Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 60: Março que vem

— Traz água pra mamãe... Acho que estou morrendo — murmurou Alissa, com dificuldade, seu rosto pálido e os olhos quase fechando, sua pressão indo de berço.

— Mãe! Para com isso! — Nathaly exclamou, tentando manter a calma, mas a cena diante dela a deixava nervosa.

Alissa, deitada, sendo segurada praticamente no colo pela filha, desapareceu de repente, surgindo em pé, com os braços cruzados e de costas para Nathaly. Olhava para fora da varanda, na mesma direção que Nina, mas quatro andares mais abaixo.

A exterminadora continuava de costas, seus ombros balançando levemente, acompanhando o movimento de sua cabeça, que se agitava com soluços dramáticos, e um choro baixo que parecia não ter fim.

Nathaly a observava, semicerrou os olhos, e se levantou, sentando-se na cama.

— Eu fiz dois amigos... — A voz soou baixa e quase perdida, mas a dor transparecia em suas palavras. Uma lágrima escorreu de seu rosto, passando pela cicatriz, descendo até o queixo e saltando, caindo em suas mãos, que se apertaram, tensas e fortes, enquanto sentia uma felicidade esmagadora, incapaz de controlar as outras lágrimas que começavam a se formar.

— Os dois conversaram comigo no refeitório ontem... Ninguém nunca tinha feito isso. Eu disse que era uma assassina, que tinha matado meu pai, e eles não se importaram. Só me chamaram pra comer com eles, e disseram que agora éramos amigos...

Alissa ouvia atentamente, mas a dor de atender ao pedido de Nathaly apertava seu coração, tornando impossível ignorá-lo.

— Eu me sinto protegida perto deles... Da mesma forma que me sinto quando você fica me seguindo, ou quando manda uma mensagem fingindo que está no seu apartamento, mas, na verdade, está igual um fantasma me observando dormir, no canto do meu quarto...

Alissa fez uma careta sem graça com a pequena provocação que a menina fez, mas manteve o olhar fixo, sem virar, apenas escutando.

— Eu quero... que pare de me seguir. Quero que me deixe ter privacidade — tentou dizer com firmeza, mas a frase saiu como um murmúrio baixo, sem força.

Alissa se virou, sentando-se ao lado de Nathaly na cama, segurando suas mãos com força.

— Não, não, não! Olha o que está pedindo! Você é... é uma criança ainda. Não sabe do mundo, preciso acompanhar você, estar ao seu lado o tempo todo!

— Você me seguindo deixou eles assustados... Por favor, pare de me seguir...

Alissa estremeceu com as palavras. Sua filha nunca havia sido tão direta, tão distante. E aquela constatação a atingiu de uma maneira que ela não esperava.

— Nathaly, você tem 14 anos, de repente conhece duas crianças e já mudou completamente! Comprou roupas novas, NUNCA gostou de tênis assim, de cano alto, sempre usou roupas largas, e... e...

— Mãe! Eu finalmente me sinto bonita! — A voz falhou, mas continuou, tentando se fazer entender. — E-eu finalmente não me sinto sozinha! Eu não quero perder meus dois amigos, eu tenho medo de que você me siga e afaste eles de mim...

A exterminadora ficou em silêncio, ouvindo a filha.

Aquilo a feriu profundamente. Nathaly não pensou nas palavras que disse, mas elas acertaram em cheio.

Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mãe, mas dessa vez não era de suas reações exageradas, era pelo mais profundo choque. O sofrimento transbordava de seus olhos, e seu rosto não mostrava mais expressão alguma.

— O que eu sou pra você? — perguntou, a dor clara em sua voz. — Pensei que eu era o seu tudo, mas não consegui suprir nem o mínimo do que lutei pra conquistar. Desculpa...

— Nã-não! Eu falei errado, mãe! Eu te amo! — A menina se levantou rapidamente, correndo para abraçar Alissa. — Não foi isso que eu quis dizer... Eu só me sinto sozinha por não ter amigos! Eu te amo, me perdoa, por favor...

Alissa continuou cabisbaixa, mas sentiu o abraço apertado da garota e, mesmo em sua dor, não conseguiu afastar a filha. Aquela era uma verdade dolorosa, uma ferida aberta que nenhuma das duas sabia como tratar, mas, mesmo assim, naquele momento, o abraço foi o que mais importou.

A menina nunca tinha presenciado sua mãe dizer a palavra "desculpa", seja por ego ou até mesmo errando. Mas quando escutou sendo direcionada para ela, aquilo doeu, e queria muito conseguir o perdão, abraçando-a com força.

