Volume 1 – Arco 2
Capítulo 58: Vulto
Chegaram ao prédio depois de um tempo. Antes de entrarem no elevador, Nino desceu Nathaly com cuidado, e o clima entre eles voltou ao de uma amizade agradável. Pi! Nina discou o andar sete, mas Nathaly morava no três, Pu! então também apertou o botão para ser deixada no seu andar.
Assim que as portas se abriram, Nino a segurou, e Nathaly deu alguns poucos passos indo para o seu apartamento, o 301, com Nina, Sch-Schrshhc... onde a Primordial colocou as sacolas da garota, juntamente com a comida e o que sobrou das várias garrafinhas, no chão, para facilitar o trabalho da jovem.
Nathaly sorriu, agradecida, e colocou a mão no escâner para abrir sua porta.
— Obrigada... — murmurou com um sorriso genuíno.
— Tenha uma boa noite — disse a amiga, sorrindo gentilmente, antes de se virar e caminhar de volta até o irmão. Mas a jovem, sentindo-se grata pelo passeio, queria entregar na mesma intensidade o que lhe foi entregue...
— A senha do meu apartamento... — Nina parou, e Nino também a encarou. A menina olhou rapidamente pelo corredor vazio, e mesmo sem ver ninguém, murmurou baixinho para que nem mesmo as câmeras captassem o som. — É zero, zero, zero, zero, tá? Para quando quiserem me ver — terminou com um semblante animado e um sorriso feliz pelo dia que teve.
— Por que esse número? — Nina perguntou, erguendo uma sobrancelha, seu delineado natural destacando ainda mais seu olhar.
— Ah, não sei bem... Mas acho que ninguém nunca tentaria essa combinação secreta, uhahaha! — brincou, levantando as mãos e fazendo uma risada macabra, com uma atuação engraçada no rosto.
— Tsi... — Nina soltou um risinho bobo, se divertindo com a brincadeira.
"Hãm? Realmente achou isso engraçado?" pensou Nino, observando a verdade no tom da irmã. Com o rosto levemente apático, apenas aguardou, mantendo a calma, enquanto Nina começava a se virar para ir embora.
— Tá bom... Tchau, Nathaly...
— Tchau... Pros dois! — respondeu, sorrindo.
Com um olhar terno, Nina se virou e se aproximou de Nino, que retirou a mão da porta para permitir que entrasse. A porta se fechou suavemente, e o silêncio tomou conta do ambiente, com os dois lado a lado, sem dizer uma palavra.
Não havia brigas, nem raiva entre eles. Apenas sabiam da presença da câmera no cubículo e que não era o momento de discutir o que havia acontecido dentro do shopping.
Sch-schsrshc...
Com as sacolas individuais em mãos, a porta se abriu dramaticamente, e as luzes do corredor se acenderam, iluminando o caminho para o novo lar que dividiam.
Sc-shsrshc...
Nathaly segurou as sacolas, a porta entreaberta desde que escaneou sua mão. Abriu-a mais, deixando que a luz do corredor invadisse levemente o apartamento, quebrando o escuro do ambiente.
Mas logo notou algo... inquietante.
No canto da sala, uma silhueta totalmente preta, em pé e imóvel, permanecia ali. Nathaly a observava fixamente, seus olhos bem abertos, mas sua expressão e calma demonstravam que aquilo não era nada muito... incomum.
Pli!
Com um movimento rápido, ligou a luz.
No instante em que a luz se acendeu, a silhueta desapareceu, engolida pela luz forte.
Plu!
Apagou a luz.
A escuridão tomou o lugar e a silhueta macabra voltou a ocupar o canto da sala, exatamente no mesmo lugar.
Pli!
Plu!
Pli!
Plu!
Uma sequência de liga e desliga foi feita, mas não importava o quanto tentasse, a silhueta continuava a desaparecer e a reaparecer, como se fosse parte do ambiente, uma constante ameaça invisível.
Sem dizer nada, entrou, fechou a porta atrás de si, Sch-schsrshc... e deixou as sacolas no chão, na entrada. Caminhou pelo apartamento, mantendo a luz acesa, indo até o corredor.
O layout do seu apartamento, assim como todos os dos Blocos da ADEDA, para alunos, era o mesmo dos gêmeos.
Sem hesitar, tirou o celular do bolso de trás e abriu a conversa com sua mãe. Chegando no quarto, viu novamente a silhueta — dessa vez atrás da cortina, em pé, com a mesma postura que assumia na sala.
Sabendo bem o que fazer, ligou para Alissa. E, curiosamente, assim que a ligação começou a tocar, a silhueta desapareceu.
Instantaneamente, a ligação foi atendida:
— Oiii, filha, como você tá? — a voz animada de Alissa soou do outro lado da linha.
A surpresa da jovem foi palpável. A exterminadora não sussurrou ou falou baixinho como a menina esperava que fosse, apenas atendeu visivelmente animada... Um entusiasmo que soava muito mais intenso do que o usual.
