Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 2 – Arco 10

Capítulo 203: Corra

Depois de lembrar do que a motivava, uma lágrima salgada escorreu pelo rosto. Fush! Apertou o passo e começou a correr em direção à sua irmã com toda a força que tinha.


Anna havia acabado de terminar o café. Subiu para o quarto com um tantinho de preguiça e encarou o vestido, que a encarou de volta brilhando como nunca. 

— Mostre-me.

Vush!

O vestido saiu do manequim e a vestiu, substituindo as peças de sangue. Esta então percebeu que, mesmo durante o dia, a lua no céu era como um de seus olhos. Embora a lua prevalecesse à noite, Anna ainda conseguia enxergar a parte do mundo que a lua lhe permitia ver durante o dia. Vendo Clarah correr com todas as suas forças, a Primordial tentou procurar Nino... todavia não conseguia.

Morte o escondia.

Contudo, sentiu a presença dele e, ao olhar, viu Nina com as mãos à frente, lendo algo ao Norte. Anna não via o mapa, afinal, ele só existia na mente das duas. Nathaly se aproximou de Nina para olhar o mapa. Anna reparou o novo cabelo dela e logo desviou o olhar do casal, voltando sua atenção para Clarah, que corria rapidamente enquanto lágrimas escorriam em seu rostinho determinado.


Thoon...

Um dia se passou... Era uma nova manhã no Palácio do Sol quando Branco decidiu dar uma saída... e Sol aproveitou a oportunidade para entrar em seu harém. Ao adentrar, todas as mulheres de Branco começaram a sensualizar para ele, alisando seus corpos com lingeries e roupas eróticas que o Primordial mandava confeccionar para elas.

No entanto, Sol simplesmente as ignorou e caminhou até Caroline, que estava agachada em um canto da grande sala cheia de almofadas e barras de pole dance, onde Branco costumava assistir suas mulheres dançarem.

...Seu rostinho não demonstrava nada além do vazio que sentia. Era a única vestida, usando um elegante vestido digno de uma rainha. Pm! Sol a segurou pelo braço de maneira brusca, forçando-a a se levantar e acompanhá-lo.

Puxou-a pelos corredores, enquanto todas as mulheres do harém demonstravam seu ódio com expressões visíveis no tempo que o Primordial passava arrastando a demônio comum. Thoon... Assim que Sol saiu e fechou a porta, começaram a murmurar:

— Desgraçada...

— A queridinha dos Primordiais.

— Fica quieta aqui, mas deve ser uma vadia com eles.

— Eu devia ter matado essa mentirosa... 


O Primordial puxou Caroline rapidamente pelos corredores e a levou para seu quarto, Pahfft! onde a empurrou na cama... Ela caiu e não tentou se levantar. Vsh! Sol levantou o vestido e a abusou, enquanto Caroline permanecia em completo silêncio, só esperando que ele terminasse, assim como Branco. 

Mas, ao contrário dela, Sol não ficou em silêncio:

— Esse olhar sem esperança me excita. Será que sua irmãzinha Clarah também é assim?

O olhar de Caroline se encheu de medo ao encará-lo de canto.

Sol gargalhou e subiu em cima dela, empurrando sua cabeça contra a cama.

— Sua irmãzinha está vivendo na Floresta do Desespero. Mas não se preocupe, vou trazê-la para fazer companhia a você — rosnou.

Desta vez Caroline não conseguia esconder o medo em seus olhos; o Primordial podia fazer o que quisesse com ela, mas ela não queria que sua irmã sofresse como ela havia sofrido.

Sol não ejaculou; o que ele queria fazer, já havia feito. Apenas se levantou de cima e saiu do quarto gargalhando, tentando causar o máximo de terror na cabeça da jovem mulher. 

Sem forças para chorar mais, Caroline ficou lá, deitada na cama da mesma forma que ele a deixou... Mas... Mas... Poucos segundos depois que Sol saiu, Jeane entrou discretamente no quarto, aproveitando a ausência da Besta que a vigiava.

— Ei... Ei, moça! — sussurrou baixinho.

Caroline olhou de canto para a porta e viu uma mulher que nunca havia visto antes.

— Quer fugir daqui? Eu dei uma olhada na área e acho que você pode sair pelos fundos. Não sei se conseguirá sobreviver lá fora, mas deve ser melhor do que viver neste inferno aqui dentro.

