Volume 1 – Arco 2
Capítulo 56: Cidade Grande
— O-obrigada... — Nathaly voltou o olhar para a sua direita, lembrando-se do lanche que ainda iam abrir.
Schsrshc...
Com destreza, usou os dois grandes panos de prato que comprara, posicionando-os sobre a grama. Colocou dois grandes pratos de porcelanato branco e, por cima, colocou duas sacolas de sanduíches, criando montanhas de lanches na frente dos dois, que observavam em silêncio até então.
Curioso, Nino avançou a mão para pegar um, mas, Pa! Nathaly rapidamente o impediu com um tapinha.
O menino abaixou o rosto, olhando-a de forma debochada, enquanto segurava a mão direita com a esquerda, fazendo uma encenação forçada.
— Não é pra comer ainda! Me ajudem a desembalar todos primeiro!
— Pra quê? — perguntou Nina, observando a cena com uma animação estranha, ainda atrás das montanhas de sanduíches.
— P...
— Pra comer, né? Animal! — Nino interrompeu Nathaly, lançando um olhar desdenhoso para Nina.
— Por isso a vovó me preferia... — a irmã respondeu com um tom indiferente, virando a face para o lado oposto, claramente desinteressada.
— Calada! — rebateu, seus olhos piscando com raiva.
A jovem, alternando o olhar entre os dois, permaneceu em silêncio por um momento. Quando percebeu que ambos haviam parado de falar, finalmente respondeu, com animação:
— Comprei 300 pra cada um, pra fazer uma competição igual à de ontem. Mas dessa vez eu vou cronometrar para ver quem consegue comer mais rápido! — Sorriu, e os olhares de Nina e Nino se fixaram nela.
— Não sei se é bom. 600 sanduíches... Ou o estoque era grande assim por causa da demanda, ou é ruim e ninguém compra — observou Nina, pensativa.
— Não. É bem gostoso, o que eu comi, pelo menos tava — Nino respondeu tranquilamente, sem perder a compostura, voltando-se para ela.
"Já se acalma..." pensava a jovem, mas a tensão logo voltou, interrompendo sua linha de pensamento.
— Cuida da sua vida. Não te perguntei nada e vou destruir você, seu merda — Nina cortou.
— Cala a boca! Vai perder de novo, fraca! — retrucou, sem perder o foco, mantendo a postura soberba.
"Não... Não se acalmaram..." pensou, fechando os olhos e suspirando preguiçosamente, com os braços estendidos ao lado do corpo. Mas logo uma energia abrupta a invadiu, e ela se animou. — Anda! Me ajudem a desembalar tudo, pra facilitar na hora de comerem!
Os gêmeos se entreolharam, mas logo começaram a desembalar suas próprias montanhas de sanduíches.
Nathaly começou ajudando Nina, e enquanto se mantinha sentada por trás da pequena montanha, lançou o rosto de lado, ficando entre as duas, para fazer uma pergunta para ambos:
— Ainda estão com medo da sensação?
— Oi? — Nino não entendeu a pergunta de imediato.
— De Alissa... ela ainda está nos observando. Não importa o quanto tentem procurar, ela sempre vai sumir antes de conseguirem ver até mesmo a cor das roupas dela.
Nina respondeu com um suspiro meio aliviada:
— Hum... Só um pouco. É mais tranquilo saber o que causa isso do que o sentimento do desconhecido. Mesmo que seja aterrorizante, e que pareça que estamos sentenciados à morte, sabendo que é ela, e que ela não vai nos fazer nada, a sensação fica mais suave.
Nino, no entanto, sentia algo diferente...
— ...Eu tô de boa também.
As palavras saíram simples, mas estavam longe de refletir o que realmente se passava dentro dele.
No instante em que falou, algo mudou. O medo desapareceu. O receio se dissolveu. E o que restou foi um desejo silencioso, uma fome diferente da que esperaria sentir naquela situação.
...Atenção.
Era isso que queria desde o começo.
E agora, ele a tinha.
Mesmo que viesse carregada de intenções sombrias, mesmo que os olhos dela brilhassem com algo quase assassino, ele queria mais. Mais desse olhar, mais dessa presença esmagadora sobre si.
Nino só precisava ter certeza — certeza de que Alissa o enxergava de verdade. Que a atenção dela era dele. Que não era apenas um reflexo por estar ao lado de Nathaly.
— Tá bom...
Nathaly continuava tirando os lanches da embalagem, concentrada, quando, ao mesmo tempo, os gêmeos tiveram a mesma ideia. Em um instante de pura competição, ambos usaram sua magia sem perceber que o outro faria o mesmo.
FuuuUuUUU!
Uma forte corrente de vento girou em espiral, fazendo os lanches subirem no ar.
Rodopiavam suavemente enquanto o plástico filme se soltava e era carregado pelo fluxo de ar.
Assim que ficavam livres, os sanduíches desciam com precisão, pousando perfeitamente alinhados sobre o prato no pano de prato.
Nathaly arregalou os olhos, a boca entreaberta. O brilho da magia elemental e o controle impecável dos gêmeos criavam uma cena quase hipnotizante.
