Volume 1 – Arco 2
Capítulo 55: Pilar da Humanidade
Nathaly, já mais familiarizada com os gestos dos gêmeos, percebeu a dúvida estampada nos rostos e, com um sorriso tímido, se explicou:
— Não nos parecemos, né? — Sorriu sem jeito, desviando o olhar por um momento. — Sou adotada, por isso o meu cabelo não é branco como o dela.
Os dois, após uma pausa, voltaram suas cabeças à posição normal, o semblante mais calmo, mas ainda curiosos.
— O cabelo dela é natural?!
— O cabelo dela é natural?!
Repetiram, mais uma vez, em uníssono.
"Cuticuti..." pensou, achando graça da imitação espontânea, mas respondeu com um leve sorriso: — Sim, é naturalmente branco.
— ...
A surpresa de Nina foi perceptível, mas se manteve em silêncio, enquanto Nino continuava a olhar Nathaly, sua curiosidade evidente.
— ...Ela... Sua mãe... O-o que ela é? — Não conseguiu esconder a inquietação na voz.
Nathaly, com um pequeno biquinho e uma expressão de leve censura, respondeu:
— Você pergunta isso como se ela fosse um alienígena!
"...Esse poder não é humano, me recuso a acreditar." — O poder dela, o quão forte ela é? Na escola, aquele menino classe A era fraco. Alissa é a tal única S, mas o quão forte isso quer dizer?
— Minha mãe... — A menina fez uma pausa, os olhos vagando por um instante, juntando as palavras. — Minha mãe é a mais forte. Conhecida mundialmente, é difícil encontrar um país ou alguém com acesso à internet que não saiba quem ela é. Embora ela não goste nada de política, todos nós, por estarmos na ADEDA, acabamos envolvidos, de algum modo.
— ...O mundo todo conhece ela? — Nina perguntou, com um tom de incredulidade.
— Sim, mas é algo que ela odeia. Não a fama em si, mas o sorriso falso que ela traz. Minha mãe não suporta a política, especialmente os países "aliados" — Fez aspas com os dedos, franzindo a testa com um semblante sério —, que fingem gostar do Brasil.
— Quê? — Nina se adiantou, surpresa.
— O mundo, os países, tudo é uma constante guerra. Mas não uma guerra armada, no sentido tradicional. É uma guerra de desenvolvimento. Quem tem o maior poder, a melhor economia, as melhores infraestruturas, a culinária mais rica, as paisagens mais deslumbrantes... tudo é uma competição. Tudo é medido por poder. Mas... tem uma coisa que ninguém tem, além do Brasil...
— O quê? — Nina questionou, agora mais atenta.
— ...Alissa.
Nino se mantinha vidrado na história, seus olhos curiosos, atento a qualquer nuance de palavra ou gesto, não se permitindo errar em seu entendimento, apenas absorvia as informações com vontade e dedicação.
— Todo o mundo a chama de "Pilar da Humanidade", e isso tem uma boa razão. Alissa é a mais forte exterminadora que já existiu. Nunca nasceu um ser com tanto poder. Não só ela derrota uma Calamidade sozinha... Mas a destrói como se fosse... sei lá... um copo de vidro. Como se fosse um carrinho de plástico que você pisou por cima sem querer, e quando levantou o pé já não havia mais solução. Logo se viu chorando por horas, escondida no escuro de um cantinho com medo de brigarem por destruir o seu presente. Mas depois que descobriram, não aconteceu nada. Sua mãe apenas foi e comprou outro, mas não um carrinho de plástico, uma versão real, e você nem idade tem ainda para sequer pensar em tocar no volante, mas já tem receio de também acabar o destruindo...
"Bem específico... cê tá bem?" pensou Nina, seu olhar curioso e sem jeito, mas não vocalizou.
Nathaly olhou para Nino, vendo-o prestar mais atenção e fazer mais silêncio com a explicação dela, do que em sala, com a própria Alissa dando aula, no primeiro dia em que chegaram, com sua típica postura imponente.
