Volume 1 – Arco 2
Capítulo 43: Aguçado
Os gêmeos ficaram hipnotizados, olhando fixamente para a tela do celular, vendo o vídeo do gatinho passando magicamente diante deles.
— Isso... Isso tem a mesma magia das televisões? — Nino perguntou, visivelmente curioso.
— Não é magia — a menina respondeu, com um sorriso.
Os gêmeos desviaram o olhar da tela e voltaram a encarar o rosto dela.
— Não? — Nino questionou, um tanto confuso.
— Não? — Nina também perguntou, suas vozes se misturando na sincronia perfeita, surpresa com a resposta da jovem.
— Não... É tecnologia! — disse com um sorriso orgulhoso, fechando os olhos e se achando, na fantasia que aquilo era uma explicação importante. Quando os abriu, encontrou os dois com as cabeças levemente inclinadas para o lado, processando a informação.
— O que é isso? — Nino perguntou, ainda tentando entender.
— ...Depois eu mostro. — Nathaly puxou o celular de volta e deslizou o dedo para baixo, passando por mais vídeos. — Mas basicamente, esse aplicativo tem uma infinidade de vídeos... — virou o celular para os gêmeos e continuou: — Curiosidades, ensinamentos... Tudo!
Os olhinhos dos dois acompanhavam cada vídeo sendo passado. Seguia de baixo para cima, até sair e o novo assumir, na sequência rápida que Nathaly os passava, enquanto iam absorvendo a informação com uma concentração impressionante.
Nathaly, sorrindo levemente, notou que os dois pareciam em transe, completamente envolvidos na sequência rápida de vídeos. Mas logo percebeu o erro que cometera ao mostrá-los aquilo... ao mostrá-los uma droga viciante.
Com um suspiro, retirou o celular de perto deles, fazendo com que os gêmeos piscassem várias vezes, saindo do transe, meio tontos.
— Muito cuidado com isso. Esses vídeos podem sugar a sua alma — falou de maneira séria, seus olhos agora mais intensos, criando um clima sóbrio na sala. — Já perdi muitas horas que nunca mais voltarão na minha vida, vendo vídeos inúteis que não agregaram em nada.
— ...
— ...
Os gêmeos ficaram em silêncio por um momento, assimilando a seriedade da garota, mas logo o menino foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— …Tá bem aí? — perguntou, franzindo a testa.
— Uhum! — Rapidamente se recompôs e voltou a mexer no celular. Abriu o navegador e ativou a pesquisa por áudio: — O que é tecnologia?
— Não sabemo... — Nina respondia, mas antes que pudesse terminar, uma voz robótica cortou sua fala abruptamente, fazendo ambos se assustarem, se virando para o celular.
A voz do assistente eletrônico se ouviu claramente:
— "Tecnologia é um conjunto de técnicas, métodos, ferramentas e conhecimentos que visam solucionar problemas e melhorar a vida das pessoas."
— Isso responde à pergunta de vocês — explicou a menina, com um sorriso satisfeito. — Usando o navegador, podem pesquisar qualquer dúvida e obter uma resposta instantânea.
Os gêmeos a olharam em silêncio, um pouco atordoados, mas assentiram com a cabeça, processando tudo lentamente.
— Mas... Sinceramente, o mais importante é o aplicativo de conversa. Vocês já foram adicionados no grupo da sala, e também o mapa, que vai ajudar muito quando precisarem se locomover por São Paulo. Especialmente quando entrarmos em um esquadrão oficial — continuou, falando das coisas mais naturais do mundo... mundo esse que os dois não sabiam quase nada.
— Tem um mapa nisso? — Nino perguntou, claramente interessado.
— Sim. — Nathaly abriu o aplicativo de mapa no celular e mostrou para os dois. — É só abrir o aplicativo e ele vai mostrar onde vocês estão. Aí é só seguir, olhando para ele enquanto andam.