— Uau! — exclamou, fascinada.
Papapapapa!
Os lanches desceram, fechando-se com pequenos estalos, enquanto o plástico filme pousava ordenadamente dentro de uma sacola de lixo.
Como tiveram a ideia ao mesmo tempo, nenhum dos dois discutiu ou reivindicou crédito. Apenas aceitaram o feito e, com um olhar determinado, se prepararam para o duelo.
Os gêmeos então se voltaram para Nathaly, ainda absorta na cena. Mas, ao perceber os olhares fixos nela, sacudiu a cabeça rapidamente, despertando do encanto.
— Vocês querem algo para beber no meio da disputa? Tipo, quem comer tudo isso e beber dez pitchulinhas de refrigerantes diferentes ganha! — sugeriu ela, empolgada.
— Naaaah, só atrapalharia. Só comer mesmo, mais rápido e objetivo — respondeu Nina com um tom calmo e um pouco entediado, mas ainda explicando de forma clara.
— Tá! — Nathaly respondeu, colocando a mão atrás e puxando o celular do bolso. — Vou colocar o cronômetro, e assim que o primeiro terminar de limpar o prato, ganha!
— Ok!
— Ok!
Disseram eles, já preparados para a competição.
"AAAAAAH! FOFOS!" Nathaly quase estourou de empolgação. — Huhum...! No valendo... Ok?
— Ok!
— Ok!
"Eu vô môôrree..." Fez uma pausa dramática, ajustando a empolgação. — Huhum...! Três... dois... um... VALENDO!
— Nhami-Nhami-Nhami-Nhami-Nhami!-SLICK! CABEI!
— Nhami-Nhami-Nhami-Nhami-Nhami!-SLICK! CABEI!
Em um piscar de olhos, os dois devoraram toda a montanha de sanduíches.
Nathaly ficou boquiaberta quando parou o cronômetro em 00:01,73 segundos. Não apenas devoraram os lanches, mas terminaram com uma linguada destruidora no prato, deixando-o mais branco do que quando foi comprado... isso que dá não lavar a louça comprada antes de usá-las.
— QUEM VENCEU!?
— QUEM VENCEU!?
Gritaram, ansiosos.
— Ihgg... Vocês dois terminaram juntos... Mas...
— "MAS"?!
— "MAS"?!
Gritaram, ainda mais ansiosos por uma resposta.
— Mas o Nino...
— GANHEI, OTÁRIA! — Nino se levantou com um sorriso vitorioso, encarando sua irmã com provocação. A Primordial o olhou com um olhar emburrado, mas logo notou algo na bochecha dele.
— Espera! — exclamou Nathaly, apontando para ele.
— Hãm?! — Nino olhou para ela, confuso.
— Eu não terminei! Huhum... Nino está com um pedaço de alface na bochecha, e como a Nina não deixou nenhuma migalha no prato, ela é a vencedora! — anunciou a menina, com um sorriso travesso.
— QUEM É O OTÁRIO AQUI, HEEEEINN?! — Nina se ergueu triunfante, gritando no ouvido do irmão, que agora assumia um semblante de tacho, claramente constrangido pela derrota, mas aceitando-a sem muita resistência.
Nathaly riu suavemente, observando os dois, antes de pegar as outras sacolas e preparar os lanches sobre toda a extensão do pano de prato.
Embora os sanduíches fossem para a competição, sabia que os dois comiam muito, então decidiu comprar bolos recheados, doces, salgados variados fritos e frios, além de uma variedade de garrafinhas, estilo pitchulas, de várias marcas famosas que selecionou, para oferecer muitos sabores diferentes de refrigerante, ao invés de apenas uma única opção grande de 2L.
Os gêmeos se sentaram novamente, e Nathaly estendeu a mão, apresentando o piquenique com um sorriso.
— Podem comer... De maneira civilizada desta vez... — brincou, e os dois começaram a experimentar coisas que nunca tinham provado antes, o que fez com que Nathaly os observasse com um olhar admirado, vendo-os gostarem dos novos sabores.
Passou algum tempo, todos comendo tranquilamente em silêncio, imersos no som do farfalhar das folhas ao redor. Era exatamente o que todos precisavam: uma tarde tranquila, sem as preocupações de antes.
Mas... com o estômago cheio, Nathaly queria saber mais sobre os gêmeos e, de forma simples, fez uma pergunta:
— De onde vocês vieram é parecido com aqui?
Nino foi o primeiro a responder, não com palavras, mas com um simples movimento de cabeça negando enquanto terminava de experimentar todos os sabores dos refrigerantes, segurando uma coxinha com catupiry na mão esquerda.
— Nenhum pouco — disse Nina, assumindo a conversa. Já havia degustado todos os itens e agora relaxava, com as pernas esticadas à frente, as mãos apoiadas no chão, e o corpo meio deitado, aproveitando a leve brisa. — Lá era interior, aqui é uma cidade grande. Morávamos no meio do mato, bem mais denso do que essas árvores ao nosso lado. Já aqui... aqui é cheio de prédios. Só fomos entender o que era isso quando vimos os prédios pela primeira vez e nos disseram que esse era o nome. A escada do shopping, o próprio shopping... Tudo é novidade. Basicamente estamos aprendendo a viver em um ambiente totalmente diferente.