— Não sei se minha mãe disse ontem, imagino que tenha dito, porque ela é um pouquinho egocêntrica... — Sorriu de lado, brincando um pouco. — Mas a classificação S, a classificação que ela tem, só existe por causa dela. Foi criada para ela. Não fazia sentido manter, mesmo quando ela ainda era criança, a minha mãe como uma simples A, sendo infinitamente mais forte do que qualquer A que já tenha existido.
— ...Por que ela nos olha querendo nos matar? — Nina perguntou, com um tom mais sério, os olhos fixos na amiga.
— Ela não quer isso... é só o jeito dela. É o normal dela. Comigo, ela não é assim, por exemplo. Mas, continuando rapidinho... — Fez uma pausa, pensativa, ponderando se deveria ou não continuar. — Não... pera, vou falar com ela depois! Ver se ela deixa um pouco a sua forma rígida de lado em sala de aula. Não é de hoje, nem de ontem... que todos têm medo dela.
Nina assentiu lentamente com a cabeça, passando para a menina a confirmação que continuava ouvindo com atenção. Nino, no entanto, continuou quieto, com os olhos fixos em Nathaly, a mente digerindo com força e em todo o vapor a magnitude de tudo aquilo.
— Mas isso fica pra depois. Continuando... minha mãe me disse que nenhum país é aliado de verdade. Eles apenas cooperam, porque crescer sozinho é difícil, e tendo esses "amiguinhos", fica mais fácil.
— Em que sentido? — perguntou Nina, com a voz baixa, atenta e curiosa, enquanto seu irmão continuava completamente concentrado, estático, absorvendo cada palavra que saía da boca da jovem referente a Alissa.
— Literalmente em tudo. O mundo vive essa guerra fria de desenvolvimento, mas, claro, são apenas os maiores que disputam diretamente. Mesmo que o Brasil fique para trás em muitas coisas, como eu disse antes, temos Alissa. Em outras palavras, a Paz Mundial... ou... a Paz Brasileira.
Nathaly fez uma pausa dramática, preparando um grande anúncio. Levantou as mãos e fez um gesto como se estivesse abrindo uma faixa imaginária no ar, e nela, havia escrito a palavra: "cinema".
— Mesmo com algumas coisas horríveis que aconteceram na década passada no nosso país, por termos ela, somos a maior potência no combate a anomalias. E, a partir do momento que o mundo inteiro depende exclusivamente do governo brasileiro para enviar Alissa para exterminar uma Calamidade em seus países, eles precisam, dependem, necessitam de nós.
"Alissa governa o mundo?" pensou Nina, seu olhar distante enquanto refletia sobre tudo o que acabara de ouvir.
— Minha mãe comentou uma vez que, quando a ADEDA brasileira ou até o Governo Federal precisa de um recurso, seja mineral, comida, eletrônicos... o mundo gira. Vira uma corrida para ver quem oferece mais barato pro Brasil. Eles não só querem nos agradar pra manter a aliança e a boa vizinhança, mas também sabem que, com a tecnologia que possuímos e tudo que estamos criando pra Associação Brasileira, os outros países poderão comprar e se equipar melhor.
— Ela manda no mundo? — vocalizou Nina, sem conseguir mais se conter e deixando a pergunta escapar.
— ...Meio que isso — a menina respondeu com um sorriso envergonhado, tentando não exagerar na babação de ovo e o clubismo que tinha em relação a sua mãe.
— Os aliados... — Nina e Nathaly se voltaram para Nino. — São apenas aliados porque precisam de nós, certo? — O menino quebrou o próprio silêncio, a voz tensa, buscando uma resposta que ficou meio vaga.
— Isso. Um exemplo fácil é pensando se existisse uma Alissa na Rússia, nos Estados Unidos e na China. Esses três países voltariam a não se importar com o Brasil, como faziam antes. Voltariam a ter as taxas como eram antes de minha mãe começar na ADEDA. E por aí vai. A falta cria a necessidade, mas, se eles tivessem suas próprias Alissas, não precisariam mais do Brasil, e aí... nos deixariam de lado.