— Hãm? Por que precisa ficar olhando? Não é só memorizar São Paulo? — perguntou, com um tom de quem achava aquilo desnecessário.
Nathaly olhou para ele com uma expressão confusa.
— Memorizar tudo? — questionou, sem entender como isso seria possível.
— É, ué. Me empresta rapidinho — pediu, estendendo a mão para o celular.
Nathaly, sem questionar, entregou o dispositivo a ele. Nino tocou na tela com cautela, explorando os gestos.
"Isso se move... Que... interessante." pensou ele enquanto desliza o dedo para dar zoom no mapa.
Conforme ele e Nina observavam o mapa de São Paulo, o celular revelou detalhes como cidades, ruas, bairros, comércios e áreas verdes. A complexidade do mapa parecia infinita, mas os gêmeos absorveram tudo, gravando as informações na memória... Gravando todo o mapa de São Paulo em suas mentes.
— Só precisamos saber como é São Paulo? — perguntou ele, olhando para a garota.
Os gêmeos trocaram um olhar, confirmando, apenas com um olhar direto no olho do outro, o que haviam acabado de fazer.
— Pera, vocês estão falando sério que memorizaram isso? — perguntou, incrédula.
Nina e Nino se olharam de novo, tendo pensamentos muito contrários um do outro.
"Ela é humana, esqueceu? Não é como nós..." pensou Nina, esperando que Nino entendesse seu olhar.
"Ela é bem burra, né?" pensou Nino, esperando que Nina escutasse sua ofensa e, pelo menos, risse internamente com ele.
Nina revirou os olhos, notando que o mesmo queria rir de algo, mas retornou sua atenção para Nathaly.
— Esquece isso… Mas… Precisamos saber o mapa apenas de São Paulo?
— Se quiserem estudar o resto do Brasil, po...
Nem esperaram que acabasse de falar. Em menos de um minuto, com Nino passando de estado em estado, os dois tinham mapeado cada rua e viela do país.
Nathaly, percebendo a movimentação dos olhares deles para o celular, ficou todo o tempo que demorou em silêncio, apenas olhando, até que Nino acabou e estendeu o celular para ela.
— Obrigado.
A menina piscou algumas vezes, atordoada.
— ...Já desbloquearam o celular de vocês? — perguntou, arrastando as palavras.
— Não.
— Não... A tela tá preta.
Escutando a explicação de Nina, a jovem balançou a cabeça lentamente em concordância, dizendo:
— Tem um botão do lado. Segura ele.
Os dois pegaram os celulares e seguiram a instrução. Logo, as telas se iluminaram com a inicialização.
— Funcionou!
— Funcionou.
— …Eu sei — murmurou, cruzando os braços. Seu olhar caiu sobre as identidades dos gêmeos, que haviam voltado para a bancada. — Precisam do CPF da identidade, esqueceram?
Sem nem olharem para ela, simplesmente desbloquearam os celulares e começaram a explorar os aparelhos por conta própria.
— …
— Pronto, e agora?
— Pronto, e agora?
A jovem os encarou, desconfiada... Começou a achar fofo as reações sincronizadas, mas a informação de que conseguiram memorizar um mapa inteiro a deixou estranha, iniciando uma fantasia de detetive.
— …Já leram e memorizaram tudo que tá aí?
Nino virou lentamente para Nina, que exibia um olhar arregalado e surpreso, espelho do dele.
"Falar não, né?!"
"Fala não, fala NÃO!" — quase gritou mentalmente para o irmão.
Se recompuseram num instante e voltaram o olhar para a menina, tentando fingir naturalidade.
— …Nããoo...
— …Nããoo...
A menina ergueu uma sobrancelha.
— Quanto de dinheiro vocês têm no banco?
— 7.500 reais.
— 7.500 reais.
Responderam no automático, sem nem perceber o que haviam feito.
Nathaly piscou.
"Teoricamente, nem era pra saberem o que é banc…" Foi então que duas fichas caíram. Uma que sabiam do banco, e a segunda... — Espera… 7 mil reais?! Cada um?!
