Volume 2 – Arco 10
Capítulo 202: O Leste é para o outro lado
Após três dias de espera, Clarah acordou cedo, como de costume, porém, desta vez, muito mais animada. Assim que abriu os olhos e viu a luz do sol iluminando seu quarto, Vup pulou da cama e arrumou tudo rapidamente.
Abriu a porta com pressa, desceu as escadas em um salto e foi direto para a sala de jantar. A empregada acabava de preparar o café da manhã. No momento em que saiu da cozinha com algumas bandejas, Clarah surgiu de repente, Pahf! assustando-a a ponto de quase derrubar as bandejas.
Cinco pães escaparam da bandeja e começaram a cair. Clarah, rápida, Fu-Fu-Fu-Fu conseguiu pegar quatro com as mãos. O quinto, porém, Puf! foi salvo com um leve chutinho e, Nhannn! o segurou com a boca.
Devolveu os quatro pães para a bandeja e, Nhami-Nhami-Nhami! devorou o quinto quase instantaneamente.
— B-bom dia, Clarah — disse, rindo enquanto colocava as coisas sobre a mesa.
— Bom dia! Nhami-Nhami-Nhami! — respondeu, sentando-se e devorando os pães com rapidez.
— Está animada hoje... Aconteceu algo?
— AihNnda nNãAo, mMas vaAi! — respondeu de boca cheia... bochechas de esquilo.
Enquanto isso... Anna acordava.
Seu quarto estava imerso em uma luz azulada. Ao olhar para um canto, viu o vestido sobre o manequim. O Tesouro não falava, todavia parecia chamá-la: "Me use!". Anna se sentou na cama, esticando os braços para cima em um bocejo fofo. Mesmo admirando o universo que se movia no vestido, levantou-se e caminhou até a porta, ignorando-o por completo.
Descendo as escadas lentamente, avistou Clarah sentada à mesa de costas para si.
Anna respirou fundo, soltando o ar em desânimo:
— Vai hoje?
Clarah tomou um pequeno susto; Anna era quase invisível e isso também se aplicava no silêncio de seus passos, a não ser quando queria ser notada.
Com a boca cheia, a menina de branco e com sangue rosa-claro se virou rapidamente, Gulp! engolindo às pressas:
— Sim! — respondeu e voltou a comer.
"Eu deveria dar uma muquetada na nuca e prendê-la?", pensou, olhando para a jovem adulta com uma expressão nada amigável.
Clarah sentiu um medo repentino... diversos calafrios percorrendo seu corpo. Com receio, virou lentamente a cabeça até encontrar o olhar de Anna, que exibia um sorriso assustador sem nem perceber.
A Primordial tentou disfarçar ao perceber que Clarah começava a se virar... no entanto não adiantou muito.
"Que medo... Ela vai devorar minha alma...?", pensou brincando... mas mesmo sendo só uma brincadeira, olhá-la deixava isso com cara de futuro próximo.
Anna desceu as escadas e sentou-se ao lado direito dela. Nesse momento, a empregada trouxe mais comida, enchendo a mesa com doces, frutas, massas e água. Porém, algo ainda faltava.
— Bom dia, Anna.
— Bom dia, Mirie.
— Coma à vontade, vou trazer seu suco!
— Obrigada.
Assim que Mirie saiu, Anna lançou um olhar de canto para Clarah... esta tremeu quase profusamente tentando disfarçar. Logo, Anna virou levemente o corpo em sua direção e colocou a mão esquerda na coxa direita da menina medrosa, apertando gradativamente a carne macia.
"Ela vai me devorar aqui mesmo...!?", pensou com as íris rosa-claro vibrando como um terremoto, arregalando os olhos para quase saltarem da cara.
— Bom... Não vou impedir você. Só quero que traga sua irmãzinha sã e salva, tá?
— E-ela é mais velha que eu.
— ...Sua irmãzona, então.
— T-tá bom.
Mirie voltou com uma grande caneca de suco para Anna. Assim que a viu, Anna tirou a mão da coxa de Clarah e recebeu o suco com um sorriso gentil.
— Obrigada.
Mirie curvou a cabeça em resposta e se sentou à mesa para também se alimentar.
— Eu já acabei meu café... Acho que vou indo então.