— Entendi... — o menino murmurou, assimilando a explicação.
— Acho que consegui explicar certinho. É o que me lembro dela me contar. Ela falava muito enquanto tomava banho de banheira, e eu, como ficava com vergonha, acabava não prestando tanta atenção em tudo — riu um pouco, quase envergonhada, mas com um sorriso de carinho em relação à mamãe.
— Uhum... — Nino murmurou em resposta, ainda pensativo.
— Mas... o mundo vê ela assim, mas minha mãe diz que não é a mais forte. — Nathaly olhou para os dois com um olhar enigmático, como se estivesse prestes a revelar um segredo muito maior.
— Quê? — Nino não conseguiu esconder sua surpresa, sua voz falhando no final.
— Quê? — Nina também ficou visivelmente surpresa, agora completamente absorvida pela conversa.
"Tiiiiiiii!" A menina explodiu de fofura por dentro. Sua expressão de inocência contrastava com a profundidade das palavras que acabara de dizer.
— Como assim? — Nino perguntou, seu tom agora mais afobado, tentando entender o que significava aquela afirmação.
— Alissa tem uma amiga... barra melhor, barra mãe, ou barra responsável. O nome dela é Mirlim. Nunca me disse por que ela é mais forte, mas sempre diz que é mais fraca que ela. Seeeempre... Sempre diz que a tia Mirlim é mais bonita, mais inteligente, mais forte. Mas, quando eu conversava com a tia Mirlim pelo celular, ela desmentia tudo e mandava eu entregar pra Alissa. Quando eu passava o celular, eu conseguia ouvir os gritos dela xingando minha mãe, pedindo pra parar de falar essas coisas.
— Alguém xingando a Alissa?!
— Alguém xingando a Alissa?!
Exclamaram em uníssono, suas expressões misturadas entre incredulidade e surpresa. A ideia de alguém se atrever a desafiar a figura de autoridade que Alissa representava era quase impossível de imaginar.
Com um sorriso largo e os olhos brilhando, Nathaly ficou ligeiramente corada, vendo a reação dos dois. Gostava de contar histórias assim, embora sempre fosse imaginando estar em uma conversa com amigos em algum lugar, sempre uma encenação de como reagiria, falaria, contaria tudo, não só ela, mas cada resposta que diriam para cada uma de suas falas.
Conversas e até mesmo discussões inteiramente roteirizadas, para ser a mais perfeita possível, e o entusiasmo dela só aumentava ao perceber que não precisava de nada pensado, apenas o espontâneo, apenas uma conversa aleatória com pessoas que realmente se importavam com ela.
— Sim... Alissa respeita muito ela... Eu nunca vi a tia Mirlim, só em fotos e numa vídeo-chamada que minha mãe fez. O problema é que minha mãe estava nua na banheira, e eu precisei entrar no banheiro, fora isso, foi legal conhecer a tia Mirlim.
Os gêmeos deram duas piscadas dramáticas, quase sincronizadas, mas rápidas demais para perceberem o movimento.
— Acho que é só isso que eu me lembro... Bem... Mudando de assunto. Antes de comermos... Quero saber o negócio da Ruína que mataram! Como assim mataram uma Ruína? Não entendi. O valor para exterminar uma é 150 mil, dependendo da numeração. Vocês dois somados têm 15 mil, ou seja, 10% do valor... não faz sentido. Se for procurar lógica, seria 8.500 com os mil do cartão. Deixaram de somar esses mil? O que aconteceu? Quando foi? Como foi? — perguntou tudo de uma vez, sua curiosidade visível nos olhos, que brilhavam sob a luz suave filtrada pelas árvores.
"...Não pensei em nada..." Nina olhou para Nino, vendo-o estar decidindo como responder a essas perguntas. Mas ele, embora tivesse arrumado uma desculpa anteriormente com os sons exagerados da barriga, sabia que seria difícil esconder a verdade por muito tempo. Ao mesmo tempo, não queria entrar em muitos detalhes.
