Volume 1 – Arco 2
Capítulo 35: Qual o seu nome?
Já sem a tensão do toque ameaçador de Alissa, e agora sentados no chão ao lado um do outro, os gêmeos olharam para trás no instante em que a porta se fechou em suas caras com um estrondo, deixando-os ali, sozinhos.
Rrrromm!
Após um som monstruoso ecoar pelo corredor, Nino virou-se para Nina, que permaneceu em silêncio depois que seu estômago gritou por comida.
— É... melhor acharmos essa merenda — comentou Nino, tentando aliviar a tensão do momento.
— Melhor mesmo — Nina respondeu com um leve sorriso.
Enquanto caminhavam pelos corredores, Ron-rin-ronron... a cada passo, seus estômagos se manifestavam de formas variadas, tentando chamar a atenção para o fato de que precisavam de comida urgente.
Ao observarem outros alunos indo na mesma direção, trocaram um olhar cúmplice, dividindo a mesma dúvida silenciosa. Sem trocar palavras, seguiram o fluxo dos outros.
Após alguns minutos de caminhada, finalmente chegaram ao refeitório.
Embora não entendessem completamente como o sistema funcionava, os gêmeos rapidamente perceberam o que precisava ser feito apenas com alguns segundos observando a movimentação.
Pegaram suas bandejas, acompanhadas de um saquinho contendo garfo, colher e uma faca sem ponta, projetada para não ferir carne humana... já haviam ocorrido alguns "acidentes".
Entraram na fila e, quando chegou a vez deles, não hesitaram. Encheram as bandejas com uma montanha de comida, fazendo as tias da merenda olharem assustadas. Os gêmeos agitavam suas cabeças freneticamente, pedindo mais e mais, não se importando com as reações dos outros.
Mas havia chegado a um ponto em que as tias não conseguiam colocar mais nada por cima. Para resolver o problema, Crumnmn... Nina fez emergir uma escada de pedra na cozinha e, com todas as funcionárias se sentindo pressionadas pelos dois, começaram a subir e descer, colocando comida sem parar.
Os rostos incrédulos das funcionárias refletiam a surpresa de verem os dois balançando as cabeças como psicopatas alimentícios. Quando finalmente seguiram o fluxo, Nina desfez sua magia, voltando o piso a ser como era. Mas... não havia sobrado mais nada de comida, e os alunos que esperavam pela maluquice acabar tiveram que aguardar a reposição de todos os itens.
Um item, porém, restava — as sobremesas, que consistiam em uma maçã e um pudim cremoso. A tia responsável pela entrega viu os dois se aproximarem e tremeu na base.
"Meu Deus... Vão me comer junto..." pensou, já vendo os olhos roxos se aproximarem com um pedido claro em mente.
Mas... para as sobremesas, havia uma regra: uma por pessoa, não era livre como a comida. E quando a moça estendeu uma maçã e um pudim para cada, recebeu um olhar semicerrado, uma intensidade que a fez suar, desviando o olhar, desconcertada.
— É-é-é, s-só uma por pessoa!
Aceitaram a derrota, mas demoraram a desviar o olhar dela... enquanto se afastavam lentamente.
Carregando suas montanhas de comida, procuraram um lugar vazio para se sentar e finalmente matar a fome de mais um dia. Encontraram um canto próximo a uma parede, ao lado de uma pequena mureta que dividia o refeitório de um ambiente aberto ao céu, também com mesas para se alimentarem ou jogarem jogos de tabuleiro.
Mas o que mais chamou a atenção não foi o ambiente externo, com as árvores e a pequena vegetação bem cuidada. Quando se aproximaram da mesa, notaram que, atrás dela, sentada no chão, apoiada de costas à parede, uma menina se mantinha encolhida, tentando esconder o rosto, embora mechas de seus cabelos castanho-escuros escapassem de sua tentativa de disfarce.
