Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 52: Prestativa

— Nada.

— Como assim nada?

— Não consegui ver nada, apenas vultos.

— Explique.

— Sempre que eu sentia algo muito forte vindo de um lado, fingia que ia pegar algo na mesma direção. Virava para tocar em uma roupa, observar algum produto. Não olhava diretamente, apenas tentava perceber no campo de visão. Não faz sentido o que está atrás de mim. Antes de meu olho processar, desaparecia muito, mas muito mais rápido do que eu poderia piscar.

— Acha que é um humano?

— Impossível. Não tem lógica um humano com tanto poder. Nem sei o que é, e isso tá me dando uma ansiedade desgraçada. Tô estressado, e pra piorar, com fome. Tá piorando tudo ao mesmo tempo.

— ...Tinha biscoito no armário, lembro de ter visto ontem quando exploramos nosso lar.

— Não imaginei que iríamos demorar tanto pra comer algo fora.

— Acha que el...

— Gente? Tão fazendo o que aí?

Os dois se viraram, vendo Nathaly chegar com várias sacolas do supermercado, que quase a superavam em tamanho. A jovem precisava ficar com os braços um pouco erguidos para não arrastarem no chão.

— Já? — Nino perguntou, surpreso.

— Você disse estar com muita fome, e eu nem precisei comprar ingredientes separados. Tavam vendendo sanduíches naturais já prontos na área de frios. Não sei se são bons, nunca comi, mas são de hoje, fresquinhos. — Schsrshc... Abriu uma das sacolas, pegou e tirou o plástico filme do lanche, estendendo um dos sanduíches para ele. — Toma, dá uma mordida ao menos, vai melhorar o seu humor!

Nino pegou o sanduíche da mão dela e olhou rapidamente.

— Obrigado. Nhac! Nhami-Nhami!

— É gostoso?!

Nino não respondeu com palavras, apenas assentiu com a cabeça enquanto mastigava, devorando o lanche rapidamente.

— Que bom! — Schsrshc... Nathaly procurou na sacola e pegou uma garrafinha de refrigerante de limão, bem pequena, estilo pitchula, estendendo para ele. — Toma, pra beber. Comprei vários sabores. Desculpa se soar ofensivo, mas é que acho que nunca beberam, por alguma razão.

Nino piscou duas vezes e pegou a garrafinha.

— Não é ofensivo, de fato nunca bebemos — respondeu Nina, ao lado.

— Quer comer também? — perguntou, virando o rosto para sua amiga.

— Não. No piquenique eu como. Vamos então?

— Não quer espe... — Virou-se para Nino, mas ele já havia terminado de comer e beber.

— Me dá mais um desse refrigerante, é muito gostoso!

Schsrshc...

— Toma.

— Valeu. — Nino segurou a garrafinha com a mão direita e, com a esquerda, Shshchcshs... reposicionou a sacola com as roupas no ombro, começando a andar. — Bora.

Assumiu a dianteira, passando pelas duas, erguendo o rosto para mais um gole da bebida.

Nathaly, com as sacolas enormes, tentava equilibrá-las para não arrastarem no chão, focando em não deixar a tarefa se tornar mais difícil. Ergueu o que dava com os braços, olhando para baixo, vendo se teve êxito.

Nina observava seu irmão de costas. Quando, de repente, ele manipulou o sangue nas costas, passando por debaixo da roupa comum, deixando uma seta preta visível por um breve momento.

A direcionou para a direita rapidamente, ingerindo-a logo em seguida, antes que Nathaly erguesse o olhar para segui-lo até a saída.

"Hã?" Nina franziu a testa, lançou o olhar e observou a multidão ao redor. Sentiu a estranheza no ar, algo estranho passou por ali. "Alguém estava olhando no meio daquelas pessoas... Tenho certeza." Mais uma vez, Alissa desapareceu rapidamente, sem dar chance de Nina nem mesmo ver a silhueta de seu corpo sob o chamativo sobretudo prata.


"Ela me notou?" pensou Alissa, surgindo quase que em teletransporte no quarto piso do shopping, olhando para baixo, vendo os três seguirem na direção da saída, atentos ao caminho.


— Tá pesado? — perguntou Nina, notando Nathaly andar com as sacolas de maneira um pouco desajeitada.

A menina olhou para a Primordial com um sorriso sem jeito, tentando ser prestativa.