— Hum... Tudo? A comida se inclui, né? — perguntou com um sorriso, pegando uma garrafinha de guaraná para acompanhar o papo.
— Sim. Nunca comemos essas coisas que trouxe. Já comemos bolinhos, mas como esses, não. São bem gostosos — respondeu com sinceridade.
Nino, por sua vez, terminou de degustar todos os sabores de refrigerante e fez seu veredito:
— O de limão é o melhor!
As duas olharam-no e viram o menino erguer uma garrafinha de limão recém-aberta. Já não estava mais com a coxinha, mas sim com uma bela maravilha, empanadinha, douradinha, com a marca da mordida do Primordial.
Ao morder, o queijo derretido e o presunto rosinha se mostraram suculentos, enquanto o orégano pontilhava a iguaria.
Nathaly ficou com água na boca e pegou uma para comer também, acompanhando o seu refrigerante de guaraná.
— Concordo. O de limão é o mais gostoso — confirmou Nina, dividindo o mesmo gosto.
Olhava-o tranquila, sem nenhuma intenção de provocá-lo ou algo assim... Mas, ainda assim, isso resultou em um olhar semicerrado de seu irmão, que, naquele momento, começava a repensar se deveria procurar outro refrigerante para ser seu favorito ou não.
"Saco! Esse é o melhor, caguei pra ela... Imitona!"
Enquanto comia tranquilamente sua maravilha, Nathaly aproveitou o momento para fazer outra pergunta:
— Quantos anos vocês têm?
— 14... e você? — perguntou Nina, com curiosidade no olhar, ainda com o rosto sereno.
— 14 também... Nasci em março, e vocês?
— Julho, dia seis...
— Eu, dia 28... Pera, sou mais velha?
"Só em número."
"Só em número." — Sim — respondeu Nina, mantendo o tom tranquilo.
— ...PERA! Hoje é oito de julho, feliz aniversário atrasado! Se eu soubesse, compraria velinhas para colocar nos bolos, foi mal...
Ao ouvirem "velinhas", os gêmeos lembraram de Marta e dos bolinhos que sempre fazia questão de dar nos aniversários dos dois.
Ambos a olharam com uma expressão serena, um olhar calmo, lembrando da avó. Nathaly abaixou um pouco a cabeça, se desculpando, mesmo que fosse impossível saber da informação.
— Relaxa — disse Nino, com um tom tranquilo.
A menina levantou a cabeça e, com um sorriso curioso, perguntou:
— Qual de vocês veio primeiro?!
— Tsi... — Nino, com os olhos semicerrados e um sorrisinho de canto, zombou de Nina, apontando-a com o olhar. — Pergunta pra essa lenda do meu lado aqui.
— Grrr! — Nina rangeu os dentes, irritada com a provocação.
— Minha mãe diz pra respeitar os mais velhos! — exclamou com o corpo ereto, embora ainda sentado. — Mesmo que ela mesma não respeite... — finalizou, murmurando tão baixo que só ela escutou.
— Nhac...
Mas deu uma mordida na maravilha, tentando melhorar seu humor.
— Respeitar? — perguntou Nina, com um olhar desconfiado.
— Gulp... Isso, obedecer! — respondeu a garota, engolindo um pedaço.
— Você é a mais velha. Qual seria sua ordem?
— Nhac... Nhami-Nhami... — Enquanto mastigava, pensava em algo, e quando terminou de comer a maravilha... — Gulp! — engoliu e limpou as mãos no pano de prato. — Vamos deitar de barriga pra cima e dormir olhando pro céu!
— Hãm?
— Você quer dormir no meio de uma praça? Não acha perigoso?
— Perigoso é o que minha mãe faria se notasse uma aproximação suspeita.
— ...
— ...
Os gêmeos se olharam e concordaram com a expressão.
— Faz sentido.
— Faz...
Nino se levantou e caminhou até Nathaly, deitando-se ao lado dela, apoiando a cabeça nas mãos e olhando para o céu, como o combinado. Nathaly se deitou ao seu lado direito, olhando para ele no início, mas logo se virou para o céu, visível bem acima, parcialmente tampado pelas folhas das árvores.
Nina se juntou logo depois, deitando-se ao lado direito de Nathaly, deixando a menina ficar no meio, aproveitando a tarde com seus dois amigos.
Ninguém dizia nada. Apenas observavam o céu e sentiam a brisa.
Nino fechou os olhos, e Nina seguiu o mesmo caminho, forçando uma soneca, mas sem perder o alerta para qualquer perigo iminente.
Nathaly os olhou, não querendo interromper o silêncio calmo, mas seu olhar expressava um desejo de conversar, de aprender mais sobre os dois.
"Já dormiram?" pensou, acomodando-se na grama e juntando as mãos sobre a barriga, antes de fechar os olhos e tentar cochilar, sentindo-se triplamente protegida.
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