— A companhia dos dois é mais legal que a minha, né? — murmurou a mãe, a tristeza transparecendo em sua voz. — É comum acharem que sou um monstro. As palavras do seu amigo na sala de aula devem ser verdadeiras. Ninguém me respeita lá, só me temem.

Nathaly se desvencilhou do abraço, ficando de pé. As lágrimas ainda em seu rosto, mas as ignorou enquanto olhava para Alissa.

— O que você acha? O que quer que eu faça? — Alissa abaixou o olhar, pensando em voz alta. — Me desculpe, realmente... Parando pra pensar... talvez sempre tenha sido minha culpa você não ter amigos.

Nathaly abriu bem os olhos, observando a tristeza da mulher.

"Não é verdade! Você não fez nada de errado!" Queria negar, queria gritar que não era verdade, mas não disse nada. Apenas sentiu o peso daquelas palavras.

— Provavelmente não se aproximavam de você... por minha causa, não por causa de... de você matar o seu pai — falou, as palavras pesando como chumbo. — Sinceramente, ninguém deve saber disso... a não ser que você tenha gritado para a escola inteira ouvir.

A menina se estremeceu com a ideia. Sua mente foi tomada por uma avalanche de pensamentos e dúvidas, e as palavras de sua mãe fizeram mais sentido do que ela gostaria de admitir.

— Imagino que ninguém se aproximava de você por causa de mim. Tsie... — riu de maneira amarga, o som irônico carregado de dor. — Toda a escola deve me temer, assim como aquele... o rapazinho, que esqueci o nome...


AAtchim! — Nino espirrou do sofá, o som ressoando pela sala, e piscou duas vezes, com a alergia imaginária. — Hãm...? Eu nunca passei mal... — Olhou ao redor, estranhando a sensação de algo ausente. — Não tem ninguém me observando... Que estranho...

Franziu a testa, incomodado com o ocorrido, mas logo desviou a atenção para a novela que sua avó adorava assistir, antes dos jornais começarem.

O espirro o deixou distraído o suficiente para se perder em mais um dos episódios diários que ainda estavam beeeeem distantes do fim... Uma novela quase infinita.


— Me desculpe de verdade, Nathaly. Mas minha presença que te deixou sozinha todos esses anos, desde que fui te buscar, tão pequenininha, naquele lugar. Você é uma garota incrível, bonita e forte. Não faz sentido ninguém ter trocado uma palavra com você, mas agora... agora o problema sou eu... sempre foi eu.

— Mãe... — disse baixinho, as palavras da mãe pesando em seu coração.

— Vou... Vou tentar mudar na escola... Tentar ser menos rígida dentro de sala, talvez assim você possa fazer mais amigos — falou com um tom de arrependimento, ainda tentando achar uma solução.

— Mas isso nunca foi o ponto! Eu já tenho você e dois amigos, não preciso de mais! Eu só quero mais privacidade... Poder sair, brincar com eles, sem que eles se sintam constrangidos ou com medo. Nino disse que sentia que alguém queria que ele morresse!

"Queria mesmo, não vou mentir, não."

— Os dois poderiam ter desistido de serem meus amigos, mas não foram embora. Ficaram, me escutaram e conversamos até sobre você.

— Eu? — Alissa olhou para ela, surpresa.

— Sim, falei o que você me disse sobre os países e que não ligam de verdade pro Brasil.

— ...Você foi fazer um piquenique e o assunto foi geopolítica? — a exterminadora perguntou, com um olhar entediado, quase cínico.

— ...Você vai em encontros e o assunto é seus extermínios — a menina retrucou, com a mesma ironia na voz, alfinetando sua mãe com um sorriso de canto.

— Heeeein?! — Alissa afastou a cabeça, olhando a filha incrédula pela rápida resposta e alfinetada.

— Tia Mirlim que falou.

— Aaaahhahah... Entendiii... — Alissa deu uma risada nervosa, seus olhos começando a se estreitar de forma desconfortável. — Vou conversar um pouquinho com ela depois, saber o que andam conversando...

"...Desculpa, tia Mirlim..."

— Além desse assunto broxante, falaram sobre o quê?

— Sobre de onde eles vieram. Disseram que era só mato com uma cidade bem pequena. Não sabiam o que era carro, shopping, nem usar escada rolante. Hoje foi bem legal! — exclamou com um sorriso radiante.

— Mais alguma coisa?

— Acho que não...

Alissa se aproximou, fixando o olhar na filha.

— Teeem certeza?

Nathaly a olhou de volta, o rosto agora mais sério, quase desconfiado.

