Volume 1 – Arco 2
Capítulo 54: Vaquinha
Em um instante, seus rostos se voltaram para trás, o pânico estampado neles. Mas o medo e a ansiedade que surgiram foram como meses de trabalho árduo e pesado.
O sol se refletia em seus rostos, as íris roxas brilhando intensamente, reagindo ao medo e ao instinto de sobrevivência que agora pulsava em cada gota de sangue de seus corpos.
Era uma dança estranha entre beleza e terror, até que finalmente seus olhos focaram no topo do prédio. Na direção daquilo que os devorava por dentro, o que fazia o receio crescer e o estranhamento se intensificar...
Viram...
Viram o olhar de uma vaquinha inflável, flutuando no ar, suspensa por uma linha presa ao telhado do shopping.
Alissa, ao notar que os dois iam virar a cabeça, não perdeu tempo. Com uma velocidade além da humana, zombou deles. Mais rápida que um raio, pegou um dos balões que um homem vendia, naquele exato momento, no passeio ao lado da entrada do shopping.
O homem ainda atendia algumas mães, comprando balões para os filhos, mas a velocidade de Alissa foi tamanha que nem o vento se alterou. Em um movimento preciso, colocou a vaquinha no mesmo ponto onde os observava, e a visão da vaquinha, voltada diretamente para os dois, com os olhos do balão encarando os dos gêmeos de volta... os fez crer...
"Alguém está realmente nos perseguindo..." Nina, com os olhos arregalados e a expressão travada, assim como a do seu irmão, se virou para Nino no mesmo instante em que ele se virou para ela.
Seus olhares se encontraram, e em silêncio, compartilhavam o entendimento: só não sabiam o que fazer após a decisão compartilhada por puro instinto.
Nathaly, ainda mais distante dos gêmeos, continuava seu caminho apressado, até que viu duas sombras se aproximando de si, cobrindo-a levemente. Virou-se para olhar para trás, mas antes que pudesse reagir, Nina a tocou no ombro e se aproximou, com a voz calma, porém estranhamente ansiosa:
— Deixa que eu levo — disse com um sorriso tenso, os olhos fechados tentando esconder a ansiedade e o suor que escorria por sua franja.
— Não precIiiiiaiiiiiiihiiiiiiaiigh... — Antes que pudesse completar a frase, Nina a agarrou pela cintura e a colocou sobre seu ombro esquerdo, com a bunda para frente. Nathaly se assustou ainda mais com a repentina mudança, mas não teve tempo de protestar.
As ruas se passaram num borrão enquanto Nina corria, ajustando a velocidade para garantir a segurança da menina, sem forçar o corpo da amiga além do necessário. Tan-tan-tan-tan... O som de seus passos apressados misturava-se ao grito contínuo e surpreso de Nathaly, que só podia ouvir o vento e o próprio grito, atordoada.
— Segura firme!
Passaram pelas poucas ruas em alta velocidade, até que, em questão de segundos, já podiam ver as árvores do Parque da Água Branca ao longe. O grupo, carregado de sacolas imensas, corria como malucos, arrancando olhares assustados de pedestres e sendo seguido pelos ecos do grito da jovem.
Mas...
Enquanto se aproximavam da área mais densa de árvores, no nordeste da praça, um arrepio percorreu seus corpos. O olhar pesado, frio e incômodo vinha da esquerda. Num reflexo sincronizado, os gêmeos giraram a cabeça com força — e lá estava ela.
Por cima de um grande galpão de eventos, a vaquinha os observava. Mas agora... era diferente.
Ela se movia.
A cada passo apressado dos gêmeos, a vaquinha inclinava o corpo em direção a eles, os aterrorizando, seguindo seus rastros.
Alissa brincava de um jeito novo.
Os olhos deles se arregalaram, e um medo avassalador os dominou.
Não havia tempo para pensar em outra rota. Sem hesitação, quando alcançaram a reta de um estacionamento do outro lado da rua, num único movimento, saltaram pelo muro de grade, Frush... aterrissando em meio às casinhas amarelas.
Seus corpos em disparada, ignorando o leve cansaço, mantendo a esquerda até que, ao fundo, viram um espaço de piquenique com algumas pessoas distraídas.