Anna olhou para ela, e Clarah ficou levemente paralisada.
— Boa viagem.
"Ufa!" — ...Obrigada.
Clarah sorriu, levantou-se e caminhou até a porta.
Quando tocou a maçaneta, uma voz a fez congelar novamente:
— Clarah.
— O-oi, Anna... — respondeu, virando-se bem devagar.
— Sabe onde fica o palácio?
Clarah fez uma expressão confusa.
— ...Não.
Anna suspirou, desviando o olhar:
— Fica ao Leste, depois de Alberg. Lá há um deserto, e além dele, há outro ainda maior. O palácio está no centro desse deserto imenso e remoto, onde não há nada além de uma vasta imensidão de areia. Talvez você encontre ruínas do antigo Império; minha mãe disse que não restou nada, mas talvez haja algo, né? Tente se localizar apenas pelo fato de chegar a um deserto escaldante, já que confiar que haverá ruínas de alguma casa ou muralha lá é um pouco difícil. A areia é mais branca do que a do deserto anterior. Deve ser fácil diferenciá-las na divisa.
— ...Certo, obrigada. — Clarah sorriu antes de se virar para sair.
— Você não precisa mais esconder seu passado. — Clarah voltou o olhar para Anna. — Seus ferimentos na canela, suas cicatrizes... Elas são lindas. Não há motivo para escondê-las atrás dessa meia-calça clara quase da cor da sua pele. — Clarah olhava para Anna, que permaneceu de lado, falando sem olhar diretamente para ela, mas sim para a caneca cheia de suco.
Segurava o recipiente com seu suco de Momi usando as duas mãos... Os lábios próximos como se soprasse café quente tentando esfriá-lo... Seu rosto pensativo e bem maduro continuando o que tinha para falar:
— Elas mostram seu esforço, toda a sua luta, todas as batalhas que você viveu para chegar até aqui. Quero que traga sua irmã para casa, mas você também precisa estar em casa. — Anna virou o rosto novamente para Clarah, e esta a olhava fixamente. — Não há necessidade de se esconder, nem de fingir algo... Estamos aqui para ajudar você; não precisa esconder o que faz você ser você. Você é forte, mas prefere que achem que você é fraca. Você é decidida, mas prefere que os outros decidam. Você é a Clarah, mas ao mesmo tempo a esconde internamente. Chorar, gritar... Suas fraquezas... Não precisa manter um sorriso no rosto o tempo todo, principalmente estando destruída, insegura, ou precisando de alguém para escutá-la e abraçá-la, para ajudá-la a fugir dos seus pensamentos pessimistas. Clarah, independente de onde você esteja, se precisar de ajuda, apenas diga o meu nome e eu vou aparecer instantaneamente para te salvar.
O Tesouro de Bruxa começou a brilhar mais intensamente — feliz por saber que Anna iria usá-lo outra vez.
— Você não está sozinha, embora ache. Você não precisa ter medo de enfrentá-lo, embora pense. Eu vou estar te olhando, em todo o caminho de ida, e em todo o caminho de volta. Sei que você se abre mais com a Nina, se sente mais confortável conversando com ela. Mas apenas seja você mesma. Não há motivos para tentar ser somente o que os outros querem que você seja.
Anna voltou o olhar para seu suco e ouviu um choro ao lado. Ao olhar para Mirie, viu que ela estava transbordando em lágrimas. A Primordial a observou, espantada, e então olhou para Clarah, de pé, meio sem jeito.
Era notório que queria um abraço... todavia tinha muita dificuldade para pedir.
Anna se levantou da cadeira e foi até ela, Thunf... oferecendo um abraço calmo e caloroso. Clarah a abraçou de volta — os olhos cheios de lágrimas, ainda tentando se controlar.
Depois de alguns segundos, Clarah a soltou e foi até a mesa. Sentou-se em uma cadeira e começou a tirar seus tênis brancos de cano alto, imitando, com outra cor, os que Nina usava. Anna observou e ajudou, segurando a meia-calça e removendo-a com cuidado, revelando as cicatrizes brancas que eram quase imperceptíveis na pele da garota. Em seguida, ajudou-a a calçar novamente os tênis.