Os gêmeos colocaram suas bandejas na mesa, quase fazendo as montanhas de comida se desmoronarem devido à gravidade. Nino, querendo quebrar o silêncio, se agachou diante da jovem e estendeu a mão, com um sorriso amigável:
— Oi, quer comer com a gente? — ele ofereceu.
A jovem, completamente distraída, se assustou com a aproximação deles, sem ter ouvido ninguém chegando. Quando ergueu a cabeça, seus olhos estavam surpresos, e Nina quase caiu para trás, vendo-a de tão perto.
Thum! Thum! Thum!
Seu coração disparou, batendo forte no peito, quase se desprendendo do sangue e caindo na frente da menina. Seus olhos fixos na garota diante dela, maravilhada com sua beleza tão inusitada.
"V-vo-vo... Que linda..." pensou, sem conseguir desviar o olhar.
O rosto da jovem, ainda com a expressão assustada, tinha uma fofura incomum, e a surpresa de sua reação mexia profundamente com a Primordial. Cada movimento da garota tinha um efeito emocional intenso nela, deixando-a impossibilitada de desviar a atenção.
A beleza e a vulnerabilidade daquela menina mexiam com algo muito mais profundo do que já havia sentido em sua vida.
— Não... Não fiquem aqui. Todos me olham estranho. Se ficarem perto de mim, vão olhar para vocês também — respondeu a garota, abaixando a cabeça e se escondendo entre as pernas.
Os gêmeos se entreolharam. Quando viraram o rosto, procurando os olhares que a menina dizia, um menino de cabelo castanho-escuro desviou o olhar no mesmo instante, mas, além dele, ninguém parecia prestar atenção nela.
Confusos por não verem ninguém encarando, trocaram mais um olhar antes de se voltarem novamente para a menina.
— Como assim? Não tem ninguém olhando — disse Nina, curiosa.
— Eu sou um monstro... Tem sim, e sempre me dizem isso — a voz da garota saiu abafada, seu rosto colado na coxa, esperando ser rejeitada de novo.
— Monstro? — questionou Nino, sem entender.
— ...Eu matei meu pai quando era mais nova — a resposta veio baixa, com um tom melancólico. A garota agora apenas esperava julgamento. "Só saiam daqui, serão excluídos tam..."
Nino olhou para a irmã, sem saber como reagir, mas logo falou com entusiasmo:
— Que da hora! Também não temos pai! — fez um gesto de joinha, quebrando o clima pesado e tentando aliviar o peso nas palavras da garota.
Nina olhou para ele, pensando:
"Que merda cê tá falando!"
Mas... a garota riu.
Uma risada de nervoso, sem jeito, mas... sincera. Nina olhou para ela, vendo-a erguer a cabeça com aquele sorriso... aquele maldito sorriso. A Primordial travou, nem lembrava mais no que pensava instantes atrás, apenas se perdeu no sorriso tímido, acuado diante de si.
— Co-como consegue dizer isso com esse rosto? — perguntou ela, ainda rindo, mas com os olhos um pouco mais marejados.
Nino desviou o olhar por um instante antes de responder:
— É que nossa mãe morreu no parto, e nosso pai foi embora depois disso... Tenho memórias da voz dele, mas... são tão distantes que nem me lembro o que me disse...
Nino mentiu.
Se lembrava de Blacko com clareza: das palavras, dos gestos, do carinho em seu rosto. Lembrava até de como o pai o fez rir no seu primeiro dia de vida, mas tentava esquecer. Sentia raiva de Blacko, culpava-o pela morte da mãe e, além disso, as palavras de Marta criaram uma versão distorcida em sua mente, que o fazia acreditar no que queria, não no que era verdade.
— A gente não se importa com o que aconteceu com seu pai — continuou Nino, com uma confiança tranquila. — Tenho certeza de que você fez o que tinha que ser feito, certo?
Ao ouvir isso, a menina não pôde mais segurar as lágrimas.
