Volume 1 – Arco 2
Capítulo 59: Pirraça
Caminhando despreocupadamente pelo corredor até o apartamento, Nino e Nina finalmente chegaram. Nina colocou a mão no escâner, e a porta foi destrancada. Entrou primeiro, e assim que Nino a acompanhou, Prac... empurrou a porta com o tornozelo e a fechou atrás deles com um som abafado.
Nina o olhou um pouco séria, quebrando o silêncio que havia tomado conta:
— O que aconteceu lá? Vocês dois estavam se tratando de uma forma bem estranha. Tá pegando ela? — jogou o verde, só aguardando a confirmação do que já sabia.
Nino fez uma careta, claramente incomodado com a pergunta.
Caminhou até o sofá e se sentou, ignorando sua irmã por um momento.
Ligou a televisão, e Nina, permanecendo em pé, apenas o observava com um olhar curioso.
Quando se acomodou no sofá, ainda de costas para ela, a conversa continuou:
— Nunca mais fale isso — disse ele, sem se virar, mantendo o olhar fixo na tela da TV.
Nina, por dentro, sorriu de forma sádica.
"Será um prazer... só não hoje." pensou, observando-o com uma mistura de tédio e curiosidade. Ainda tinha o risco de escutar algo que não queria nem um pouco, mas era um risco a se pagar.
Queria saber mais, queria ter a absoluta certeza de que seu irmão não sentia nada pela menina que fazia seus batimentos terem sentido.
"Não posso me misturar, mas posso irritá-lo até abrir a boca sem pensar direito... eu acho." Observando seu irmão assistir televisão, voltou à conversa: — O que aconteceu lá? Disse que ia contar em casa, já que lá era arriscado. Arriscado por conta da Alissa? — perguntou novamente, sem deixar de analisar cada movimento dele.
— ...Também. Enquanto eu esperava vocês, ela apareceu no corredor, perto dos provadores, e falou algo. Só que eu não consegui entender direito. Quando me aproximei, a funcionária do shopping apareceu e, no mesmo instante, Nathaly me puxou para o provador com ela.
— E o que rolou lá dentro?
— Só confirmei o que já sabia. Ela sente atração sexual por mim. Queria me mostrar a roupa, buscava minha aprovação, já que é toda insegura com a aparência dela. Se acha feia, coisa assim. Você já deve ter percebido isso.
— Sim.
— Falei algumas palavras para melhorar o ânimo dela, principalmente sobre como ela se via. Mas quando eu vi a coxa dela... fiquei... excitado...
"Quê?!" Nina havia se sentado no banco da bancada, olhando para seu irmão, que apenas continuava a contar a história de costas para ela.
Quando escutou aquela palavra, seus olhos se arregalaram e seu coração começou a bater de forma aleatória, as batidas fora do controle, lentas, longas, aceleradas e momentos onde apenas parava.
Nino não percebeu.
Nem a olhava.
Continuou, desabafando sobre algo que o atormentava:
— Queria comer, rasgar a carne... Queria devorá-la inteira, senti uma sede de sangue muito intensa. Eu a toquei, a maciez das pernas, a suavidade da pele, o detalhe na coxa fazendo a carne parecer linguiças me lembrou da vovó fazendo linguiças pra nós dois... Eu tava com muita fome, e quando eu brinquei de morder, lamber as dobrinhas da perna dela, senti o gosto do suor, e aquilo destruiu minha sanidade. Eu ia atacá-la, ia matá-la, mas quando me dei conta de que a mordida que eu iria efetuar não era mais apenas uma brincadeira, eu acordei e me afastei, tentando me controlar.
"Pera, não é sexual?" Nina se aliviou ao escutar tudo aquilo, mas decidiu fazer uma pergunta para confirmar sua dúvida: — Então você ficou excitado para matá-la?
Nino virou ligeiramente o rosto para olhar sua irmã. A pergunta foi tão estranha para ele que levou um tempo para que entendesse.
— Pelo que mais eu ficaria? — respondeu ele, com uma expressão estranha, voltada para irritação.
— Ela sente atração por você, então por que não fez nada com ela lá dentro? — insistiu Nina, forçando sem papas na língua o que queria saber. Precisava irritá-lo para obter a verdadeira opinião do garoto, a partir do momento em que, mesmo estando irado um com o outro, em qualquer situação, ainda conseguiam olhar para o rosto um do outro, se abraçar e falar: "Eu te amo".
Nino ficou em silêncio por um momento, antes de responder com um tom severo:
— Que merda cê tá falando? Quer que eu me aproveite da inocência da humana?
"'Humana'? Tá quase, só mais um pouco." — Você brincou de morder a perna da menina, lamber... Literalmente deixou ela excitada. Pensei que estivesse gostando dela. O que sente por ela?
— Não sinto nada. Ela é só uma pessoa com quem não me importo de estar perto, e me importo apenas em não matá-la, ou deixá-la morrer.
— Resumiu a nossa avó... e você a amava — retrucou com um olhar de tédio, seu tom cansado.
— Então eu amo essa garota, assim como amo você e a nossa avó.
"...Ele realmente não sente o que eu sinto." — Você não mordia nem lambia nossa avó. Por que fez isso com ela?