Caroline se encheu de esperança e seus olhos começaram a brilhar novamente.

— S-ss-sim, por favor, me ajude a sair daqui! Po-por favor, moça!

Jeane conferiu os dois lados do corredor e se aproximou de Caroline. Trouxe uma túnica simples com capuz de cor bege, uma cesta com frutas e um pequeno jarro de prata com água.

— Vista isso por cima e isso ajudará você a atravessar o deserto. Essas frutas devem durar até você encontrar outra coisa para comer lá fora — cochichou o mais baixo que conseguiu.

Caroline olhou para Jeane com um sorriso sincero, que era quase imperceptível, porém ainda assim era um sorriso em meio aos olhos arregalados em uma mistura de choque e esperança... Havia esquecido como fazer aquilo. Rapidamente, colocou a túnica sobre o vestido e pegou a cesta.

Jeane, com cuidado, foi passando pelos corredores com Caroline atrás dela.

Depois de um tempo, chegaram perto da porta dos fundos — passar pela da frente era muito arriscado por ficar próximo ao salão do trono. Quando Jeane olhou o corredor da porta, viu dois guardas com lanças de magia do sol em mãos.

— Vou distraí-los e você passa. Saia sem olhar para trás, não se preocupe comigo.

Começou a se aproximar dos guardas.

— Espere! — sussurrou a garota que já conseguia se ver livre. — Isso não será perigoso para você?

Jeane olhou para Caroline com sinceridade e um sorriso leve:

— Não importa, apenas vá — sussurrou e se virou...

Voltou a andar em direção aos guardas, que permaneciam com os corpos de lado, à sua frente.

— Ei, o Primordial do Sol está exigindo a presença de vocês dois no salão do trono — inventou uma mentira.

Ambos viraram os rostos para a mulher mais baixa... estavam visivelmente aflitos com aquilo.

— Cara... eu te falei para não fazer aquilo, que merda! — o primeiro guarda reclamou, olhando para o colega.

— Já era... — o segundo guarda só aceitou que haviam sido descobertos... e nem sequer voltou o olhar.

"O que esses dois estão falando?", pensou bem confusa, contudo, ignorou e seguiu o plano. — Sigam-me.

Jeane saiu andando, e os dois começaram a segui-la, imaginando que morreriam.

Caroline, ao perceber que estavam longe, correu discretamente até a porta e saiu sem fazer barulho, obedecendo as ordens da mulher que a salvou e que nem sabia o nome. Correu sem olhar para trás em meio à areia escaldante, com a esperança crescendo em seu peito e seus olhos voltando a ter cor.


Depois de caminhar por muitos corredores, observando os dois guardas que continuavam completamente desanimados atrás dela, parou próxima ao salão do trono. Os guardas também pararam, confusos, olhando para ela de costas. 

— Podem voltar para suas posições.

— O quê?

— Quê?

— Vou dizer ao Sol que não foi vocês.

— O-o-o quê? O-obrigado, senhora! Obrigado! Muito obrigado! — um deles respondeu gaguejando tudo, visivelmente aliviado.

— Se precisar de algo, é só me pedir. Dentro do possível, eu ajudarei! — disse o segundo, curvando a cabeça em sinal de respeito.

"O que eu quero é algo impossível para vocês conseguirem me ajudar." — Entendido, estão liberados.

Os guardas saíram lado a lado pelo corredor, retornando às suas posições com mais postura.

— Deu tudo certo.

— Sim... Que sorte.


Jeane parou em frente à porta do salão do trono, respirou fundo, Thoon... e entrou. No trono, Sol repousava relaxado, com o braço apoiado no encosto. Assim que ela entrou, o Primordial lançou um olhar em sua direção. Instintivamente, a mulher curvou a cabeça, mantendo as mãos juntas próximas às pernas. 

— Onde você estava? — rosnava e quase parecia um estrondo na mente da mulher assustada... porém com a cara a tapa para aguentar sua punição se assim fosse.

— Andando pelo palácio, majestade...

— Não me lembro de ter permitido.

— Me perdoe, majestade.

Sol continuou a observá-la de cima, com nojo.

— Vá preparar três do meu harém — rosnou e desviou o olhar enojado... O pedido foi mágico. O alívio no peito de Jeane foi assustador. Nenhuma punição dolorosa, somente algumas horas perdidas preparando as mulheres do seu Imperador.

