa surgiu voando sobre ela.
Clarah chegou dando uma voadora no peito daquele ser.
PHAM!
Após seu pé esmagar parte do peito do monstro, girou seu corpo para a esquerda, PHAMM! e desferiu um segundo chute, PHAAMM!! seguido de um chute diagonal, descendo na cabeça da Besta, arremessando-a para trás e para o chão.
BUM!Sccrrrchh...
Clarah aterrissou de pé e se agachou, criando uma adaga na frente de Caroline. Assim que seus pés tocaram a areia e a arma se formou em suas mãos, Fu! arremessou-a na direção da Besta, que já havia se estabilizado no chão.
— Kop... — A adaga cortou o ar com precisão. Quando a criatura ergueu as garras para interceptá-la, Clarah completou: — Tu.
A adaga desapareceu e, dela, Clarah surgiu, Sccrrrchhh... deslizando por baixo das garras do monstro. Assim que saiu do teletransporte, começou a criar uma nova adaga, e, com ela em mãos, usou magia de luz para transformá-la em uma espada.
SKRUNCH!
Por baixo do grosso braço da Besta, passou a lâmina e o cortou fora.
Ainda deslizando, inclinou-se para frente, disparou rapidamente e, SH-SHKRUNCH! desferiu um corte que cortou fora as duas pernas da criatura.
Pm
Levantou-se com um salto enquanto ele caía e, PHRANCH! acertou um chute vertical em seu queixo, arrancando sua cabeça com a força descomunal do impacto... Com o impulso do salto, Fush! Clarah subiu bastante no ar e, diante dela, plainava a cabeça dele.
PHRAMSSH!
A garota executou um mortal e chutou a cabeça para baixo, Plorrscsrch! fazendo-a entrar diretamente no buraco do pescoço e ir parar na barriga.
Enquanto fazia algumas piruetas girando o corpo, aterrissou de frente, SHKRUNCH! cortando-o ao meio... Uma divisão simétrica... Perfeita. Corpo e cabeça... perfeitamente divididas, resultando em duas partes que se separaram, Pahrf-Pahrf... e caíram para cada lado.
Diante da Besta morta, o corpo criado por Branco não se desfez, pois o Primordial continuava vivo e poderia trazê-lo de volta usando aquela carcaça.
Clarah desfez a magia e absorveu o sangue da adaga com a mão. Depois de olhar para o monstro, virou-se para a moça de capuz que havia salvado.
— Você está... — A jovem... congelou.
Seus olhos começaram a tremer, e todo o seu corpo se arrepiou.
Após 15 anos longe uma da outra, no instante em que olhou para Caroline, soube. Não precisava de explicações, não precisava de provas. Aqueles olhos... eram os mesmos. Era a sua irmã.
Caroline também parou. Ficou encarando Clarah como se não acreditasse. Suas pernas vacilaram, fraquejando diante da avalanche de emoções.
Clarah sentiu o peito apertar, uma dor misturada à alegria que mal conseguia conter. O mundo parecia ter parado. O tempo não passava, o calor abrasador do deserto não a tocava mais — apenas o vendaval interno, o desespero, a saudade reprimida por tantos anos.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Caroline, e isso foi tudo o que precisou para romper a barreira entre elas.
Sem pensar, Clarah correu até ela, Thumpf... e a abraçou com força.
Desestabilizada, Caroline caiu junto com Clarah, ambas sentando-se na areia quente do deserto. O calor que emanava do lugar, que já foi o lindo Império dos Demônios, era sufocante, mas o calor daquele abraço era outra coisa: reconfortante.
Quente de um jeito que nenhum deserto poderia ser.
Os corpos se encontraram num abraço que parecia costurar os anos que ficaram perdidos. Clarah finalmente desmoronou. Lágrimas correram livremente por seu rosto — não escondia mais seus sofrimentos. Os soluços vinham, e não fazia questão de detê-los.
Entre eles, murmurou:
— Desculpa! Desculpa! Desculpa... Eu nunca mais vou deixar você sozinha. Nunca mais, Line... Você não está sozinha, eu prometo.
Caroline não conseguia falar. Suas mãos agarravam o tecido da roupa de Clarah com força, como se temesse que sua irmã desaparecesse de novo.
Chorava, chorava de alívio, de dor, de tudo o que não podia colocar em palavras.
Na mente dela, imagens começaram a surgir: fragmentos de uma infância perdida. Clarah rindo ao tropeçar e cair enquanto tentava pegar uma borboleta; Clarah encolhida num canto depois de um machucado, ao tentar levantar um graveto, enquanto Caroline a abraçava, dizendo que ficaria tudo bem. Mas agora... agora o papel tinha se invertido.
— Eu... te amo... — murmurou Caroline, quase inaudível, a voz quebrada por soluços. — Eu... te amo... Clarah.
O choro das duas era suficiente para inundar o deserto; suas lágrimas não paravam de cair. Clarah segurou o rosto de Caroline com as duas mãos, olhando fundo nos olhos da irmã, como se quisesse se certificar de que aquilo era real.
— Eu te amo também, Line... — disse entre lágrimas, as palavras saindo trêmulas. — Obrigada por me salvar... aquele dia. Obrigada por... sobreviver... por voltar pra mim!
Caroline respirou fundo, os soluços começando a acalmar-se.
Enfim, respondeu:
— Obrigada... Clarah. Por me salvar... hoje. Por estar aqui... irmã.
Continuaram ali, sentadas nas areias clarinhas, os braços em volta uma da outra, segurando-se como se o mundo pudesse desabar a qualquer momento e separá-las... novamente.
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