Alissa, naquele momento, se escondia em pé, dentro do guarda-roupa. Sua voz, mesmo alta, não saía de dentro do lugar, pois a exterminadora impedia, com um de seus dois poderes, que o som se propagasse, resultando na descoberta de seu esconderijo.
Pli!
— Tô bem...
Mas Nathaly sabia exatamente o que fazer.
Acendeu a luz do quarto e, conhecendo bem os hábitos de sua mãe, caminhou lentamente até a porta direita do guarda-roupa. Enquanto falava, já se preparava para abrir a porta e pegar Alissa no flagra.
— Queria falar uma... — Brup! Abriu a porta com tanta força que se esqueceu de segurá-la, resultando em uma batida no fim do trilho — coisa com a senhora... Sabe?
A cena do crime era óbvia para a Detetive Nathaly... mas seu alvo não foi encontrado.
Nathaly não via, mas algo espreitava nas sombras.
No canto da parede, fundida ao teto como uma aranha... ou uma mulher possuída de algum filme de terror, Alissa se mantinha presa de forma impossível.
Seu corpo torcido, os olhos arregalados fixos na filha.
Uma mão segurava o celular na orelha, a outra tocava levemente a superfície da parede.
Mas não havia atrito.
Nenhum apoio.
Apenas o vazio sustentando sua presença ali.
Flutuava na gravidade.
"Ué? Eu tinha certe..."
A jovem interrompeu o próprio pensamento ao notar algo estranho. No chão, ao seu lado, uma sombra a mais. Thum. Thum. Seu coração acelerou. Virou-se bruscamente, procurando sua mãe — mas Alissa já não estava mais lá.
Em um instante, disputando velocidade com a própria luz, a mulher desapareceu do canto do quarto e reapareceu atrás da filha, sem que Nathaly percebesse.
Ou ao menos, até ver outra sombra além da sua no chão.
— Tá na banheira, mãe? — perguntou no celular, virando-se rapidamente.
Mas Alissa se moveu junto.
Como uma dança sinistra, acompanhou o giro da menina, deslizando por trás dela sem ser vista. Sua silhueta escorregou para fora da sacada, desaparecendo na escuridão entre as plantas que decoravam o espaço.
— Dá pra aparecer logo?! Eu escutei minha voz ecoando pela ligação! — brigou Nathaly, os olhos fixos na sacada, esperando que a mãe saísse de lá.
Mas Alissa não veio da sacada.
Uma mão gelada pousou sobre seu ombro.
— Vo...
— AAAH!
Nathaly saltou para trás como um gato assustado, o coração martelando contra as costelas. Seus olhos arregalados encontraram os de Alissa, agora de pé, olhando-a sem mais brincar de assombração... um vulto perseguidor, que queria levar sua alma embora.
A jovem engoliu em seco.
— Ué? Me chama e se assusta assim? — Alissa perguntou, sua voz alta e quase desdenhosa.
— OLHA COMO VOCÊ ME APARECE, QUERIA O QUÊ?! — Nathaly gritou, sem conseguir conter o pavor e a raiva que sentia ao mesmo tempo.
A mais forte fez uma careta, divertida com o drama, mas seus olhos brilharam com um toque de mágoa.
— Deixa de drama. O que foi? — perguntou ela, como se nada estivesse acontecendo.
Nathaly hesitou, os sentimentos conflitantes se acumulando dentro dela.
Doía dizer o que precisava, mas não podia adiar.
Abaixou a cabeça, apertou os punhos para se dar coragem, e, depois de um suspiro profundo, levantou a cabeça, encarando sua mãe com uma firmeza que ela mal reconhecia em si mesma.
— Quero que pare de me seguir...
Pow!
As palavras caíram como um tiro direto no coração da exterminadora.
A mulher vacilou para trás, seus olhos girando de forma exagerada, e seu corpo murchou, todo mole. Phaft... A mais forte foi derrubada por uma onda de choque emocional. Nathaly, desesperada, ajoelhou ao seu lado e começou a sacudi-la com força.
— MÃE! M...
Mas Alissa, já começando a se recompor, embora ocultasse isso, respondeu com um sorriso fraco, decepcionado. Seus olhos turvos, vivendo em uma fantasia cômica... com muito drama.
— Já entendi... Não ama mais a mamãe... Tudo bem... Eu sabia que essa hora chegaria... Mas... Eu ao menos fui uma boa mamãe?
Nathaly viu sua mãe, mais uma vez, fazendo uma encenação, seus olhos sem brilho, seu semblante de choro se tornando cada vez mais infantil, como se fosse uma criança tentando se esconder atrás de sua dor.
O drama era literal cômico, mas, para Nathaly, o impacto foi tedioso. Olhou para Alissa com uma mistura de frustração e desgosto, seus olhos semicerrados, sem saber mais como reagir ao tamanho drama forçado.
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