Volume 1 – Arco 2
Capítulo 62: Coleira
Vrrr... Vrrr...
— Hhuum?
Com o celular vibrando sobre a mesa, Mirlim, jogada de sono sobre o teclado do computador da ADEDA — na escola em Salvador, na Bahia, onde foi transferida como diretora — acordou quase sonâmbula.
Seus olhos ainda fechados, havia baba em seu rosto, e um palito de pirulito ainda permanecia entre seus lábios, com o doce quase derretendo.
As luzes apagadas, e o brilho do celular iluminava parcialmente a pequena área de escritório. A mulher pegou o celular com a mão direita, em um movimento lento, disputando preguiça com um bicho-preguiça.
— Alissa? — murmurou, com o corpo mole, querendo voltar a dormir. Mas esticou os braços para cima, se alongando fortemente, buscando forças para atender sem cair no sono no meio da ligação. — Departamento de polícia, em que posso ajudar? — brincou, tentando soar acordada, mas ainda com um tom sonolento.
— Mirlim... Eu não sei o que eu faço... — Alissa respondeu, caminhando, no meio da noite, pelas ruas tranquilas, com alguns carros passando. O som dos carros chegou até Mirlim.
— Quê? Onde cê tá?
Alissa olhou para os lados e, sem saber direito, chutou:
— Devo estar em Pinheiros.
— Desencalhou...? Pera! Não sabe o que fazer?! Cê tá grávida?
Alissa corou de vergonha e esticou o braço esquerdo para baixo, raivosa.
— OBVIO QUE NÃO!
Mirlim afastou o rosto do celular com o berro, mas voltou com uma provocação:
— Ah, imaginei. Nem transa, seria impossível.
Alissa olhava para frente com um semblante entediado, os olhos semicerrados.
— Arrrhf...
— Tá fazendo o que aí então? Pensei que estaria em um encontro, sei lá. Tomou outro pé na bunda?
— ...Homens não aceitam mulheres que ganham mais que eles.
— Naaaaah, você que espanta piroca mesmo.
— MIRLIM!
Mirlim afastou o celular do ouvido com o grito, ainda com seu semblante de sono.
Apoiou o rosto na mesa e colocou o celular no viva-voz, bem distante.
— Acabei de acordar, para de gritar.
— Desculpa...
— Tranquilo... Mas o que aconteceu? Faz tempo que não me liga.
— Por que você disse pra Nathaly que eu falo de extermínio em encontros?
Mirlim se aborreceu.
— Me acordou pra isso?
— Não, mas me responde antes, sua... fofoqueira! — A mais forte dava tiques no olho direito.
— Eu menti? Você é um papagaio, só repete as mesmas coisas. Mata Calamidades instantaneamente, mas não sabe ter uma conversa normal com um homem. Por que não tenta com um professor da escola aí? Seria mais fácil, se sua vida é só trabalho e trabalho. Só fala, só vive, tudo é trabalho.
— ...Você fala como se eu quisesse isso.
— Você literalmente não precisa fazer nada. Pode só viver à toa e, se surgir uma Calamidade, ligam, você vai, mata e volta a fazer o que quiser.
— Tenho contrato, não vou quebrá-lo.
— Quem pararia você? Pode exterminar o mundo inteiro. Você faz o que quer e ponto. Aposenta, vai viver. Desde criança nesse inferno de responsabilidade global.
— Você poderia fazer o mesmo, por que não faz?
— ...Tenho preguiça.
— Mentira!
— Tsc... Mentira que tenho preguiça?
— Não. Isso você tem, e muito. Mentira é você dizer que não mete o... Posso falar palavrão?
— Permitido.
— Que não mete o foda-se por preguiça. Para de brincar, só tá me testando.
Mirlim abriu um sorrisinho debochado.
— Minha vida não é o meu trabalho. Eu leio, eu... leio... — Alissa se perdeu por um instante, sem saber o que mais adicionar.
— Tsc...
— ...Não tem graça.
— Só pra você.
— ...Por que zomba de mim, se sua vida é mais lenta que uma lesma?
— Porque a minha vida é opcional, posso ser preguiçosa, não ligo. Só gasto energia no sexo, bebê — disse Mirlim com um sorrisinho, sabendo exatamente que deixaria Alissa constrangida.
A exterminadora corou, tentando ignorar o comentário da sua responsável.
— Huhum... Te liguei pra falar da Nathaly.
— Hum...?
— Fez dois amigos.
— Que legal! Fico fel...
— E agora quer me abandonar.
— AAAAAHAHAHA! — a preguiçosa berrou, não um riso genuíno, mas forçado, só para zombar da cara de sua "escrava".
— Grrr...! Não tem graça!
— Só pra você — respondeu instantaneamente, voltando a se deitar e escutando-a pelo celular.
— ...Chegaram dois alunos novos ontem, um casal de gêmeos, e fizeram amizade com ela. Hoje os três saíram, e eu assisti tudo... Minha filha está mais alegre, feliz... Mas... MAS TÁ...
— Pedi pra não gritar.
— ...Desculpa.
— Uhum.
— Mas tá apaixonada. Foram no shopping, os três juntos, e ela comprou roupa nova. Comprou um shortinho, Mirlim! Um shortinho! Nunca usou roupa curta, e agora começou a usar!
— Ué? Qual o problema? Quando eu tinha meus 15, 16, 17, eu só usava short. Uso até hoje, de vez em quando, ee... V-... — Mirlim se irritou e se ergueu. — VOCÊ TAMBÉM USA SHORTINHO, SUA HIPOCRITA! — Seu estresse durou dois segundos, mas logo voltou ao seu semblante de soninho e se deitou na mesa.
— Mas o meu não é colado como o dela!
— O dela é de academia?
— Não. É jeans.
— Aaaaaaah, Alissa! Pelo amor, né?
— Alissa nada! Nunca usou, e agora, que parece estar gostando desse garoto, começou. Isso é muito estranho! — A mulher cruzou os braços, fazendo um beicinho de ciúmes, seu rosto emburrado. O celular ficou ali, flutuando no ouvido e seguindo os passos da exterminadora.
— Nossa, o que será que é mais estranho? Uma menina usar um short ou uma mulher adulta que persegue uma adolescente em todo canto assim que ela coloca o pé para fora do apartamento?
— Eu sou a mãe dela! Ela nunca reclamou da minha proteção!
— Reclamou hoje, esqueceu, fofa?
— Grrr!
— ...Ainda acho isso bem estranho. Aquela coleira que você colocou nela... Me responda rápido, sem rodeio, sem NENHUM rodeio, escutou?
— Uhum...
— Tem um rastreador na coleira dela?
— ...Nãão... — Alissa girou os olhos, e seu tom de voz não passava credibilidade alguma.
— Quero a foto no meu celular, até amanhã de noite, do rastreador, depois que você tirar da coleira da garota. Coisa feia!
— ...É uma gargantilha.
— Silêncio — ordenou bem baixo, mas em um tom rigoroso, que fez Alissa curvar levemente a cabeça, mesmo sem estar fisicamente presente.
— ...
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