— Sim, majestade.

Jeane se virou e voltou para os corredores.

"Espero ter conseguido ajudar você... Já que minha filha... não consegui."


Depois de 70 minutos desde que Caroline havia fugido, Branco retornou ao palácio. 

Ao procurar no harém e não encontrá-la, ficou irritado com as mulheres que tentavam atrair sua atenção sensualizando, e quase matou uma enforcando-a até o desmaio... As outras pararam e se ajoelharam em silêncio, se mantendo submissas.

Branco saiu de cima da demônio inconsciente e marchou pelos corredores visivelmente enfurecido... As mulheres...? Ficaram ainda mais. Não com Branco... Ficaram com Caroline. Desejavam que esta morresse. Desejavam ter a atenção do Imperador Branco de volta.

O Primordial foi rapidamente para o quarto — sua Besta o acompanhando.

THOON!

Ao abrir a porta com muita raiva e não encontrá-la... ordenou sem nem olhar para o monstro atrás de si:

— Cansei daquela garota... Canseirrrg... CANSEEEII! Ache-a e... mate-a. Destrua o corpo daquela desgraçada.

Rurrf! — rugiu a Besta.

Seu corpo era grande, um ser que parecia a mistura de um urso branco com um lobo maior ainda. BM Curvou-se no chão, de quatro, Sniff-sniff... sniff... e começou a farejar o cheiro de Caroline... O rastro se formou no ar — o caminho que precisava seguir. 

Vush

Disparou correndo com suas quatro patas na direção dos corredores que a jovem mulher passara... mas ao virar alguns, deu de cara com Jeane. A mulher segurava alguns óleos corporais que, no exato momento, levava ao quarto de Sol, para continuar a preparação das mulheres do mesmo.

GARRR! Você ajudou ela a fugir?! — rosnou, aproximando-se dela.

— Sobre o que você está falando?

BUM

Bateu a pata dianteira no chão para assustá-la.

— Quer brincar assim mesmo? Eu sinto o cheiro dela em você. — Ficou de pé, olhando para baixo nos olhos dela.

— Acho que você não entendeu — Jeane o encarou firmemente. — Mesmo que me mate, Sol o matará depois. Ele disse que só ele pode me ferir... Vá em frente, me mate. Eu não me importo. Eu sei que você também morrerá.

A Besta, irritada com a afronta, desceu seu corpo ainda encarando Jeane nos olhos. Contudo, logo virou a cabeça, Sniff-hff... snrrrf... e voltou a farejar o rastro de Caroline.

Sentindo-o novamente, Vush! e saiu correndo, passando ao lado de Jeane em direção à saída dos fundos. A mulher se assustou e quase deixou as coisas caírem. Olhou para trás e sentiu medo pela jovem que ajudou a fugir.

Uma cavalgada sinistra — o chão tremendo em cada pisada forte.

Quando os dois guardas o viram se aproximando, pularam para o lado, BRUM! no entanto, a Besta não perdeu tempo; simplesmente arrebentou as portas com o corpo e saltou para o deserto, seguindo o rastro da fugitiva.

...Os guardas olharam para o estrago.

— ...Já era, a culpa vai ser nossa.

— ...É.


Desde que saíra, Caroline não parara de correr um instante sequer; suas pernas doíam e seus pés queimavam na areia, todavia... continuava. O capuz protegia seu rosto, enquanto a túnica, o vestido e a cesta balançavam sem parar ao vento.

No entanto, nunca havia treinado. Sua velocidade era a mesma de um demônio comum, incapaz de manipular o próprio sangue. De repente, o medo retornou, gelando seu corpo em meio ao ar que queimava a pele. Olhou para trás e viu o ser que a havia colocado naquele inferno correndo em sua direção.

Desesperada, Tufsh! soltou a cesta e tentou correr mais rápido... não adiantou.

PM

A Besta chegou a poucos metros e saltou em sua direção.

Quando viu o monstro se aproximando do alto... a jovem mulher parou de correr. Com o corpo quase inteiramente virado para a criatura que vinha ao seu encontro, uma lágrima escorreu pelo seu rosto descoberto, enquanto o capuz escorregava de seus longos cabelos brancos.

Não conseguiu formular palavras, mas, em sua mente, enquanto fechava os olhos, pensava:

"Me desculpa... Clarah."

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