As palavras de Nino foram mais do que simples palavras. Anos de isolamento, acreditando ser odiada, ignorada, tentando se esconder. E, de repente, do mais absoluto nada, alguém estava ali, olhando para ela, sem julgá-la, sem se importar com o sangue que carregava em suas mãos sujas.
Nino não se importava com ela; apenas sentiu curiosidade ao ver um "inseto" se escondendo no meio de outros "insetos". Mas, quando a garota disse que matou um humano — o próprio pai, ainda por cima —, o Primordial não a olhava mais como um inseto. A menina havia se tornado um ser, um ser que entrou em sua linha de respeito.
A olhou com mais atenção.
— Qual o seu nome? — perguntou ele, enquanto Nina ainda continuava travada, olhando a menina, admirando até a forma como as lágrimas escorriam pelo rostinho da jovem.
A jovem o olhou, surpresa com a pergunta, com a gentileza em suas palavras.
— Meu nome é Nathaly — respondeu ela, as lágrimas de alegria deslizando pelo seu rosto, sentindo, pela primeira vez, que era vista. Que não era apenas um fantasma no meio de outras pessoas.
Nathaly não sabia o que era ter amigos, não sabia como conversar, o que dizer ou como agir. Simplesmente não sabia. E, ao mesmo tempo, sentia um medo constante de socializar, de não saber como fazer amigos. Sendo adotada, mal conseguia trocar palavras com outras pessoas além de sua mãe adotiva.
Uma dificuldade agressiva em se socializar.
Com o avanço da tecnologia, tentava entrar em redes sociais, grupos e comunidades sobre suas paixões, como carros esportivos. Mas, sempre que via as mensagens fluindo nos chats, um pavor tomava conta dela.
Ficava paralisada, digitava uma única letra, mas logo a apagava, com o coração batendo acelerado e o medo de ser ignorada, de novamente ser deixada à margem. Ser lançada na sua solidão diária.
Passava dias e mais dias apenas observando os outros conversarem, rirem, fazerem amizades, enquanto ela... sentia-se distante e incapaz de interagir.
Com o tempo, até mesmo deixou essas coisas de lado e passava o tempo apenas com sua mãe, enquanto esta tentava ao máximo ajudá-la a se desenvolver, criar alguma amizade, ao menos interagir com os colegas em sala de aula.
Nathaly morava sozinha, mesmo com 14 anos, para, assim, criar independência.
Quando ia visitar a cobertura de luxo de sua mãe, sempre, sem exceções, recebia uma ordem de ir comprar algo na rua. Mesmo que esta a observasse de cima dos prédios, seguindo-a como uma stalker para garantir sua segurança, essa era a forma que Alissa encontrava para tentar fazer Nathaly, aos poucos, começar a falar com as pessoas — mesmo que fosse apenas na hora de comprar algo em uma loja, uma comida em um fast-food "sozinha", e coisas assim.
Pequenos gestos que, aos poucos, ajudariam a garota a começar a desenvolver melhor a fala com pessoas "estranhas".
Mas Nathaly nunca sabia como agir.
Os tutoriais e vídeos que assistia sobre como fazer amigos e socializar fugiram de sua mente no instante em que tentava colocar as dicas em prática. Tudo se apagava, e ela se via novamente em um vazio de insegurança, presa pelo medo de falhar, de ser rejeitada.
E então, naquele momento, não foi diferente.
Nino, vendo a garota ter uma dificuldade estranha, quebrou o silêncio e o vazio que havia se formado na mente dela:
— Sou o Nino, e essa feia aqui é a Nina.
A provocação fez Nina sair de seu transe e lançar um olhar irritado para seu irmão.
— Feia é teu rabo! — retrucou, claramente estressada.
Nathaly observou, com um leve sorriso, enquanto limpava as lágrimas com o moletom.