Clarah se levantou e caminhou até a porta, decidida a trazer sua irmã de volta à vila sã e salva. Olhou para Anna e Mirie e então virou-se de costas. Assim que saiu, caminhou pela esquerda, com os punhos fechados e os braços esticados.
No entanto, ouviu uma voz outra vez:
— O Leste é para o outro lado.
Mantendo sua expressão decidida, a menina voltou seu caminho para a direita, passando pela porta da casa de Anna... A Primordial viu e virou o rosto, Glub dando um gole no suco... Contudo um chorinho ainda era escutado. Olhou para Mirie, e esta ainda chorava emocionada.
Anna deu uma entediada no olhar.
Caminhando com pressa, Clarah fechou os olhos quase em choro, lembrando-se da última vez em que viu o rosto de sua irmã:
Ano 105
Clarah tinha apenas três anos quando tudo aconteceu.
Dormia em mais uma noite como as outras quando barulhos repentinos a despertaram. Clarah se levantou da cama, esfregou os olhinhos e caminhou para o corredor. Foi então que Caroline apareceu diante dela com um semblante de medo.
Thuf...
Sua irmã a segurou pelo braço e a puxou para a cozinha. Lá, Clkt abriu um alçapão e colocou-a dentro, sem dizer uma palavra, enquanto Clarah a observava com os olhinhos arregalados.
— Shhhh! — Caroline fez um gesto de silêncio com o dedo sobre os lábios, e a pequena mais nova confirmou com a cabeça.
Trunk!
Fechou o alçapão e Clarah ouviu os barulhos se tornando abafados. Sccrrrchh... Seguidos pelo som de algo sendo arrastado no chão, Clark! e então, um barulho alto ecoou — o som de um vaso de plantas sendo quebrado sobre o esconderijo.
Clarah permaneceu em silêncio no escuro, como sua irmã havia ordenado.
Sons altos eram escutados... abafados... não era possível identificá-los. Não havia como saber o que poderia estar acontecendo na superfície, não havia como saber e muito menos imaginar o que poderia estar causando os sons que lembravam gritos e coisas sendo destruídas.
Após alguns minutos, o Primordial Branco ordenou que parassem a destruição e deixou a vila... Imediatamente os moradores começaram a ajudar os feridos espalhados pelo chão... Um cenário de guerra. Destruição e sangue para todos os lados.
Muitos correram na busca de sobreviventes nas casas e em meio aos escombros... era difícil. Encontravam membros cortados, alguns demônios divididos, outros soterrados já mortos e muitos, muitos agonizando em meio aos seus últimos segundos e suspiros de vida... e mesmo com o terror estampado nas feições dos demônios tentando tirar os escombros, tentando salvar, tentando conseguir achar mais um... não paravam, não paravam de correr atrás de seus companheiros que poderiam estar pedindo por socorro sob seus pés, porém baixinho, sem força e nem ar em seus pulmões para gritarem mais alto.
Alguns homens conversaram e decidiram que precisavam partir, precisavam sair de lá levando tudo o que podiam, como comida e água para o lugar mais distante que conseguissem encontrar...
O medo. O pavor. O sentimento de insegurança. Tinham receio de uma nova ira de Branco, e enquanto alguns procuravam mais demônios entre a destruição, outros preparavam carroças com mantimentos cheios de pressa para fugirem do lugar.
Uma jovem mulher, ao procurar comida na casa de Clarah, que não foi tão destruída, percebeu um tapete molhado com uma flor em cima. Ao pisar no tapete, Rronp... o som foi diferente, como se algo estivesse solto. Olhou para o objeto úmido, Sccrrrchh... tirou-o e encontrou um alçapão. Clkt Ao abri-lo, viu o rostinho de Clarah olhando para ela.
A mulher suspirou aliviada, porém ainda muito triste pela tragédia que havia ocorrido. Tirou a pequena do alçapão e a levou para fora de casa, segurando sua mão. Clarah não viu o corpo esmagado de seu pai — este permaneceu sob os escombros do telhado e das paredes.
A jovem a conduziu até as carroças e, quando Clarah olhou para o lado, viu a roupa de sua mãe encharcada de sangue no chão, sobre um buraco que mais parecia uma pegada de um monstro estranho.
— Mamãe?!
Thunf!
