Volume 1 – Arco 2
Capítulo 50: Fila
A Primordial parou. Seus passos cessaram, e ela observou os dois saírem da área dos provadores.
"Não... Não aconteceu nada. Ela precisou de ajuda e ele ajudou. Meu irmão não gosta dela, não gosta dela. Nina, não precisa se preocupar..." Mesmo que seus pensamentos tentassem se acalmar, palavras formavam-se sozinhas em sua mente, gerando uma dúvida crescente. "Não importa se ele não gosta, importa é que ela gosta..."
Manteve uma calma inusitada no exterior, e sua feição levemente travada, tentando disfarçar a inquietação interna. Quando saiu da área dos provadores, viu Nino sentado, olhando para baixo, e ao lado dele, Nathaly, também aguardando.
"Ele não gosta dela..." Um alívio surgiu dentro da Primordial. Conseguiu perceber a expressão de Nino esgastada, embora ele ainda mantivesse sua fachada tranquila, ou, como Nina diria, "mais humana". "Ele só quer ir embora... Fome, raiva... Não sinto um nojo dela, mas desejo de sangue humano... sim."
Quando Nino notou Nina, ergueu os olhos. Seus olhos se abriram um pouco mais que o normal, não pela irritação usual, onde sempre tentava a irritar, mas por algo mais tranquilo, como Nina já esperava...
— Vamos? — perguntou ele.
— Bora — respondeu ela, mas logo olhou para Nathaly. — Olha, que isso... ficou muito linda com essa roupa — disse com uma tranquilidade contagiante, abrindo um leve sorriso enquanto começava a caminhar à frente, com o irmão ao seu lado.
— Obrigada! — respondeu a menina, um pouco acanhada, mas logo foi para o lado esquerdo de Nina, acompanhando-os. — Gostou das roupas?
— Sim, só queria que fosse um preto mais forte.
— Preto mais forte? Mas já é muito preto!
Nino olhou para sua irmã de canto de olho, mas logo voltou a olhar para a frente.
— Queria que fosse mais.
— Tiiiii — Nathaly a fitou, antes de continuar — Não quis sair usando uma das novas não?
— ...Pra ser sincera, nem sabia que podia.
— É... pra ser sincera, nem sei se pode. Vamos descobrir juntas.
A Primordial soltou uma risadinha em resposta, o que fez Nathaly se juntar a ela, gargalhando junto.
"A fila tá meio chatinha..." pensou Nino, com um leve suspiro. — Nathaly.
— Oi? — Nathaly virou-se imediatamente após o chamado.
— Espera na fila, vou com a Nina procurar um tênis pra você.
— M-mas o meu tá bom!
— Não por ser novo ou estar bom, é pela cor e o formato. Não acho que cinza fica legal, e também ficaria mais bonito um tênis com a parte de trás mais alta, como o meu e o da Nina.
— ...Tá bom.
— Vai lá, é só pra não deixar a fila crescer muito enquanto pegamos o tênis.
— Meu num...
— Eu já sei, vi quando coloquei. Vai lá. — A voz soava sem paciência, mas, para Nathaly, parecia normal. A paixão por Nino a deixava cega para a tensão sutil nas palavras.
— Uhum!
A jovem saiu correndo para a fila, e Nino olhou para Nina, fazendo um gesto com a cabeça. Nina logo o seguiu, continuando a andar.
— Qui foi? — perguntou ela.
— Só queria um pouco de distância dela — respondeu ele, com a voz baixa, rouca e um tanto irada.
"Sabia que estava certa." — O que deu?
— Não quero destratá-la. Só preciso de um pouco de distância dela. Vamos pegar um tênis e esperar a fila acabar, depois a gente vai até lá.
— O que aconteceu?
— Tô sem paciência. Tô com fome. E tô tendo que fingir ser um humano. Isso não é o suficiente? — respondeu irritado.
— Calma, só perguntei o que aconteceu. Não quer contar porquê?
— Por que aqui não é lugar pra falar a merda que aconteceu! — A raiva transpareceu no tom de voz dele, suas íris brilhando com intensidade.
— Era só responder isso, foi difícil?
— Não é um bom momento pra brincadeiras.
Nina deu um passo à frente, aproximando seu rosto da orelha dele, e sussurrou:
— Não importa se é um bom momento ou não. Se controle, seu animal. Está com fome, quando comer vai se aliviar. Apenas não faça merda, porque se fizer, vou ter que quebrar a sua cara na frente de um monte de gente, só pra tentar diminuir a bagunça que você pode criar.
Nino virou o rosto, e seus olhos se encontraram em um desafio intenso.
— Acha mesmo que venceria?
— Você com fome parece um selvagem, completamente irracional, não consegue pensar direito. Você acha mesmo que eu não venceria?
O silêncio caiu entre eles.
Os dois se encaravam, sem sequer piscar, as tensões visíveis, mas a calma de Nina vencia a da provocação de Nino.
Enquanto isso, Nathaly aguardava na fila.
A cada movimento da fila para frente, a tensão aumentava em seu peito. Seus pés não paravam de se mover, as mãos se agitavam, sem saber exatamente o que fazer. Sua cabeça se virava incessantemente, buscando por eles, mas não os encontrava.
"Cadê vocês...? Andem logo!"
— Próóóximo! — anunciou a atendente, e a fila se aproximava do fim.
"Andem logo! Por favor!" A ansiedade tomou conta da menina, sua mente em um turbilhão. O medo de chegar até o caixa e não saber o que dizer aumentava, principalmente com a fila crescendo atrás de si. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas a jovem lutou para não deixá-las cair.
— Vamos atrás desse tênis que você inventou do nada, e depois você vai ficar quietinho, ok? — disse Nina, em tom de ordem.
Nino não respondeu à provocação, apenas virou-se e começou a andar, desinteressado.
— Ficam pra cá.
Nina o observou de costas, revirando os olhos.
"Egocêntrico..." — Arrff... — bufou e seguiu atrás dele.
Logo chegaram à seção de tênis, onde vários modelos estavam expostos. Nina observou as opções, e Nino, com um olhar crítico, logo avistou um par de tênis que chamou sua atenção.
Era um modelo azul-escuro com detalhes em laranja. Sem hesitar, pegou a caixa e começou a procurar o tamanho.
— Gostou desse? — perguntou a menina, um tom tranquilo.
— Achou uma opção melhor? — retrucou ele, com um tom de ironia agressiva.
Nina parou por um momento, sua paciência se esgotando com a impaciência do garoto.
— Eu tô te avisando, não ligo de quebrar a sua cara na porrada.
Nino se virou para ela e aproximou seus rostos.
— Nina... Tem algo nos observando desde que saímos do apartamento. Eu tô ficando maluco. Tá me irritando muito. Algo não tira os olhos de mim. Pedi ao olho que localizasse o que é, mas ele sentiu medo e não me obedeceu. Você tem ideia do que isso significa? Mesmo quando a Nathaly me puxou pra dentro do provador, eu não parei de sentir esse olhar... É como se... Como se me ameaçasse de morte... — ele falou em um sussurro quase inaudível, sua voz carregada de uma tensão crescente.
Nina o olhava com atenção. A seriedade nos olhos de Nino... O olhar dele...
"Não está mentindo..."
A menina não sentia aquilo, a sensação da dúvida em relação ao irmão gostar de sua amada inibia a sensação de ser observada. Mas quando seu irmão tocou no assunto, se lembrou do vulto em meio à multidão andando, que viu mais cedo.
— Não duvido de você, só... não vacila. Tente se controlar. Chamar a atenção só vai piorar tudo.
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