— Você viu o resto, só não escutou as conversas. Por que tá me perguntando? Nino me trouxe de cavalinho, foi legal, nem estreei meu tênis novo por conta disso. E ele também me mordeu, brincando comigo de canibal.

— ...

— ...

O silêncio pairou entre elas por um momento, até que Alissa foi a primeira a quebrá-lo:

— Entendi...

— ...

— Está realmente feliz? São realmente pessoas boas? Consegue me afirmar isso?

Nathaly assentiu, com um sorriso simples, mas sincero.

— Quero escutar da sua boca. São realmente pessoas boas? Confiaria sua vida nelas, assim como confia em mim?

— Sim. Confio, mamãe.

Alissa desviou o olhar brevemente, o rosto ficando mais pensativo, com uma expressão carregada de preocupação.

"...Espero que não seja uma ilusão por uma paixão forte... Como... minha prima teve..." pensou, mas não disse em voz alta. — Harrf... — suspirou, a expressão tornando-se mais suave, mas com um toque de apreensão. — Eu... Eu realmente sinto medo de deixá-la sozinha, mas... vou tentar. Só que vou deixar isso pra março vem. Quando você completar 15 anos, vou lhe dar mais liberdade. Mas com uma condição...

Os olhos de Nathaly brilharam de curiosidade e empolgação.

— O quê? — perguntou, quase sem conter a alegria.

— Pelo menos um dia na semana, passaremos juntas, e...

Voltou o olhar carinhoso para sua filha, com um sorriso meigo, vendo sua menina concordar com a cabeça de maneira simples, mas cheia de amor. Porém, a exterminadora mudou sua feição, mostrando seu lado possessivo, ciumento e controlador, acabando de dizer o complemento de sua condição:

— E QUERO UM DIÁRIO ESCRITO POR MENSAGEM DE TUDO QUE TU FIZER EM CADA DIA, TODOS OS DIAS NO MEU CELULAR ANTES DA MEIA-NOITE, SEM EXCEÇÃO! CONTENDO HORA, PARÁGRAFOS, PRINTS, DETALHES MINUCIOSOS DESDE A COISA MAIS BANAL ATÉ A MAIS IMPORTANTE, E FOTOS COMPROVANDO SEUS DEPOIM... SEUS DIAS SEM MIM! ATÉ VOCÊ COMPLETAR SEUS 18 ANOS!

— MÃE!

— MÃE NADA! — Alissa cruzou os braços e fechou os olhos, virando o rosto com um ar aborrecido. — ACHA QUE É FÁCIL SER MÃE?

— Mãe! Por favor... Por favorzinho...

Alissa abriu um olho apenas, observando o semblante pidão da filha.

— A senhora ainda tem bons meses até eu fazer 15 anos... Por favor, imagina só o tempo que ia me custar fazer tudo isso que pediu? Uma redação do meu dia... todos os dias. E, vindo de você, ainda estaria me seguindo pra saber se estou escrevendo tudo certinho!

"É... Não vou mentir, não." a mãe pensou, então suspirou antes de responder. — Dois dias na semana, dois, eu quero passar com você então. Até seus 18 anos, depois você pode, sei lá... Snif-Snif... se quiser, nem precisa mais olhar na minha cara, já está doida pra isso mesmo.

— DRAMÁTICA!

— Hrrum! — murmurou, virando o rosto com os olhos fechados, ainda com os braços cruzados, mas agora soltando um pequeno sorriso.

— ...Combinado então? Março que vem, nós duas, curtindo dois dias por semana? Pera... Você diz isso, mas sempre que vou no seu apartamento, fica na banheira o dia inteiro!

— ...

— Esses dias sem conversa ou PERSEGUIÇÃO, ao menos nos darão assuntos que se acumularão para conversarmos nos dois dias que passarmos juntas.

— Uhum... — Alissa se levantou sem nem olhá-la, seguindo em direção à sacada. — Vou pra casa, então... Já que minha companhia é ruim...

Nathaly estreitou os olhos, vendo o drama em pessoa agir.

— Fique bem. Tentarei mudar, ao menos ter mais paciência em sala. Devo isso a você, esses sete anos não foram com você se isolando. — Virou um pouco o rosto para trás, olhando para baixo, sem forças para encarar a filha enquanto falava. — Foi eu lhe obrigando a ficar sozinha, mesmo sem perceber. Desculpa mais uma vez. Te vejo amanhã na escola.

Fu!

Sumiu, sem nem alterar o ar, enquanto Nathaly olhava para a direção que sua mãe se encontrava. Mas... conhecendo-a, ainda mais o drama exagerado, olhou para o guarda-roupa que curiosamente se encontrava fechado, coisa que, um instante atrás, estava aberto.