A moradora se abaixou e a abraçou, virando o rostinho da criança para o outro lado.
— Está tudo bem... Está tudo bem. — Segurava a cabeça da pequena, e esta não entendia o porquê de tudo aquilo.
Passou um tempo.
Clarah ficou olhando para os demônios até ser colocada em uma carroça. As buscas acabaram logo em seguida, e todos se prepararam após ajudar a enfaixar os machucados de algumas pessoas.
Começou.
Iniciaram a viagem em busca de um novo lar.
Sem paz.
Foram muitos dias encontrando lugares excelentes para plantio, além de água próxima e ainda escondido... contudo hesitavam em estabelecer a vila em qualquer um deles, sempre com medo de Branco. Sempre com receio de um dia o Primordial os encontrar.
Porém... Essa indecisão custava caro... muito caro.
A cada dia que passava, se tornavam mais egoístas. A empatia que tinham pelo próximo diminuía, e começavam a negar recursos àqueles que, há pouco tempo, eram seus amigos e irmãos.
Os demônios brancos e rosas da vila, que estavam feridos, começaram a adoecer, e isso fez com que os outros os abandonassem, sem quererem gastar mais recursos com aqueles que agora consideravam inúteis, e que apenas permaneciam nas carroças sem fazer nada de útil aos seus olhos apodrecidos.
Mesmo com seus gritos e lágrimas pedindo ajuda e expressando dor, os demais não se importavam mais. Apenas viraram as costas e os abandonaram no chão — alguns sem membros, outros muito doentes, e muitos fracos de fome, não conseguindo nem mesmo se manter de pé por muito tempo.
Continuaram a jornada por mais alguns dias, enquanto a comida se tornava cada vez mais escassa. Apesar de tentarem guardar o máximo possível para si mesmos, as bolsas de cada um estavam quase vazias.
Finalmente, chegaram a uma vila pacata, onde os moradores pareciam ser pessoas boas. Clarah observava os sorrisos que não via desde o início da viagem. Os moradores foram receptivos e alguns cederam pequenos cômodos usados para guardar ferramentas, oferecendo-os como moradia para algumas famílias, incluindo a nova família de Clarah.
Os dias iam passando, e Clarah dormia no chão de um pequeno cômodo fornecido. A mulher que a havia tirado do alçapão tinha um namorado, e os dois dormiam um pouco afastados da pequena criança.
Com o tempo, o ambiente na vila piorou. Os novos moradores tornaram-se cada vez mais mesquinhos e egoístas, e o bem que alguns tentavam fazer era reprimido pelo mal. A empatia foi substituída pelo egoísmo, e todos passaram a se importar apenas consigo mesmos.
A casa de Clarah foi ampliada quando o namorado da mulher construiu alguns cômodos extras. Contudo, a situação já não era boa antes, e agora, com os dois conseguindo adquirir mais coisas, piorou ainda mais para a criança.
— Olhar para a sua cara me irrita. Dividir minha comida com você... — A mulher, ao olhar para Clarah em silêncio, se irritou e se levantou, prestes a dar-lhe um tapa no rosto. Clarah, com medo, virou-se, fechando os olhinhos e recuando. — Aaaah! SOME DA MINHA CASA! QUER SER SUSTENTADA POR ALGUÉM?! ACHA QUE SOU OTÁRIA?!
A pequena não dizia nada, somente escutava as centenas de humilhações diárias.
— NINGUÉM QUIS ADOTAR VOCÊ, E ESSA MERDA CAIU PRA CIMA DE MIM!
O namorado da mulher não dizia nada, porém sua expressão mostrava repulsa por Clarah.
Após mais um início de dia em família, saiu de casa como de costume. Todos os dias, se afastava para não incomodar os dois, conforme lhe era dito. No entanto, naquele dia, ao sair, viu muitas crianças vestindo uniformes semelhantes.
Curiosa, enxugou as lágrimas dos olhinhos e decidiu segui-las.
As crianças chegaram em uma construção grande — a Escola do Primordial Verde. Clarah entrou e começou a subir as escadas com dificuldade... Thuf foi quando um garoto a ajudou, segurando sua mão com uma risada brincalhona.
— Oi!