Dessa vez, os gêmeos nem se olharam antes de responder, apenas deram um meio sorriso sem graça.
— É!
— É!
— Como?! Era pra ser só mil!
Os gêmeos trocaram um olhar rápido, com Nina se comunicando, usando uma diminuição quase imperceptível de sua pupila.
"Eu respondo!"
Nino entendeu o sutil movimento de sua irmã e permaneceu em silêncio, deixando que Nina tomasse a frente.
A Primordial respirou fundo e moveu a cabeça na direção de Nathaly.
— Na transferência, dizia ser por uma Ruína que matamos alguns anos atrás. Sete mil e quinhentos reais pelo extermínio.
— Vocês o quê?! — A voz de Nathaly saiu esganiçada, incrédula.
Os gêmeos começaram a se virar automaticamente para se olharem, mas foram cortados.
— Por que vocês ficam se olhando toda hora?!
Pararam no ato, voltando o olhar para ela, mas sem saber o que dizer... suas cabeças se moveram sozinhas, começaram a se virar uma para a outra novamente.
Nathaly semicerrou os olhos, entediada.
"Falamos o que agora?!"
"OLHA A MERDA QUE VOCÊ FOI FALAR, IMBECIL!" Nino berrava em sua mente, fuzilando Nina com o olhar.
A Primordial engoliu em seco, percebendo a merda que tinha acabado de fazer.
O silêncio se instalou. Nathaly abaixou o rosto, os ombros levemente encolhidos.
— ...Vocês disseram que somos amigos. Por que não querem me falar sobre isso?
Os gêmeos a encararam, vendo-a cabisbaixa.
"Merda, não chora, não chora!"
Nina sentiu uma dor estranha no peito, uma mistura de desespero e culpa. Não suportaria ver aquela menina chorar. Tinha medo de fazê-la chorar. Seu corpo ficou tenso, e sua mente gritava que era hora de contar tudo.
Se sentiu sem saída...
Não importava mais.
Nada importava mais...
Só queria ser honesta.
Só queria contar a verdade para ela e confiar que seria aceita...
Mas quando seus lábios se afastaram, e ia vocalizar o que eram, assumir que eram demônios, filhos de um ser dado como uma anomalia Calamidade... ROOOMNMN! Nino, mesmo com muita fome, forçou um ronco de barriga estrondoso, completamente falso, para fugir daquele momento.
Nina paralisou. Nathaly também.
"Preciso pensar em algo. Humanos bebês são inúteis, como ela acreditaria que matamos aquilo sendo tão jovens?" Usou sua inteligência e sobriedade para pensar em algo rápido. Coisa que Nina, embriagada pela paixão, que gritava mais que a razão em sua mente, não conseguiria naquele momento.
No tempo em que sua mente processava e pensava em uma versão da história para contar como mataram a anomalia, Nino notou as duas o observando, Nathaly assustada pelo barulho e Nina...
"Obrigada... Quase fiz merda... Quase..."
O Primordial percebeu o olhar de alívio da irmã, mas não deu sinal algum, apenas desviou o olhar, para não xingá-la pela burrice que quase cometeu.
— Foi mal… — Colocou a mão direita na barriga, Grhrhmnh... forçando outros sons intestinais fortes. — Tô morto de fome. Posso contar essa história enquanto comemos, que tal? — propôs com um sorriso, sua voz serena.
— Pode se...
Enquanto o respondia, vendo o lindo sorriso meigo no rosto do Primordial, Nathaly notou, bem no fundo, passando por uma mínima fresta que a janela da sala tinha na longa cortina branca, um vulto de sobretudo prateado.
Tudo foi muito rápido, assim que seus olhos notaram aquela presença os observando, Alissa já havia desaparecido do topo do prédio, surgindo em outro, sem visão direta dos três desta vez.
"Seu olhar está mais aguçado, filha..." pensou Alissa, enquanto seu sobretudo balançava ao vento.
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