"Tiiiiiii... Sabia!" pensou, se levantando e indo até a porta. No entanto, parou no meio do caminho, refletindo por um momento. "Não... Não vale a pena..." Sentou-se na cama e murmurou baixinho, em uma altura que seria possível que Alissa escutasse de lá de dentro: — Te amo... Mãe. Seja verdade ou não. Seja a razão desses sete anos ou não. Eu te amo, e você me buscou naquele dia. Me abraçou. Me beijou na testa, na bochecha... Algo que minha mãe biológica nunca fez... Isso fez minha vida começar a ter cor. Minha vida que ficou cinza desde a cicatriz no meu rosto... Queria poder te pedir desculpas... Queria poder dizer isso pessoalmente, mas foi embo...

Bramp!

BUUÁÁÁÁ! — Alissa saltou do guarda-roupa, chorando como um bebê, e abraçou Nathaly com força, pressionando o rosto da filha contra seus seios. — Também te amo muito, minha menina.

Nathaly apenas permitiu-se ser esmagada nos braços no corpo da mãe, até que a mãe a afastou gentilmente, segurando seu rosto com as mãos.

— Desculpa, mamãe! — a menina disse com as bochechas cheias, tentando não fazer biquinho, mas os dedos da mãe a forçaram a isso.

Mwah! — Alissa beijou a testa da filha antes de apoiar sua própria testa na dela. — Vou ir agora, tá? Obrigada por essas palavras, eu te amo muito. Mwah! Tchau. — Com mais um beijo na testa, se virou, subiu na mureta da sacada e desapareceu instantaneamente, deixando apenas uma última olhada na direção de sua filha.

Nathaly, com um sorriso, retribuiu o gesto, sentindo um calor no peito.

"Dramática..." pensou, com um sorriso bobo nos lábios.

Se despiu, vestiu um pijama clarinho, bem leve, e se preparou para dormir, sentindo, pela primeira vez, um misto de sentimentos e sensações múltiplas, que mal sabia como controlar, ou tinha conhecimento para tentar entender.

Plu!

Apagou a luz... e viu uma silhueta atrás da cortina.

Seu semblante se entediou imediatamente.

Pli!

A silhueta desapareceu.

Plu!

Continuava lá.

Já sem paciência, caminhou até o canto do quarto. Quando puxou as cortinas, não havia nada, apenas a claridade que a lua proporcionava, deixando o quarto em um lindo tom divino e calmo.

— Arrrrff... — resmungou, exasperada.

Sem nem pensar duas vezes, foi até a sacada.

Olhou para a direita, não viu nada. Olhou para a esquerda, também nada. Mas a assombração estava ali, bem acima de sua cabeça, se apoiando no teto e a observando com atenção.

— Eu não vou olhar, porque sei que vai sair assim que eu fizer isso. Mas eu tenho certeza que está atrás de mim, então... VOCÊ PODERIA ME DEIXAR DORMIR?!

Snif-Snif... — A voz da exterminadora soou, acompanhada de um fungado dramático, à beira de começar a chorar. — Tudo bem... T-tu-tu-tudo bem... Se você quer isso, eu vou embora... Tchau... Quando eu morrer, voc...

— PARA! — Nathaly se virou, olhando para o teto, e o que viu fez todo o seu corpo se arrepiar. "Ightt... Credo..." Alissa, toda torta no teto, com um olhar que só poderia ser descrito como... macabro.

A mãe surgiu na sacada mais uma vez, movendo-se com a leveza sobrenatural de sempre.

Dessa vez, Nathaly permaneceu ao seu lado, observando-a sair. Sem mais desaparecer em velocidade absurda, Alissa simplesmente saltou da sacada, Vuf... aterrissando com perfeição — sem sequer dobrar os joelhos para amortecer a queda.

Seguiu caminhando em um passo dramático, lançando um olhar para cima.

Encontrou os olhos semicerrados da filha, que a observava com desconfiança. Em resposta, fez uma última careta chorosa, Snif-Snif... e fungou tristemente... Mas seu teatro desmoronou quando espiou de canto de olho, esperando alguma reação.

Nada.

Com um suspiro resignado, apenas continuou seu trajeto. Assim que saiu do campo de visão de Nathaly, sua postura mudou. Deixando para trás a cena teatral, acelerou de repente, disparando em uma corrida veloz para cruzar os mais de seis quilômetros de Água Branca até o seu apartamento, em Itaim Bibi.

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