— Aqui não! — exclamou Nino, virando-se rapidamente à procura de um refúgio mais adequado, um lugar com muitas árvores para se protegerem, longe de olhares curiosos.
— TiiiIIIiiIIIiIii... — O som contínuo da voz de Nathaly se misturava ao seu esforço para manter o equilíbrio. Sua cabeça girava, atordoada pela tontura, enquanto era carregada nas costas por Nina. Mesmo assim, segurava as sacolas com todas as suas forças, determinada a não falhar com a ordem da amiga.
"Não vai dar... Mato demais atrairá mais atenção do que fingir normalidade em um lugar mais aberto..." pensou Nina, parando de repente. Nino notou o movimento e parou também, sua expressão refletindo a preocupação sem precisar de palavras. — Ali está bom. — Apontou para uma pequena área com pouca vegetação, mas com a sombra de algumas árvores.
— Tem certeza? — seu irmão perguntou, sua voz baixa, quase um sussurro.
— Sim... — respondeu, com firmeza, enquanto se aproximava do local, próximo de um dos caminhos da praça que seguiam naquele momento. Assim que chegou, colocou Nathaly com cuidado no chão, de barriga para cima, notando o short e as pernas... molhadas.
"Hã? Ela... mijou?"
— TiiiIiiiI... — Nathaly continuava a emitir o som ininterrupto, sua mente turva pela tontura, sem se dar conta do que acontecia ao seu redor.
Com uma leveza e rapidez quase instintivas, Nina estendeu a mão e, assim que Nathaly abriu os olhos, a luz do sol, filtrada pelas folhas das árvores, invadiu sua visão, transformando o borrão em uma imagem nítida de Nina olhando-a atentamente... Então, sem mais, Brumrn... foi envolvida por chamas vermelhas.
— AAAAAH! — gritou, sentando-se abruptamente no chão, mas logo o fogo foi dissipada por Nina, que, com um gesto rápido, limpou o corpo da garota, evaporando o xixi sem permitir que as chamas a tocassem. — Q-quê...? — A menina olhou confusa, ainda processando o que havia acontecido.
— Shhhh! — Nina levantou o dedo indicador, colocando-o à frente dos próprios lábios, pedindo silêncio, com os olhos fixos nela, mas mantendo a tensão visível.
Levemente assustada, a menina os observava, vendo a preocupação estampada no rosto dos dois. Uma sensação estranha se espalhou por seu corpo.
"O quê?" pensava, agora ainda mais intrigada.
O grito havia atraído a atenção de algumas pessoas, mas quando se aproximaram, viram apenas três pré-adolescentes aparentemente comuns, sentados calmamente, retirando alimentos das sacolas em um piquenique rotineiro.
Após esse breve olhar, o pequeno grupo se afastou, deixando os três sozinhos novamente, mas o ambiente agora era carregado de uma tensão palpável. O comportamento dos gêmeos não passava despercebido pela menina, que sentia uma curiosidade crescente, uma vontade de entender...
— O que aconteceu? Por que me carregaram? Por que acordei pegando fogo? — perguntou, o tom de sua voz misturando confusão e leve medo.
Os gêmeos a observavam, e os olhos de Nathaly brilhavam com inocência e curiosidade. Vendo a dúvida exalada em seu semblante fofo e curioso, sua voz calma, baixa mas ansiosa, os dois se entreolharam, um silêncio momentâneo pairando entre eles antes de se virarem para ela.
— Joguei fogo em você... Porque você fez xixi no short — respondeu Nina, com uma frieza disfarçada por um tom quase casual.
Nathaly corou, mas manteve o olhar firme nos dois, ainda sem entender completamente a situação. Mesmo assim, não deixou de fazer um beicinho.
O calor das chamas havia limpado seu corpo, afastando qualquer resquício de sujeira ou cheiro indesejado.
— Eee... Q... — Nina não conseguia dizer, não conseguia e nem sentia vontade de revelar o que aconteceu... mas Nino não era ela.
— Tem algo querendo o nosso mal.
"NÃO FALA, SEU IMBECIL!" Nina virou o rosto rapidamente para ele, a irritação evidente em seu semblante, não conseguindo esconder a frustração, mesmo que tentasse fortemente disfarçar.