Nino inclinou a cabeça, desviando o olhar, sem saber como explicar direito:
— Eu só queria ver até onde a sensação de ser observado pela professora ia... Quando fiz isso antes de sairmos, a pressão ficou muito forte. Aí usei a menina como uma cobaia. Senti que ia morrer, meu coração doeu, ficou pesado... Sei lá. Depois disso, parei de morder as pernas dela.
— ...Mesmo assim, Nathaly gosta de você, mas de um jeito diferente do que você sente por ela. Se você quisesse transar com ela, não seria se aproveitar da inocência dela, já que ela quer.
"Que merda de papo é esse?" Nino franziu a testa, incomodado, um tanto irritado. — Não sinto desejo nem atração por relacionamentos ou sexo. Tanto faz. Ainda mais com uma humana — respondeu em um tom rígido, virando-se para a televisão.
— Nosso pai namorava uma humana — Nina respondeu, já querendo pôr o último prego no caixão, da certeza de que seu irmão de fato não escondia nada em relação à menina que atraía seus olhos como um imã.
A menção do pai atingiu Nino como um soco, deixando-o irado. Virou rapidamente o rosto para ela, com seus olhos estreitos, dilatados pela raiva, e a marca em seu pescoço rasgou a pele, evidenciando o ódio que sentia de ser minimamente comparado com seu pai.
(Gêmeos com suas roupas de sangue, 17 anos, 2023.)
— Eu não sou o merda do meu pai! — gritou, quase rugindo.
— Esconde isso e se controla — respondeu com calma, a ironia em sua voz era clara. — Não entendo o ódio que sente dele, nem o porquê de menosprezar quem te deu tudo, chamando nosso pai de fraco, de merda. Você realmente acha que se ele estivesse vivo, conseguiria quebrá-lo na porrada, como sonha todos os dias?
Nino a encarou em silêncio, mas logo desviou o olhar, acatando a ordem de esconder a marca em seu pescoço. Depois, com um sorriso de puro desprezo e raiva, finalmente falou, deixando o egocentrismo, sadismo, psicopatia, ódio, raiva, tudo que puxou do seu pai — que não tinha muitas coisas positivas — falar mais alto... transparecer em seu ser:
— Arrancaria o coração dele e mostraria pulsando na minha mão, antes de matá-lo, olhando-o no fundo dos olhos — disse sem qualquer empatia, seus olhos revelando a verdadeira natureza de seu sangue, a necessidade de destruição e caos.
— Tsi... — Nina balançou a cabeça, seu sorriso irônico mostrando seu tédio com aquele show de raiva. Olhou-o de canto de olho e, com um suspiro, completou: — Tá tão irritado que começou a falar palavras bonitinhas, esqueceu do mais belo português informal? Deixa de ser imbecil, já te mandei se controlar. Não tem desculpa de estar com fome.
Nino a encarava, a irritação evidente em seu rosto. Mas, no fundo, sabia que sua irmã estava certa. Por mais que a raiva queimasse dentro dele, apenas ouvia, sem interromper.
Era assim que sempre funcionava entre eles. Quando Nina não tinha cabeça para algo, ele assumia. E, da mesma forma, agora era a vez dele apenas escutar, permitindo que ela conduzisse a situação em silêncio.
— Primeiro: nosso pai tinha mais de 100, 200 anos, se depender tinha mais. E nós... temos 14 anos de conhecimento. Nem preciso dizer ou desenhar o pau que iríamos tomar mesmo indo junto nele. Segundo: essa raiva toda é pura BURRICE! Você fica alimentando essa merda na sua cabeça, mas se ele surgisse, mesmo você querendo matá-lo, ia ficar igual uma criança birrenta, todo nervosinho, não querendo ir vê-lo por pirraça, ou para não escutar da boca dele o que aconteceu, o que ele tem a dizer, porque a única verdade que importa pro minininho aqui, é a que você pensa, a sua versão, e nada mais.
Nino desviou o olhar, a cabeça levemente baixa. Não sabia como responder a isso.
— Terceiro: você percebeu que estamos sendo vigiados, né? E não é só por causa da Nathaly. O que significa que tem que PARAR de fazer merda, ou pelo menos parar de PENSAR nisso. Escutou? — A voz de Nina foi mais baixa, mas a ênfase em algumas palavras fez a bronca soar ainda mais pesada.
— Ahãm... — murmurou, sem muito o que dizer.
— Vou me deitar um pouco, tô morrendo de preguiça de tomar banho agora — disse ela, saindo pelo corredor com a sacola dele e a dela, indo até o quarto.
— Só queimar seu corpo, se purificar de suor ou o que for que seja — respondeu, ainda distraído com a televisão.
— Não tomo banho só pra me limpar, isso faço como você falou. Eu tomo banho porque a água quente é gostosa, prefiro isso do que, sei lá, usar magia de água pra me limpar de outra forma — ela respondeu sem nem olhar para ele.
— ...Faz sentido — murmurou, com uma expressão vaga.
Nina entrou no quarto, encostou a porta, Sch-schsrshc... soltou as sacolas ao lado da cama, Paff... e deitou de barriga para baixo.
Seu rosto ficou voltado para a grande janela da parede, observando o céu escuro e a lua crescente ao fundo.
— Arrff...
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios