Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 41: Tá com frio?

Com o som da porta se fechando, os rostinhos alegres se dissiparam completamente. Assumindo uma feição apática e estressada, Nino voltou-se para Nina, os olhos queimando em chamas escuras, alcançando-lhe um sussurro feroz:

— Precisava me bater?!

Nina, ainda encarando a porta, com um olhar entediado, respondeu sem paciência:

— Cala a boca! Culpa sua ele ter ficado desconfiado!

Nino estreitou os olhos.

— Fala mais baixo, imbecil. Quer que escutem? — Cruzou os braços. — E outra, minha culpa? Acha que seu teatrinho deu em alguma coisa?

Nina revirou os olhos.

— Era só ignorá-lo e fechar a porta. Você que deu ideia e puxou conversa.

— E íamos fazer o quê? Fechar a porta na cara dele e esperar a visita do diretor?

— ...

Nina crispou os lábios, sem resposta.

Nino sorriu de canto, satisfeito com a vitória de melhores argumentos.

Virou-se, caminhando até o sofá. Antes de se jogar nele, soltou, com um rosto de deboche para trás, uma provocação:

— Burra.

Mas, para cada ação, há uma reação.

— Teu cu! — Nina bufou, esticando os braços para baixo, indignada.

Então, um som familiar ressoou pelo ambiente.

Toc, toc, toc...

Nino parou no meio da caminhada.

Virou lentamente o rosto para Nina, que retribuiu o olhar com a mesma irritação ao escutar as batidas.

— Eu disse... Quer sumir com ele? — murmurou.

Nina suspirou, cruzando os braços.

— Sumir como? Você não acha que ele tem que entregar alguma coisa pra alguém? Talvez não seja tão substituível assim.

Nino abaixou o rosto, pensativo.

Até que uma ideia lhe veio.

— Vamos matar ele.

Nina ergueu uma sobrancelha.

— Só precisamos controlar o corpo, levar pra algum lugar bem afastado, cheio de mato, sei lá. Depois, destruímos sem deixar rastros.

A menina manteve o olhar fixo nele, esperando o resto da ideia.

— Depois a gente assume a forma dele com nosso sangue. Amanhã, entregamos o que quer que seja essa porcaria com nosso nome que precisa entregar, pedimos demissão e pronto. Sumimos.

Nina hesitou.

— E como vamos levar o corpo? Lugar com mato? Nem sabemos onde estamos.

Nino sorriu de leve, animado.

— O cara de ontem tinha aquele negócio que anda sozinho. Esse deve ter também. Pegamos aquilo, saímos da cidade e o resto é resto.

Toc, toc, toc...

Ambos olharam para a porta.

Depois, lentamente, voltaram os olhos um para o outro.

— Espera ele entrar, ok? Sujar o corredor de sangue daria muito problema — sussurrou Nina, fria, sem piscar.

— Podemos só beber. Mas, sei lá, pode ter alguém no corredor. Melhor aqui dentro.

— Precisa ser um único golpe. Mortal, limpo e silencioso.

— ...Se comermos o corpo, não precisaremos nos dar ao trabalho de sair da cidade.

Nina semicerrou os olhos, entediada.

— Cê tá com fome?

— Muita — respondeu Nino, fechando os olhos e pousando a mão na barriga, levando o planejamento de assassinato como brincadeira... ou, como seu pai, um almoço.

— Harff... — Nina suspirou pesadamente, fechando os olhos por um momento antes de retomá-los à seriedade que a conversa exigia. — O plano não pode falhar. E, Nino... se conseguirmos sair dessa sem problemas, quero mais uma promessa sua.

O menino arqueou uma sobrancelha.

— O quê?

— Vamos mudar nosso comportamento.

— Quê?

— Não precisa ser aquele teatrinho infantil de hoje, mas... pelo menos tentar ser mais "humanos". Vamos observar, entender como eles agem, como se comunicam. Se conseguirmos, talvez possamos evitar chamar atenção. Só de não deixar o nojo transparecer, já é um avanço... — Fez uma pausa e acrescentou: — Pode ter humanos legais... Você gosta da Nathaly?

— Não.

Nina piscou, um semblante incrédulo.

— Não?

Nino não entendeu a reação e respondeu com sinceridade:

— Não.

— ...

— ...

Se encararam por quatro segundos, os olhares carregados de dúvida.

Toc, toc, toc...

O som na porta os fez desviar o olhar momentaneamente. Mas logo voltaram a se encarar, retomando a conversa baixa.

— Sente vontade de matar ela?

— Não.

— Ué...? Então você gosta dela.

— O que é gostar?

Nina inclinou levemente a cabeça para o lado, a curiosidade brilhando em seus olhos.

"O que é gostar?" Nunca havia parado para pensar nisso, e muito menos sabia a resposta.

O Primordial, vendo sua reação, imitou o gesto, inclinando-se na direção oposta, ficando rosto a rosto com ela. Não sabia o motivo da pergunta, mas agora também ficou curioso.

— ...Tem mais algum humano que você sente isso? — Nina perguntou, os olhos bem abertos, o brilho roxo disputando intensidade com o do irmão.

— O gostar?

— Não. A falta de vontade de matar.

— A professora. — A resposta foi imediata, sem nem precisar ser pensada.

— Alissa?

— ...Sim.

— Só ela e a Nathaly?

— Sim.

"Alissa...? Quê?" Mesmo cheia de dúvidas, preferiu ignorar por enquanto, buscando a conclusão para o seu pedido, para que não tivessem mais problemas futuros relacionados a comportamento estranho.

— Eeh... Meio que isso. — Endireitou a postura, e Nino fez o mesmo. — Acha que consegue tratar todo mundo como se fossem... sei lá, um humano que você não sente sede de matar?

— Pra quê?

— ...Você é burro?

Nino estreitou os olhos, irritado.

— Entendi agora.

— Entendeu, gênio? Diz então o que entendeu.

— Não quer que ninguém venha até aqui para fingirmos ser crianças.

"Sei nem o que dizer..." Nina travou o rosto, apenas o encarando com um julgamento silencioso. — Não quero mais problemas. Um erro e seremos caçados. Só quero que você pare de chamar atenção com comportamentos estranhos. Só... sei lá... — Desviou o olhar. — Também fui grosseira com o cara. Só precisamos ser mais... tranquilos com eles.

— Só isso que você quer?

— ...Sim.

— Vamos acabar com isso então. Abre a porta. Finge que algo caiu no chão quando ele entrar, e eu o mato instantaneamente, por trás, aproveitando a distração.

— Qual plano vamos seguir? Comer ou sumir?

— Comer é mais rápido, mais fácil, e também o faz sumir.

— Ok.

Nina se virou, caminhando até a porta, cada passo mais pesado.

"Não podem descobrir o que somos..."

Toc, toc, ...

O som das batidas na porta aumentava o peso em seus ombros. Nina abriu, seu semblante levemente desinteressado. Mas, ao ver quem estava ali, o olhar frio que tomava conta dela foi substituído por algo mais vivo, algo inesperado.

Nathaly, com o punho fechado e levantado, já prestes a bater mais uma vez, ficou parada, com uma expressão surpresa e levemente envergonhada. Nina permaneceu imóvel, os olhos levemente abaixados para o nível da garota.

A visitante, quebrando o silêncio, falou hesitante:

— Oi...

Thum, Thum, Thum.

Os batimentos cardíacos de Nina se intensificaram, enquanto Nino...

"Ah, é só ela..." Sem hesitar, se aproximou, afastando-se do plano.

— E-eu...

O Primordial chegou, ficando ao lado da irmã e interrompendo Nathaly com uma pergunta:

— Tá com frio?

A pergunta cortou o nervosismo de Nathaly, dissipando seu receio de ser inconveniente.

— O quê?

— Sua roupa... toda coberta com esse tecido grosso. Tá com frio?

Nathaly olhou para baixo, vendo o conjunto de moletom cinza que usava para se esconder do mundo.

— N-não... Não é frio, não. — Ergueu o olhar, olhando no rosto dele, buscando validação. — Estou feia? É muito comprida? Você acha?

— Hum? Você não é feia. — Nathaly recebeu aquelas palavras como um forte elogio em seu peito, fazendo com que abrisse um pouco os olhos em surpresa e admiração. — Mas, usando isso, parece que quer sumir. Mude o disco, a você de ontem morreu. Você não tá mais sozinha, tem eu e esse trem fei aqui — disse com deboche, resultando em um olhar antipático de Nina para com seu perfil.

Nathaly ficou parada, sem saber como reagir.

— Não tente se esconder, somos amigos. Esqueceu o que minha irmã disse?

A jovem não respondeu com palavras, apenas negou com a cabeça.

— Se não esqueceu, por que ficou se escondendo na escada ontem, observando nós dois na porta aqui do apartamento?

Nathaly corou profundamente, sua vergonha evidente, e abaixou o rosto.

Nino, então, erguendo a mão, tocou suavemente o queixo da menina, forçando-a a levantar o rosto para olhar em seus olhos.

— A senha do apartamento é: zero, seis, zero, sete. Pode vir quando quiser. Não precisa bater, só avise e chame a gente depois de entrar, caso não estejamos na sala. Ok?

Com o toque suave dos dedos em seu queixo, a menina confirmou com um leve aceno de cabeça, seu rosto ainda corado, completamente envergonhado.

Nina, observando tudo em silêncio, começou a perceber o que estava acontecendo...

"Ela gosta dele... que merda..."

O olhar de Nina se moveu de Nino para Nathaly, com uma pontada forte no peito. Mas, ao mesmo tempo, uma certeza surgiu em sua mente:

"Ele não a vê como eu vejo... Não sente o que eu sinto... Não parece nem perceber como ela o olha... Não vou me misturar tão cedo. Não quero que ele descubra isso... nem quero me ferir ao ver que ele também pode estar querendo... ela."

A dor em seu peito era forte, mas a certeza de que Nino não se importava com aquilo tinha o mesmo peso. As duas emoções permaneciam equilibradas, mantendo-a em uma corda bamba de incertezas e certezas.

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