Depois daquele "Oi!" acompanhado de uma risada e de um sorriso, Clarah mudou; não se sentia mais sozinha.
Não respondeu, mas Minty não queria forçá-la a nada, somente lhe fez companhia na escola até que a administradora a viu e a achou bonita. Com um sorriso estranho, após um tempo, foi até ela e a levou para sua sala, onde fez a matrícula e a despiu, colocando o uniforme sem pedir permissão.
A gorda manteve um semblante estranho durante todo o processo, contudo não fizera nada além de sentir a pele dela, desejando-a de forma sombria. Após Clarah sair e voltar até Minty, a administradora desceu as escadas do subsolo, indo até Rose, que mais uma vez precisaria de suas drogas.
Minty tinha cinco anos, e desde aquele dia em que viu Clarah, começou a cuidar dela como se fosse sua irmãzinha.
Clarah não falava muito, no entanto sempre observava atentamente.
Com o passar dos dias, a amizade entre os dois foi crescendo, e, mesmo muito jovem, Clarah entendia cada vez mais as coisas. Sempre estiveram na mesma sala, já que na escola de Verde não havia divisão por idade, o que foi ótimo para ela.
Depois de um ano, chegaram as primeiras férias. Ao voltar sozinha para casa e abrir a porta, percebeu que a casa fora abandonada há algum tempo. "Seus pais" haviam partido, deixando-a para trás, com raiva de terem que criar a filha de outra mulher.
Pahf...
Clarah desabou; embora tivesse sofrido abusos verbais todos os dias enquanto viveu naquela casa, ainda era melhor para ela do que ficar completamente sozinha.
Sua casa ficava um pouco distante da de Minty, e ela nem sabia que Minty morava lá. Embora isso fosse óbvio... era uma menina de quatro anos traumatizada com inúmeras coisas que nem um adulto conseguiria suportar tão facilmente.
De uma hora para a outra sua irmã, mãe e pai não se encontravam mais presentes.
De uma hora para a outra virou um alvo para sua "mãe adotiva" descontar a raiva e frustrações gritando e humilhando-a sem que a criança tivesse culpa de absolutamente nada...
Quando saiu da escola, não voltaram juntos; Minty tinha que terminar um teste com a professora naquele dia. Havia tirado uma nota ruim — estava com dificuldades para demonstrar magia da natureza mesmo "sendo" um demônio verde.
Clarah se perdeu no silêncio da solidão... a única coisa que conseguia mantê-la sóbria era pensar que sua irmã continuava viva... já que seu pai e sua mãe... esta já sabia dos óbitos. A demônio que "adotou-a" usou disso muitas vezes para atacá-la, para feri-la emocionalmente, embora Clarah sempre se mantivesse com o mesmo olhar e expressão em silêncio, o que causava um ódio ainda maior na jovem mulher completamente fora da sanidade.
— Ela precisa de mim — murmurou, limpando as lágrimas do rosto entristecido.
Se ergueu do chão... e como sempre fazia em todos os dias ao ser expulsa a gritos da casa, saiu e se afastou para perto de algumas árvores em um bosque ao Sul... Lá? Phah! Acertou um chute no tronco de uma e machucou a perna.
Segurando-a e dando pulinhos com a outra, retirou a meia-calça branca que a administradora lhe havia dado, para não sujá-la, Phah! e voltou a chutar as árvores. Phah! Ai... Phah! Arrg... Phah! Aii-ai... Sentia dor, chorava, mas não parava.
Dia após dia, 42 dias seguidos, dois meses, passou chutando árvores para se fortalecer e caçando pequenos animais para conseguir comer. Não gostava de matar aqueles seres, todavia sabia que era necessário.
Contando os dias restantes das férias dando um risquinho na parede, parou na madrugada do dia 42 e se banhou no rio, no intuito de não voltar à escola com mau cheiro.
Vestida com seu uniforme e escondendo as feridas na perna com a meia-calça, a garota acordou ao nascer do sol e viu outras crianças voltando para a escola. Respirou fundo antes de sair de casa e voltou para a casa do Primordial Verde, reencontrando Minty logo ao acabar de subir as escadas.
— Oi!
— ...Oi!
Clarah abriu um sorriso, escondendo completamente a Clarah destruída por trás daquele pequeno gesto amigável.
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