A briga dos dois, tão boba, a fez gargalhar, algo que não acontecia há muito tempo. Nino a olhou e, de repente, se lembrou de Marta. Sem pensar, colocou a mão na cabeça da garota e começou a fazer cafuné, balançando o cabelo dela suavemente, como sempre recebiam da vovó quando choravam.
— Já passou, já passou — disse ele, em um tom reconfortante.
Nathaly ergueu o olhar, surpresa, e nem percebeu que não chorava mais. Seus olhos agora brilhavam levemente. Sentia uma sensação de felicidade genuína com o gesto simples de carinho, encantada com o menino.
Já Nina se aproximou mais e estendeu a mão delicadamente até a menina. Ao sentir o toque, segurando sua mão, Nathaly olhou para ela, surpresa, mas também feliz pela gentileza.
— Tem muita gente aqui. Vi que tem mesas lá fora, quer sentar com a gente? — Nina perguntou, com um sorriso gentil.
A menina, ainda tímida e com os olhos vermelhos das lágrimas, não conseguiu dizer nada, mas assentiu com a cabeça. Era um gesto simples, mas foi o suficiente para mostrar sua disposição.
Mesmo com o rostinho ainda marcado pelo choro, havia algo de doce na forma como se comunicava, cada movimento seu era uma tentativa silenciosa de se comunicar.
Nina, percebendo o gesto, estendeu a outra mão para a jovem. Ao mesmo tempo, Nino retirou a mão da cabeça de Nathaly. A menina, com um gesto hesitante, segurou firme a mão de sua primeira amiga.
Nina então a ergueu, com um cuidado delicado, e, embora ambas tivessem a mesma idade, os gêmeos eram mais altos. Aproveitando o momento, Nina tocou suavemente o rosto de Nathaly, limpando a última lágrima que ainda escorria pela bochecha.
— Está tudo bem? — perguntou Nina, com uma suavidade rara para alguém que normalmente era tão direta.
— S-sim... — Nathaly respondeu, a voz ainda tremida.
Nina sorriu com ternura e perguntou, sem pressa:
— Quer um abraço?
A menina não soube o que responder de imediato, mas o desejo foi claro em seus olhos. Balbuciou, quase em um sussurro:
— Q-quero...
Sem hesitar, Nina a abraçou, envolvendo a jovem em um abraço apertado e caloroso. Durante o abraço, tentou transmitir, com todo o seu ser, a sensação de segurança, acolhimento e carinho que Nathaly tanto precisava. Já a jovem não sabia o que fazer, não sabia onde tocar no abraço, mas sentia o conforto do gesto.
— Pode contar com a gente pra qualquer coisa, somos amigos agora, tá bom? — Nina disse, com a voz tranquila e reconfortante.
Nathaly sentiu uma pontada no peito, um desejo imenso de chorar, mas, ao mesmo tempo, algo que se assemelhava à esperança. Não sabia se conseguiria se abrir totalmente, mas, ao menos, agora, sentia que havia alguém disposto a ajudá-la.
Com dificuldade, concordou com a cabeça, tentando controlar as emoções, enquanto ficava na ponta dos pés para manter o queixo apoiado no ombro direito de Nina, sentindo o calor da amiga.
Após o abraço, a Primordial se afastou um pouco para pegar sua bandeja, e Nathaly, segurando as lágrimas, seguiu os dois até a área externa, onde as mesas estavam dispostas sob as árvores.
Enquanto caminhavam entre as pedras do caminho, Nathaly olhou para os dois ao seu lado e, então, sem querer, seus olhos encontraram os de um garoto que a observava discretamente de sua mesa, do outro lado do refeitório. A menina não o reconheceu e apenas virou o rosto rapidamente, assim como o menino.
Esse menino, que por algum tempo nutriu uma atração silenciosa por Nathaly, ainda tinha receio de se aproximar. Temia o julgamento dos outros e também, no fundo, o medo de ser rejeitado por ela o impedia de agir. Mas, por mais que tentasse esconder, seus olhos sempre se voltavam para ela.
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