"Espero que não tenha data nem nada que desminta isso..." pensou, pronto para começar a explicar o que aconteceu, com a base que planejou desde que saíram do apartamento. — Foi há dois anos. Estávamos em casa, tranquilos. Sempre brincávamos no quintal, de lutinha ou magia... Morávamos em Minas Gerais, numa casinha velha no meio do mato. Nem cidade era onde vivíamos, mas era razoavelmente próximo de uma minúscula cidade.
Nathaly escutava tudo com muita atenção, mas Nino, mesmo que notasse a curiosidade estampada, não queria demorar e muito menos detalhar tudo que aconteceu. Não era possível falar exatamente como foi, e nem precisava se esforçar para saber disso.
Mas a menina, com seu sorriso animado e uma expressão cheia de expectativa, esperava ansiosa para saber mais e mais.
— Era noite. Depois de uma tarde inteira brincando, voltamos para casa, esperando a nossa avó, que tinha ido pescar. Quando ela já estava perto de casa, vimos um brilho vindo das árvores. Mas nossa avó não usava nada assim. A gente sempre a localizava pela trilha de mato pisado, a mesma que passávamos todo dia.
Nathaly engoliu em seco, com os olhos fixos em Nino. Mesmo sem muitos detalhes ou profundidade, se deixava levar pela pequena história apresentada, queria entender mais sobre o que havia acontecido.
— Ficamos desconfiados, e saímos na direção do brilho. Assim que chegamos lá, essa anomalia, que é isso de Ruína, atacou a nossa avó. Foi tudo muito rápido. Afastamos aquela coisa da nossa avó, e lutamos contra aquele trem fei. Era toda estranha, com a pele derretida, só tinha uma perna. E o brilho que vimos? Vinha de uma flecha que estava presa na testa dela. Talvez alguém a atacou antes e a coisa feia seguiu em nossa direção.
A menina assentiu com a cabeça, os olhos fixos, sem sequer piscar. A história parecia absurda, mas ele falava com tanta naturalidade que a menina não ligava se era real ou não, apenas queria escutar mais histórias, queria ouvi-lo falar, conversar sobre as coisas mais aleatórias do mundo sem se importar com o passar das horas.
— Matamos rápido, não era forte. Mas regenerava, então decidimos destruir a cabeça. Não deu certo... então mudamos o foco, se não é a cabeça, e o?
— Coração? — a menina perguntou, com o brilho de expectativa no olhar.
— Exato. Só depois, ao destruir o coração, aquilo parou de se mexer. No dia seguinte, a ADEDA apareceu, tentando nos levar. A gente não quis, mas, depois da morte da nossa avó, acabamos aceitando. Estávamos sozinhos, com fome, e a promessa de comida, água e um lugar para viver nos atraiu. E, além de tudo isso, ouso em dizer que a melhor parte... foi que conseguimos uma amiga bonita como você...
Terminou com um sorriso encantador, um olhar fofo, olhando-a bem nos olhos, cheio de malícia e presença, sabendo exatamente o que fazia.
"Resumi tudo sem dar detalhes, nada comprometedor. Meti um tom melancólico e finalizei lhe causando um sentimento reconfortante... não vai me encher o saco nem se lembrar do que eu disse."
Nathaly sorriu, meio sem jeito, o rosto corando. Ficou um pouco desconcertada, sem saber o que fazer com as mãos ou a expressão. As palavras de Nino haviam tocado algo dentro dela, e ela se sentia feliz com o elogio e a demonstração de carinho.
Nina, por outro lado, permaneceu calada, observando o irmão com um olhar atento. Não sentia ciúmes dele, mas sempre notava o que ele escondia nas entrelinhas de suas palavras.
Podia perceber suas intenções, sentimentos, desde um leve toque de raiva até os sentimentos mais fortes, verdadeiros, como o "eu te amo" que ele lhe disse em cima do telhado da mercearia.
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