— Nosso mal? Como assim? — A jovem franziu a testa, um olhar desconfiado tomando conta de seu rosto. Mas... sabia o que era... "Minha mãe está aqui, né?"
— Tem algo nos seguindo desde que saímos do apartamento. Estou... com medo. Estressado com essa sensação de estar sendo observado. Saímos correndo porque parecia que éramos alvos fáceis na rua, mas... aqui... ainda não me sinto seguro, não parece um bom lugar para lutar contra o que seja isso.
— Relaxa — respondeu calmamente.
— Relaxar?
— Relaxar?
Nino e Nina repetiram em uníssono, com um tom de incredulidade nas vozes, seus rostos exalando uma inocência que contrastava completamente com o que passavam ali.
"Aaaaaaaaaah, é tão fofinho quando fazem isso!!" Nathaly não pôde evitar um sorriso, achando graça na cena. Eram tão iguais, uma cópia exata. Se sentiu, de algum modo, encantada por aquele pequeno gesto, mas logo se recompondo, falou de maneira sincera:
— Sim... E... Eu nunca tive amigos. Nunca tive ninguém, na verdade... — Abaixou a cabeça por um instante, mas logo a ergueu com um sorriso genuíno, olhando para os gêmeos com um brilho de alegria. — Minha mãe é muito preocupada comigo, ela até pode achar que eu não sei, mas eu sei que ela me segue sempre que saio de casa. Às vezes, quando vou até a casa dela, ela não vem até mim, não me leva... Ela simplesmente me segue até lá, e finge que tava lá o tempo todo.
— Quê? — Nino se espantou, sua voz cheia de surpresa.
— Quê? — Nina ecoou no mesmo tempo, com a mesma expressão de incredulidade.
"Owwnntt, que cuticuti!" Sorriu de forma sapeca, quase apertando as bochechas dos dois. Mas, controlando sua atração, continuou explicando: — É minha mãe que está nos seguindo. Não precisam se preocupar, ela só está me vigiando. Como eu disse, ela é muito preocupada. E agora que tenho amigos... — Baixou o olhar, mas com o mesmo sorriso feliz, satisfeita. — Ela deve estar ainda mais preocupada.
— ...
— ...
Os gêmeos ficaram em silêncio, encarando-a por alguns segundos. O vento e o farfalhar das folhas se tornaram a trilha sonora do ambiente, enquanto o peso da revelação pairava no ar.
— O-o... O que sua mãe é? — Nino perguntou, com um olhar cauteloso.
— Como assim? — a menina perguntou, confusa com a pergunta.
— Sua mãe... Tu tá dizendo que é a sua mãe, mas essa sensação que eu sinto... Sua mãe é o quê? Quanto poder ela tem? Não faz sentido eu sentir tanto medo só de ser observado.
— Nathaly... — Nina chamou a atenção dela, agora com um tom mais sério. — Quem é a sua mãe?
— Hum? Eu não disse ainda? — Olhou para Nina, agora desconcertada.
— Não...
— Não...
— Ownt...! — O som escapou antes que pudesse se conter. A surpresa quase a fez cair para trás; suas costas ameaçaram ceder, suas pernas quase se ergueram com o impacto do próprio corpo.
Os rostinhos preocupados dos gêmeos estavam muito mais próximos do que esperava, os olhinhos idênticos carregando um misto de curiosidade e confusão. Nathaly nem teve tempo de raciocinar — seu pensamento virou voz sem querer.
— Quê? — Nina franziu o cenho, sem entender.
— Nada! Nada!
O silêncio se instalou. Os gêmeos trocaram um olhar rápido, e logo continuaram olhando fixamente para ela, céticos, enquanto Nathaly tentava disfarçar seu nervosismo, erguendo as mãos em rendição e estampando um sorriso forçado.
Foi então que soltou, sem rodeios:
— A minha mãe... é a professora da nossa sala... Alissa é a minha mãe.
O impacto foi imediato. Os gêmeos travaram, encarando Nathaly sentada de pernas cruzadas. Mas logo... não estavam mais ali.
A gravidade agiu.
Lentamente, suas cabeças tombaram para o lado, em perfeita sincronia, tentando, em vão, processar o que acabaram de ouvir.
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