— Tá levinho, só é muita coisa e eu não sou muito alta.

Nina soltou uma risada suave, com um tom de compreensão.

— Se você não me dissesse isso, eu nunca ia reparar.

Nathaly respondeu com uma risadinha tímida, mas logo foi interrompida por outro questionamento, enquanto Nina observava, admirada, a menina de olhos âmbar rir da sua piada:

— Mas por que comprou tudo isso de sacola?

— Ontem vocês comeram aquelas montanhas na merenda, então comprei bastante comida. Ainda mais depois que o Nino disse que estava com muita fome.

— Entendi — respondeu Nina, lançando um olhar rápido ao redor, buscando de canto de olho qualquer sinal de que alguém estivesse observando.

— Obrigado por pensar em mim. Estou ansioso para provar as coisas que você comprou — disse Nino, virando-se para ela com um sorriso meigo e um semblante agradável, quase natural, olhando-a por cima do ombro.

A menina reagiu com os olhos brilhando, um sorriso inocente e adorável, completamente imersa na atenção que recebia...

"Atrás..." Nina percebeu a mudança na postura do irmão. Entendeu o motivo da virada de cabeça dele e a falsa suavidade nas palavras. Seu irmão havia sentido o olhar de Alissa e, ao invés de se manter em alerta, virou-se para Nathaly, tentando encontrar uma desculpa para caçar a razão do receio crescente em seu peito.

Quando Nina percebeu isso, usou o sangue em seu pé esquerdo para forçar o cadarço a se soltar, abaixando-se discretamente para não atrair atenção. Ao se agachar, virou o corpo, lançando um olhar disfarçado na direção que seu irmão indicava.

Ambos viram o vulto. Mas, para os dois, não passou de uma presença assustadora — vindo da área escura onde haviam conversado anteriormente — antes de desaparecer de maneira tão rápida quanto apareceu.


Alissa, escondida atrás de uma pilastra, observava-os com tranquilidade. Seus olhos seguiam cada movimento de Nathaly, que se agachava para ajudar Nina, e Nino, que ficava em pé, olhando na direção das duas.

Algo era estranho para ela. Começou a estranhar bastante a situação. Até então, ninguém conseguia vê-la... Ninguém, quando era furtiva.

Neste dia em questão...

Controlava a mente de cada um presente naquele lugar, mas não tocava nos três, apenas os deixava seguir normalmente o que estavam fazendo. O controle mental não era em si fazer de todos fantoches, que teria livre uso para forçá-los a qualquer coisa.

Naquele momento, apenas usava o seu poder para cegá-los, impossibilitá-los de conseguirem enxergá-la, apenas isso, nada mais. Mas, com mais uma reação estranha dos dois, sempre tentando lançar o rosto ou o olhar na direção dela, a exterminadora pensou:

"Não conseguem me ver a tempo, mas me sentem. Mataram duas anomalias interessantes. Força, eu já esperava, mas... me sentir...? Não houve contato visual direto. Talvez eu esteja exagerando. Se realmente me sentissem, o menino não teria brincado de morder..." A irritação tomou conta dela. Alissa abaixou a cabeça, seu semblante sombrio refletindo o crescente incômodo. "A minha... FILHARRR!"

Manteve-se quieta, ainda atrás da pilastra, mas quando levantou a cabeça para olhar mais uma vez, os três já haviam desaparecido da vista. Iam embora, caminhando na direção de uma pequena rua à frente da saída do shopping.

Perto da entrada, um homem vendia balões coloridos em forma de personagens de filmes famosos e animais. Mas, nenhum dos três sequer olhou para ele ou para os balões. As crianças que estavam por ali eram mais interessadas na venda, e os três seguiram em frente sem desviar o olhar.

Já eram grandinhos demais para aquilo.

Nino, com um objetivo claro, buscava ser direto e eficiente. Não gostava de perder tempo.

— Tem essa pracinha aqui, só não gosto do nome — ele disse, olhando em direção à área à frente, aguardando dois carros passarem para atravessar.

— A outra é maior! E além disso, vamos ter que ouvir barulho de pessoas e carros o tempo inteiro nesse lugar — comentou Nathaly, não aprovando a ideia.

— ...

Houve uma pausa.

Nino permaneceu em silêncio, enquanto Nina sabia exatamente o que ele queria, e o que aquilo significava...

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